Lesma


Observo uma lesma. Paro tudo e contemplo o espetáculo daquele pedacinho de carne se mover. Verdadeiro milagre. A cidade segue a sua pressa diária. É preciso deixar os filhos na escola. É preciso achar uma vaga para estacionar o carro, tomara que o carro caiba, tomara que não se forme uma fila, esperando estacionar, pressão meu coração não aguenta, faço besteira. Alguém pensará, parece uma lesma. A cidade segue sua pressa e eu fico olhando a lesma subir a parede. Pobrezinha tem um corte nas costas de onde sai um filete seivoso. Onde teria se cortado. Vai morrer a bichinha. Vai morrer. Jamais conseguirá subir essa parede. Homens fortes construíram essa parede. Fortes e apressados. Patrão chegasse e eles não tivessem levantado, aí aí. Entre as nuvens o sol aparece, clareia o rastro que a lesma vai deixando. Parece gliter, parece gozinho. Já viu, ela se esfregando nessa parede e o jorrinho de gozo pelo caminho.

© Helder Herik
Maira Gall