domingo, 31 de março de 2019

O pequeno Batman



O Batman estava atrasado em mais de uma hora.
A Diretora Berenice conversava com algumas mães. Franzia a testa e gesticulava desordenadamente. Se eu usasse o ‘modo acelerado’, aquilo daria a impressão de um kata — a luta imaginária do senhor Miyagi.
Uma algazarra tomava conta do pátio e nada do que a diretora dizia se podia ouvir. Tive que ativar o ‘modo leitura labial’. Aí fiquei tranquilo. A diretora havia telefonado e a Casa Festas e Recreios havia liberado o Batman e o Robin. Já estavam no meio do caminho. Logo chegariam em nossa escola. Compensariam o atraso ou a Casa Festas e Recreios devolveria o dinheiro.
O atraso eu compreendia, era coisa do Coringa ou do Pinguim. Talvez fosse coisa dos dois. A moda agora era a união entre vilões. Falava-se até na criação de uma ‘Liga da Injustiça’. Uma afronta total. O Coringa e o Pinguim, juntos, igual o Batman e o Robin. Se bem que o Robin... O Robin era só um estagiário e precisava-se muita paciência com aquela lerdisse e aquele seu, “Santo Deus Batman, macacos me mordam!” O Robin precisaria comer muito feijão ainda.
“Ele está chegando!” gritei no ouvido de um colega. “A diretora telefonou pra ele.”
“Só vem o Batman?” ele gritou de volta.
“Os dois estão vindo. O Batman e o outro lá.”
“Como você sabe?”
“O modo leitura labial. Ativei!”
Ele iria gritar algo de volta. Desistiu e fez aquela cara franzida de, “de novo essa estória de ter super poderes.” Não me importava. Os mutantes nunca seriam entendidos mesmo.  
No pátio a meninada corria e gritava pra valer, pareciam indiferentes ao atraso. Vestiam uma capa de tnt amarrada no pescoço e um morcego de cartolina pregado no peito com fita crepe. Tudo muito fuleirinho, mas funcionava com a meninada. Tirei minha capa e o morcego do peito. Os super-heróis davam muita importância para as crianças diferentonas e tal. Identificavam suas espécies e mantinham laços. Convidariam para estágios, ensinariam o beabá dos super-heróis. O Robin fazia um estágio eterno. O Robin só atrapalhava, “Santo Deus Batman, macacos me mordam.” Uma lerdisse.
Ativei o modo... ainda não sabia que modo era aquele, mas ele me dizia para correr até o portão. Era o Batman e o outro. Enfim haviam chegado. Um mundarei de crianças correram ao portão e fiquei espremido nas grades. Aliviei passando uma perna fina entre aqueles ferros, mas o meu rosto na certa ficaria com o carimbo deles.
Enfim eu veria um super-herói, mas pera lá... Era o Robin quem estava dirigindo o carro do Batman. Estranho! O Batman não permitiria um estagiário com aquela ousadia. “É um fusca!”, alguém gritou. “Um fusca velho!”
Só se o carro do Batman estivesse no conserto. O Alfred — o mordomo faz tudo — estaria trabalhando um novo dispositivo. Um lança mísseis ou, já não era sem tempo, turbinas para o batmóvel cortar os ares.
“É um fusca!” gritavam. “Um fusca velho. Que Batman de merda!”
O Robin se enrolava para estacionar o fusca. Subia o meio-fio, descia, subia de novo. Aquilo demorava. Era o Robin sendo ‘o Robin’.
“Como é? Como é isso?” era a voz da Diretora, abrindo caminho.
A criançada ficou em silêncio. “Como é isso?” era um sinal de raiva que todos temiam.
“Que lindo!” gritou a Diretora. “Muito bonito!”
O Robin ficou no carro. Teve medo da Diretora. O Batman não. O Batman não tinha medo. Desceu do carro, escorou-se na porta e ficou encarando a Diretora. “Ele tem barriga!” gritou alguém. Poderia ser uma roupa apertada. Poderia sim.
“Ele é bem pequeno.”
“Bem pequeno e bem barrigudo.”
E a gritaria começou. A Diretora trancou o portão por fora, caminhou até o Batman e começou a gesticular. Ativei o modo leitura labial:
“... Sumam daqui seus desgraçados...”
“... a gente nem...”
“... um monte de mães enfurecidas querendo esganar vocês dois...”
“... a gente, a gente...”
“... uma vergonha para as crianças...”
“... a g  te...
Desativei o mudo leitura labial.


domingo, 10 de março de 2019

O caso da multiplicação



Nossa galinha havia se multiplicado de um dia para o outro. Agora existia ela — a Gertrudes, nossa galinha desde que era uma pintinha de bico curvo — e mais duas dela comendo milho e ciscando monturos no quintal. Ela e mais duas dela. Três galinhas. Três galinhas que eram a mesma galinha de bico curvo. Caso se tratasse de gente humana, diria-se que eram trigêmeas. Três Gertrudes de bicos curvos. Três que eram a mesma. Bem bem bem, até aí tudo caminhava dentro do aceitável. Galinhas são criaturas que pulam para outros quintais, vivem de ciscar e bicar o chão e podia, de uma hora para a outra, existirem três onde só havia uma.

Assim pensávamos.

A teoria era a de que uma galinha havia escutado o cacarejar de outra galinha e saltado pro nosso quintal, onde havia minhocas na terra fofa e outras coisas que só se saberia ciscando. Daí outra galinha fez o mesmíssimo ato e agora tínhamos três galinhas de bicos curvos.

Pensávamos.

Até que no dia seguinte o Braddock havia se multiplicado. Agora existia ele e mais dois dele pulando na gente e cagando roletes grossos no quintal. Aquilo juntava moscas, mosquitos e algum outro bicho que beliscava na pele.

Ponderamos que Braddock, nosso perdigueiro caramelo, só existisse umzinho nesse mundo. Braddock era um bichinho nosso desde que chegou apartado de sua mãe, sem leite e sem paciência de aturar aqueles pulos e aquelas unhas de abrir enlatados. Então checamos a coisa mais peculiar em Braddock: o rabo meio curvo, meio quebrado, meio morto. Braddock era o único cachorro do mundo que tendo rabo, não o abanava. Era apenas um pêndulo.

Então fomos checar se também os outros cachorros tinha o rabo pendular. E tinham. E fomos checar se tinham a orelha rasgada no arame farpado e aqueles olhos embranquiçando de catarata e ainda a pelugem encaramelada e rala. E tinham.

Então agora eram três Braddocks iguais. Se fossem gente humana, chamaríamos de trigêmeos. Um dos Braddocks era o nosso desde que fora apartado da mãe e mais dois Broddocks que não eram nossos, mas que eram o mesmo Braddock da gente em cara e focinho. Eles misturados e muito espertos e muito nos amando e atendendo todos eles pelo nome de Braddock. De modo que nessa mistura, a gente já nem sabia distinguir quem era o nosso Braddock. E todos eles passaram a se chamar Braddock e estava tudo resolvido.

Pensavamos.

Até que no outro dia havia outro de mim entre a gente. Outro de mim ou outro eu. E agora, ao sair pro quintal, se podia ver três galinhas Gertrudes e três perdigueiros Braddocks. E agora eu tinha um gêmeo e fui conferir nele a nossa semelhança: olhei os pés cavados de Charcot-Marie-Tooth. O infeliz teria uma existência torcendo os tornozelos, imobilizando-os com faixas por longos períodos. Uma maldição que teríamos herdado. Olhei um risco de cicatriz abaixo do olho esquerdo e, como estávamos ao sol, percebi que ele também fechava muito os olhos e lacrimejava e nem pude me assustar com a semelhança desse outro eu porque havia aparecido outro eu entre nós.

De modo que agora eram três de mim no mesmo espaço e fazendo os mesmos gestos, só que em tempos diferentes e acho que até pensávamos igual, cada um se estranhando, se aceitando e se achando bonito até. E agora se podia dizer com todas as letras que éramos trigêmeos.

Pensávamos.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

A velhinha do Parque


Há uma senhorinha que anda no Parque toda manhã. Anda meio de lado, meio pendendo, meio caindo. Passo por ela correndo. Sou um jato. Ela uma lesminha, meio de lado, pendendo, caindo.

Sinto o cheiro de sua velhice. Leite de Rosas. Passo por ela e levo aquele cheiro por alguns segundos. Minha avó também usava Leite de Rosas. Arrancava um capucho de algodão, rodava-o na mão até ficar uma bola e derramava o balsamo em cima. Depois esfregava o rosto até os poros abrirem e expelirem os cravos. Ainda hoje aquele balsamo tem a mesma embalagem. O mesmo cheiro. Leite de Rosas e Vick Vaporub, cheiros inconfundível de infância e velhice.

A senhorinha que anda no Parque é muito engelhada, muito magrinha, muito caída pra um lado. Batizei-a de Dona Graveta. Gravetinha. Entre os eucaliptos fortes do Parque, uma Graveta. Gravetinha.

Corro os meus quilômetros. Fone no ouvido, System of a Down, “You, what do you own the world? How do you own disorder, disorder.” Passo por dona Graveta um pouco afastado, zump. Imagino que o vento a possa derrubar. Passo por ela de novo e de novo. Zump, zump.

Termino minha corrida extenuado, suado, combalido. Ponho as mãos na cintura e puxo o ar. A sensação de estar vivo, o corpo energizado e o dia só começando. A vida é boa, sim senhor!

Lá vem Dona Graveta, meio de lado, pendendo, caindo. Tiro os fones e a admiro. Toc toc toc. Seu tênis é duro. Meio sapato, meio tênis. Um ortopedista condenaria aquele calçado ao lixo.

— Opa! — tento um contato com ela. — Opa! Dona Grav...

Ela faz um gesto com a mão. Sorri com uma dentadura branquíssima. dentes alinhados e fortes. Dentes que mastigariam uma parede, partiriam adamantium e cream cracker. O contrário do seu corpo, meio de lado, pendente, caído. Toc toc toc ... Lá vai ela para mais um quilometro. Usa uma saia muito balançada e um casaco de abotoar. No bolso do casaco leva uma garrafinha d’água. Reparo que a garrafinha fica justamente do outro lado, o lado que não é pendente, caído. Talvez ela tente equilibrar-se. Talvez seja apenas coisa da minha cabeça. E lá vai Dona Graveta! Um vento forte encheria aquela saia de ar e a levaria pelos ares.

Quantos anos terá Dona Graveta? Doem-lhe os ossos? Tem filho que lhe cuide? Reclama da aposentadoria? É viúva?

No dia seguinte termino minha corrida. Extenuado, suado, combalido. Ponho as mãos na cintura e puxo o ar. Procuro Dona Graveta.

Toc toc toc ...

— Opa Dona!
— Oi, esse menino!

Toc toc toc ...

Um vento forte encheria aquela saia de ar e a levaria pelos ares. 

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Notícia no meio da noite



Minha avó travava os dentes quando sentia algum medo ou quando um perigo estava pra chegar. Se alguém batesse palmas tarde da noite ela ligava as antenas e começava uma oração entre os dentes serrados. A oração parecia dita em outro idioma e às vezes parecia xingamento para um filho de Deus que havia acertado bater palmas tão tarde da noite. Era um misto de oração pra afastar notícia de alguma morte na família e palavrões pra quem ousava tirar o sono da casa. E era possível ouvir o “Santa Maria, mãe de Deus” e em seguida o “Diabo é quem bate na casa de um cristão essa hora, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém”.

O problema todo era voltar a dormir. Por algum motivo ela dizia que, uma vez acordada no meio da noite, a pessoa jamais deveria consultar as horas. Quem acordasse e soubesses das horas ficaria o resto do tempo sem conseguir dormir. Minha avó sempre olhava as horas. Não aguentava de ansiedade ou seja lá o que fosse. Imagino que pensasse ser mesmo hora acordar e ir varrer o quintal, aguar as plantas, partir as frutas pros cágados e fazer um café vigoroso que logo incensaria a casa.

O problema era voltar a dormir no meio da noite.

Já o meu avô dormia tranquilo. Provavelmente sonhava que vencia no jogo de dominó. Estava aposentado e passava as tarde jogando com outros velhinhos de mãos de gravetos e tosses incontroláveis. Aquelas gargantas um dia iriam de estourar, ainda mais porque todos eles fumavam e meu avô fumava mais que todos. Meu avô poderia facilmente ser o campeão nacional de fumar cigarros. Na estante de nossa casa havia um arsenal de carteiras de cigarros e eu pegava aquelas embalagens, dobrava-as e fazia a cédula de um dinheiro que me dava muito prestigio entre os meninos da rua. Uma nuvem de fumaça encobria meu avô e os outros velhinhos e era preciso abrir as portas e janelas pra fumaça escapar. De fora seria possível alguém pensar que a casa estivesse pegando fogo.

Minha avó embolava na cama, remexia, levantava, tomava água e voltava a deitar e remexer na cama. Buscava recuperar um sono que fora atropelado num bater de palmas que viera de algum purgatório lhe atanazar. Meu avô dormia fundo, indiferente a penúria que minha avó passava, e era bem verdade que a velha lhe dava umas cotoveladas. Um desejo que ele acordasse e compartilhasse da mesma insônia. O que mais a intrigava era um fio de riso na boca de meu avô. Como se ele estivesse acordado e fingisse dormir. O velho era bem esperto nessas horas.

“Corra dormir, menino”, dizia minha avó, “isso é lá hora de acordar, só pra gente besta mesmo, corra dormir”. E eu voltava pra cama, sonolento, remelando e tentando entender o acontecido. Um bater de palmas havia acordado a casa, uma conversa rápida de minha avó com algum fantasma da noite. Pedaços de uma fala indecifrável. Se eu olhasse as horas perderia o sono, viraria um zumbi igual minha avó que, não conseguindo dormir, acendia uma vela no oratório, ajoelhava e fazia uma reza baixinha, soprada, “assim na terra como no céu, o pão nosso de cada dia nos daí hoje...” e a reza fazia a chama tremelicar e a minha avó varava a madrugada conversando com os santos.

De manhãzinha estava ela com os olhos inchados. Falava com o meu avô de alguma coisa que eu não poderia saber. Talvez por eu ser curioso e dar com a língua nos dentes, talvez porque eles tinham segredos de gente adulta e eu jamais entenderia. Mas uma coisa ou outra eu fui pescando. Tinha algo com uma irmã de minha avó que havia entrado no hospital com a boca torta e um pedaço do corpo parado. Mas tarde um parente chegou em nossa casa dizendo que a irmã de minha avó teria descansando daquela luta. Minha avó correu no oratório, acenderia velas, mas havia dado uma tontura e as mãos tremiam muito.

domingo, 27 de janeiro de 2019

O filho perdido



Dona Aparecida criava nove filhos e havia perdido um no meio do mundo. Tudo por conta de uma mudança que fizera as pressas. Fazia um mês que as chuvas encharcavam o solo e a sua casinha começou a estalar: primeiro as paredes racharam desenhando aqueles mapas, depois o chão começou a levantar, desenterrando sapos e cobras. Foi a conta. Diabo que ficasse mais algum dia naquele barraco. Dona Aparecida pegou os meninos e as tralhas todas, pôs em cima de um caminhão e fincou pé. Morou alguns anos no Magano, na Cohab e por último pousou Boa Vista. Era nossa vizinha, mãe de Abimael e Gracinha, os dois únicos filhos com quem eu tinha contato. Os outros filhos ou eram mais velhos ou eram mais novos. Os mais velhos queriam bater na gente, uma raiva da vida que eles tinham ou coisa assim. Os mais novos viviam remelando e fediam pra valer. De modo que Abimael e Gracinha eram os únicos com quem se podiam viver dentro de uma normalidade. Se bem que Gracinha até fedia um pouco, mas a gente achava ela bem bonita e aturávamos.

Eu sentia uma pena danada de Dona Aparecida. Criava sozinha os nove filhos e para isso topava qualquer serviço que aparecesse. Até serviço de homem ela fazia. Dona Aparecida tinha a força de um boi ou coisa assim. Carregava lavagens para os porcos de Dona Menininha, lavava roupa e depois passava tudo com ferro de brasa — ela soprando o ferro pro tição não apagar —, capinava os matos da Igreja Batista do Planalto, lavava a kombi do relojueiro Cotó, carregava água em tonéis, matava galinha de caipira, barrões barbudos e tudo o que mais aparecesse. Aquela mulher valia por um exército. “O importante é trabalhar e ganhar dinheiro”, ela dizia. Mas a mulher ia se acabando dia após dia. Abimael dizia que a noite era preciso tapar os ouvidos de tantos gemidos que ela dava. Ele e os irmãos até queriam ajudar no trabalho, mas eles quebravam muita coisa alheia ou atrasavam os afazeres e tempo era dinheiro. O pesado mesmo ficava com Dona Aparecida. E cada dia que passava a gente notava que ela perdia um pedaço pelo caminho e chegaria o dia que ela sumiria.

Um dia Dona Aparecida bateu muito em Gracinha e foi preciso os vizinhos acudirem para não acontecer algo pior. Minha amiga ficou uma semana parecendo uma boneca pisoteada com os olhos estufados e roxos. Acho que ela não enxergava ninguém, mas fazia questão de aparecer na porta pra que visem o seu estado e tivessem pena. E tudo porque ela havia dado um passeio de domingo e ficou sem ninguém saber dela. Os irmãos procurando por toda parte e Dona Aparecida a ponto de perder o juízo, dizendo matar quem fizesse maldade ao seu anjinho. No dia seguinte um caminhão parava na porta de Dona Aparecida. Um homem havia encontrado Gracinha, mas ela estava mais ou menos sem roupa e toda desgrenhada com umas mordidas no pescoço. Parecia ter sido atacada por um lobisomem. E por isso mesmo Dona Aparecida bateu nela, pra que tivesse medo de sair de novo e ser mordida no pescoço. Mordida ou chupada, coisa assim.

Abimael também já havia levados uns cacetes da mãe. Tudo por ter achado um dinheiro que não era dele e também não era de ninguém ou coisa assim. Mas um homem apareceu com a polícia e disse que o dinheiro era dele e a polícia quis levar Abimael, acho que pra mostrar onde era que ele tinha achado todo aquele dinheiro. Mas Dona Aparecida disse que o filho dela nunca mais iria achar o dinheiro suado dos outros e o policial deu um tapa na cara de Abimael que fez o chão estremecer e o dono do dinheiro pôs o dedo na cara de Dona Aparecida e depois cuspiu na cara de Abimael.

Eu já ia esquecendo de falar do filho sumido de Dona Aparecida. Era um menino ainda de colo e que naquela mudança as pressas parecia ter caído do caminhão e embolado ninguém sabe para onde. Dona Aparecida achava que o paradeiro de embolar ninguém sabe pra onde, era melhor que ser passado por cima pelas rodas do caminhão. Mas dizia também que ouviu um leve estalo fofo e uma sacolejada do caminhão bem na hora da mudança. E aquilo poderia ser só uma impressão dela de que fosse o seu menino. E ela nunca vivia em paz ou vivia com uma pulga atrás da orelha ou coisa assim.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A bruxa das injeções



Uma moça entrou sorrindo na sala, “essa garota linda vai tomar vacina hoje?”. Era a enfermeira. Jovem, bonita e alegre. Alguma coisa estava errada. Onde estaria a bruxa velha com os cabelos desgrenhados e verruga na ponta do nariz? Onde estaria a cara de enfado e a roupa respingada de sangue? Poderia ser uma estagiária e aquela beleza toda estaria disfarçando um ser demoníaco. Lobo em pele de cordeiro. Seria inexperiente e estaria na sua primeira semana de enfiar agulhas pontudas em criancinhas inocentes. Teria acordado naquele dia com um único pensamento: furar todas as criancinhas do mundo. Uma, duas, três vezes. E a minha filhinha de dois meses seria a sua bonequinha de espetar agulhas. Um vodu de carne e osso.

A enfermeira ficou de costas para mim e trocou umas duas palavras com a minha esposa. Que teria dito? Depois alisou os cabelos de minha filha, “que amorzinho que ela é”. Minha filha parece ter um geniozinho difícil, já se percebe a rebeldia em esticar o corpo, estapear a mamadeira e nos meter beliscões, mas das palavras da enfermeira em diante, ela ficou um “amorzinho”. Que diabo estava acontecendo?

A enfermeira virou-se pra mim. Seria agora que ela me transformaria em sapo ou lesma. “O senhor pode entregar o cartão de vacina?” — Antigamente o cartão de vacina era um pedacinho de papel cheio de carimbos e datas. Trazia ainda uma foto grampeada que logo era salpicada pela ferrugem. Exibir o maior número de carimbos fazia-nos levantas o queixo e estofar o peito. Valentões, sim senhor! — A enfermeira ficou rabiscando a cartão, virando páginas e fui ao encontro da esposa que me chamava com um gesto de cabeça. “Pode deixar que eu seguro ela, precisa você segurar não”. O que era isso agora, teria a enfermeira enfeitiçado minha esposa? Fazia poucos segundos que ela estava apavorada e agora arrumara a coragem de enfrentar o fogo cruzado. “Não, eu seguro, pode deixar”, disse eu, abraçando minha condição de pai. “Pode deixar que eu seguro”, decretou a esposa. Estava sob feitiço, pobre criatura. Nossa filha a beira do abate e ela entregando-a de bandeja.

“Vamos então a primeira dose, essa é molezinha”, disse a bruxa trazendo a bisnaga para a boca de minha filhinha. “Acorda, neném, acorda”, continuou a bruxa, docemente. “Hoje ela tá muito preguiçosa”, disse a esposa. “Eita, que olhão bonito”, disse a bruxa. “Acordou mamãe!?” disse a esposa. A bruxa pegou a segunda dose, seria a primeira das três injeções. Levantou a seringa, deu petelecos e esguichou um pouco do líquido para tirar o ar. Dizem que se o ar entrar na seringa a pessoa pode aleijar e tudo. Se isso acontecesse eu a queimaria viva ali mesmo com ou sem apoio da Santa Inquisição.

 Minha esposa já havia baixado a roupinha da nossa bebê. “Deus do céu, que coxa mais gostosa”, disse a bruxa. “Dá última vez que a pesei ela tava com cinco quilos e quinhentos”, disse a esposa. Ela é bem crescida pra ter apenas dois meses”, disse a bruxa. Estavam amigas, era isso? Agora o mundo poderia acabar, mas o papo deveria ficar em dias. “Segure a perninha pra ela não se mexer”, disse a bruxa. “Tá certo!”, disse a esposa, mas agora o “Tá certo!” saiu baixo, arrastado, tremulo. Por fim a esposa estava se livrando do feitiço, tornando em si, mas já era tarde demais.

(Continua)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Injeções


O calor havia dado uma trégua e a esposa e eu resolvemos levar nossa bebê para as terríveis vacinas de dois meses. A esposa havia alertado que seriam quatro vacinas: uma bisnaga na boca, uma injeção na perna esquerda e duas injeções na perna direita. Por qual motivo a perna direita levaria duas furadas e não uma só? Estaria o Governo eliminando as pessoas canhotas, queria ele um mundo com cadeiras escolares só para as pessoas destras? Três injeções! Três furadas! Uma infinidade de buracos para qualquer ser humano, até para os mais valentões. Todos eles mentirosos.

Iriam furar a minha filha e ela só tinha dois meses. Iriam trucidar as carnes de minha menininha. Agulhas pontudas iriam mergulhar com brutalidade a pessoa mais importante de minha vida. Isso é lá coisa que um pai possa permitir? O homem sapiens chegou até a lua e até já se fala em experiências com teletransporte e transplante de cérebro, mas a minha filhinha de dois meses seria escalpelada sem piedade.   

Esperamos na sala até que a enfermeira chegasse. Minha esposa sentada com a pequena no braço, dormindo a paz de um sono inocente. “Pode segurar ela durante as injeções?”, pediu com uma voz tremula. Óbvio, se o troço era angustiante para mim, o quanto não seria para ela, que gerou e trouxe ao mundo?  “Seguro sim!”, disse eu, tentando passar segurança. Uma rocha inabalável.

Desejei que a enfermeira não chegasse nunca. Elas sempre faltam em postos de saúde. Poderia ser até que não houvesse vacinas. Elas sempre faltam em postos de saúde. E se a enfermeira fosse uma estagiaria? O governo vive nos usando de cobaias para médicos e enfermeiros carniceiros.

Uma moça entrou sorrindo na sala, “essa menina bonita vai tomar vacina hoje?”

(continua)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Um bilhão de formigas


Para cada ser humano existe cerca de um bilhão de formigas. Descobri isso por esses dias, mas estou descrente. Geralmente eu creio nas coisas e evito conflitos. Se me dissessem que a terra ficou quadrada eu acreditaria, “pois que sim, as coisas redondas são uma chatice total e sendo a terra quadrada deve ficar mais divertida”. E alguém iria contestas, “mas você não acha estranho, a terra sempre foi redonda e, do nada, passou a ficar quadrada?” Coisas da vida, diria eu, sigamos em frente. Mas essa de existir um bilhão de formigas para cada ser humano é de lascar. Como é que um sujeito calcula isso? Que cientista teria essa paciência de monge? Na certa deve existir um aparelho de contar formigas, tudo bem, a tecnologia tá aí pra isso e o Miguel Nicolelis tá fazendo paralíticos andarem e tudo — aqui para nós, o Nicolelis já fez por merecer um Nobel e se ainda não o entregaram e por achar que o nosso negócio e chutar bolas e bater pandeiro —. Mas a pergunta fica martelando: como os cientistas conseguem achar um bilhão de formigas enfileiradas, pacientes, esperando sua vez de passar pela máquina de contar bichinhos? “E essa fila que não anda, hein?” “Nem me fale, deixei de sair com umas amigas pra catar os farelos daquele festona de formatura, se brincar os gafanhotos já devem ter comido tudo.”   


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Gostar de canários



Não tenho forças para gostar de canários e tudo porque gostar me faria sofrer. Sim, a gente sofre um bocado com as coisas que gosta. Sofremos também com as coisas que odiamos, mas o ódio, por estar muito próximo de desprezo, acaba se diluindo com uma coisa e outra e se tolera. Mas quando gostamos de algo sofremos um bocado. O meu gostar seria revolucionário e constrangedor. Por exemplo: se eu gostasse de canários e visse o bichinho preso, não daria outra, respiraria fundo e o libertaria da gaiola. Vá, meu bichinho, vá e ganhe os céus, eu diria dramatizando o gesto libertador. Em seguida eu quebraria a gaiola em trocentos pedaços, aniquilando aquela prisão.

O problema é que não conseguiria soltar todos os canários do mundo. E, sejamos sinceros, o que eu conseguiria seria encrencar-me com meio mundo de gente. A encrenca número 1 seria com os donos de canários. Senhores bigodudos, barrigudos e com uma lasca de capim seco entre os dentes. Não tenho dúvidas que socos, facas e tiros encontrariam o meu corpo justiceiro. A encrenca número 2 seria com a justiça. Algum juiz opulento, — se eu sobrevivesse aos socos, facas e tiros — me poria na cadeia. Iria ao xilindró, veria o sol nascer quadrado por umas duas décadas. E pergunto, que advogado conseguiria tese que sustentasse minha absolvição? Senhores jurados, — diria o advogado — acreditam vocês em reencarnação? Pois digo que este homem é a reencarnação de são Francisco de Assis, o santo protetor dos animais. Se este homem praticou os crimes de soltura e destruição de gaiolas, foi por obedecer ao espírito do santo. Se existe crime cometido, não é culpa deste homem — e me apontaria o dedo e todos me olhariam —, este crime foi cometido pelo espírito que o habita. Condenem o espírito, poupem o corpo ventríloquo, o corpo marionete, o corpo voodoo.

Gostar de canários me traria enormes problemas como se pode ver. Se bem que... Se bem que eu poderia fazer um troço atribuído a meu pai. Contam que na juventude meu pai teria trabalhado em feiras pelo interior de Pernambuco. Vendia chapéus e botas. Terminando o expediente ele comprava um passarinho e o soltava na mesma hora e na frente de quem o vendeu. O homem ficava uma fera, sentia-se enganado, ao que meu pai rebatia que, tendo comprado a ave, faria dela o que bem entendesse, inclusive um ser livre. Filhinho de peixe, peixinho é.

Agora veja mesmo o tamanho dessa judiaria. Uma senhora de uns oitenta anos chegou as presas com seu canário em uma clínica veterinária. A mais cara para que mostrasse o maior amor pelo bichinho. Era o melhor cantor do mundo — ela dizia ao veterinário —, nunca tinha visto uma coisa dessas, uma afinação que só mesmo vendo, quer dizer, ouvindo, mas de uns tempos pra cá ele se calou. Dei o melhor alpiste e água só se fosse mineral, mudei o Julinho de lugar, pus ele perto do rádio e da televisão. Nada do meu menino cantar. Estava realmente triste aquela senhorinha. Queria mesmo a melhora de seu bichinho e sofria com isso. Há um detalhe que não posso deixar de mencionar. O canário se chamava Julio Iglesias! Porque a ave teria vindo da Espanha e teria um canto com sotaque madrilenho, segunda a velhinha.        

Pois o canário estava sem cantar fazia dias e a senhorinha sempre muito triste. Até lhe bater na cabeça a ideia de levar o pobre até a clinica. Pediu pelo amor de Deus que o veterinário devolvesse o canto ao Julinho. O veterinário percebeu algo estranho com a ave. Estava manquejando. Que seria aquilo? Ao pegar o bichinho viu que o pobre tinha um anel de metal na pata direita, colocado logo nos primeiros dias de nascido. Era um anel de identificação para um caso de fuga ou roubo e que foi colocado por amor. Tinha um chip embutido e enviava sinais para um GPS, tudo ideia de um neto metido a hi-tech. Com o passar do tempo Julinho foi crescendo e o anel começou apertar. Agora a pata de Julinho estava numa gangrena só e não havendo reparo, nem emenda, o jeito foi amputar com um alicate. Nessa hora o bichinho esperneou e a senhorinha vendo o toco da pata pendido de lado, caiu no choro. Meu Julinho, meu menino, meu menininho.

E o certo é que o nosso Julio Iglesias não tinha canto madrilenho, nem nada. Era tudo gemido, dor e agonia até calar de vez. E fico aqui pensando se o canto dos canários não são um acorde de choros e lamentações? Mesmo esses canários selvagens, nascidos e crescidos soltos no mundo, cruzando os céus e se embrenhados nas matas, não estariam eles chorando os irmãozinhos presos? Mesmo os irmãozinhos bem tratados com alpiste, água mineral e anel de identificação. A senhorinha voltou pra casa com um Julinho que batia as asas para se equilibrar numa perna só. Levava a perninha decepada no bolso.

domingo, 5 de agosto de 2018

Futebol nosso de cada dia



Vai ser o melhor do mundo, o pai do guri jogador dando entrevista, orgulhoso e papudo, os olhos liquefeitos, é um menino com a cabeça no lugar, fez um gesto no ar como se fosse a cabeça do guri jogador, celular da moda e chuteiras da moda, só tem vaidade com isso, no mais, não mais, caso raro para a idade do jogador, o repórter comenta, caso raro, nessa idade outros jovens querem carros e baladas, alguém do lado diz, duvida que ele não pegue uma maria-chuteira, bote no carrão e bola pra dentro, ra ra ra.

A reportagem corta pro guri jogador vestido com a camisa do melhor clube do mundo, a nova promessa do futebol brasileiro, ágil, corta pelo meio, pela lateral, cisca pedala dribla e não cai, não cai é maneira de dizer, aqui no Brasil tudo cai, todos caem, enfim o guri jogador não cai tanto como se vem caindo ultimamente, é a nova jóia do futebol brasileiro, o novo Pelé, alguns dizem, o novo Pelé, aí surge o risinho de alguém do lado, alguém que rir em ra ra ra, no fundo da cabeça desse alguém o macabro demo soprando dizeres, só se for o Pelé pela cor, porque Pelé só tem um, o macabro demo massageando o cérebro daquela proeza, aquela assertiva, só na cor, guri, só na cor, ra ra ra.

Se fosse no Brasil, veríamos o guri jogador vestindo a camisa do clube por cima de uma camisa pólo, aquela breguice, aquele emarfanhado de gola por cima de gola, manga por cima de manga, dobra na logo da Petrobras quando a Petrobras era altaneira, em lá Espanha, em lá Madrid é diferente, o jogador já chega vestidinho, blusa colada, músculos saltados, 4% de percentual de gordura, gomos e gomos, cliques e cliques, aperto de mão com o presidente Florentino, o velhinho galáctico, sorrisos e cliques e cliques.

A reportagem corta pro guri menino subindo o túnel do Santiago Bernabéu. Último degrau, mais alguns passos e o guri menino pisa com o pé direito e toca a grama e se benze e a torcida grita e tira fotos e o guri jogador faz embaixadas, as mesmas embaixadas de sempre, bola no pé, bola na coxa, bala no peito, meio peito meio queixo, bola na cabeça, bola atrás do pescoço, o ápice da mesmice, alguém diz que isso não é jogar futebol, quero ver na hora do jogo, onze contra onze, Pelé sim, Pelé sim, esse aí só na cor, o risinho esticado na boca, o macabro demo massageando o cérebro proeminente.

O guri jogador terá a missão de substituir Cristiano Ronaldo, o robozão, o maior artilheiro da Champions League, o autor do gol mais bonito da Champions League, o pica das galáxias que mais deu passes pra gols na Champions League, terá vaga no time, pergunta o ancora aos especialistas que nunca jogaram futebol e aos especialistas que sempre jogaram futebol, acho que o guri jogador será emprestado pra algum time de segundo escalão, diz um especialista que nunca jogou futebol, ganhar experiência por uns dois anos, adaptar-se ao clima europeu, os especialistas que nunca jogaram futebol concordam entre si, os especialistas que sempre jogaram futebol ficam reticentes, nutrem a torcida no menino estourar de cara, realizar o sonho de menino de periferia, eles se veem nele, no guri jogador, aquela vontade de jogar com os pernas-de-pau de hoje, só brucutus, só brucutus, os especialistas que sempre jogaram futebol dão arrudeios na resposta, driblando, pedalando a resposta, os especialistas que nunca jogaram futebol falam bem, colocam as concordâncias e os plurais, estufam os peitos flácidos, se impõem, os especialistas que sempre jogaram futebol ficam ali, naquela coisa de driblar os plurais, firulando pedalando ciscando, substituir CR7, diz alguém do lado, nem na cor, guri, nem na cor, ra ra ra, o macabro demo massageando a fineza argúcia.