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Crônica dos sovacos e das axilas

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O óvulo é uma espécie de paraíso! Era mais ou menos sobre isso aquela aula. E aí teve aquele lance do “muitos serão chamados, mas poucos serão escolhidos.” A professora, em algum momento da aula, soltava essa cantilena. E acrescentava, “bem poucos.” E, por uma pirraça diabólica, olhava para Gileno que naquela semana tinha feito uma tatuagem de escorpião. Geralmente a professora olhava para Gileno porque ele raspava a cabeça, usava anéis de caveira e sentava com as pernas muito abertas. Por algum motivo aquilo era intolerável para ela. Talvez porque ela vivesse milimetricamente alinhada nos vestidos e nos cabelos presos num coque imutável. Aquele prender de cabelos esticava-lhe o couro da testa e lhe tirava as rugas. E ninguém nunca a viu com os cabelos soltos. 
Todo mundo queria ser amigo de Gileno porque ele era perigoso e botava medo nos bundões metidos a cavalo do cão. E também porque Gileno arrotava alto e fazia sons divertidos com os sovacos. E foi homérica a discussão que Gileno …

Crônica do irmão e do óvulo

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Primeiro o bebê é um sapinho batendo o rabo até chegar ao óvulo. Não propriamente um sapinho, mas uma bolinha escurecida e com um fiapo vibrante. E é assim que ele vai se virando. No caminho até o óvulo este bebê nadador encontrará outros bebês nadadores. Entre eles poderia haver um “oi”, um vamos em frente, você consegue”, um “desse lado está melhor de nadar, tem vácuo e tudo”. Os bebês ignoram-se, seguem mudos, calados, afônicos... 
São irmãos deixando irmãos para trás. Se um deles tiver câimbra, se torcer o rabo, se engolir mucos, se errar o caminho… Cada um vai seguindo a sua sorte. Mas eu me pergunto: e se eu tomei o lugar de um irmão nadador que seria melhor do que eu? Digo, se cheguei ao óvulo primeiro do que um irmão nadador que seria um ser humano melhor do que eu? E ainda pergunto: e se aquele irmão que quase entrou no óvulo, faltando só um pouquinho, e se eu esbarrei nele, se lhe passei a perna (no caso o rabo), se fui calhorda e me aproveitei de um caminho quase aberto, e s…

Crônica da salvação do mundo

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A mentira pode salvar a humanidade! Acordei com essa ideia na cabeça: mentir para salvar! Falo daquela mentira mais asséptica. Um tipo de mentira que até os padres contam! Um tipo de mentira que não leva ao inferno, o leitor pode ficar tranquilo. Falo da mentira que se conta e o mundo continua em rotação e translação. Pois veja se não é. Suponha que você, andando pela rua, de repente encontra um amigo que não vê faz tempo. Então você pergunta, “como vai, tudo bem?” E em seguida solta aquela mentira, “você não mudou nada, continua do mesmo jeito!” Pronto, perfeito. A pessoa interpelada diz que não, a pessoa interpelada agradece, a pessoa interpelada diz o mesmo de você, que também não mudou nada, que o tempo foi generoso.
Dois mentirosos. Um aceitando a mentira do outro e o mundo seguindo em frente, feliz! Sim, é possível ver um arzinho de riso, um fiozinho arqueado no canto da boca. Felizes, sim senhor! “Apareça qualquer dia,” você diz. “Apareço sim, pode deixar”. Responde o mentiroso.…

Crônica de um filho que quer nascer

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Meufilho João é impaciente. É provável que roa as unhas, bata o pé em tique nervoso ou puxe fiapos de cabelos. João ainda não nasceu. Falta pouco mais de dois meses, setenta, oitenta dias. Mas, pelo andar da carruagem, posse ser que venha antes. Minha esposa abre um aplicativo e mostra como João está. Aquele não é o nosso João, mas nos deixamos ludibriar pelo aplicativo. Dizemos, "olha como já está grande." O aplicativo informa que João está com o peso de uma goiaba, uma pêra, um abacate. Da última vez João tem o peso de um repolho. 
O aplicativo é uma rede social de mulheres grávidas. Elas trocam informações mesmo depois das crianças nascidas. As melhores pomadas, lenços umedecidos e fraldas. Há queixas de que as crianças estejam nascendo antes do tempo. “O meu veio com trinta e seis semanas.” E seguem assim, meio que numa disputa, “a Gabriela veio com trinta e quatro, se perdia na palma da mão de tão miúda”.
João está no ventre, flutuando num balão de placenta e líquido amni…

Crônica de uma criança com um par de meias

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Certa vez calcei minha filha com as minhas meias. As dela eram de cano curto e haviam criado bolotas, verrugas de pano. Cliquei o player e um tutorial dizia para usar o estojo de barbear. Tiro e queda contra as bolotas verruguentas! Não o fiz. Assisto tutoriais, maratono, para um dia, no meio de uma conversas sobre coisas úteis, ter o que dizer. Vocês sabiam que pasta de dente é ideal para tapar aqueles buraquinhos de pregos? Os ovos cozidos devem ficar doze minutos em água fervente, nem mais, nem menos! Não devemos balançar os nenéns, os miolos podem chacoalhar na caixa craniana e desprender a massa cefálica. Esses dias nunca chegam e os tutoriais amontoam na cabeça. 
Como eu ia dizendo, certa vez calcei minha filha com as minhas meias. Lembro dela colocando os pezinhos e franzindo as sobrancelhas. Sempre que se depara com o desconhecido pega as sobrancelhas e as franze. É sua maneira de perguntar o que é isso, se isso morde e se isso pode? Herdou esse gesto de mim e no futuro saberá …

Crônica de um super goleiro uruguaio

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Rodolfo Rodríguez era um gigante uruguaio com bigode de leão marinho. A esposa havia contado uma vez que os fios do bigode serviram para desentupir a boca do fogão. E não era exagero pois o próprio gabava-se de nunca ter usado pregos em casa. Bastava martelar os fios do bigode. 
Rodolfo Rodríguez poderia ter escolhido o basquete, o voleibol, o salto com vara, mas escolheu o futebol! Queria ser atacante, camisa nove: dribles, gols, fama! Mas aquele tamanhão atrapalhava a explosão na largada. Lá estava a correr desengonçado, tropeçando, desmoronando com o mundão de corpo. Rodolfo Rodríguez era bom nas bolas aéreas, mas careceria sempre dos cruzamentos. Seria um time todo a depender de uma só jogada, de um só jogador. Faltava-lhe, como se pode ver, recursos para jogar no centro e avante. 
Até que nosso atleta foi dando passos para trás e ficou alojado no meio de campo. Ali não seria preciso dar arrancadas, dribles e finalizações. E assim Rodolfo Rodríguez ficou mais recuado, volanteando. O…

Crônica dos dois irmãos

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O cachorro deixou as patas no cimento da calçada. Tinha chovido e a água empoçou ali. Mais à frente o cimento ordinário rachava. Esfarelava. Adiante um nome indecifrável e uma data: vinte e cinco de janeiro de dois mil e dezenove. Uma calçada feia, um serviço grosseiro. Neste país os pedreiros não possuem senso de estética, o mínimo de capricho sequer. Tapam buracos e pronto, se dão por arquitetos. Uma calçada estúpida, sem dúvida, mas ao menos as patas do cachorro a salvaram. Como se chamaria? Rex, Totó, He-men, talvez.
Mais à frente vinham dois velhinhos!  A caminhada da dupla era lenta, morosa, arrastada. Paciente! Não sei como se chamam, mas os conheço. Nunca troquei palavras, talvez um bom dia, mas sempre os vi. Suponho que sejam irmãos ou talvez grandes amigos, o que dá no mesmo. Aliás, Voltaire já havia dito que "as grandezas do mundo não valem um bom amigo". Voltaire, ao que se sabe, era iluminista e tinha duas coisas sempre à vista: um nariz fenomenal e uma lucidez v…