Tiro


A mulher sacou a arma e meteu bala no bandido. Um vídeo sem áudio, um filme mudo. Uma pena queria ouvir o estampido, disse um revolucionário de zapzap. Era pra descarregar o revólver na cabeça, estourar tudo, disse outro revolucionário. E ninguém vibrou com os que ficaram vivos, os que retornariam as suas casas, sãos e salvos. A vida, os sonhos... O que valeu a pena foi o tiro rasgando e carne, quebrando os ossos. Bandido bom é bandido morto, pois sim! O leitor não repare a minha fraqueza e raiva desmanchada, mas sou um sujeito que pensa nos depois, nos amanhãs e nos avessos das coisas (um poeta jamais poderia ser um juiz). Morreu quem mereceu, tivesse no seu canto nem chuva tomaria, pois sim. Mas, eu penso no velório. Na mãe do infeliz. Combalida e também baleada, tiro que o matou, vai matando-a também, tremula, morta de vergonha, morta de fraqueza, morta de tantos conselhos em vão e aos ventos. A cabeça baixa, a vergonha e a dor. E era dia das mães.

Médico


Faça caminhadas com as primeiras horas do sol. O médico sugeriu olhando-me com descrença. Passaria o dia sentenciando tumores e extração de fígados. Aborreceria com um paciente sedentário estragando a vida em poltrona macia, lendo romances e poesia. O senhor tem um sarcoma, seus ossos esfarelam e o sangue coagula. Teria dizeres na ponta da língua. Tocaria no ombro, mandaria sentar... Faça caminhadas com as primeiras horas do sol e só me volte com um câncer. Teria dito e eu não ouvi. A secretaria pediu que o próximo paciente entrasse. A cara baixa, o passo lento, os cabelos amorfinhados. Este sim iria ao abate.

Fogo no Prédio


Segundos a mais e aquele homem seria resgatado pelos bombeiros. Chamas lambiam as paredes e vidros estalavam, crepitando. Quem seria aquele homem, qual a sua idade, teria esposa, filhos, aquele homem teria um cão? Cinco andares caíram por cima daquele homem, a corda rompeu e todo o prédio veio abaixo. Moradores apareceram e perguntaram por Ricardo. Onde estará o Ricardo? Alguém mostra o vídeo pelo celular. É o Ricardo, meu Deus do céu, é o Ricardo. Ele que saiu acordando todo mundo. Fogo, está pegando fogo, acorda, corre. O câmera aponta para uma senhora com as mãos na cabeça, dá um close. A senhora morava no prédio? Pergunta uma repórter. Não, minha filha, quem morava era o Ricardo. Os bombeiros gritando pra ele pegar a corda. Aquela agonia, aquela agonia toda. Ricardo gostava de Charlie Brown Jr, gostava de rock. Saia toda madrugada pra descarregar caminhão. Fim da tarde ele voltava, magro, alegre, e uma cara de feriado.

Nhonho e o Seu Barriga

Sempre fiquei na dúvida se o Nhonho era também o seu Barriga, o opulento homem de negócios. De quem o Nhonho era filho? E a pulga andava pela orelha. Se o Nhonho colocasse um bigode de faroeste e óculos de Clark Kent ficaria cagado e cuspido o seu Barriga, temível cobrador de alugueis. Reparei que só a dona Florinda é que pagava o aluguei em dia. Para ela não havia crise, nem marolas. A dona Florinda era os EUA, o seu Madruga era o Brasil, sempre dando um jeitinho e levando na conversa, o seu barriga era o FMI e o Chaves era um refugiado a viver de sonhos e biscates. Depois eu fiquei sabendo que a dona Florinda era a esposa do Chaves na vida real. Roberto Gómes Bolaños e Florinda Meza García. Marido e mulher. E era a vida real que parecia a ficção. Você já viu o Nhonho e o seu Barriga na mesma cena, no mesmo enquadramento? Puxei pela memória, não lembrava. 


Nada a temer


Já disse que no Brasil não se matam famosos, sobretudo os políticos. Falta uma grande tragédia nacional a qual devamos nos unir no choro ou na alegria. O sujeito passa de carro e apontamos, olha quem está ali, o deputado fulano de tal e a sua comitiva de puxa sacos, quantos empregos temos dentro daquele carro, quantos mil reais deve ter do nosso bolso naqueles bolsos ali? E o brasileiro fica nisso de apontar com os dedos os larápios. Um marciano dirá que ainda estamos no invólucro. Em um país de menos carnaval o que se apontaria eram revólveres e escopetas. O Brasileiro é a paz mundial. Deem um Nobel ao povo brasileiro. Brigamos pelos pernas de pau do nosso time e nada mais. Não digo que o brasileiro deva sair dando tiros por aí, mas onde estão os justiceiros? Aqueles que atiram na cabeça dos cheiradores de cola e maconheirozinhos de terreno baldio. Nossos justiceiros só atiram nos infelizes que não se aguentam em pé, empurram bêbados e chutam vira-latas. Capaz de verem políticos corruptos – só os corruptos, por favor – e apontarem com o dedo, quantos mil reais deve ter do nosso bolso naqueles bolsos ali?

Vão matar o nosso Lula


“Vão matar o nosso Lula, nosso Lulinha.” Não sei exatamente quem foi que disse ou talvez ninguém tenha dito. Posso ter lido em algum jornal, pode ser engano, trolagem. “O nosso Lula será assassinado.” Alguma mão oculta colocará chumbinho na sua comida, estricnina em seu café. Um fio desencapado enrolará no seu pescoço... Salvem o nosso Lula, nosso Lulinha. O Brasil é um país de poucos assassinatos cinematográficos. Repito, assassinatos cinematográficos. Aqui não se mata nenhum figurão, um político, um ator. Neste país quem morre de tiro são os policias, os ladrões de bermuda nas canelas e o homem de bem que saiu do mercado feliz da vida por comprar um quilo de carne de sol. Este levara uma bala perdida. Figurão só morre nos EUA, os Kenedys e tal. Mas a frase fica no ar, vão matar o nosso Lula, nosso Lulinha. Uma comoção nacional e planetária. Dirá alguém, ressentido, que o nosso Lulinha já estaria morto, só faltando apodrecer. Dirá, um apaixonado, que nosso Lulinha ressuscitará ou no corpo ou nas urnas.

Gravar na horizontal


Fiquei olhando a moça gravar o vídeo na horizontal. Uma amiga segurava o smartphone e mordia chiclete. Quando eu disser três... A moça começou usar os quinze segundo. Meu nome é fulana de tal, sou de Garanhuns, Pernambuco, e o Brasil que eu quero... Aí ela esqueceu o Brasil que queria. Os cabelos ventavam na cara, desconcentrando. Ela puxou um tufo até a orelha e se concentrou. Quando eu disser três... Dessa vez ela acertou tudo, falou dos jovens que não tinham oportunidade de emprego e que jamais teriam experiência pois logicamente não tinha emprego, falou dos buracos na rua e terminou pedindo o fim da corrupção. Corrupção não poderia faltar, é nosso mantra. Depois as duas moças assistiram ao vídeo. Fizeram conchas com as mãos para enxergar melhor. Houve uma insegurança se o país que elas queriam era aquele mesmo. E as duas ficaram decidindo que país iria passar no JN.  

Michelzinho


Michelzinho vai pra escola. O carro oficial da Republica Federativa do Brasil para em frente ao portão. Michelzinho deixa um naco de catota no banco de couro e desce com a linda Marcela, sua mãezinha. E acontece àquela cena de Hollywood, Marcela ajoelha e beija a testa de Michelzinho. Os coleguinhas acham a mãe do Michelzinho a cara da Dorothy do mágico de Oz. Um coleguinha, vermelho de indignação nacionalista, dirá que o pai do Michelzinho é o senhor das trevas, outro coleguinha, mais didático e assanhadinho, dirá, é gata e pode até parecer com a Dorothy do mágico de Oz, mas casou com o conde Drácula.

Clone


Fico esperando a bomba estourar. Mais dias, menos dias, alguém virá a público, dirá, senhores e senhoras do mundo, a boa nova é que já temos um clone humano, trata-se de fulano de tal...  Um dia a bomba explode, esperemos. Eu mesmo, se fosse um cientista, um Nicolelis da vida,  já teria feito um clone a minha imagem e semelhança. Um orgulho de pai em vê-lo crescer. Primeiros passinhos para um homem, grandes passinhos para a humanidade. Seria o meu Adão domesticado e, já sabemos o script, logo viria a sua Eva e, depois, um Ivo para ver a uva. E a Eva comeria a maçã e Caim mataria Abel e ficaríamos a espera de um Messias.  

Lesma


Observo uma lesma. Paro tudo e contemplo o espetáculo daquele pedacinho de carne se mover. Verdadeiro milagre. A cidade segue a sua pressa diária. É preciso deixar os filhos na escola. É preciso achar uma vaga para estacionar o carro, tomara que o carro caiba, tomara que não se forme uma fila, esperando estacionar, pressão meu coração não aguenta, faço besteira. Alguém pensará, parece uma lesma. A cidade segue sua pressa e eu fico olhando a lesma subir a parede. Pobrezinha tem um corte nas costas de onde sai um filete seivoso. Onde teria se cortado. Vai morrer a bichinha. Vai morrer. Jamais conseguirá subir essa parede. Homens fortes construíram essa parede. Fortes e apressados. Patrão chegasse e eles não tivessem levantado, aí aí. Entre as nuvens o sol aparece, clareia o rastro que a lesma vai deixando. Parece gliter, parece gozinho. Já viu, ela se esfregando nessa parede e o jorrinho de gozo pelo caminho.

© Helder Herik
Maira Gall