domingo, 19 de maio de 2019

Crônica de malabarismos e aprumos


O homem abaixou e pegou uma pedra. Estou no semáforo e o observo. Será um dia agitado e o cérebro lateja as ideias. Crio a fabulação que aquela pedra é um pedaço do planeta. O planeta está se desintegrando. Indiferente a minha fabulação está o homem que abaixou, pegou uma pedra e agora a joga para cima. Antes que ela caia, o homem joga outra pedra e mais outra e aquilo vira um malabarismo. Agora o semáforo poderia demorar toda a manhã! As pessoas passam e desviam do malabarista. As pessoas com horários e problemas. Desviam e torcem a cara. Eu não! Abro o sorriso diante do espetáculo da vida. Eu saúdo a loucura que caiu sobre aquele homem. Impossível não o perceber com aquele colete neon. Faz mototáxi. Faz malabarismo com pedacinhos do planeta. Faz a vida sair do piloto automático. Faz de conta que está num circo. Então uma pedra começa a esfarelar, vai se desintegrando até virar poeira. Agora as pessoas abanam a mão e é possível que até o xinguem. É possível que chamem a polícia e o queiram preso.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Crônica de berros, bramidos e brados


Lady Laura tem fascínio por etiquetas. Desde cedo, desde sempre. Lá está ela em seu carrinho. Assiste algum desenho colorido, barulhento. Inúmeras vezes o mesmo desenho — já cantarolamos as músicas. Assoviamos no banho, na ida ao trabalho, na sala de aula. — De repente cai sobre Lady Laura o tédio com a vida. Quanto ela está pesando hoje? Nove quilos, calculo. Está pesada! Nove quilos e ainda se debaterá, entediada. É preciso força para sustentá-la. Domá-la. Procuro algum brinquedo de morder. É preciso entretê-la. Um brinquedo onde possa fincar os dentinhos, amolá-los, deixando marcas no plástico. É a fase do morder. Morder o mundo. Funcionou por minutos, de novo caiu o tédio. É preciso procurar outra coisa, vasculhar o mundo a procura de algo que possa ser babado e destruído. O que? Talvez uma pedra, uma árvore. E eis que surge uma embalagem colorida e barulhenta. Uma embalagem de salgadinho. Fede, mas o colorido, o barulho... Logo se entedia e chora. O rosto vermelho, a cara franzida. Uma lágrima. Procuro uma lágrima sequer. Não há. Só berros, bramidos e brados retumbantes. O controle remoto! Ela o encontra. Para de chorar e me lança um olhar de luz. O controle remoto! Receio que o parta em dois. Ela chora, pressionando-me. E lá está o controle nas mãozinhas de bolota. Parece que gostou. Mordeu, mudou de canal, aumentou o volume e, entediada, jogou no chão. Talvez ela queira o ursinho com guizos embutido. Olha o barulhinho, mamãe, olha o barulhinho! Não, não gostou. Faz careta — sempre franze a testa e as ventas — está prestes a sacudir o ursinho de guizos e, epa! Percebe a etiqueta. Pedacinho de pano saltando das costas. Letras miudinhas, código de barras. E aí ela se entretém. Belisca a etiqueta, soletra, conversa e ri.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Crônica do Dia do juízo


Imagine que um dia você será julgado por um assassinato do qual nunca se deu conta. Um assassinato cruel e a queima roupa e sempre recorrente. Você é um senhor assassino. Eu sou um senhor assassino. E você e eu estávamos impunes, até agora, no dia do juízo. Imagine que hoje, ao acordarmos, o mundo passou a ser governado por formigas e por aranhas e por baratas e pernilongos e ratos e tudo mais. Essas criaturas tramaram, durante séculos, a tomada de poder, a subida ao trono, a queda da Bastilha. Choraram, cada bichinho a sua maneira, a dor dos parentes pisoteados por nós desde o início da humanidade. Pacientemente, numa mansidão calculada, as formigas foram recolhendo os bichinhos esmagados. Uma infinidade delas recolhendo um braço pisoteado, uma perna, uma antena. E nem nos preocupávamos com esses bichinhos a carregarem seus despojos. Até hoje, quando nos chega a notícia que aqueles pedacinhos: braços, pernas, antenas... Tudo isso ao longo dos séculos, tudo sendo amontoado, colado e por fim, compondo um enorme Frankenstein. Hoje é o dia do juízo final. Você e eu seremos esmagados por esse Frankenstein. E não temos nenhum ato de grandeza, pois você quer que eu seja esmagado primeiro e eu quero que você seja esmagado primeiro. E você e eu somos pequenos. Menores que ratos, baratas e formigas.

sábado, 20 de abril de 2019

Diálogo na páscoa


“Mãe, tem uma aranha no meu ouvido!”.
“De novo essa história da aranha?”
“Ela fica falando coisas”.
“Igual o rinoceronte?”
“A senhora ainda lembra do rinoceronte?”, e a menina abriu um sorriso babado. Sempre achou que a mãe não ligava. Era só reclamar das contas, do atraso, dos ombros e de qualquer outra coisa. “Ele era cor de rosa, não era?
“...”
“Não era mãe, cor de rosa?”

Agora a mãe estava absorta, passando batom e vendo a boca diminuindo. Diminuindo ou engelhando. “Qualquer dia e essa boca desaparece”, pensou alto.

“O rinoceronte desapareceu, não foi mãe?”
“...”

Agora a mãe ficou olhando os ombros. Um mais alto que o outro. A vida toda aquilo. O jeito era levantar o ombro mais baixo para compensar o desnível. Mas ela se achava tão artificial. E lhe vinha na cabeça aquela dança do Michael Jackson. Aquela dança daquele clip dos zumbis e tudo mais. Um terror!

Se usasse a bolsa no ombro mais baixo, automaticamente ela faria um movimento para cima e tudo se resolveria. E era uma coisa tão simples que jamais lhe passaria pela cabeça.
A menina apareceu na frente do espelho.

“A aranha fica falando coisas”.
“De que tipo?”
“Que coelhos da páscoa só deixam ovos para quem comprar”.
“Que aranha mais besta!”.
“É, mas no ano passado o coelho não deixou algum ovo de páscoa pra contar história”.
“Filha, como você faz confusão! Nenhum ovo. Se diz, nenhum ovo e não algum ovo”.
“Pois não tinha nenhum ovo e nenhum nada de coelho algum ou de coelho nenhum”.

Toc toc toc. Eram batidinhas na porta e, como as duas pareciam não ter ouvido, as batidinhas continuaram. Toc toc toc...

“Vá ver quem é meu amorzinho”, disse a mãe. As sobrancelhas tensionadas. “Diabo é quem vem uma hora dessas pra atrapalhar”, pensou alto.
“Mãe!”
“Quem é filha?”
“É o rinoceronte!”
“Que rinoceronte?”
 “O rinoceronte rosa, mãe!”
“De novo essa história, filha!”
“Posso montar nele?”
“...”

Agora a mãe não escutava mais nada, absorta, olhando os ombros.

“Posso montar, mãe?”

domingo, 31 de março de 2019

O pequeno Batman



O Batman estava atrasado em mais de uma hora.
A Diretora Berenice conversava com algumas mães. Franzia a testa e gesticulava desordenadamente. Se eu usasse o ‘modo acelerado’, aquilo daria a impressão de um kata — a luta imaginária do senhor Miyagi.
Uma algazarra tomava conta do pátio e nada do que a diretora dizia se podia ouvir. Tive que ativar o ‘modo leitura labial’. Aí fiquei tranquilo. A diretora havia telefonado e a Casa Festas e Recreios havia liberado o Batman e o Robin. Já estavam no meio do caminho. Logo chegariam em nossa escola. Compensariam o atraso ou a Casa Festas e Recreios devolveria o dinheiro.
O atraso eu compreendia, era coisa do Coringa ou do Pinguim. Talvez fosse coisa dos dois. A moda agora era a união entre vilões. Falava-se até na criação de uma ‘Liga da Injustiça’. Uma afronta total. O Coringa e o Pinguim, juntos, igual o Batman e o Robin. Se bem que o Robin... O Robin era só um estagiário e precisava-se muita paciência com aquela lerdisse e aquele seu, “Santo Deus Batman, macacos me mordam!” O Robin precisaria comer muito feijão ainda.
“Ele está chegando!” gritei no ouvido de um colega. “A diretora telefonou pra ele.”
“Só vem o Batman?” ele gritou de volta.
“Os dois estão vindo. O Batman e o outro lá.”
“Como você sabe?”
“O modo leitura labial. Ativei!”
Ele iria gritar algo de volta. Desistiu e fez aquela cara franzida de, “de novo essa estória de ter super poderes.” Não me importava. Os mutantes nunca seriam entendidos mesmo.  
No pátio a meninada corria e gritava pra valer, pareciam indiferentes ao atraso. Vestiam uma capa de tnt amarrada no pescoço e um morcego de cartolina pregado no peito com fita crepe. Tudo muito fuleirinho, mas funcionava com a meninada. Tirei minha capa e o morcego do peito. Os super-heróis davam muita importância para as crianças diferentonas e tal. Identificavam suas espécies e mantinham laços. Convidariam para estágios, ensinariam o beabá dos super-heróis. O Robin fazia um estágio eterno. O Robin só atrapalhava, “Santo Deus Batman, macacos me mordam.” Uma lerdisse.
Ativei o modo... ainda não sabia que modo era aquele, mas ele me dizia para correr até o portão. Era o Batman e o outro. Enfim haviam chegado. Um mundarei de crianças correram ao portão e fiquei espremido nas grades. Aliviei passando uma perna fina entre aqueles ferros, mas o meu rosto na certa ficaria com o carimbo deles.
Enfim eu veria um super-herói, mas pera lá... Era o Robin quem estava dirigindo o carro do Batman. Estranho! O Batman não permitiria um estagiário com aquela ousadia. “É um fusca!”, alguém gritou. “Um fusca velho!”
Só se o carro do Batman estivesse no conserto. O Alfred — o mordomo faz tudo — estaria trabalhando um novo dispositivo. Um lança mísseis ou, já não era sem tempo, turbinas para o batmóvel cortar os ares.
“É um fusca!” gritavam. “Um fusca velho. Que Batman de merda!”
O Robin se enrolava para estacionar o fusca. Subia o meio-fio, descia, subia de novo. Aquilo demorava. Era o Robin sendo ‘o Robin’.
“Como é? Como é isso?” era a voz da Diretora, abrindo caminho.
A criançada ficou em silêncio. “Como é isso?” era um sinal de raiva que todos temiam.
“Que lindo!” gritou a Diretora. “Muito bonito!”
O Robin ficou no carro. Teve medo da Diretora. O Batman não. O Batman não tinha medo. Desceu do carro, escorou-se na porta e ficou encarando a Diretora. “Ele tem barriga!” gritou alguém. Poderia ser uma roupa apertada. Poderia sim.
“Ele é bem pequeno.”
“Bem pequeno e bem barrigudo.”
E a gritaria começou. A Diretora trancou o portão por fora, caminhou até o Batman e começou a gesticular. Ativei o modo leitura labial:
“... Sumam daqui seus desgraçados...”
“... a gente nem...”
“... um monte de mães enfurecidas querendo esganar vocês dois...”
“... a gente, a gente...”
“... uma vergonha para as crianças...”
“... a g  te...
Desativei o mudo leitura labial.


domingo, 10 de março de 2019

O caso da multiplicação



Nossa galinha havia se multiplicado de um dia para o outro. Agora existia ela — a Gertrudes, nossa galinha desde que era uma pintinha de bico curvo — e mais duas dela comendo milho e ciscando monturos no quintal. Ela e mais duas dela. Três galinhas. Três galinhas que eram a mesma galinha de bico curvo. Caso se tratasse de gente humana, diria-se que eram trigêmeas. Três Gertrudes de bicos curvos. Três que eram a mesma. Bem bem bem, até aí tudo caminhava dentro do aceitável. Galinhas são criaturas que pulam para outros quintais, vivem de ciscar e bicar o chão e podia, de uma hora para a outra, existirem três onde só havia uma.

Assim pensávamos.

A teoria era a de que uma galinha havia escutado o cacarejar de outra galinha e saltado pro nosso quintal, onde havia minhocas na terra fofa e outras coisas que só se saberia ciscando. Daí outra galinha fez o mesmíssimo ato e agora tínhamos três galinhas de bicos curvos.

Pensávamos.

Até que no dia seguinte o Braddock havia se multiplicado. Agora existia ele e mais dois dele pulando na gente e cagando roletes grossos no quintal. Aquilo juntava moscas, mosquitos e algum outro bicho que beliscava na pele.

Ponderamos que Braddock, nosso perdigueiro caramelo, só existisse umzinho nesse mundo. Braddock era um bichinho nosso desde que chegou apartado de sua mãe, sem leite e sem paciência de aturar aqueles pulos e aquelas unhas de abrir enlatados. Então checamos a coisa mais peculiar em Braddock: o rabo meio curvo, meio quebrado, meio morto. Braddock era o único cachorro do mundo que tendo rabo, não o abanava. Era apenas um pêndulo.

Então fomos checar se também os outros cachorros tinha o rabo pendular. E tinham. E fomos checar se tinham a orelha rasgada no arame farpado e aqueles olhos embranquiçando de catarata e ainda a pelugem encaramelada e rala. E tinham.

Então agora eram três Braddocks iguais. Se fossem gente humana, chamaríamos de trigêmeos. Um dos Braddocks era o nosso desde que fora apartado da mãe e mais dois Broddocks que não eram nossos, mas que eram o mesmo Braddock da gente em cara e focinho. Eles misturados e muito espertos e muito nos amando e atendendo todos eles pelo nome de Braddock. De modo que nessa mistura, a gente já nem sabia distinguir quem era o nosso Braddock. E todos eles passaram a se chamar Braddock e estava tudo resolvido.

Pensavamos.

Até que no outro dia havia outro de mim entre a gente. Outro de mim ou outro eu. E agora, ao sair pro quintal, se podia ver três galinhas Gertrudes e três perdigueiros Braddocks. E agora eu tinha um gêmeo e fui conferir nele a nossa semelhança: olhei os pés cavados de Charcot-Marie-Tooth. O infeliz teria uma existência torcendo os tornozelos, imobilizando-os com faixas por longos períodos. Uma maldição que teríamos herdado. Olhei um risco de cicatriz abaixo do olho esquerdo e, como estávamos ao sol, percebi que ele também fechava muito os olhos e lacrimejava e nem pude me assustar com a semelhança desse outro eu porque havia aparecido outro eu entre nós.

De modo que agora eram três de mim no mesmo espaço e fazendo os mesmos gestos, só que em tempos diferentes e acho que até pensávamos igual, cada um se estranhando, se aceitando e se achando bonito até. E agora se podia dizer com todas as letras que éramos trigêmeos.

Pensávamos.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

A velhinha do Parque


Há uma senhorinha que anda no Parque toda manhã. Anda meio de lado, meio pendendo, meio caindo. Passo por ela correndo. Sou um jato. Ela uma lesminha, meio de lado, pendendo, caindo.

Sinto o cheiro de sua velhice. Leite de Rosas. Passo por ela e levo aquele cheiro por alguns segundos. Minha avó também usava Leite de Rosas. Arrancava um capucho de algodão, rodava-o na mão até ficar uma bola e derramava o balsamo em cima. Depois esfregava o rosto até os poros abrirem e expelirem os cravos. Ainda hoje aquele balsamo tem a mesma embalagem. O mesmo cheiro. Leite de Rosas e Vick Vaporub, cheiros inconfundível de infância e velhice.

A senhorinha que anda no Parque é muito engelhada, muito magrinha, muito caída pra um lado. Batizei-a de Dona Graveta. Gravetinha. Entre os eucaliptos fortes do Parque, uma Graveta. Gravetinha.

Corro os meus quilômetros. Fone no ouvido, System of a Down, “You, what do you own the world? How do you own disorder, disorder.” Passo por dona Graveta um pouco afastado, zump. Imagino que o vento a possa derrubar. Passo por ela de novo e de novo. Zump, zump.

Termino minha corrida extenuado, suado, combalido. Ponho as mãos na cintura e puxo o ar. A sensação de estar vivo, o corpo energizado e o dia só começando. A vida é boa, sim senhor!

Lá vem Dona Graveta, meio de lado, pendendo, caindo. Tiro os fones e a admiro. Toc toc toc. Seu tênis é duro. Meio sapato, meio tênis. Um ortopedista condenaria aquele calçado ao lixo.

— Opa! — tento um contato com ela. — Opa! Dona Grav...

Ela faz um gesto com a mão. Sorri com uma dentadura branquíssima. dentes alinhados e fortes. Dentes que mastigariam uma parede, partiriam adamantium e cream cracker. O contrário do seu corpo, meio de lado, pendente, caído. Toc toc toc ... Lá vai ela para mais um quilometro. Usa uma saia muito balançada e um casaco de abotoar. No bolso do casaco leva uma garrafinha d’água. Reparo que a garrafinha fica justamente do outro lado, o lado que não é pendente, caído. Talvez ela tente equilibrar-se. Talvez seja apenas coisa da minha cabeça. E lá vai Dona Graveta! Um vento forte encheria aquela saia de ar e a levaria pelos ares.

Quantos anos terá Dona Graveta? Doem-lhe os ossos? Tem filho que lhe cuide? Reclama da aposentadoria? É viúva?

No dia seguinte termino minha corrida. Extenuado, suado, combalido. Ponho as mãos na cintura e puxo o ar. Procuro Dona Graveta.

Toc toc toc ...

— Opa Dona!
— Oi, esse menino!

Toc toc toc ...

Um vento forte encheria aquela saia de ar e a levaria pelos ares. 

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Notícia no meio da noite



Minha avó travava os dentes quando sentia algum medo ou quando um perigo estava pra chegar. Se alguém batesse palmas tarde da noite ela ligava as antenas e começava uma oração entre os dentes serrados. A oração parecia dita em outro idioma e às vezes parecia xingamento para um filho de Deus que havia acertado bater palmas tão tarde da noite. Era um misto de oração pra afastar notícia de alguma morte na família e palavrões pra quem ousava tirar o sono da casa. E era possível ouvir o “Santa Maria, mãe de Deus” e em seguida o “Diabo é quem bate na casa de um cristão essa hora, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém”.

O problema todo era voltar a dormir. Por algum motivo ela dizia que, uma vez acordada no meio da noite, a pessoa jamais deveria consultar as horas. Quem acordasse e soubesses das horas ficaria o resto do tempo sem conseguir dormir. Minha avó sempre olhava as horas. Não aguentava de ansiedade ou seja lá o que fosse. Imagino que pensasse ser mesmo hora acordar e ir varrer o quintal, aguar as plantas, partir as frutas pros cágados e fazer um café vigoroso que logo incensaria a casa.

O problema era voltar a dormir no meio da noite.

Já o meu avô dormia tranquilo. Provavelmente sonhava que vencia no jogo de dominó. Estava aposentado e passava as tarde jogando com outros velhinhos de mãos de gravetos e tosses incontroláveis. Aquelas gargantas um dia iriam de estourar, ainda mais porque todos eles fumavam e meu avô fumava mais que todos. Meu avô poderia facilmente ser o campeão nacional de fumar cigarros. Na estante de nossa casa havia um arsenal de carteiras de cigarros e eu pegava aquelas embalagens, dobrava-as e fazia a cédula de um dinheiro que me dava muito prestigio entre os meninos da rua. Uma nuvem de fumaça encobria meu avô e os outros velhinhos e era preciso abrir as portas e janelas pra fumaça escapar. De fora seria possível alguém pensar que a casa estivesse pegando fogo.

Minha avó embolava na cama, remexia, levantava, tomava água e voltava a deitar e remexer na cama. Buscava recuperar um sono que fora atropelado num bater de palmas que viera de algum purgatório lhe atanazar. Meu avô dormia fundo, indiferente a penúria que minha avó passava, e era bem verdade que a velha lhe dava umas cotoveladas. Um desejo que ele acordasse e compartilhasse da mesma insônia. O que mais a intrigava era um fio de riso na boca de meu avô. Como se ele estivesse acordado e fingisse dormir. O velho era bem esperto nessas horas.

“Corra dormir, menino”, dizia minha avó, “isso é lá hora de acordar, só pra gente besta mesmo, corra dormir”. E eu voltava pra cama, sonolento, remelando e tentando entender o acontecido. Um bater de palmas havia acordado a casa, uma conversa rápida de minha avó com algum fantasma da noite. Pedaços de uma fala indecifrável. Se eu olhasse as horas perderia o sono, viraria um zumbi igual minha avó que, não conseguindo dormir, acendia uma vela no oratório, ajoelhava e fazia uma reza baixinha, soprada, “assim na terra como no céu, o pão nosso de cada dia nos daí hoje...” e a reza fazia a chama tremelicar e a minha avó varava a madrugada conversando com os santos.

De manhãzinha estava ela com os olhos inchados. Falava com o meu avô de alguma coisa que eu não poderia saber. Talvez por eu ser curioso e dar com a língua nos dentes, talvez porque eles tinham segredos de gente adulta e eu jamais entenderia. Mas uma coisa ou outra eu fui pescando. Tinha algo com uma irmã de minha avó que havia entrado no hospital com a boca torta e um pedaço do corpo parado. Mas tarde um parente chegou em nossa casa dizendo que a irmã de minha avó teria descansando daquela luta. Minha avó correu no oratório, acenderia velas, mas havia dado uma tontura e as mãos tremiam muito.

domingo, 27 de janeiro de 2019

O filho perdido



Dona Aparecida criava nove filhos e havia perdido um no meio do mundo. Tudo por conta de uma mudança que fizera as pressas. Fazia um mês que as chuvas encharcavam o solo e a sua casinha começou a estalar: primeiro as paredes racharam desenhando aqueles mapas, depois o chão começou a levantar, desenterrando sapos e cobras. Foi a conta. Diabo que ficasse mais algum dia naquele barraco. Dona Aparecida pegou os meninos e as tralhas todas, pôs em cima de um caminhão e fincou pé. Morou alguns anos no Magano, na Cohab e por último pousou Boa Vista. Era nossa vizinha, mãe de Abimael e Gracinha, os dois únicos filhos com quem eu tinha contato. Os outros filhos ou eram mais velhos ou eram mais novos. Os mais velhos queriam bater na gente, uma raiva da vida que eles tinham ou coisa assim. Os mais novos viviam remelando e fediam pra valer. De modo que Abimael e Gracinha eram os únicos com quem se podiam viver dentro de uma normalidade. Se bem que Gracinha até fedia um pouco, mas a gente achava ela bem bonita e aturávamos.

Eu sentia uma pena danada de Dona Aparecida. Criava sozinha os nove filhos e para isso topava qualquer serviço que aparecesse. Até serviço de homem ela fazia. Dona Aparecida tinha a força de um boi ou coisa assim. Carregava lavagens para os porcos de Dona Menininha, lavava roupa e depois passava tudo com ferro de brasa — ela soprando o ferro pro tição não apagar —, capinava os matos da Igreja Batista do Planalto, lavava a kombi do relojueiro Cotó, carregava água em tonéis, matava galinha de caipira, barrões barbudos e tudo o que mais aparecesse. Aquela mulher valia por um exército. “O importante é trabalhar e ganhar dinheiro”, ela dizia. Mas a mulher ia se acabando dia após dia. Abimael dizia que a noite era preciso tapar os ouvidos de tantos gemidos que ela dava. Ele e os irmãos até queriam ajudar no trabalho, mas eles quebravam muita coisa alheia ou atrasavam os afazeres e tempo era dinheiro. O pesado mesmo ficava com Dona Aparecida. E cada dia que passava a gente notava que ela perdia um pedaço pelo caminho e chegaria o dia que ela sumiria.

Um dia Dona Aparecida bateu muito em Gracinha e foi preciso os vizinhos acudirem para não acontecer algo pior. Minha amiga ficou uma semana parecendo uma boneca pisoteada com os olhos estufados e roxos. Acho que ela não enxergava ninguém, mas fazia questão de aparecer na porta pra que visem o seu estado e tivessem pena. E tudo porque ela havia dado um passeio de domingo e ficou sem ninguém saber dela. Os irmãos procurando por toda parte e Dona Aparecida a ponto de perder o juízo, dizendo matar quem fizesse maldade ao seu anjinho. No dia seguinte um caminhão parava na porta de Dona Aparecida. Um homem havia encontrado Gracinha, mas ela estava mais ou menos sem roupa e toda desgrenhada com umas mordidas no pescoço. Parecia ter sido atacada por um lobisomem. E por isso mesmo Dona Aparecida bateu nela, pra que tivesse medo de sair de novo e ser mordida no pescoço. Mordida ou chupada, coisa assim.

Abimael também já havia levados uns cacetes da mãe. Tudo por ter achado um dinheiro que não era dele e também não era de ninguém ou coisa assim. Mas um homem apareceu com a polícia e disse que o dinheiro era dele e a polícia quis levar Abimael, acho que pra mostrar onde era que ele tinha achado todo aquele dinheiro. Mas Dona Aparecida disse que o filho dela nunca mais iria achar o dinheiro suado dos outros e o policial deu um tapa na cara de Abimael que fez o chão estremecer e o dono do dinheiro pôs o dedo na cara de Dona Aparecida e depois cuspiu na cara de Abimael.

Eu já ia esquecendo de falar do filho sumido de Dona Aparecida. Era um menino ainda de colo e que naquela mudança as pressas parecia ter caído do caminhão e embolado ninguém sabe para onde. Dona Aparecida achava que o paradeiro de embolar ninguém sabe pra onde, era melhor que ser passado por cima pelas rodas do caminhão. Mas dizia também que ouviu um leve estalo fofo e uma sacolejada do caminhão bem na hora da mudança. E aquilo poderia ser só uma impressão dela de que fosse o seu menino. E ela nunca vivia em paz ou vivia com uma pulga atrás da orelha ou coisa assim.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A bruxa das injeções



Uma moça entrou sorrindo na sala, “essa garota linda vai tomar vacina hoje?”. Era a enfermeira. Jovem, bonita e alegre. Alguma coisa estava errada. Onde estaria a bruxa velha com os cabelos desgrenhados e verruga na ponta do nariz? Onde estaria a cara de enfado e a roupa respingada de sangue? Poderia ser uma estagiária e aquela beleza toda estaria disfarçando um ser demoníaco. Lobo em pele de cordeiro. Seria inexperiente e estaria na sua primeira semana de enfiar agulhas pontudas em criancinhas inocentes. Teria acordado naquele dia com um único pensamento: furar todas as criancinhas do mundo. Uma, duas, três vezes. E a minha filhinha de dois meses seria a sua bonequinha de espetar agulhas. Um vodu de carne e osso.

A enfermeira ficou de costas para mim e trocou umas duas palavras com a minha esposa. Que teria dito? Depois alisou os cabelos de minha filha, “que amorzinho que ela é”. Minha filha parece ter um geniozinho difícil, já se percebe a rebeldia em esticar o corpo, estapear a mamadeira e nos meter beliscões, mas das palavras da enfermeira em diante, ela ficou um “amorzinho”. Que diabo estava acontecendo?

A enfermeira virou-se pra mim. Seria agora que ela me transformaria em sapo ou lesma. “O senhor pode entregar o cartão de vacina?” — Antigamente o cartão de vacina era um pedacinho de papel cheio de carimbos e datas. Trazia ainda uma foto grampeada que logo era salpicada pela ferrugem. Exibir o maior número de carimbos fazia-nos levantas o queixo e estofar o peito. Valentões, sim senhor! — A enfermeira ficou rabiscando a cartão, virando páginas e fui ao encontro da esposa que me chamava com um gesto de cabeça. “Pode deixar que eu seguro ela, precisa você segurar não”. O que era isso agora, teria a enfermeira enfeitiçado minha esposa? Fazia poucos segundos que ela estava apavorada e agora arrumara a coragem de enfrentar o fogo cruzado. “Não, eu seguro, pode deixar”, disse eu, abraçando minha condição de pai. “Pode deixar que eu seguro”, decretou a esposa. Estava sob feitiço, pobre criatura. Nossa filha a beira do abate e ela entregando-a de bandeja.

“Vamos então a primeira dose, essa é molezinha”, disse a bruxa trazendo a bisnaga para a boca de minha filhinha. “Acorda, neném, acorda”, continuou a bruxa, docemente. “Hoje ela tá muito preguiçosa”, disse a esposa. “Eita, que olhão bonito”, disse a bruxa. “Acordou mamãe!?” disse a esposa. A bruxa pegou a segunda dose, seria a primeira das três injeções. Levantou a seringa, deu petelecos e esguichou um pouco do líquido para tirar o ar. Dizem que se o ar entrar na seringa a pessoa pode aleijar e tudo. Se isso acontecesse eu a queimaria viva ali mesmo com ou sem apoio da Santa Inquisição.

 Minha esposa já havia baixado a roupinha da nossa bebê. “Deus do céu, que coxa mais gostosa”, disse a bruxa. “Dá última vez que a pesei ela tava com cinco quilos e quinhentos”, disse a esposa. Ela é bem crescida pra ter apenas dois meses”, disse a bruxa. Estavam amigas, era isso? Agora o mundo poderia acabar, mas o papo deveria ficar em dias. “Segure a perninha pra ela não se mexer”, disse a bruxa. “Tá certo!”, disse a esposa, mas agora o “Tá certo!” saiu baixo, arrastado, tremulo. Por fim a esposa estava se livrando do feitiço, tornando em si, mas já era tarde demais.

(Continua)