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Salto no abismo

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Ela pensa que sabe voar ou ela sente que sabe voar e isso lhe imprime confiança na hora de se jogar do sofá. Eu conto até três e disparo, energicamente, o "e já". É o gatilho esperado. Poderia contar até dez ou até cem, ela sempre espera o gatilho, nunca antes do "e já". Então ela pega impulso e salta do sofá com os braços abertos igual o Superman. Seu eu pudesse a colocaria numa redoma ou qualquer coisa dentro de um campo de forças. Sei que um dia ela irá se machucar. Cairá mais grave além dos joelhos ralados e verterá mais sangue do que se pode limpar com um chumaço de algodão. Irá gritar com o ardor do merthiolate ou mercúrio. Usará algum band-aid colorido na perna ou testa e só a possibilidade disso já me dói.  Estou deitado em um colchão estendido na sala e se algo sair errado ela cairá na espuma. Ela fica um segundo no ar igual um drone doméstico. Tem os braços e as pernas abertas igual aos paraquedistas quando saltam a quilômetros do chão. A seguro com as mão

Os meninos Schwarzenegger e Stallone

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Cresci assistindo aos filmes de socos, chutes, facas cravadas e tudo mais. Dois atores reforçaram o meu imaginário de pancadaria e de menino magricela. O Schwarzenegger e o Stallone. Os maiores ícones. Só depois é que viriam o Van Damme e o Dolph Lundgren, mas num grau menor. Schwarzenegger foi quase tudo: Mister Universo, governador da Califórnia, empresário de fisiculturismo e, claro, foi o John Matrix  no clássico filme ‘Comando para matar’. Fez também filmes de comédia e sempre foi mais versátil. Empreendedor, para usar um termo presente. O Stallone fez um filme de comédia e graças a deus ficou por aí. Sua praia sempre foram os filmes de atirar (Rambo) ou levar murros, principalmente levar murros (Rocky). Aliás, ‘Rocky: um lutador’, 1976, é um clássico absoluto! Esses dois veteranos: Schwarzenegger 73 e Stallone 74, estão mais uma vez de parabéns! Schwarzenegger pela dramática interpretação de ‘Em busca de vingança’, onde perde a esposa e a filha grávida num desastre aéreo.  E o St

Crônica dos sovacos e das axilas

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O óvulo é uma espécie de paraíso! Era mais ou menos sobre isso aquela aula. E aí teve aquele lance do “muitos serão chamados, mas poucos serão escolhidos.” A professora, em algum momento da aula, soltava essa cantilena. E acrescentava, “bem poucos.” E, por uma pirraça diabólica, olhava para Gileno que naquela semana tinha feito uma tatuagem de escorpião. Geralmente a professora olhava para Gileno porque ele raspava a cabeça, usava anéis de caveira e sentava com as pernas muito abertas. Por algum motivo aquilo era intolerável para ela. Talvez porque ela vivesse milimetricamente alinhada nos vestidos e nos cabelos presos num coque imutável. Aquele prender de cabelos esticava-lhe o couro da testa e lhe tirava as rugas. E ninguém nunca a viu com os cabelos soltos.  Todo mundo queria ser amigo de Gileno porque ele era perigoso e botava medo nos bundões metidos a cavalo do cão. E também porque Gileno arrotava alto e fazia sons divertidos com os sovacos. E foi homérica a discussão que Gileno

Crônica do irmão e do óvulo

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Primeiro o bebê é um sapinho batendo o rabo até chegar ao óvulo. Não propriamente um sapinho, mas uma bolinha escurecida e com um fiapo vibrante. E é assim que ele vai se virando. No caminho até o óvulo este bebê nadador encontrará outros bebês nadadores. Entre eles poderia haver um “oi”, um vamos em frente, você consegue”, um “desse lado está melhor de nadar, tem vácuo e tudo”. Os bebês ignoram-se, seguem mudos, calados, afônicos...  São irmãos deixando irmãos para trás. Se um deles tiver câimbra, se torcer o rabo, se engolir mucos, se errar o caminho… Cada um vai seguindo a sua sorte. Mas eu me pergunto: e se eu tomei o lugar de um irmão nadador que seria melhor do que eu? Digo, se cheguei ao óvulo primeiro do que um irmão nadador que seria um ser humano melhor do que eu? E ainda pergunto: e se aquele irmão que quase entrou no óvulo, faltando só um pouquinho, e se eu esbarrei nele, se lhe passei a perna (no caso o rabo), se fui calhorda e me aproveitei de um caminho quase aberto, e s

Crônica da salvação do mundo

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A mentira pode salvar a humanidade! Acordei com essa ideia na cabeça: mentir para salvar! Falo daquela mentira mais asséptica. Um tipo de mentira que até os padres contam! Um tipo de mentira que não leva ao inferno, o leitor pode ficar tranquilo. Falo da mentira que se conta e o mundo continua em rotação e translação. Pois veja se não é. Suponha que você, andando pela rua, de repente encontra um amigo que não vê faz tempo. Então você pergunta, “como vai, tudo bem?” E em seguida solta aquela mentira, “você não mudou nada, continua do mesmo jeito!” Pronto, perfeito. A pessoa interpelada diz que não, a pessoa interpelada agradece, a pessoa interpelada diz o mesmo de você, que também não mudou nada, que o tempo foi generoso. Dois mentirosos. Um aceitando a mentira do outro e o mundo seguindo em frente, feliz! Sim, é possível ver um arzinho de riso, um fiozinho arqueado no canto da boca. Felizes, sim senhor! “Apareça qualquer dia,” você diz. “Apareço sim, pode deixar”. Responde o mentiroso.

Crônica de um filho que quer nascer

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Meu filho João é impaciente. É provável que roa as unhas, bata o pé em tique nervoso ou puxe fiapos de cabelos. João ainda não nasceu. Falta pouco mais de dois meses, setenta, oitenta dias. Mas, pelo andar da carruagem, posse ser que venha antes. Minha esposa abre um aplicativo e mostra como João está. Aquele não é o nosso João, mas nos deixamos ludibriar pelo aplicativo. Dizemos, "olha como já está grande." O aplicativo informa que João está com o peso de uma goiaba, uma pêra, um abacate. Da última vez João tem o peso de um repolho.  O aplicativo é uma rede social de mulheres grávidas. Elas trocam informações mesmo depois das crianças nascidas. As melhores pomadas, lenços umedecidos e fraldas. Há queixas de que as crianças estejam nascendo antes do tempo. “O meu veio com trinta e seis semanas.” E seguem assim, meio que numa disputa, “a Gabriela veio com trinta e quatro, se perdia na palma da mão de tão miúda”. João está no ventre, flutuando num balão de placenta e líquido a

Crônica de uma criança com um par de meias

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Certa vez calcei minha filha com as minhas meias. As dela eram de cano curto e haviam criado bolotas, verrugas de pano. Cliquei o player e um tutorial dizia para usar o estojo de barbear. Tiro e queda contra as bolotas verruguentas! Não o fiz. Assisto tutoriais, maratono, para um dia, no meio de uma conversas sobre coisas úteis, ter o que dizer. Vocês sabiam que pasta de dente é ideal para tapar aqueles buraquinhos de pregos? Os ovos cozidos devem ficar doze minutos em água fervente, nem mais, nem menos! Não devemos balançar os nenéns, os miolos podem chacoalhar na caixa craniana e desprender a massa cefálica. Esses dias nunca chegam e os tutoriais amontoam na cabeça.  Como eu ia dizendo, certa vez calcei minha filha com as minhas meias. Lembro dela colocando os pezinhos e franzindo as sobrancelhas. Sempre que se depara com o desconhecido pega as sobrancelhas e as franze. É sua maneira de perguntar o que é isso, se isso morde e se isso pode? Herdou esse gesto de mim e no futuro saberá