Gostar de canários



Não tenho forças para gostar de canários e tudo porque gostar me faria sofrer. Sim, a gente sofre um bocado com as coisas que gosta. Sofremos também com as coisas que odiamos, mas o ódio, por estar muito próximo de desprezo, acaba se diluindo com uma coisa e outra e se tolera. Mas quando gostamos de algo sofremos um bocado. O meu gostar seria revolucionário e constrangedor. Por exemplo: se eu gostasse de canários e visse o bichinho preso, não daria outra, respiraria fundo e o libertaria da gaiola. Vá, meu bichinho, vá e ganhe os céus, eu diria dramatizando o gesto libertador. Em seguida eu quebraria a gaiola em trocentos pedaços, aniquilando aquela prisão.

O problema é que não conseguiria soltar todos os canários do mundo. E, sejamos sinceros, o que eu conseguiria seria encrencar-me com meio mundo de gente. A encrenca número 1 seria com os donos de canários. Senhores bigodudos, barrigudos e com uma lasca de capim seco entre os dentes. Não tenho dúvidas que socos, facas e tiros encontrariam o meu corpo justiceiro. A encrenca número 2 seria com a justiça. Algum juiz opulento, — se eu sobrevivesse aos socos, facas e tiros — me poria na cadeia. Iria ao xilindró, veria o sol nascer quadrado por umas duas décadas. E pergunto, que advogado conseguiria tese que sustentasse minha absolvição? Senhores jurados, — diria o advogado — acreditam vocês em reencarnação? Pois digo que este homem é a reencarnação de são Francisco de Assis, o santo protetor dos animais. Se este homem praticou os crimes de soltura e destruição de gaiolas, foi por obedecer ao espírito do santo. Se existe crime cometido, não é culpa deste homem — e me apontaria o dedo e todos me olhariam —, este crime foi cometido pelo espírito que o habita. Condenem o espírito, poupem o corpo ventríloquo, o corpo marionete, o corpo voodoo.

Gostar de canários me traria enormes problemas como se pode ver. Se bem que... Se bem que eu poderia fazer um troço atribuído a meu pai. Contam que na juventude meu pai teria trabalhado em feiras pelo interior de Pernambuco. Vendia chapéus e botas. Terminando o expediente ele comprava um passarinho e o soltava na mesma hora e na frente de quem o vendeu. O homem ficava uma fera, sentia-se enganado, ao que meu pai rebatia que, tendo comprado a ave, faria dela o que bem entendesse, inclusive um ser livre. Filhinho de peixe, peixinho é.

Agora veja mesmo o tamanho dessa judiaria. Uma senhora de uns oitenta anos chegou as presas com seu canário em uma clínica veterinária. A mais cara para que mostrasse o maior amor pelo bichinho. Era o melhor cantor do mundo — ela dizia ao veterinário —, nunca tinha visto uma coisa dessas, uma afinação que só mesmo vendo, quer dizer, ouvindo, mas de uns tempos pra cá ele se calou. Dei o melhor alpiste e água só se fosse mineral, mudei o Julinho de lugar, pus ele perto do rádio e da televisão. Nada do meu menino cantar. Estava realmente triste aquela senhorinha. Queria mesmo a melhora de seu bichinho e sofria com isso. Há um detalhe que não posso deixar de mencionar. O canário se chamava Julio Iglesias! Porque a ave teria vindo da Espanha e teria um canto com sotaque madrilenho, segunda a velhinha.        

Pois o canário estava sem cantar fazia dias e a senhorinha sempre muito triste. Até lhe bater na cabeça a ideia de levar o pobre até a clinica. Pediu pelo amor de Deus que o veterinário devolvesse o canto ao Julinho. O veterinário percebeu algo estranho com a ave. Estava manquejando. Que seria aquilo? Ao pegar o bichinho viu que o pobre tinha um anel de metal na pata direita, colocado logo nos primeiros dias de nascido. Era um anel de identificação para um caso de fuga ou roubo e que foi colocado por amor. Tinha um chip embutido e enviava sinais para um GPS, tudo ideia de um neto metido a hi-tech. Com o passar do tempo Julinho foi crescendo e o anel começou apertar. Agora a pata de Julinho estava numa gangrena só e não havendo reparo, nem emenda, o jeito foi amputar com um alicate. Nessa hora o bichinho esperneou e a senhorinha vendo o toco da pata pendido de lado, caiu no choro. Meu Julinho, meu menino, meu menininho.

E o certo é que o nosso Julio Iglesias não tinha canto madrilenho, nem nada. Era tudo gemido, dor e agonia até calar de vez. E fico aqui pensando se o canto dos canários não são um acorde de choros e lamentações? Mesmo esses canários selvagens, nascidos e crescidos soltos no mundo, cruzando os céus e se embrenhados nas matas, não estariam eles chorando os irmãozinhos presos? Mesmo os irmãozinhos bem tratados com alpiste, água mineral e anel de identificação. A senhorinha voltou pra casa com um Julinho que batia as asas para se equilibrar numa perna só. Levava a perninha decepada no bolso.

Futebol nosso de cada dia



Vai ser o melhor do mundo, o pai do guri jogador dando entrevista, orgulhoso e papudo, os olhos liquefeitos, é um menino com a cabeça no lugar, fez um gesto no ar como se fosse a cabeça do guri jogador, celular da moda e chuteiras da moda, só tem vaidade com isso, no mais, não mais, caso raro para a idade do jogador, o repórter comenta, caso raro, nessa idade outros jovens querem carros e baladas, alguém do lado diz, duvida que ele não pegue uma maria-chuteira, bote no carrão e bola pra dentro, ra ra ra.

A reportagem corta pro guri jogador vestido com a camisa do melhor clube do mundo, a nova promessa do futebol brasileiro, ágil, corta pelo meio, pela lateral, cisca pedala dribla e não cai, não cai é maneira de dizer, aqui no Brasil tudo cai, todos caem, enfim o guri jogador não cai tanto como se vem caindo ultimamente, é a nova jóia do futebol brasileiro, o novo Pelé, alguns dizem, o novo Pelé, aí surge o risinho de alguém do lado, alguém que rir em ra ra ra, no fundo da cabeça desse alguém o macabro demo soprando dizeres, só se for o Pelé pela cor, porque Pelé só tem um, o macabro demo massageando o cérebro daquela proeza, aquela assertiva, só na cor, guri, só na cor, ra ra ra.

Se fosse no Brasil, veríamos o guri jogador vestindo a camisa do clube por cima de uma camisa pólo, aquela breguice, aquele emarfanhado de gola por cima de gola, manga por cima de manga, dobra na logo da Petrobras quando a Petrobras era altaneira, em lá Espanha, em lá Madrid é diferente, o jogador já chega vestidinho, blusa colada, músculos saltados, 4% de percentual de gordura, gomos e gomos, cliques e cliques, aperto de mão com o presidente Florentino, o velhinho galáctico, sorrisos e cliques e cliques.

A reportagem corta pro guri menino subindo o túnel do Santiago Bernabéu. Último degrau, mais alguns passos e o guri menino pisa com o pé direito e toca a grama e se benze e a torcida grita e tira fotos e o guri jogador faz embaixadas, as mesmas embaixadas de sempre, bola no pé, bola na coxa, bala no peito, meio peito meio queixo, bola na cabeça, bola atrás do pescoço, o ápice da mesmice, alguém diz que isso não é jogar futebol, quero ver na hora do jogo, onze contra onze, Pelé sim, Pelé sim, esse aí só na cor, o risinho esticado na boca, o macabro demo massageando o cérebro proeminente.

O guri jogador terá a missão de substituir Cristiano Ronaldo, o robozão, o maior artilheiro da Champions League, o autor do gol mais bonito da Champions League, o pica das galáxias que mais deu passes pra gols na Champions League, terá vaga no time, pergunta o ancora aos especialistas que nunca jogaram futebol e aos especialistas que sempre jogaram futebol, acho que o guri jogador será emprestado pra algum time de segundo escalão, diz um especialista que nunca jogou futebol, ganhar experiência por uns dois anos, adaptar-se ao clima europeu, os especialistas que nunca jogaram futebol concordam entre si, os especialistas que sempre jogaram futebol ficam reticentes, nutrem a torcida no menino estourar de cara, realizar o sonho de menino de periferia, eles se veem nele, no guri jogador, aquela vontade de jogar com os pernas-de-pau de hoje, só brucutus, só brucutus, os especialistas que sempre jogaram futebol dão arrudeios na resposta, driblando, pedalando a resposta, os especialistas que nunca jogaram futebol falam bem, colocam as concordâncias e os plurais, estufam os peitos flácidos, se impõem, os especialistas que sempre jogaram futebol ficam ali, naquela coisa de driblar os plurais, firulando pedalando ciscando, substituir CR7, diz alguém do lado, nem na cor, guri, nem na cor, ra ra ra, o macabro demo massageando a fineza argúcia.

Opinião sim, opressão não



Impressões sobre o FIG. Se analisado pelo viés conservador (que existiu) ou viés religioso (que existiu) ou viés dos eleitores do mito (que existiu) ou viés dos saudosos de uma ditadura (sim, existiu), este foi sim, o pior FIG. Agora, se analisado pelo viés da luta por inclusão (que existiu) ou viés da ruptura que a arte propõe (que existiu) ou viés de que o grito entalado na garganta foi solto (sim, existiu), este foi sim, o melhor FIG.

Curioso que mocinhos viraram vilões e vilões viraram mocinhos. Artistas admirados (que nos fazem sair de casa), de uma hora para outra, viraram vilões blasfemadores e mataram o FIG com requintes de crueldade (goste ou não, eles possuem o direito de falar o que falaram, afinal, vivemos em uma democracia, não é mesmo?). Curioso que políticos sempre criticados, (que nos fazem ficar em casa), de uma hora pra outra viraram salvadores da pátria, heróis angelicais voando sobre nossas ruas esburacadas, sobre nossa falta de emprego e violência crescente. Um bater de asas que enxota professores e opositores (goste ou não, os políticos possuem o direito de serem amados, afinal, vivemos em uma democracia, não é mesmo?).

Abaixo as divisões, abaixo os julgamentos. Abaixo quem é de Deus e quem é do Diabo. Vamos juntos, de mãos dadas.

No mais, Lula livre e um beijo pras travesti!

Prova de amor maior não há



Jesus está voltando, glória glória aleluia, hoje na cidade do sapo barbudo, a cidade do nove dedos, Luladrão, hoje à noite na cidade: o dia do juízo, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céuo maior pandemônio do século, quebra pau, barraco, apocalipse, é melhor jair se acostumando, dizem e repetem os soldados romanos, é melhor jair se acostumando, quem já viu um Jesus traveco, com o filho de Deus não se brinca, e se meu filho perguntar se Jesus é homem, eu vou dizer o quê, é dinheiro público, é meu dinheiro, temos que botar ordem na casa, esses viados querem respeito e não querem respeitar, só quem quer essa bagaça aqui são os comunistas, esse traveco é do PT, quem é esse desembargador que permitiu essa safadeza, isso é aquela gente dos direitos dos manos com aqueles professores de faculdade, aqueles grevistam que não querem trabalhar, aposto que vão tirar a roupa e fazerem amor entre si, essa gente aí é assim...  nem todo mundo verá Jesus Cristinho, os soldados romanos querem quebrar Jesus Cristinho ao meio, enforcar, crucificar, já pensou, Jesus assim nesse morre-morre entre os séculos, Jesus Cristinho morrendo e vivendo, vivendo e morrendo e voltando e sendo morto pelos soldados romanos, os assassinos que são filhos de Deus e irmãos de Cristo, já viu, já reparou, esses irmãos se matando, tipo Caim pegando um osso e matando Abel, os miolinhos de Abel no chão, os miolinhos se mexendo, lesminhas lesminhas, Caim lá, morto de inveja e ainda metendo o osso no goela de Abel, estourando os miolos e metendo o osso goela abaixo, o demo pregando justiça, o demo sendo ouvido: bandido bom é bandido morto, e Caim dizendo a Abel: é melhor jair se acostumando, e o assassino de Abel, Caim, o invejoso, possesso, sem saber os demais dilemas da vida, só sabendo mesmo que bandido bom é bandido morto, e hoje, olha isso, hoje, Caim quer porte de armas, essa coisa de matar com pedaço de osso é o maior atraso, Caim agora quer porte de armas igualzinho aos Americanos, os Americanos de verdade, que formam uma civilização avançada e estão no céu, além das nuvens, estão no céu e com armas na cintura, os Americanos da América de verdade, que é a América do norte, vivem lá no céu porque matam os seus Abels, porque bandido bom é bandido morto e lá eles apontam armas de verdade, aqueles canos de ferro e aço, aqueles canos cromados de titânio e adamantium, tudo cromado, tudo grafite fosco, e os soldados romanos da América de mentirinha, os soldados romanos da América de merda, os soldados romanos aqui, macaqueando macaqueando, os soldados romanos aqui, apontando com os dedos, fazendo mira com os dedos, assim: pegando os dedos e fazendo de conta que são armas poderosas, tipo 38, tipo pistolas e bazucas, os soldados romanos aqui, estagnados, os soldados romanos da América de merda, essa América fake de facebook, sem filmes e séries de ação, só essas chanchadinhas em preto e branco, os soldados romanos babando os Americanos da América de verdade, os trampizinhos que usam armas e matam seus Abels, e os soldados romanos aqui com esses dedinhos magros, subnutridos, engravetados, os soldados romanos ensinando nossas criancinhas a fazerem aquele gesto da arma, aquele gesto de tiro, colocando as criancinhas no colo e fazendo aquele geste de tiro com o dedo, os soldados romanos com os dedos melados de merda, os soldados romanos da América fake querendo ser uma espécie de trampizinho, querendo trampizar, querendo mitar mitar, querendo parar de brincar com o dedo, essa coisa de país subnutrido, subalimentado, suburbano da América falsa, América fake de facebook, os soldados romanos querendo porte de armas porque só Deus no coração não basta e é preciso uma arma na cintura pra proteger os seus lares e as suas famílias, uma arma na cintura e Deus no coração pra se sentirem seguros e matarem os Abels e o Jesus Cristinho, hoje à noite na cidade, o dia do juízo, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, hoje na cidade do sapo barbudo, a cidade do nove dedos.

Kuki



Kuki apareceu pela última vez num fim de tarde. Vestia uma camisa da seleção e empurrava um carrinho de supermercado. Parava de porta em porta, pedindo alimentos e roupas usadas. Zico, Sócrates, Júlio César... O Brasil inteiro havia perdido pênaltis naquela Copa de 86. Kuki ganharia aquelas camisas. Mantos de mais uma derrota em diversos números e tamanhos.  

Kuki trazia uma cachorrinha raceada com pastor alemão. Filha, comigo Filha, chega neguinha! E lá vinha a filhote, pulando e cabeceando suas pernas.

— Ela morde?
— Morde, mas não morde. Safada só tem faro. Uma égua!

A avó Virgulina trazia água num cantil de barro e uma caneca de alumínio. Kuki bebia. Largas goladas, sons de engulhos e o pomo de adão galopando. Filha pulava e latia em desespero. Kuki fez uma concha com a mão e despejou água. A cachorrinha bebeu apressada, os olhos no dono, agradecida.

Filha fora achada nos matos de Heliópolis. Três garotos acuaram-na, sacudindo as bombas que sobraram da Copa de 86. Filha socando-se nas moitas a buscar refúgio, o coraçãozinho espocando nas costelas. Kuki enxotou os meninos. Riquinhos filhas da puta, bando de merdas sem pai, nem mãe. A senhora desculpe os palavrões. Aqueles demônios iriam matar a bichinha.

Ali estava o São Francisco das ruas de Garanhuns. Um sem teto a socorrer a cadelinha assustada e empestada de carrapichos na pelugem.

— Foi amor a primeira vista, num foi, nega?!

Kuki aparecia de tempos em tempos e daquela vez a magreza havia acentuado. O avô Zevito espantou-se. Um espigão! Comparou Kuki com Sócrates. Diabo que ache um pelo outro, — resmungou a avó Virgulina, ainda com raiva do pênalti perdido pelo jogador.

O avô Zevito estava certo na comparação. Kuki emagrecera em demasia, desleixava com a barba e cabelo. Quem lhe pusesse uma camisa do Corinthians teria o seu Sócrates. Mas o nosso Kuki era mais envelhecido, desgastado pelo tempo nas ruas. Sol e garoa teriam lhe pesado muito nas costas. O avô Zevito pediu a Kuki que subisse a camisa até o peito e constatamos o corpo encaveirado, pipocado de comichões.

Os avós socorreram o desgraçado. Deram comida, ordenaram que tomasse banho e ofereceram um quarto no quintal, onde se guardava ferramentas e tralhas. Viveria independente da casa, sem dever satisfação. Teria água, luz e comida. Um endereço. Kuki meteu-se em choro, coçou a cabeça, disse que era um bicho do mundo, parido e criado no mato. No começo achei que tudo aquilo fosse orgulho e tive raiva de Kuki. Dispensar a boa vontade dos avós para viver no oco do mundo, emagrecendo e fedendo, fedendo e emagrecendo todos os dias da vida. Depois é que percebi a grandeza de Kuki. Não queria incomodar os avós, ocupar um espaço com seus cacarecos, seu cheiro e seu espírito.

Lá se foi Kuki subindo a rua. Vestia uma camisa da seleção, empurrava um carrinho de supermercado e parava de porta em porta. Filha rodopiava em suas pernas, agradecida por ter um amigo. Foi a última vez que o vimos.


Sacrossanto



O padre Gabriel fez uma pausa. Olhou para a testa de todos, onde fizera uma cruz com borras de cinzas, depois subiu o pomo de adão e trouxe o microfone até a boca:

— São Pedro foi um mártir e o crucificaram de cabeça para baixo para que morresse afogado com o próprio sangue.

Na manhã seguinte a avó Virgulina acordou com um gosto de sangue na boca, cuspiu na pia e fez gargarejo com leite de magnésia. A noite, acendeu uma fogueira para a alma do santo crucificado de ponta cabeça.

Por três vezes o padre Gabriel havia se benzido e por três vezes disse que São Pedro havia negado Jesus. Peguei raiva do santo acovardado. Cristo sofrendo humilhações, molhado em suor e sangue, carregando uma cruz de timborana, agonizando os últimos instantes e São Pedro virando-lhe as costas.

— Frouxo cagalhão, isso sim!

Pensei alto e a avó Virgulina puxou-me na orelha. Passei o dia sem tevê e merenda. Galego, o irmão do meio, comia e bebia a minha parte. Que morresse engasgado, ele e o santo cagalhão. Moreno, o irmão mais velho, trazia pedaços de bolo escondidos na blusa. Migalhas para o irmão que se revoltava contra o mártir da avó.

— Se fosse santo, teria derrubado os soldados, libertado Cristo. Amigo da onça. — Resmunguei.

Moreno olhou em volta, receoso dos olhos da avó Virgulina. Cochichou que os santos não eram tão poderosos e só tinham poder depois que morriam, não podendo entrar em guerra de ninguém. Só ajudavam as pessoas para se casarem, passarem de ano e conseguirem empregos. Em troca exigiriam que as pessoas rasgassem os joelhos no chão, rezassem e levassem ramos de alecrim acompanhando procissões. As demais questões ficavam com os homens e Deus.

A fogueira da avó Virgulina estalava a madeira seca. Bolinhas de fogo subiam e apagavam. Sacudi umas pedras e as bolinhas saltaram aos milhares. Um empesto subindo aos seus e depois apagando.

— Sou o Deus criador de vaga-lumes, centenas, milhares, milhões!

A avó Virgulina puxou-me na orelha. Estava profanando a fogueiro do santo. Heresias, blasfêmias. Um desrespeito! Voltei aos castigos sem tevê e comidas de milho. Galego metia cangicas, pés-de-moleques e pomonhas na boca. Fartava-se comendo a minha parte. Que morresse engasgado, ele e o santo. Moreno estava longe, entretido com a vizinha vestida de matuta. Mais tarde os dois iriam desaparecer e a rua toda falaria que foram perder o cabaço.

Escutei que as tias chegavam, traziam comida e perguntavam por mim. Por um instante virei assunto. Alguma tia se apiedaria de mim e repreenderia a severidade da avó Virgulina. Que nada! Logo o cabaço de Moreno viraria assunto. As tias clamariam a avó que não castigasse a volúpia do neto fujão. Se o pai de Gracinha fosse brabo, Moreno morreria cortado de faca. Uma imprudência sem tamanho. Mas, o bebão não aguentava um sopro de vento e a fama era que ele é quem havia descabaçado a filha.  

Uma tia abriria a porta do quarto, acenderia a luz e chamaria pelo sobrinho que atentava contra os santos da igreja católica. Fingi que estava dormindo. Evitaria vergonhas e explicações. “Não concordo com São Pedro, sua covardia e sua santidade.” As tias colocariam pilhas na avó Virgulina: esse menino é o diferentão, a senhora corte essas maluquices enquanto pode com ele... E a avó aumentaria o castigo confinando-me num quarto escuro para sempre. Melhor fingir que dormia. Pois sim.

A tia havia se apiedado de mim. Trouxe um prato e deixou no pé da cama. Passou a mão em minha testa — a mesma testa que o padre Gabriel havia feito uma cruz de cinza.

— Coma tudo e esqueça esse santo de merda!

Mágica de irmão


O irmão soprava as nuvens e elas formavam bichos medonhos tapando o sol. Imensos algodões que se partiam e juntavam com outros pedaços. Um quebra cabeças que ele montava soltando o ar dos pulmões.
— Não estou conseguindo moldar as nuvens com a força da mente. Quando é assim, só vai soprando mesmo. — Reclamava num tom que mostrava mais superioridade que chateação.
O irmão ficava vermelho, precisando sentar um pouco e tomar fôlego. Dizia ter nascido com super poderes. O único irmão abençoado por Deus! Loiro, olhos verdes, e uma mania de viver asseado, cheirando a alfazema. Nossa avó o repreendia. Tivesse humildade, Jesus havia sido bem maior, mesmo sendo bem menor.

— Duvida você transformar aquela nuvem num rinoceronte! — Desafiei o irmão.
— Agora não quero, cansei.
— Conversa fiada!
— Não é fácil soprar isso tudo, guri. Nuvens pesam toneladas. 

O irmão ia me ganhando na conversa. Teorizava sobre a matemática do sopro, técnicas e aerodinâmicas. Uma pedante chateação, até que, de uma hora pra outra, ele mandou olhar pro céu.

— Vê lá, Gurizinho, teu rinoceronte nas nuvens. Fiz que você nem viu, otário!
— Parece mais é uma girafa.
­— É um rinoceronte, desses mais modernos, mas só vê que é inteligente, guri. — O queixo do irmão saltava pra frente, mania que ele tinha em dar assunto por encerrado. Um dia Mike Tyson acertaria um soco naquela queixada. O irmão dizia que Tyson só derrubava lutadores mexicanos. Tudo bunda mole. O dia que pegasse um pernambucano ele beijaria a lona!
— A senhora vê rinoceronte no céu, vó? — Perguntei.
— Nem vejo no céu e nem vejo na terra.
— A senhora acha que quem ver isso é inteligente?
­— Inteligente é quem olha e ver o Deus Pai! Diabo rinoceronte. Vão arrumar o que fazer.

E o queixo do irmão foi murchando, beijando a lona.
(Arte: Pinterest)

Um dia de rei


Para algumas pessoas a vida é uma colher de papinha que vem em aviãozinho direto na boca, nhac. Mas, para a maioria, a vida é um osso duro de roer. A minha e a sua deve ser esta segunda, um osso miúdo, sem nacos de carne e entalado na garganta. A colher de papinha passa por nós sem fazer escalas, ainda assim abrimos a boca, vá que seja o nosso dia. 

Fico olhando as pessoas simples, as criaturas mais doloridas, que realmente levam uma vida difícil. Pessoas que vivem no prego e na ferrugem. O frentista, por exemplo. Contava ele que tinha vergonha de chegar em casa e não puder abraçar a filhinha que lhe vinha correndo, papai, papai. Ele driblando a pequena, correndo ao banheiro. Só depois do banho é que punha a filha no braço, mas aí a menina fazia birra, virando a cara e pedindo os braços da mãe. Se eu abraçasse minha filha ela ficaria fedendo a gasolina. E o frentista metia-se a tomar banho esfregando bem as unhas pra tirar o cheiro de uma vida inflamável. Já na hora de dormir, ele sonhava com outro trabalho, um que impregnasse menos o lanhoso cheiro do seu dia. Procurava tocar a esposa, ensaiava chegar com um carinho na orelha e da orelha adiante. Reprimia-se. Julgava-se fedorento. 

A esposa importunava. O dinheiro não chegava nem para comprar misturas. Aquilo lá era vida, Deus haveria de ver aquelas marteladas no dedo e penitência. Deus era pai! E os dias passavam, as roupinhas da menina, chinelos, brinquedos... Tudo passado de segunda mão. Não sobrava dinheiro para uma coca-cola no almoço de domingo. A esposa sabia, claramente, que não podia sonhar em bater bolos, pudins, purês ou qualquer merenda que pulasse o feijão com arroz e ovos. E ensinava a menina colocar farinha na comida, inchando o prato e a barriga. Aquilo não era vida, aquilo não era emprego. Jogava na cara do frentista. 

No dia seguinte estava lá o homem com a bomba de gasolina na mão. Completa aí, fera! E ele completava, enchendo tanques de landrover e hiluxs. Onde aquelas pessoas conseguiam dinheiro pra matar a sede daqueles mondrongos? Abraçariam suas filhas, dormiriam com as unhas pretas, comeriam ovos, derramariam farinha no prato, tomariam uma coca-cola num almoço de domingo?

 (Imagem: Pinterest)

Caminhoneiros e o Presidente


Três homens sentados à mesa, todos do mesmo lado e mesma cara bovina. Se voltássemos no tempo, diríamos que são alunos rebeldes e que entupiram o cadeado com um palito de dente, impedindo a passagem dos colegas na hora do recreio. Agora estão diante de um coordenador, odioso e colérico.  Mas, voltemos ao presente. Os três homens esperam alguém dá o play na filmagem do celular, que treme um pouco, mas estabiliza. É a deixa pra começarem a falar. Um deles, o da ponta direita, é advogado, tem tique nos olhos e começa a ficar nervoso, desfazendo a fuça bovina. Agora o homem é um Rottweiler e logo espumará nos cantos da boca.

O advogado toma a palavra e vocifera contra o presidente do Brasil também conhecido como mordomo do Conde Drácula ,  você não pode ser Deus, você é corrupto presidente, você está acabando com o país, você é o nosso câncer, diz, ainda mais exaltado e dando tapas na mesa.  Copos descartáveis balançam na tábua, mais um pouco de força e tombariam. O país são estes copos, balançando sempre numa corda bomba. Mais um golpe e o país tombará de vez.

Os outros dois homens ficam sentados, as caras bovinas e uma certa angústia esperando a vez de falar. Se voltássemos no tempo, diríamos que é a angústia de quem apresenta trabalho no colégio. Ficar esperando a deixa do colega, pedir a Deus pra que o amigo nerd demore um pouco mais ou uma bomba exploda ou toque o fim da aula. Mas, voltemos ao presente. Os outros dois homens ouvem o advogado nervosinho, agora espumando nos cantos da boca. Os dois homens piscam os olhos cada vez que a mesa é estapeada.

O homem sentado ao meio é o representante dos Caminhoneiros Autônomos. Começa a falar contra a grande emissora de tevê do país. Primeiramente eu queria dizer que não fui chamado pra nenhuma conversa, meu telefone pega o aparelho e coloca sobre a mesa estapeada não tocou em nenhum momento, então não venham dizer que falaram comigo, isso é mentira. Esta emissora apoiou a ditadura e apoiou o golpe contra a presidenta. Vocês estão com o cu não mão, seus mercenários.

A câmera do celular procura abrir um zoom, mas a resolução granula no ambiente escurecido. Ainda assim, segue a filmagem com apenas um homem enquadrado. Quero dizer que só vamos parar quando as promessas do presidente saírem publicadas no Diário Oficial e ainda é pouco, senhor presidente. Esses 0,46 centavos eu não quero de esmola. A classe não vai ligar os motores. Vamos ver, vamos pedir a Deus, mas a classe seguirá nos acostamentos. O movimento, senhor presidente, não está bloqueando nenhuma via. A única via interrompida deste país e a sua via urinária.

O zoom e desfeito e a câmera do celular volta a enquadrar os três sujeitos. O último deles pigarreou, é sua hora de falar, colocará a republica abaixo. Napoleão pigarreava antes de falar e por muito pouco não conquistou o mundo. Ainda uma vez mais o homem pigarreou e mostrou o punho fechado pra câmera do celular. Senhor presidente, tome isto! E um dedo brotou de um punho.


(arte: Pinterest)

Passarinho em dia de chuva


Passarinho pousa no galho. Olha desconfiado, faz cerimônia e questiona se pode avançar até junto de outro passarinho. Está frio e o momento é de urgência. As penas estão encharcadas, pesando muito manter o voo. Logo tombaria em alguma poça ou lamaçal. Bateria as asas esperneando, numa inutilidade de voo. Um gato que enfrentasse a chuva o pegaria. Morderia a garganta asfixiando e perfurando veias.

Assim são todos os passarinhos que pousam numa árvore, num dia escuro, de frio e chuva: olham desconfiados, fazem cerimônia e questionam se podem avançar até junto de outro passarinho...

Vencida a repulsa ou timidez, vão as criaturinhas se aninhando lado a lado, um esquentando o outro. Coraçãozinhos batendo o mesmo compasso e penar. Nesta hora um já começa catar pulgas no outro, um coçar e fazer cafunés mútuos vai se formando. Está consolidada a amizade.

Cai à noite com mais chuva e frio. Folhas das árvores balançam, galhos pendem e esta será a toada da madrugada para as pobres criaturas. Quantos dias aguentariam, vento, frio e água pingando de buracos na folhagem. Quantos dias?

Acordo cedo. Religiosamente às quatro horas da manhã. Levanto, bocejo e dou por falta dos passarinhos que a essa hora começam a entoar os primeiros pios e trinos limpando a garganta. Suponho dormirem. Molhados e amontoados. Devem equilibrar-se mal em galhos escorregadios e chacoalhados.

Mais tarde decidirão a vida. Ficar no galho ou ir encarar as chuvas de inverno, buscar comida: um farelo de pão encharcado, um mosquito tombado da chuva, um grão de terra lavado.

(imagem: Pinterest)
© Helder Herik
Maira Gall