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Crônica da salvação do mundo

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A mentira pode salvar a humanidade! Acordei com essa ideia na cabeça: mentir para salvar! Falo daquela mentira mais asséptica. Um tipo de mentira que até os padres contam! Um tipo de mentira que não leva ao inferno, o leitor pode ficar tranquilo. Falo da mentira que se conta e o mundo continua em rotação e translação. Pois veja se não é. Suponha que você, andando pela rua, de repente encontra um amigo que não vê faz tempo. Então você pergunta, “como vai, tudo bem?” E em seguida solta aquela mentira, “você não mudou nada, continua do mesmo jeito!” Pronto, perfeito. A pessoa interpelada diz que não, a pessoa interpelada agradece, a pessoa interpelada diz o mesmo de você, que também não mudou nada, que o tempo foi generoso.
Dois mentirosos. Um aceitando a mentira do outro e o mundo seguindo em frente, feliz! Sim, é possível ver um arzinho de riso, um fiozinho arqueado no canto da boca. Felizes, sim senhor! “Apareça qualquer dia,” você diz. “Apareço sim, pode deixar”. Responde o mentiroso.…

Crônica de um filho que quer nascer

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Meufilho João é impaciente. É provável que roa as unhas, bata o pé em tique nervoso ou puxe fiapos de cabelos. João ainda não nasceu. Falta pouco mais de dois meses, setenta, oitenta dias. Mas, pelo andar da carruagem, posse ser que venha antes. Minha esposa abre um aplicativo e mostra como João está. Aquele não é o nosso João, mas nos deixamos ludibriar pelo aplicativo. Dizemos, "olha como já está grande." O aplicativo informa que João está com o peso de uma goiaba, uma pêra, um abacate. Da última vez João tem o peso de um repolho. 
O aplicativo é uma rede social de mulheres grávidas. Elas trocam informações mesmo depois das crianças nascidas. As melhores pomadas, lenços umedecidos e fraldas. Há queixas de que as crianças estejam nascendo antes do tempo. “O meu veio com trinta e seis semanas.” E seguem assim, meio que numa disputa, “a Gabriela veio com trinta e quatro, se perdia na palma da mão de tão miúda”.
João está no ventre, flutuando num balão de placenta e líquido amni…

Crônica de uma criança com um par de meias

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Certa vez calcei minha filha com as minhas meias. As dela eram de cano curto e haviam criado bolotas, verrugas de pano. Cliquei o player e um tutorial dizia para usar o estojo de barbear. Tiro e queda contra as bolotas verruguentas! Não o fiz. Assisto tutoriais, maratono, para um dia, no meio de uma conversas sobre coisas úteis, ter o que dizer. Vocês sabiam que pasta de dente é ideal para tapar aqueles buraquinhos de pregos? Os ovos cozidos devem ficar doze minutos em água fervente, nem mais, nem menos! Não devemos balançar os nenéns, os miolos podem chacoalhar na caixa craniana e desprender a massa cefálica. Esses dias nunca chegam e os tutoriais amontoam na cabeça. 
Como eu ia dizendo, certa vez calcei minha filha com as minhas meias. Lembro dela colocando os pezinhos e franzindo as sobrancelhas. Sempre que se depara com o desconhecido pega as sobrancelhas e as franze. É sua maneira de perguntar o que é isso, se isso morde e se isso pode? Herdou esse gesto de mim e no futuro saberá …

Crônica de um super goleiro uruguaio

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Rodolfo Rodríguez era um gigante uruguaio com bigode de leão marinho. A esposa havia contado uma vez que os fios do bigode serviram para desentupir a boca do fogão. E não era exagero pois o próprio gabava-se de nunca ter usado pregos em casa. Bastava martelar os fios do bigode. 
Rodolfo Rodríguez poderia ter escolhido o basquete, o voleibol, o salto com vara, mas escolheu o futebol! Queria ser atacante, camisa nove: dribles, gols, fama! Mas aquele tamanhão atrapalhava a explosão na largada. Lá estava a correr desengonçado, tropeçando, desmoronando com o mundão de corpo. Rodolfo Rodríguez era bom nas bolas aéreas, mas careceria sempre dos cruzamentos. Seria um time todo a depender de uma só jogada, de um só jogador. Faltava-lhe, como se pode ver, recursos para jogar no centro e avante. 
Até que nosso atleta foi dando passos para trás e ficou alojado no meio de campo. Ali não seria preciso dar arrancadas, dribles e finalizações. E assim Rodolfo Rodríguez ficou mais recuado, volanteando. O…

Crônica dos dois irmãos

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O cachorro deixou as patas no cimento da calçada. Tinha chovido e a água empoçou ali. Mais à frente o cimento ordinário rachava. Esfarelava. Adiante um nome indecifrável e uma data: vinte e cinco de janeiro de dois mil e dezenove. Uma calçada feia, um serviço grosseiro. Neste país os pedreiros não possuem senso de estética, o mínimo de capricho sequer. Tapam buracos e pronto, se dão por arquitetos. Uma calçada estúpida, sem dúvida, mas ao menos as patas do cachorro a salvaram. Como se chamaria? Rex, Totó, He-men, talvez.
Mais à frente vinham dois velhinhos!  A caminhada da dupla era lenta, morosa, arrastada. Paciente! Não sei como se chamam, mas os conheço. Nunca troquei palavras, talvez um bom dia, mas sempre os vi. Suponho que sejam irmãos ou talvez grandes amigos, o que dá no mesmo. Aliás, Voltaire já havia dito que "as grandezas do mundo não valem um bom amigo". Voltaire, ao que se sabe, era iluminista e tinha duas coisas sempre à vista: um nariz fenomenal e uma lucidez v…

Crônica de andar com a filhinha num dia de sol

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Fez sol e fui esticar as pernas com a minha filha. Um sol preguiçoso, enfadado, mas ainda assim claro, morno e convidativo. Dois meses e meio enfurnados num bunker abafado e, nos últimos dias, úmido e empestado de mofo. Um belo dia o bunker inventou de pingar. Uma desgraça. Pusemos um balde e sofremos com o toc, toc dos bagos d'água. Fez sol. Era preciso esticar as pernas pro além do quarto-pra-sala e da sala-pra-cozinha e assim até desgastar a cerâmica.

Subimos uma rua de terra e foi preciso desviar das lamas. Em trechos secos coloquei minha filha no chão.

— Óia, pai! Óia, auau! Chôchôchô!

O som de tanger serve também pra chamar. Nesse ponto ela é prática. No futuro ela aprenderá as formalidades da língua. Agora ela prefere ser prática. Por exemplo, ela poderia usar o "chegue, chegue", mas reservou esse termo aos pais quando suplica por colo.

— Óia, pai...

Tive medo do cachorro e a coloquei nos braços. Se viesse raivoso lhe chutaria as fuças. Era manso. Abanou o rabo, se ch…

Entrevista #01

Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Demorei a ler. Li somente aos 12 anos devido minha dislexia. Corria dos livros. Até que aprendi a ler, mas me doía muita a cabeça. Até que peguei o embalo. Embalei. Até que me veio a ideia: será que sei fazer isso? Será que sirvo?  Primeiro eu escrevia para encher o papel. Depois eu escrevia para cortar as palavras. Depois eu vi que escrever era na verdade reescrever. E depois de reescrever, reescrever de novo e ver que tava ruim e começar do zero. Foi então que me deu conta.

Quais são suas manias e obsessões literárias?
A mania é acordar cedo, entre 04h e 04h30. Outra mania é tentar ficar calmo e criar coragem para falhar. Outra mania é ajeitar a coluna. As obsessões são reescrever, cortar e desconfiar de tudo.Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
A leitura de um grande poeta e de um grande escritor. Principalmente de um grande poeta. Eles dizem tudo em quase nada.Se pudesse recomendar um livro ao presidente Jair Bolsonaro, qual s…