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Os pés de Charcot-Marie-Tooth - parte 01

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Dei que a minha existência seria um levantar e cair no limbo. E mais que uma metáfora, isso era uma condenação. Acontecia que todas as criaturas um dia se punham de pé e, embora bambas e arquejantes, firmavam os primeiros passos. "Até o armário". Impunha-me desafios. "Até a mesa". Eu: a lesma. A vida: a vastidão. E não haveria mal que não ficasse pior. Então a lesma teria que subir degraus, soleiras e montanhas escarpadas. Uma massa de modelar andante, a lesma: eu. Aconteceu que nasci com a doença de Charcot-Marie-Tooth e isso me dera pés caídos para fora. Pés arriados como a árvore que crescesse pendida sobre o telhado de uma casa. O perigo de queda, a iminência de estragos, o chão, o subterrâneo. Para a árvore existiria o fio do machado e o proveito da madeira para o fabrico de portas, mesas, janelas…  Também poderia cortar os meus pés fora. Jogá-los para um bicho feroz e ver a carne destroçada, os ossos talhados e cuspidos. Ficaria sem aqueles companheiros de na

Crônica de acordar no meio da noite

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O King Kong e o Godzilla ficavam atrás do diabo-tinhoso. Pareciam labradores esperando a ordem de ataque: piskpisk, pega! O diabo-tinhoso preparava-se para cuspir fogo e aquilo me acertaria. ― Foram eles? ― meu avô acendia a luz e espantava todos.  As mãos de vô Zevíto pareciam garras e galhos secos. Achava que ele fosse meio bicho e meio mato. A velhice caía e tirava seu pedigree, mas ainda assim o velho tangia aquelas bestas para o inferno de que haviam escapado: o Godzilla, o King Kong e o diabo-tinhoso. Tangidos. Alguns dias o sono pesava em meu avô e eu ficava sozinho com os demônios escapulidos. ― Já disse para fechar os olhos, eles vão embora! ― meu avô esticava a mão apontando lonjuras.  *** O quarto de minha filha é abafado e o ventilador gira para lá e para cá. A boca aberta mostra os dentinhos de coelho. Dali escorre um fio de baba que faz poça no travesseiro. Fecho-lhe a boca que volta a abrir lentamente. Com o que estará sonhando minha filha? Talvez uma poça de lama. Ela e

Hora de dormir

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Minha filha entregará os pontos! É possível que exista confusão em sua cabeça e as imagens estejam diluindo. Possa acontecer de escutar algum som indecifrável, algo entre bramidos e murmúrios. Agora minha filha não cantareja o hit da Barbie Roberts ou as toadas dos Ugly Dolls . Seu trinado vai empoleirando. Lembra um radinho de pilhas fracas. Pilhas que, no meu tempo de menino, a gente colocava no congelador para recarregar. Uma crença que ninguém sabia de onde vinha. Uma ponta da fralda está amarrada na chupeta. A outra ponta forra a minha clavícula, acolchoando. É assim que ela gosta de pré-dormir. Um ritual de tantos que já possui. Ritual ou pantinho. A chupeta é sugada com força, à maneira da Meg Simpson . A única chupeta intacta de milhões dilaceradas por dentes caninos, afiados e afoitos. Minha filha é dessas crianças magras. Das que comem forrageiramente e mantém o calibre seco. "Magra de ruim", como se diz. Então às vezes a chamo 'magricelinha'. Outras vezes

Salto no abismo

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Ela pensa que sabe voar ou ela sente que sabe voar e isso lhe imprime confiança na hora de se jogar do sofá. Eu conto até três e disparo, energicamente, o "e já". É o gatilho esperado. Poderia contar até dez ou até cem, ela sempre espera o gatilho, nunca antes do "e já". Então ela pega impulso e salta do sofá com os braços abertos igual o Superman. Seu eu pudesse a colocaria numa redoma ou qualquer coisa dentro de um campo de forças. Sei que um dia ela irá se machucar. Cairá mais grave além dos joelhos ralados e verterá mais sangue do que se pode limpar com um chumaço de algodão. Irá gritar com o ardor do merthiolate ou mercúrio. Usará algum band-aid colorido na perna ou testa e só a possibilidade disso já me dói.  Estou deitado em um colchão estendido na sala e se algo sair errado ela cairá na espuma. Ela fica um segundo no ar igual um drone doméstico. Tem os braços e as pernas abertas igual aos paraquedistas quando saltam a quilômetros do chão. A seguro com as mão

Os meninos Schwarzenegger e Stallone

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Cresci assistindo aos filmes de socos, chutes, facas cravadas e tudo mais. Dois atores reforçaram o meu imaginário de pancadaria e de menino magricela. O Schwarzenegger e o Stallone. Os maiores ícones. Só depois é que viriam o Van Damme e o Dolph Lundgren, mas num grau menor. Schwarzenegger foi quase tudo: Mister Universo, governador da Califórnia, empresário de fisiculturismo e, claro, foi o John Matrix  no clássico filme ‘Comando para matar’. Fez também filmes de comédia e sempre foi mais versátil. Empreendedor, para usar um termo presente. O Stallone fez um filme de comédia e graças a deus ficou por aí. Sua praia sempre foram os filmes de atirar (Rambo) ou levar murros, principalmente levar murros (Rocky). Aliás, ‘Rocky: um lutador’, 1976, é um clássico absoluto! Esses dois veteranos: Schwarzenegger 73 e Stallone 74, estão mais uma vez de parabéns! Schwarzenegger pela dramática interpretação de ‘Em busca de vingança’, onde perde a esposa e a filha grávida num desastre aéreo.  E o St

Crônica dos sovacos e das axilas

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O óvulo é uma espécie de paraíso! Era mais ou menos sobre isso aquela aula. E aí teve aquele lance do “muitos serão chamados, mas poucos serão escolhidos.” A professora, em algum momento da aula, soltava essa cantilena. E acrescentava, “bem poucos.” E, por uma pirraça diabólica, olhava para Gileno que naquela semana tinha feito uma tatuagem de escorpião. Geralmente a professora olhava para Gileno porque ele raspava a cabeça, usava anéis de caveira e sentava com as pernas muito abertas. Por algum motivo aquilo era intolerável para ela. Talvez porque ela vivesse milimetricamente alinhada nos vestidos e nos cabelos presos num coque imutável. Aquele prender de cabelos esticava-lhe o couro da testa e lhe tirava as rugas. E ninguém nunca a viu com os cabelos soltos.  Todo mundo queria ser amigo de Gileno porque ele era perigoso e botava medo nos bundões metidos a cavalo do cão. E também porque Gileno arrotava alto e fazia sons divertidos com os sovacos. E foi homérica a discussão que Gileno

Crônica do irmão e do óvulo

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Primeiro o bebê é um sapinho batendo o rabo até chegar ao óvulo. Não propriamente um sapinho, mas uma bolinha escurecida e com um fiapo vibrante. E é assim que ele vai se virando. No caminho até o óvulo este bebê nadador encontrará outros bebês nadadores. Entre eles poderia haver um “oi”, um vamos em frente, você consegue”, um “desse lado está melhor de nadar, tem vácuo e tudo”. Os bebês ignoram-se, seguem mudos, calados, afônicos...  São irmãos deixando irmãos para trás. Se um deles tiver câimbra, se torcer o rabo, se engolir mucos, se errar o caminho… Cada um vai seguindo a sua sorte. Mas eu me pergunto: e se eu tomei o lugar de um irmão nadador que seria melhor do que eu? Digo, se cheguei ao óvulo primeiro do que um irmão nadador que seria um ser humano melhor do que eu? E ainda pergunto: e se aquele irmão que quase entrou no óvulo, faltando só um pouquinho, e se eu esbarrei nele, se lhe passei a perna (no caso o rabo), se fui calhorda e me aproveitei de um caminho quase aberto, e s