quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A deputada Peppa


Era uma vez, num país do futuro, uma deputada que foi chamada de Peppa e agora estava fora de si. Agora ela estava um pimentão de raiva. Era o sangue fervendo os ossos e as vísceras. A Peppa era uma sopa por dentro. Fervendo, fervente.

A Peppa era muito forte na frente de uma tela touch screen (há quem diga que a tela touch screen é a pior das invenções pós-modernas). Ali, na tela, ela mexia os dedinhos gorduchos e sentava lenha na oposição. Bando de comunistas, de energúmenos e tudo mais, ela dizia.  Naturalmente a Peppa agredia os opositores, mas agora era ela a agredida. Era ela a chamada de porca. Uma porca gorda pra abate. A Peppa das Peppas.

Naturalmente a Peppa oscilava momento de raiva e tristeza. Na raiva ele desejava matar e na tristeza ela desejava ser morta por um cometa, uma laje ou entalada com cuscuz ou cuspe ou seja lá o quê. Então ela mexeu os pauzinhos de deputada e foi a um programa famoso dizer tudo que queria, inclusive ela chamou o presidento (que ajudou a eleger) de idiota. Safado. Mentiroso e ingênuo. E tudo parecia encaixar direitinho, menos que o presidento Chuck  fosse um ingênuo.  

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Tênis velhos, tênis novos


Tenho hábitos estranhos. Coisas que impregnaram e ficaram em ferrugem. Coisas que descascam e revelam interiores somente guardados, sedimentados. Hábitos que não são de hoje, nem de ontem, mas de sempre.

Por exemplo, se eu tiver um par de tênis velhos, destes saturados de poeira e que o desgaste se nota na costura solta, então me vem uma vontade de comprar um par de tênis novos. Talvez não seja uma vontade, talvez seja uma imposição. Então tenho a vontade-imposição de comprar um novíssimo par de tênis, ou porque eu vi alguém com tênis limpíssimos, e me senti meio porco, ou porque estou sentado em um consultório e me pego olhando uma sociedade de tênis novos e limpíssimos.
E daí em diante a minha torcida é para que a sociedade de tênis limpíssimos ignore a minha existência surrada, a minha existência puída, a minha existência esfalripada. Essa é a primeira vez que uso a palavra esfalripada. Peguei-a de Rachel de Queiroz, de um dos seus molambos humanos, de um dos seus retirantes lá do Quinze, de um dos filhos de Cordulina e Chico Bento.

E, pode não ser, mas fico com a impressão que a sociedade de tênis limpíssimos fica me observando e julgando-me porquíssimo, sujíssimo e pobríssimo. Mentalmente sinto vontade de xingar a todos. Cuidem vocês lá de suas vidas e me deixem em paz. E a partir daí toda criatura que olhar para o chão, estará olhando meu tênis porquissímo. Já disse, cuidem vocês lá de suas vidas. Explodam.

Então, na primeira oportunidade, entro em alguma sapataria e escolho um par de tênis. Vejo o preço, claro, pergunto ao vendedor se o produto é bom
ele sempre dirá que se trata de um produto da mais altíssima qualidade, é a conversa fiada dele, é o que lhe garante os trocados, é o que o mantém no emprego, se não tiver essa conversa fiada, outro entrará em seu lugar , então ele responderá que o produto é bom e eu jamais o irei contestar.

Tiro os tênis da caixa, cheiro a mistura de borracha e tecido, arrumo os cadarços sim, os cadarços sempre estão em desalinho. Talvez um Fulano, num dia chato, num trabalho chato, com um salário de fome, os deixem sempre em desalinho, e assim o Fulano se vinga ninguém sabe do quê, ninguém sabe de quem , calço os tênis e olho no espelhinho se ficou jeitoso. Piso com um pouco mais de força, dou chutinhos no chão. E compro.

Saio da loja com eles nos pés. Um tênis moderno, durinho e ainda sem o desgaste lateral de minha pisada torta. Agora a impressão é que todos estão observando meus pés. Como não observar, são tênis limpíssimos.

Amigos notam o meu novíssimo acessório e isso me envergonha um pouco. Por algum motivo os tênis velhos, carcomidos, sujíssimos, me deixam mais humano, humilde e mais irmão de todos na terra. Cristo faria o mesmo. Cristo nem compraria um tênis limpíssimo. Cristo doaria o tênis, as vestes e sairia nu. Uma nudez limpíssima e sacrossanta.

Os amigos possuem um ritual estúpido de querer pisar tênis novos. Dizem, "deixa eu inaugurar" ou "inaugurei", depois de pisar-me o novíssimo tênis. Isso tudo é uma espécie de batismo. Uma imbecilidade sem tamanho. E admito que até já possa ter feito isso com alguém. A espécie humana é estupidíssima.

Eu dizia que tenho hábitos estranhos. Coisas que impregnaram e ficaram em ferrugem. Pois bem, vejam lá. Acontece que fico com saudades dos tênis velhos. Como se estivesse sendo ingrato a eles que tanto me serviram. Como se os tivessem traindo com uma cocota moderninha, enfeitadinha e limpinha. E, estando no meio da rua, minha vontade é de chegar em casa e me descalçar, meter os pés de novo no tênis velhíssimo. Quantos quilômetros teríamos andado juntos? Eles tão fieis. Eles suportando um peso que só foi aumentando com o tempo. Quantas pedrinhas teríamos chutado, quantas poças teríamos pisado, quantos chicletes teríamos pisado... Um grande amor não se acaba assim, feito espumas ao vento, diria o cancioneiro popular. Popularíssimo.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Mosquitos

Os mosquitos são os maiores predadores da terra. Esqueça o tubarão, o jacaré, o leão e os dinossauros. Você não irá topar com nenhum deles no seu dia. Já os mosquitos... Estes furam a sua pele no momento mais vulnerável, o sono. A praga é pequena e entra por uma mínima fresta, chupa seu sangue e voa pesado, um boi gordo. Chupa seu sangue ao mesmo tempo que injeta toxinas diabólicas, um terrorista. Chupam seu sangue e deixam um catombo vermelho na testa, braços, pernas. Um carniceiro... A triste constatação é que para cada um que você elimine, dois deles aparecem para vingar a morte do soldado abatido em combate.
(Hh. Crônicas para Frankenstein)

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Banda das Bandas



Era no meio de entendidos, era pra
cada um dizer da banda preferida, a banda
mais fuderosa de todas.
Aí veio um cara e disse, Guns N’ Roses e os caras todos viraram a cara e veio outro cara e disse Aerosmith, e ele encheu bem a boca pra dizer Aerosmith, e a banda tinha show marcado pra Recife e todo mundo já coçava os bolsos afirmando que gostavam,
mas um carinha lá fez uma expressão de deboche, meio esticando a boca só de um lado e meio virando os olhos, isso
irritou muito os carinhas que achavam o Aerosmith até
uma banda dessas de se ir ao show
e postar foto nas redes e outros alardes,
mas o carinha que esticou a boca disse que o Tyler tinha
o maior bocão de jacaré e que o pescoço era
flácido e aquilo ia dá em briga se
eu não tivesse batido palmas e
tomado a fala e dito que a Mundo Bita era a banda das bandas.
Os carinhas todos ficaram coçando cabeça cotovelo
barbicha
e ficou aquele jeitão de ninguém saber nada
e eu disse que a Mundo Bita tava cagando pra ter
sucesso
ganhar dinheiro e usar drogas...
O que eles queriam era só tocar os melhores
versos sobre o mundo e o cosmos.
E ficou aquela atmosfera de que agora
eu tinha o respeito dos carinhas todos.
A formula era falar do que os carinhos não entendia pra
ganhar a maior moral entre eles e eu
disse ainda pra meio que humilhar eles todos
— Vocês não conhecem a Mundo Bita? — E joguei
a pá de cal — Vocês são uns bunda-mole mesmo.
O carinha que detonou o Tyler disse, “manda um verso dessa banda”, e mandei esse:
— “De uma semente nasce a primavera / brota o broto pela terra / certamente no futuro alimentará alguém."
E os carinhas agora vibravam e chamavam todo tipo de palavrão e tudo mais como forma de alegria estourada.

domingo, 26 de maio de 2019

Crônica de binóculos e bugs



A ambulância havia chegado. Muita gente em volta. Que é que tinha parar dois minutinhos para ver o acidentado? Ao menos haveria uma história pra contar. Tipo, “Quem soube do acidentado de hoje?”, e ninguém saberia, e você se sentiria importante, sentiria que as pessoas precisariam saber daquele acidentado, aí você, todo dono do mundo, diria, “Coisa mais triste, o corpo lá, ensanguentado, agonizando. Aposto que não escapou.” Blá,blá, blá. Comigo foi diferente. Comigo foi assim: um garotinho olhou minha cara de curiosidade, disse, “Foi um bêbado. Ele caiu, partiu a testa e o cérebro pulou fora. A roupa toda melada de sangue e ele chorando sem saber voltar pra casa.” Olho pro garoto. Deve ter uns quatro, cinco anos, não mais. “Vai morrer, o pobre.” O garoto coloca as mãos nos olhos, fazendo um binóculo. “Talvez, não”, eu digo. “Se colocarem um cérebro novo ele se recupera.” O garoto me olha, franze a testa. Prossigo, “Vi no Discovery! Eles tiram o cérebro de uma caixa térmica, sai fumaça e tudo, depois serram o crânio, instalam o cérebro”, o garoto me interrompe, “Mas, e se a pessoa ficar bugada,  tipo: gaguejando ou andando pra trás?” e o garoto aponta o binóculo pra mim. “Eles tomam o maior cuidado com isso, não há perigo.” O garoto tira o binóculo, pergunta com a maior seriedade, “Como que eles colocam as lembranças dentro do novo cérebro?” De novo aponta o binóculo para mim.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Crônica da cachorrinha encantada


Era uma cachorrinha de qualquer raça. Por exemplo, se dissessem que ela era uma yorkshire, então ela dava uma cambalhota e virava uma cachorrinha peluda com olhar pidão e incontinência urinária das yorkshires. E seria preciso aquela trabalheira pra desembaraçar e pentear e tosar e perfumar. Até que ela se zangasse dos puxarrancos e virasse uma pinscher de pelagem rala. Uma pinscher tamanho zero, das de tamaninho de rato. E era fácil dela ser confundida ou de ir lá dormir com as ratazanas, aninhada e mamando na rata-mãe. Até que alguém sentisse o cheiro de monturo e sempre tapasse as ventas ao chegar perto dela. Então lhe pediam pra virar uma labradora. Ela dava uma cambalhota e virava uma labradora caramelo. Corria pela casa, derrubava porcelanas e roia os pés da mesa e da cama. Um dia virou uma dogue alemã, mas não coube muito bem dentro da caminha e também tinha aquela questão das fezes monstruosas. Ultimamente ela preferiu virar uma husky, só pra que ficassem hipnotizados com a claridade dos olhos azuis. E é por isso que nas fotos de família, sempre existe uma cachorrinha de raça diferente. Mas é sempre a mesma. Só muda quem a segura nos braços

domingo, 19 de maio de 2019

Crônica de malabarismos e aprumos


O homem abaixou e pegou uma pedra. Estou no semáforo e o observo. Será um dia agitado e o cérebro lateja as ideias. Crio a fabulação que aquela pedra é um pedaço do planeta. O planeta está se desintegrando. Indiferente a minha fabulação está o homem que abaixou, pegou uma pedra e agora a joga para cima. Antes que ela caia, o homem joga outra pedra e mais outra e aquilo vira um malabarismo. Agora o semáforo poderia demorar toda a manhã! As pessoas passam e desviam do malabarista. As pessoas com horários e problemas. Desviam e torcem a cara. Eu não! Abro o sorriso diante do espetáculo da vida. Eu saúdo a loucura que caiu sobre aquele homem. Impossível não o perceber com aquele colete neon. Faz mototáxi. Faz malabarismo com pedacinhos do planeta. Faz a vida sair do piloto automático. Faz de conta que está num circo. Então uma pedra começa a esfarelar, vai se desintegrando até virar poeira. Agora as pessoas abanam a mão e é possível que até o xinguem. É possível que chamem a polícia e o queiram preso.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Crônica de berros, bramidos e brados


Lady Laura tem fascínio por etiquetas. Desde cedo, desde sempre. Lá está ela em seu carrinho. Assiste algum desenho colorido, barulhento. Inúmeras vezes o mesmo desenho — já cantarolamos as músicas. Assoviamos no banho, na ida ao trabalho, na sala de aula. — De repente cai sobre Lady Laura o tédio com a vida. Quanto ela está pesando hoje? Nove quilos, calculo. Está pesada! Nove quilos e ainda se debaterá, entediada. É preciso força para sustentá-la. Domá-la. Procuro algum brinquedo de morder. É preciso entretê-la. Um brinquedo onde possa fincar os dentinhos, amolá-los, deixando marcas no plástico. É a fase do morder. Morder o mundo. Funcionou por minutos, de novo caiu o tédio. É preciso procurar outra coisa, vasculhar o mundo a procura de algo que possa ser babado e destruído. O que? Talvez uma pedra, uma árvore. E eis que surge uma embalagem colorida e barulhenta. Uma embalagem de salgadinho. Fede, mas o colorido, o barulho... Logo se entedia e chora. O rosto vermelho, a cara franzida. Uma lágrima. Procuro uma lágrima sequer. Não há. Só berros, bramidos e brados retumbantes. O controle remoto! Ela o encontra. Para de chorar e me lança um olhar de luz. O controle remoto! Receio que o parta em dois. Ela chora, pressionando-me. E lá está o controle nas mãozinhas de bolota. Parece que gostou. Mordeu, mudou de canal, aumentou o volume e, entediada, jogou no chão. Talvez ela queira o ursinho com guizos embutido. Olha o barulhinho, mamãe, olha o barulhinho! Não, não gostou. Faz careta — sempre franze a testa e as ventas — está prestes a sacudir o ursinho de guizos e, epa! Percebe a etiqueta. Pedacinho de pano saltando das costas. Letras miudinhas, código de barras. E aí ela se entretém. Belisca a etiqueta, soletra, conversa e ri.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Crônica do Dia do juízo


Imagine que um dia você será julgado por um assassinato do qual nunca se deu conta. Um assassinato cruel e a queima roupa e sempre recorrente. Você é um senhor assassino. Eu sou um senhor assassino. E você e eu estávamos impunes, até agora, no dia do juízo. Imagine que hoje, ao acordarmos, o mundo passou a ser governado por formigas e por aranhas e por baratas e pernilongos e ratos e tudo mais. Essas criaturas tramaram, durante séculos, a tomada de poder, a subida ao trono, a queda da Bastilha. Choraram, cada bichinho a sua maneira, a dor dos parentes pisoteados por nós desde o início da humanidade. Pacientemente, numa mansidão calculada, as formigas foram recolhendo os bichinhos esmagados. Uma infinidade delas recolhendo um braço pisoteado, uma perna, uma antena. E nem nos preocupávamos com esses bichinhos a carregarem seus despojos. Até hoje, quando nos chega a notícia que aqueles pedacinhos: braços, pernas, antenas... Tudo isso ao longo dos séculos, tudo sendo amontoado, colado e por fim, compondo um enorme Frankenstein. Hoje é o dia do juízo final. Você e eu seremos esmagados por esse Frankenstein. E não temos nenhum ato de grandeza, pois você quer que eu seja esmagado primeiro e eu quero que você seja esmagado primeiro. E você e eu somos pequenos. Menores que ratos, baratas e formigas.

sábado, 20 de abril de 2019

Diálogo na páscoa


“Mãe, tem uma aranha no meu ouvido!”.
“De novo essa história da aranha?”
“Ela fica falando coisas”.
“Igual o rinoceronte?”
“A senhora ainda lembra do rinoceronte?”, e a menina abriu um sorriso babado. Sempre achou que a mãe não ligava. Era só reclamar das contas, do atraso, dos ombros e de qualquer outra coisa. “Ele era cor de rosa, não era?
“...”
“Não era mãe, cor de rosa?”

Agora a mãe estava absorta, passando batom e vendo a boca diminuindo. Diminuindo ou engelhando. “Qualquer dia e essa boca desaparece”, pensou alto.

“O rinoceronte desapareceu, não foi mãe?”
“...”

Agora a mãe ficou olhando os ombros. Um mais alto que o outro. A vida toda aquilo. O jeito era levantar o ombro mais baixo para compensar o desnível. Mas ela se achava tão artificial. E lhe vinha na cabeça aquela dança do Michael Jackson. Aquela dança daquele clip dos zumbis e tudo mais. Um terror!

Se usasse a bolsa no ombro mais baixo, automaticamente ela faria um movimento para cima e tudo se resolveria. E era uma coisa tão simples que jamais lhe passaria pela cabeça.
A menina apareceu na frente do espelho.

“A aranha fica falando coisas”.
“De que tipo?”
“Que coelhos da páscoa só deixam ovos para quem comprar”.
“Que aranha mais besta!”.
“É, mas no ano passado o coelho não deixou algum ovo de páscoa pra contar história”.
“Filha, como você faz confusão! Nenhum ovo. Se diz, nenhum ovo e não algum ovo”.
“Pois não tinha nenhum ovo e nenhum nada de coelho algum ou de coelho nenhum”.

Toc toc toc. Eram batidinhas na porta e, como as duas pareciam não ter ouvido, as batidinhas continuaram. Toc toc toc...

“Vá ver quem é meu amorzinho”, disse a mãe. As sobrancelhas tensionadas. “Diabo é quem vem uma hora dessas pra atrapalhar”, pensou alto.
“Mãe!”
“Quem é filha?”
“É o rinoceronte!”
“Que rinoceronte?”
 “O rinoceronte rosa, mãe!”
“De novo essa história, filha!”
“Posso montar nele?”
“...”

Agora a mãe não escutava mais nada, absorta, olhando os ombros.

“Posso montar, mãe?”