segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

CAMBRAIA

Ela vinha com o corpão de montanha. Sentava, abria a gaveta da máquina, e escolhia uma cor. Tirava o carretel de linha azul, puxava a linha, saia enfiando nas engrenagens da máquina. Checava a correia dos pedais e pedalava. Pedalava para fazer o teste, só para esquentar a dormência da máquina. Depois ela abria o guarda-roupa, pegava o tecido. A cambraia. Encaixava a cambraia na mira da agulha e pedalava. Agora pedalava pra valer, tchac tchac tchac. A máquina de costura puxava o tecido, a mão dela indo junto, a mão puxada, a mão chegando perto da agulha que pinicava tic tic tic, a mão saltava para trás (a mão um caranguejo). Ficava assim: indo para frente, saltando para trás. Ficara treinada com o tempo, nem pensava; a mão saltava mecanicamente (macaca velha, a mão). Ele era bem pequeno, coisa de cinco, seis anos. Pequeninho. Cabelo encaracolado, os cachos pendendo (minhocas que saiam da cabeça dele). Ele tirando remela, o dedo no olho, rodando, a remela se partindo, caindo (uma formiguinha cataria, levaria o peso nas costas até o formigueiro). Ele observando a costureira, tirando o serviço dela, uma sobrancelha arriada, outra arqueada. Meio cara de zanga, a cara meio de indagação a cara dele. Ele foi se chegando na máquina, se chegando (sabe imã puxando o prego?). Ela esticou o braço, criou cancela contra o bicho afoito. Disse umas coisas, ficou rindo da cara inchada, a cara de sono, a marca da fronha na cara dele, ela rindo. Ela disse umas coisas. Umas coisas, tipo: acordou com o barulho? Essa cara de sono? Deite, vá dormir, é cedo ainda. É sábado, tem colégio não. A sobrancelha arriada arqueou-se, igualando a outra, as sobrancelhas dele. Também a boca arqueara-se. Não têm aula hoje, nem amanhã. Ele agora abrindo o riso, o pescoço afundando, os ombros subindo. Tapou a boca puxando a gola da blusa, esticando até o nariz (assaltantizinho tapando a janelinha, ocultando os dentes fujões. Depois os dentes nasceriam tortos e brancos e calcificados, agora não, depois). Ela voltou a costurar. Mão para frente, mão para trás (o caranguejo treinado). Ele observando a agulha pinicar a cambraia, uma sobrancelha arriada outra arqueada. Ela parou de pedalar, cortou umas linhas descarriladas, levantou a cambraia e ofereceu ao pequeno. Ele vestindo a cambraia, ele rindo, a janelinha escancarada.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

MATÉRIA DO BLOG AGENDA GARANHUNS, POR WAGNER MARQUES







HELDER LANÇA LIVRO E VENDE 350 EXEMPLARES EM UMA SEMANA

O poeta Helder Herik está lançando seu terceiro livro, que vendeu em Garanhuns, impressionantemente, mais de 350 exemplares em uma semana. A obra pode ser adquirida na Livraria Mec, Pérola Joia, Banca de Revistas Avenida e, brevemente, na Livraria Casa Café. Trata-se do livro SOBRE A LÁPIDE: O MUSGO. O poeta, segundo o crítico literário André Cervinskis, vem construindo uma obra que se destaca no cenário atual da literatura e, embora seja pouco conhecido do grande público, é um nome que vem se fazendo conhecer nas rodas literárias.

Já para o consagrado poeta Mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, Helder é um poeta original e um dos nomes para a literatura brasileira marcar. A romancista Luzilá Gonçalves Ferreira revela que o poeta leva a sério sua vocação de trabalhar as palavras e seus livros podem ser lidos sem causar o tédio de alguns livros que vem se publicando com o nome de poesia. Para deixar o leitor a par da densidade poética que Herik traz em seus versos, transcrevermos um estudo feito pela Professora Ana Beatriz Camponado (Doutora em Literatura Comparada). Segue:

Quando lemos os livros de Helder Herik logo percebemos a preocupação com a linguagem trabalhada em várias dicções, além, é claro, da elaborada criação de imagens. Cada poema seu remete a um turbilhão delas. Dislexo, o poeta afirma compreender apenas as palavras que saem da leitura do papel e se transformam em coisas. “Há palavras que ficam acorrentadas, essas são as reumáticas. Já outras parecem aves espantadas, saem voando e eu vou junto; avoado que sou, não pouso mais.”

SOBRE A LÁPIDE: O MUSGO é um Livro composto de quatro poemas, cada um com uma dicção diferente, tornando o livro mais polifônico. Plural.

No poema INFÂNCIA DE PLÁSTICO, temos o fabuloso universo infantil. Sempre revisitado pelo poeta. Nesse poema, a criança constata a existência de outra pele por cima da pele humana. Esta sendo formada pelo grude que se acumula na infância. As brincadeiras com a terra, o suor e o banho como perda de tempo. A vida passando e o menino tomando banho. Castigo terrível. Foi com o banho mais atento (esfregando bem o grude) que o menino se deu conta que perdia a inocência e o grude lavado acabava levando sua infância pelo ralo.

O poema COISAS DE CASA é uma bem-sucedida analogia entre os objetos domésticos (faca, fósforo, geladeira, vaso sanitário — este antológico) e o ser humano. Como se os objetos, devido o seu uso por humanos, acabassem por se humanizar. Seria, talvez, uma resposta à pergunta de José Saramago sobre “
o que fazem as coisas quando não estamos a olhar para elas?” Assim, temos a faca nadando no peixe, o fogão que amamenta, o fósforo perdendo a cabeça, entre outros.

O CORPO QUE FICA descreve a dor de uma mulher, já sem brilho nos olhos, cabelos em falripas e boca fechada em túmulo. Vivendo numa casa com cheiro de mato e habitada por percevejos. Em meio a toda essa situação, encontramos um quadro de Charlie Chaplin, um vestido branco e ferrugens se acumulando.

Por fim, o poema SOBRE A LÁPIDE: O MUSGO. Um recorte de cenas trágicas. Cenas em que a autoria pertence ao próprio homem. Uns causadores e outros vítimas. Temos o chumbo entrando na clavícula; espalhando sementes por salas, quartos, cozinhas, sótãos... São geleiras definhando, línguas dormentes, canos estourados, vento uivando, sarnas, falanges, engulhos, veias abertas, cupins migrando, estampidos, viadutos e ossos estalando... São recortes do terrorismo que não podem ficar apenas nos quinze segundos de nossas tevês, seguidos por um comercial de bronzeador. Haveria ainda espaço para o
 humanismo praticável ou já nos basta a nossa vaidade de cada dia? Fica a provocação para a leitura deste POETA que tão bem vem representando o nosso tempo.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

MELANCOLIA

os bois na fazenda
veem a vida cercada
miram devagar quem passa...
...e ficam tristes devagarzinho

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

CÓLERA


Bem antes do terremoto a vida já era bem ruim, bem já beirando o inferno. Água encanada é luxo, coisa de barão, de príncipe, coisa de Michael Jackson pra lá. Michael Jackson! Eu gostava dele, aquele jeito doidão, meio soldado, meio mulher, o moonwalk eu gostava, aquele nariz de biscuit eu gostava. Sem Michael o mundo seria uma fila de repartição pública. Na fila, por favor. Quer ser atendido, senhor? Então entre na fila, por gentileza. Trouxe os documentos? Está faltando tal documento senhor, é melhor vir outro dia. Quando eu era mais novo tentava imitar o Michael Jackson. A tarde toda naquilo, a tarde na ponta do pé, até aprender o moonwalk. Não existe criatura no mundo que não tenha imitado: batido o pé no chão, balançado a cabeça e dado embigadinhas. Tinha uma televisão ligada na praça, a gente tirava do jornal e colocava nos vídeo clips. Televisão em casa, geladeira, computador, isso aí já é coisa de outro mundo. Sonho nosso era chegar em casa, tomar um gole de água gelado. Tirar gelo da caçamba, o gelo adormecendo a ponta dos dedos, engelhando. O gelo no copo, boiando, batendo de leve no vidro, tim tim. Deve ser a maior riqueza de um homem e ele nem sabe. Cego às apalpadelas, trocando água por coca-cola. Deve ser porque o refrigerante faz cócegas, descendo na garganta, já sentiu a cócega, as bolhinhas? Depois, meio que assim, do nada, sobe um arroto: brouc. Porco, barrão, cavalo. O gosto de coca na garganta e nas ventas. Ainda existe essa guerra entre a gente mesmo. Essa guerra separando irmãos: tudo da mesma cor, do mesmo sangue, mesma língua e tudo sem se entender. Tudo falando grego, quando não fala é porque já tem uma bala enterrada na cabeça. É a guerra. É o apocalipse. Aqui é assim: olhou de cara feia, falou diferente, piscou fora de ora, leva é bala. Está vendo aqui na canela? Esse riscão aqui foi bala. Fui coçar o umbigo, levei bala. Pior meu pai que vive com uma bala na cabeça. Vive até hoje. Têm dores terríveis. A noite é que dói mais. Quer abrir a cabeça com chave-de-fenda e tudo. Futucar os miolos, desenterrar a bala, medo dela dá cria dentro da cabeça. Eu que seguro a onda dele. Tinha até uma esperança com esses hospitais de campanha, esperança que viesse uma criatura arrancar a bala da cabeça de meu pai.  Precisava nem ser médico, um enfermeiro, alguém que limpasse a mão no álcool, viesse, tirasse a bala, mostrasse a ele: pronto seu José, pode morrer em paz agora. Mas esses hospitais de campanha fazem mesmo e arrancar pernas e braços, costurar pele rasgada, soro na veia, pano na testa, termômetro em sovaco. Os médicos fazem o que podem com o pouco que têm. Fazem milagre. Um aparecendo eu digo: fazem milagre, embora meu pai tenha uma bala na cabeça, arrodeando de um lado pro outro, vocês fazem milagre. Depois veio o terremoto. Aquilo foi o fim do mundo. Pesadelo fora da cabeça. Olha aqui a tremura nas mãos, olha aqui nas pernas, só em falar o corpo todo terremota. Está vendo tudo isso aqui, isso e mais isso e mais aquilo? Todo esse entulho era casa. Era o castelo nosso. Cada um com o seu. Cada um no seu quadrado. Tinha porta, tinha fechadura, tinha chave, tinha buraco na fechadura. Meu pai ainda guarda a chave da casa. Pendurou no pescoço com um cordão encardido, cordão umbilical dele. Diz que ainda vai ter uma casa, vai abrir com aquela mesma chave. Já pensou no desgosto: você vendo as casas dos amigos no chão, você correndo até a sua casa, você tirando a chave do bolso, você vendo sua casa no chão. A chave. A casa. Pai diz: vou ter outra, vou abrir com essa mesma chave. Acorde pra vida homem, eu digo. Ele começa a chorar, lembrando da pia, da mesa, do armário, dos bocais, da porta. Ainda chorando ele dá um soco na perna, diz que ainda vai abrir uma porta com aquela chave. Digo: vai mesmo, pai! Digo pra ele não dá outro soco na perna. A gente agora vive no fim do mundo. Fim do mundo não é na distância não. O Japão e a China ficam mais longe. Digo fim do mundo de coisa que terminou, acabou, chegou no fim. O apocalipse, entende? Não tem a história do apocalipse? Então, aqui é o apocalipse, o fim do mundo. A noite só se ouve o choro do povo. O choro pesado, o choro grande. A gente se acostumando ao choro, Deus me livre, Deus me defenda. Choro pesado é choro de fome. Choro fundo, choro que parece enterrado na garganta é choro de saudade de quem morreu nos escombros. A mão pra fora dos escombros, a pessoa puxando, deslocando o osso, quebrando o osso e a pessoa lá embaixo, sem dizer nada, um ai a pessoa não dizia, tão morta já, tão já cadáver. O cólera. Como se não bastasse agora veio o cólera. Os soldados aí, pacificando, dando sopa e pão, dando água e cobertor, mas cá pra nós, não é mau agradecimento não, longe disso, cá pra nós foram eles que trouxeram essa desgraça pra gente. A notícia é essa: foram eles que trouxeram o cólera, a diarreia. A pessoa correndo pro mato pra defecar. Banheiro não têm, tudo nos escombros, que resta é o mato. A pessoa indo e voltando várias vezes por dia. Uns vão e ficam pelo caminho. Um dia de cólera e a pessoa já se acaba. O homem inteirinho ontem, andando, subindo ladeira e tudo, hoje amanhece com vinte quilos a menos. Vinte quilos. A água do corpo indo embora. Tome beber água, tome soro e tome gente morrendo. O apocalipse. Veio uma médica hoje cedo, moça bonita, cara rosada, cabelo louro que não dava uma volta. Veio falar com a gente, eu e meu pai. Eu só olhando nos olhos dela, aquele azulão do céu, penso até que ela ficou com medo. Veio falar com a gente, dizer que uma barra de sabão era capaz de salvar nossa vida. O povo aqui, morrendo por falta de banho, por falta de se ensaboar nas axilas, no pescoço, nas partes de baixo. Uma mulher bonita daquela falando aquilo, mandando a gente tomar banho. Lavar os sebos. Os olhos azuis olhando pros pés da gente. A gente com vergonha da razão da mulher. Sabe o preço de uma barra de sabão? Cinquenta centavos. Com esse dinheiro a gente podia salvar nossas vidas. A gente pode. Mas dinheiro se gasta com o pão, a manteiga, a mortadela. A gente com fome vai lá pensar em sabão? A gente com fome vai lá pensar em lamber sabão, minha senhora?

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

FILOSOFIA

2
as coisas
que não se pensaram
escondem-se em poleiros
chocando-se

terça-feira, 30 de novembro de 2010

CARTA

As mãos ferviam em tremuras prevendo desgraça maior. As mãos borbulhando. Abriram a carta. O barulho do papel se abrindo, o papel estalando, tlec tlec. Ela esticando a papel, desamassando os vincos. As duas mãos segurando, as letras sacudindo, embolando uma na outra: estouro de manada. Leu: Juarez Damasceno e Dantas, o nome do esposo, Juarez Damasceno e Dantas, apresentar-se imediatamente ao posto do Exército Brasileiro, Rua Gervásio Pires, 385, Boa Vista... para fins de alistamento... A mão tremendo ainda mais. Aquela respiração assim: já morrendo, já afogando. Se for pra dizer a verdade ela já sabia. Aquele agouro ali ela já sabia. Coisa de mulher saber ela sabe antes de acontecido. Como se ela fosse lá na frente, no tempo, visse o que se tinha de ver, e depois voltasse, já sabendo o que iria acontecer. Sabe pessoa saber uma coisa, ter certeza dela, ficar só esperando? Você cai daí, o pai avisa. Qualquer pai avisa: você vai cair daí. Então o pai fica meio esperando pra dizer: não disse, eu não avisei, foi o que mais eu avisei. Têm mãe que faz a mesma coisa, mas o coração se parte. Têm mãe que prever a queda e segura a criança. Jarro de porcelana. Juarez Damasceno e Dantas estava trabalhando. Chegava já meando a noite, tomava banho, jantava, conversava, ouvia rádio, acompanhava as músicas batendo com o dedo na mesa. Pianista. A mulher dizia que era maluquice. Arenga de criança. Em noites mais afoitas, de menos cansaço, noite mais longa, o homem tirava a mulher pra dançar igual o tempo de namorado. Eles magrinhos, aquela moda boca-de-sino das calças. Igual ao tempo de namorado com aquele jeito curvado de castanha dele, mesmo braço peludo, o braço peludo em desalinho. Os dois desengonçados, meio chipanzés, os dois felizes, rindo na orelha do outro, o vento quente agradando, arrepiando. O filho batia palmas. Poc poc, as palmas abafadas com a mão em concha. O filho já rapaz, barba já grossa, espinhando. O filho batia palma para os dois chipanzés. A mulher rasgou a carta antes que o marido voltasse do trabalho. Rasgou a carta e se trancou no quarto, medo de alguém chegar, acusá-la de crime. Pois então não era crime rasgar uma carta do Exército Brasileiro? Na cama ela foi juntando os papéis. Sabe quebra cabeça? Ela foi juntando os papeis, reparando o crime. Se o marido não se apresentasse, que fariam dele? Na gaveta havia durex. Podia ser dela pegar o durex, emendar a carta. Que fariam de todos os homens que não se apresentassem? Os prenderiam por desacato. Por desacato ao que, ora essa? A mulher foi logo abrindo a tampa e jogando os papéis picados no vaso. Porque na verdade era aquilo que os papéis mereciam, era aquilo que os papéis eram. Puxou a descarga. O barulho da água descendo no cano, a raiva da água encontrando os papéis. Quando a água acalmou-se ela viu um papelzinho: rvasio Pir. Ela esperou a caixa encher, disse: Gervásio Pires é um escambau. Um mês depois chegou outra carta. Jonas Damasceno e Dantas, o filho, Jonas Damasceno e Dantas, tendo já completado a maior idade, e não sendo covarde igual o pai, deverá se apresentar ao Exército Brasileiro para fins de alistamento, Rua Gervásio Pires, 385... Jonas estava no quarto, estudando pra medicina, o pai estava no trabalho, operando máquinas e a mãe abria a tampa do vaso, defecava em cima dos papéis picados e dava descarga naquela merda toda.  

sábado, 27 de novembro de 2010

FILOSOFIA

1
o Avô
passou a vida toda
refletindo...
......................
virou espelho

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

MANIA

Mania feia que eu tenho é de falar pegando nas pessoas. O povo todo acha feio. A família toda acha muito feio. Coisa de gentinha, eles dizem. Coisa mais obscena, mais erótica. Eu mesmo tenho que ser a meu favor. Primeiramente eu por mim, os outros não me interessam muito. Os outros podem ter carro, casa na praia com piscina, pés de coco, quiosque na porta de casa e tudo mais que inveja eu não tenho. Posso até olhar, posso até admirar, dizer que esse cara deve ter vida boa e tudo, mas inveja mesmo eu não tenho. Riqueza demais me incomoda. Eu sofro de medo de ser rico demais na carteira, no colchão, no banco, na Suiça . Coisa na minha cabeça dizendo que é pecado. Tanto de quem já nasceu rico, quanto de quem saiu da pobreza. Rico não, mas ser muito rico eu tenho medo. A pessoa fica muito rica, mas fica com cara de pobre ainda. Se não for na cara, mas no jeito de andar. Pobre rebola mais. Tanto rebolou pra viver que o rebolado ficou encrustado. Fica rico, mas ainda fica pobre. Um dia desses uma pessoa disse: você fala igual italiano. Um segundinho de nada e eu pensei que tinha sotaque italiano, figura-te, babene, caspita, coisa assim. A pessoa disse: você fala igual italiano, pegando na pessoa, segurando com essa distonia toda. Então na hora eu inventei uma estória. Bem assim: eu era pequeno, tomava banho no Rio Mundaú e fui entrando mais na água e fui entrando mais e comecei a afogar. Eu abrindo a boca pra pedir ajuda e a água entrando, engasgando, glut glut. Eu sacudindo os braços pra vê se segurava em alguém e cadê alguém aparecer. Depois alguém apareceu me salvou e fiquei com essa mania. Essa mania de ficar falando a tocando na pessoa, como se eu fosse morrer afogado.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

HISTORINHA MODERNOSA E SEM VERGONHA

você vai abrir a janela
clica e arrasta
depois inserir figura
(se a figura for grande demora um pouco)
subir
e
descer
na barra de rolagem
fechar por causa do vírus
e
pronto
tudo salvo

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

NEGÓCIO

A mulher que foi propondo. Ele ouvindo. Nem balançava a cabeça, que sim, que não. A mulher falando sem ter a resposta, uma aprovação. Uma cara feia sequer. Que homem é esse que ela foi arrumar? Homem de gelo. Desses só podia ser de gelo. Desses que a pessoa fala e ele nem aí pra vida. A pessoa se descabelando. A pessoa morrendo, a pessoa já nos últimos suspiros e ele nada. Ingrato. Também que se desse um desconto. O homem havia trabalhado o dia todo. O dia todo era: levantar as quatro, ela ainda dormindo, levantar as quatro e tomar café de ontem. O café já perdendo o morno. O café menos morno do que urina. Sabe a urina, a primeira urina do dia, aquela que ficou guardada da hora que a pessoa deita até a hora de levantar no outro dia, sabe essa urina que todo mundo têm? Pois essa urina ainda era mais quente que o café que o homem tomava. A mulher não podia acordar, às quatro horas se acordasse ficava o resto do dia sem dormir, pelejava e não conseguia. Ficava meio morta, meio zumbi. Quem a visse diria que era um zumbi. Sabe um zumbi, coisa nem viva, nem morta? Ele que fechava a garrafa de café. Apertava a tampa. Apertava a tampa com tanta força que pela manhã ficava com dificuldade de abrir. Ele tinha mais força pra fechar a tampa do que pra abrir. Ele só não, todo mundo. Fechar e fácil, abrir é que é difícil. Também se diga que de manhã a pessoa é mais fraca. Logo de manhã, logo quando acorda a pessoa é fraca. Vai ganhando força com o tempo, com o tempo vai acordando direito e entrando na vida. Então ele tinha menos força pra abrir a garrafa. Pra abrir a garrafa e também pra lembrar se estava fazendo força pra abrir ou força pra fechar. Porque é assim: Têm hora que a pessoa endoida, nem sabe se está abrindo ou fechando. Das vezes que ele não fechava a garrafa era a mulher que levantava, ia até a cozinha a arroxava a tampa. Porque ficava a zoadinha da garrafa mal fechada. Tchuuaacrootchuu. O chiadozinho da quentura escapando. A noite qualquer chiado vira um carro de som; o barulho crescendo, incomodando-incomodando. Então ela fechava a tampa pelo barulho, nem era pelo marido, pelo café quente de madrugada. Às quatro horas ele se levantava, tomava o café de urina e sai pro trabalho. Pegava dois ônibus: um que chagava até um tanto, outro que chagava até o resto do outro tanto. Trabalhava na construção civil. Pedreiro dos bons. Tinha quem pusesse defeito em acabamento que ele fizesse não. Estava erguendo um shopping já no fim do mundo. Ano passado era um hotel, então ele só pegava um ônibus, tinha tempo pras conversas da mulher quando chegava, as lorotas que ela contava. Agora era o shopping no fim do mundo, dois ônibus e o corpo só o molambo à noite. Tinha semana que eles nem brincavam. A mulher querendo, a mulher se queimando e ele roncando. O que ela falava tanto e ele nem ligava, o que ela queria era montar um negócio. No Brasil é assim: foi-não foi o povo monta um negócio. Começa no improviso: uma barraca, tamboretes e coisas de comer: pastel, coxinha, enroladinho. A mulher queria coisa maior, queria vender petisquinhos não. Queria era coisa com comida de panela. Queria procedência, queria moral. Quem não quer ter moral, não e mesmo? Nos estádios de futebol, ela perguntou, nos estádios de futebol não têm sempre o vendedor de cachorro quente, aquele cachorro quente ruim pra danar não tem? Têm, ele respondeu, têm sim. Quando a Prefeitura arma o parque de diversões não têm pipoca e pipoqueiro, não têm? Têm. Então meu filho, acorde, estamos perdendo dinheiro. A casa vizinha à deles era uma Casa de Velar os Mortos. Muitas rezas, muitas velas, coroas de flores e muita fome. O povo amarelo de fome. O povo, a bem dizer, já morrendo de fome. Vai dar dinheiro meu filho, pode ter certeza que vai dar dinheiro. A Casa de Velar os Mortos era grande, a Casa de Velar os Mortos era enorme, cabiam seis defuntos. Cabia uma chacina. Cada defunto com cinquenta parentes, duzentos amigos e inimigos. Inimigo sim, por que não? O inimigo vai ao velório certificar da morte da pessoa odiada, olhar pro nariz, examinando se respira, joga a primeira pá de terra e tudo. Não tinha dia que não houvesse dois, três defuntos. Teve um dia que a casa lotou com seis defuntos, parentes, amigos e inimigos. Seis defuntos e mais um ficou de fora, esperando vaga.  Em frente as escolas não têm sempre uma barraca vendendo... Topo, o homem disse, meio que ressuscitando, eu topo.

domingo, 7 de novembro de 2010

VIRA-VIRA

a barriga
virou abdome
o sovaco
virou axila
o cachorro
vira-lata
a mãe
virou a cara
o pai
virou fera
a filha
virou filho

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PULGA

Os bichos já estavam para entrar na Arca de Noé. Já a frente se via o traseiro magro da girafa, a frente deste outro mais opulento e baixo, que era o traseiro do hipopótamo e mais a frente o traseirão do elefante. De modo assim que já existia uma fila indiana. De modo que a pobre da pulga pensou que ali se formava a fila pelo traseiro. Os maiores à frente, os menores atrás. Cabendo a ela o fim da fila, que era bem o lugar que estava. Era bem o lugar que estava, não fosse a chegada de um cachorro e um gato, bichos menos de savana e mais de casa.  Bichos que não se davam já há séculos, e se não fosse a emergência de entrar na Arca de Noé, estaria o cachorro correndo atrás do gato. Estaria o gato a trepar numa árvore.  De outras vezes, como se sabia, o gato em apuros, não encontrando árvores, trepava no que houvesse pela frente: um alce, uma zebra, uma árvore. O cachorro latindo, espumando, e o gato a mangar de sua cara com o miado mais foêm, que era este o som quando queria zoar algum bicho. Na entrada da arca estava Noé, fazendo perguntas aos animais e examinando-os. Perguntava se eles tinham feridas, se haviam se banhado e se conseguiam passar dias sem defecar. Respondiam que sim. Eram limpos e quase não faziam suas necessidades, e entrando na arca não haveriam de fazer essas coisas, nem pensariam nelas, e não sendo pensadas elas nem existiriam. O que era uma grande mentira e Noé soube disso já na primeira hora do dilúvio, já quando a arca estava ganhando altura e dela ninguém mais podia sair ou entrar. A pulga, amolando bem os ouvidos, conseguindo ouvir o que se conversava mais a frente. Sobre sua higiene, que diria ela a Noé? Sobre suas necessidades, ou não teria ela o caminho por onde as necessidades saiam? Não sendo a pulga um bicho de banho, sendo um bicho de imundície, como então faria para entrar na arca? Ficou matutando. Os neurônios se desenleando a formar respostas. Foi-se o elefante, foi-se a girafa e o hipopótamo e agora era a vez da pulga. Noé a pediu que saltasse na palma da mão. “Verdade que terás muito lugar aqui, és pequena, e te arranjaras com muito pouco. Mas, diz lá se és de tomar banho e já o tomasse?” Então as sobrancelhas do velho Noé arquearam-se dando a cara a expressão de quem espera uma resposta. E, talvez se diga, quem já até sabia a resposta. “Não sou muito. Confesso que banho só me cai quando a chuva me pega ou quando um animal se coça, jogando-me para longe, para dentro de uma poça, fora isso, nem água eu tomo”. E Noé não gostou nada do que disse a pulga. A cara séria, os olhos fixados, como a procurar o grude da criaturinha. As vistas de Noé eram muito boas. De pequeno, sua mãe dizia que ele vivia a enxergar coisas do além. Comprovou no dia que ele enxergou um linha descosturada em seu vestido. Não era possível. Não aquele vestido cosido à luz do dia com a maior perícia, não aquele vestido reservado às festas e sempre guardado. De outras vezes Noé parecia enxergar as coisas mais a frente. Mais a frente como se enxergasse o futuro. Como se enxergasse o futuro ou dele desconfiasse. Mas isto só acontecia às vezes, em épocas de calmaria, não em épocas como essas de agora, de prenuncio de muitas chuvas, a bem dizer: dilúvio. “Se é assim, não posso deixar que entres. Se não tomas banho, se nem água tomas, aqui não podes entrar.” E Noé, terminando de dizer isso, meteu uma palma da mão na outra que era mesmo pra matar a pulga como se mata pernilongos. Quando levantou a palma da mão não existia mais pulga. As mãos vermelhas, as mãos latejando e nada mais da pulga. O canto mais limpo. Havia sumido por que havia morrido. Noé até procuraria a pulga, o cadáver, mas acabava de chegar à fila um macaco, uma cobra e uma avestruz. O cachorro e o gato já começavam a se impacientar. Não eram bichos de estando juntos, estarem quietos. Os primeiros trovões e relâmpagos pipocavam no ar e o velho Noé deixou a busca pra lá e seguiu entrevistando os bichos. Se eles haviam tomado banho, se haviam feito suas necessidades... Horas depois, Noé fechou a arca e a arca subiu. De uma janela aquele homem pode vê a chuva forte no convés e o mar se formando em todos os lugares. Noé pensando nos bichos que ainda haviam ficado para trás nem se deu conta que estava com pulga atrás da orelha. 

domingo, 24 de outubro de 2010

ALMA SENTIDA

a alma
(que lhe Deus tape as ouças)
é nosso último punzinho
que fica por aí
vagando
“eu sinto a alma”
disse um dia
a tia viúva



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

LAGARTIXA





Dentro da minha impressora vive uma lagartixa. Sabe essas lagartixas brancas. Essas brancas, quase transparentes? Tenho uma amiga assim: branca-já-ficando-transparente. As veias do corpo aparecendo. As veias se espalhando no corpo. Pega varetas. Não têm a brincadeira de pegar as varetas, sabe dessa? Se pega um monte de varetas, fecha na mão e depois solta na mesa. Na mesa, no chão, na cama. A pessoa escolhe. As varetas ficam espalhadas, amontoadas. Um caos. Então a pessoa vai pegar as varetas sem mexer na vareta ao lado. Nem na de cima, nem na de baixo. Só na que se está pegando. A minha amiga têm as veias de varetas. Eu querendo pegar as veias dela. As veias magras, mesminho que as varetas. As veias dela espalhadas, amontoadas. Um caos. Tudo aparecendo: aquele verde claro, dando até gastura de olhar. A pessoa olhando diz logo: ui. Ou diz ui ou diz: eca. Se a pessoa disser: eca, minha amiga fica triste. Aquele triste fundo, enterrado. Fica triste ou fica com raiva. Primeiro ela tenta ficar indiferente. Depois ela fica com raiva. Triste com raiva. As veias do pescoço vão inchando, inchando. A veia da testa então. A veia da testa desce até o nariz, depois se perde, mergulha. A veia da testa fica inchada quando está com raiva ou triste. Inchada que é mesmo que não corresse sangue nas veias, corresse fermento. Dentro da impressora a lagartixa fez a morada. Aquele canto onde os cartuchos param depois de imprimir. Aquele canto ali e o canto dela. A maloca. Claro que eu já tentei pegá-la. Tentei com a mão. Um homem tem que ser homem. Tem que sair na mão. Mão também serve pra isso: pegar lagartixa dentro da impressora. Mão não é só pra fazer letras e cálculos, pra pegar colher, faca, garfo, ligar o fogão. Ligar o fogão ou acender o fogão? Mão não é só pra pintar, engraxar, puxar descarga. Mão não é só pra lavar a outra. Mão é pra tudo. O que a gente não faz com a língua, faz com a mão. O que não faz com o cotovelo, com os pés, com a orelha, com a córnea, com o baço. Sabe o que é o baço? O que a gente não faz com outra coisa só faz mesmo é com a mão. Essa mão nossa de cada dia. Já tentei pegar a lagartixa e quase peguei. Quase peguei ou então eu peguei. Questão de interpretação. No tribunal não é a interpretação? Às vezes não é nem o crime; se foi assim, se foi assado. Se foi acidente ou ruindade. É a interpretação. Pode o réu nem ter feito nada. Pode ser inocente sim senhor, ora essa. Está cheio de casos por aí que o cidadão, olhe bem a palavra, o ci-da-dão não fez nada e foi condenado. Condenado a viver condenado, viver na sarjeta, na lama, na fossa. A televisão vem mostrando isso. A televisão, o jornal, o rádio, o povo do mundo todo sabe disso. No último verão, eu fazendo a limpeza na impressora, vi a lagartixa. Eu não disse que ela era branca, um branco quase transparente, não disse? Pois a lagartixa estava colorida. De ponta a ponta toda colorida. De primeiro eu só vi os olhos. O brilhinho dos olhos, tim, tim, pareciam duas estrelinhas fumegando. A vida toda ela ali e eu só via os olhos. Às vezes o rabo balançava e eu via. A vida toda eu sabendo que ela morava na minha impressora. Minha inquilina. Era capaz de a noite ela sair pela casa. Esticar as pernas, arejar a mente. Tem quem aguente viver socado em impressora não. No último inverno eu quis pegar a lagartixa. E não peguei. Ou então eu peguei. A pessoa interpreta como quer. Eu no computador, eu escrevendo, nem aí com o mundo. Quando a gente escreve o mundo é aquilo saindo da pontinha dos dedos pra tela, saindo do juízo da gente, da alegria e da tristeza, do pensamento. O pensamento vai bombeando as coisas. O mundo é esse quando a pessoa escreve. O mundo de verdade. Eu no computador, nem aí com o mundo, quando virei à cabeça pra pensar melhor, pensar ou descansar, que escrever também é estafante, escrever também é fogo. Nem aí com o mundo, virei à cabeça e vi a Lagartixa andando pela impressora. Ela de costas. Ela toda desprevenida nem viu o meu bote. Fui logo com a mão pra cima dela, uma cobra. Então, quando vou conferir o apurado o que tenho na mão é o rabo da lagartixa. Ela se enfurnando de novo na impressora, se entocando, cobra que é também, e eu com o rabo dela. O rabo fino, se debatendo. O rabo fino se debatendo que parecia um touro. Não tem rodeio? Joguei o rabo e ele ainda ficou se debatendo, todo epilético. Parecia ser a dor. O resto do corpo não, mas o rabo se debate é de dor. Com os calangos é a mesma coisa. A pedrada acerta e cai é o rabo, se debatendo, epilético. Isso foi no último inverno, assim pra junho-julho, porque no último verão, quando a vi, ela estava toda colorida. As tintas da impressora soprando nela. Ela sem sair mais da impressora, ela com medo, sem sair nem nada, vivendo só lá, só ali, somete. Ela se pintando. Tudo que era de cor. A coisa mais linda. Eu digo: ficou a coisa mais linda. Têm bicho como aquele não. Não têm criatura no mundo com a beleza da lagartixa. Aí bateu o arrependimento de ter arrancado o rabo da pobre. O rabo pinotando, o rabo morrido, varrido, jogado fora, no monturo. Arrependimento de já procurar lugar no inferno, pois se não era, quando, olha que coisa, quando avisto o rabo da lagartixa. O rabo já grande, tamanho do outro jogado fora. Um rabo pontudo, amolado. Um canto assim, a pessoa olhando direito, dava pra ver a emenda. Rabo crescido do inverno pro verão num bicho que é uma obra de arte. Um Kandinsky, um Pollock, um Miró. A lagartixa continua lá, se banhando de tinta, se banhando de lindeza. Todo dia eu a alimento. De primeiro eu matava moscas e jogava pra ela.  Mas, a pobre nem tocava na comida. Jogava aranha, jogava pão, jogava queijo e nada de comer. Veio à esperteza. Cabeça foi feita pra pensar. O que não se faz com a mão é bem capaz de se fazer com a cabeça. Entrei no Google, pesquisei, pesquisei, pus a pesquisa pra imprimir. Quando a folha de papel saiu veio à alegria da pesquisa ter dado certo. A esperteza minha. Quando a folha de papel saiu não tinha nada impresso. Nada-nadica. A pesquisa na tela, eu constatando. A pesquisa na tela e nada impresso no papel. A lagartixa havia comido a impressão. O papel esburacado, sem as imagens de insetos. Todo tipo de insetos: que voa, que anda, que rasteja. A lagartixa comeu tudo. Esburacou o papel. Tan-tan, não sobrou nada. Agora, todo dia eu a alimento. Sou humanista. Humanista ou ecologista. As duas coisas. Está gorda agora, Está uma baleia, sabe uma baleia jubarte? De vez em quando ela come uma letra quando imprimo algum arquivo. É o sinal que ela usa pra que desligue a impressora, que já está quente, que pode faltar à tinta do banho e da comida. Que é assim que é.   


domingo, 17 de outubro de 2010

ECCE HOMO

o Serumano faz o pão
e
faz cadeado
o Serumano faz espelho
faz sopa
o Serumano faz Seresumanos
que comem galinha
e
palitam os dentes
o Serumano amarra o cadarço
(amarra o bode)
o Serumano mata a fome
e
morre de fome
o Serumano constrói casas
para prender
os Seresumanos que eles fizeram



quinta-feira, 14 de outubro de 2010

DEVEDÊ







A cor do nascimento. A pessoa bem que podia escolher a cor de nascimento. Vermelho, azul, lilás, a cor verde do Hulk, a cor amarela dos japoneses, a amarela dos suecos. Cor preta, cor branca. Se eu escolhesse escolheria pra nascer com a cor azul, o azul de Avatar. O filme avatar. Aquele azul todo. O filme ainda no cinema e o DVD nas ruas. O cartaz no cinema: Avatar, seg, ter, qua, qui, sex, sab e dom. Todo dia sendo dia de Avatar. O mundo avatazando, avatariando, avatariolando. O filme ainda no cinema e o DVD já a venda nas caixas de sapatos, o DVD estendido no chão. O DVD não mão. Quanto é? “Dois reais.” Se travar moço, se esse bicho não rodar no player, se travar? “Travando pode trazer que a gente troca.” Vou levar esse. “Leve três que fica por cinco.” O vendedor é malandro ou é amigo? Malandro, sabia que eu só queria um. Só queria o Avatar. O vendedor induzindo ao consumo. O vendedor amigo. Sim, amigo, pois tiraria um real se eu levasse três. Um real já é muita coisa. Um real aqui, outro real ali. Aqui ali, aqui ali e a economia agradece. O que é um real? Nada, olhando direito um real não é nada. Mas um real de todo mundo que está acordado, não é dinheiro não? Até de quem está dormindo, a baba descendo do canto da boca, até de quem está dormindo agora, agorinha nesse momento, um real já é dinheiro. A pessoa escolhendo mais dois DVDs. A pessoa sendo esperta escolhe um DVD com três filmes. A trilogia Bourne num só. A trilogia compilada. A pessoa indo comprar filme por filme, tinha real que aquentasse? Tinha uma cebola que tinha. Agora a qualidade é ruinzinha, mas da pra assistir. Quando era VHS não era ruinzinho também? Não havia DVD, então o VHS era bom, não tinha o chiado da TV. O fora do ar da TV. O VHS era o top de linha. Era ou não era? A imagem está ruim porque o cabeçote está sujo. Maior charme, maior entendimento a pessoa chegar e dizer: o cabeçote está sujo. Veio o DVD e o tão bom do VHS ficou ruim. É a modernidade. Você tem que comprar o mais moderno senão fica pra trás, pro tempo das cavernas. Agora já é o tempo do blu-ray. Já ouviu falar? Cabe tudo dentro do blu-ray. As falas de uma família, as discursões, os sonhos, cabe tudo dentro do blu-ray. Lágrimas é que não cabem. Para as lágrimas não há cabimento. Três filmes num DVD só. A imagem ruinzinha, mas, ainda assim melhorzinha do que o VHS. Avatar, Trilogia Bourne. Falta um DVD pra inteirar os cinco reais. “Tem esse aqui de ação: Busca Implacável. Gosta de ação?” Pode ser. É de ação de tiros ou ação de murro? “Esse têm os dois. Esse bicho aqui é o ator principal. Os terroristas sequestram a filha dele e o homem se vira em cobra...” Pronto, três por cinco. Feriadão pra assistir filmes. Se fosse pra escolher a minha cor de nascimento eu escolheria a cor azul de avatar. Azul com essa listrazinha clara. Escolhia só a cor. A cor já bastava. Queria essa cara de avatar não. Nem a cara e nem o tamanho. Como é que iria entrar dentro casa?  Batendo na laje, estambocando, só se fosse. Dormir com os pés pra fora da cama não dá. Tomar banho acocorado que eu não ia. Falar aquela língua deles. Aquela língua enrolada. Coloco o DVD na bandejinha, aperto e ele vai pra caverna. O DVD não tem nem o menu. Colocando ele começa. Bom assim: já começar começando. Livra a pessoa de esperar a apresentação, os trailers. O filme começa. A filme avança. Frio, depois morno. Depois o filme esquenta e o DVD trava. A pessoa tira o DVD. A pessoa frustrada tira o DVD e xinga o safado que vendeu. Limpa o DVD na blusa, põe de novo e nada.  E nada, e nada. Será que eu ainda lembro a cara dele, a voz dele, do safado? “Travando pode trazer que a gente troca” 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

FESTA

os peixinhos ornamentais
são as bolas de sopro
dos aniversários no fundo do mar
os tubarões são os cães
os golfinhos os foguetes
os peixes-boi os bois
os homens os ETzinhos
e Deus é a água-viva em chamas



quarta-feira, 29 de setembro de 2010

METRÓPOLIS

o homem esticou o braço
espreguiçou 
e levou um tiro



domingo, 26 de setembro de 2010

AFOITO

ganhou na loteria
sentou num sofá de três lugares
e teve uma inchação pulmonar até explodir



quarta-feira, 22 de setembro de 2010

AR

Era falta de ar que ele tinha. Ela estando perto o ar dele faltava. Nem era junto, distancia de um metro. Era junto na mesma sala, mesmo galpão, mesma rua. Ele na ponta de baixo; bem miudinho, e ela na ponta de cima da rua. Assim já lhe bastava pra falta de ar. Ela enfiando uma mangueira na boca dele e chupando o ar. Ela inchando de tanto ar consumido. Ela crescendo, crescendo e vindo ao encontro dele. Ele sem ar, as mãos nos joelhos. Ele cansado e ela vindo... grande, acima de elefante. Grandona, acima de dinossauro. Elefante, dinossauro e ainda baleia em cima. Baleia das grandes. Baleia das jubartes. Das jubartes emitindo aquele som, aquele barulho que é o canto dela.  Um passo daquele podia quebrá-lo. Podia fraturar os ossos dele. Os fêmures estalando, as costelas, a cabeça. A cabeça estalaria e o cérebro nem se teria história. Ela vindo pisá-lo. Sem dúvida ela vinha pisá-lo. Ela vindo, vindo e puf. Ela vindo, nem olhando pra lugar nenhum. Ela maior do que as casas. Ela vindo maior do que os prédios. Vindo e nem viu a hora que um espinho de roseira furou o pé. Furou furando e ela murchou. Na hora, nem dez segundos, nem cinco, ela murchou. Na hora murchou. Uma bexiga de sopro. Sabe uma bexiga de sopro que a pessoa não quer encher mais e solta, abre os dedos e solta? A bexiga solta, se debatendo de um canto a outro canto. Aquela doidice toda e aquela zoada. Ela sequinha de ar nem mais pisaria nele. Já seria um alívio. Ela não pisando ele já seria um alívio dos grandes, na certa. Mas se lembrarmos que ela inchou, inchou e depois secou, se lembrarmos que o que inchou ela foi o ar dele, então ela secando: foi-se-lhe o ar. O ar dele se foi com o puf do espinho da roseira. Foi-se-lhe o ar. Isso tudo num sonho. Acontecido num sonho. Um sonho dormido com dramin. Isso tudo não sendo ele imaginando. Era sonho. Era vindo das profundezas. Vindo do inconsciente. Vindo do subconsciente. Isto, estas coisas assim. Ele acordando. Secando a testa e as exilas. O travesseiro ensopado, o lençol, o colchão ensopado. Ele tirando a fronha, o lençol. Ele virando o colchão. De pequeno ele virava o colchão. Dormia, sentia quentura nas pernas, acordando ia logo virando o colchão. Arrumando outro lençol, disfarçando o crime. Tão grandinho, já quase rapazinho, quase gente e ainda fazia aquela sujeirada na cama. Ele havia sonhado que ela lhe tirava o ar. Porque era tudo sonho, a mangueira, o tamanho de elefante, tamanho de dinossauro, tamanho de baleia ainda. Tudo sonho. Tudo imagens sem edição, sem montagem, efeitos. Acontecia que na vida real ela tirava o ar dele, sem mangueira, sem nada. Só mesmo sendo ela. Bastava estar por perto que o ar faltava. Era: Ela aparecendo e o ar sumindo. A coisa ruim da pessoa ficar buscando ar. O ar existido no mundo todo e a pessoa buscando ar. A pessoa morrendo. Bem dizer a pessoa morrendo. 

terça-feira, 21 de setembro de 2010

IRMANDADE

a sombra é o nosso irmãozinho gêmeo 
que ao invés de nascer
resolvera viver à nossa própria sombra



quarta-feira, 15 de setembro de 2010


Palestra realizada nas festividades de 98 anos do Colégio SANTA SOFIA. Dia 15-09-2010.

domingo, 12 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

ELA FICOU COM OS OLHOS PRO CHÃO

quando o homem perguntou se ela aceitaria o emprego ela ficou com os olhos pro chão com os olhos pro chão como se ali estivesse escrito sim ou não e ela tivesse que escolher entre uma das duas palavras como se o sim estivesse na cor verde e o não na cor vermelha e ela tivesse que escolher apertando um botão que fizesse uma das luzes piscar rapidamente  e rapidamente era o que o homem queria ele queria que ela se decidisse por uma resposta uma das duas luzes é pegar ou largar era a voz do homem dizendo ainda não sei porque esse medo de vocês mulheres por este serviço homem eu até entendo que não queira esse serviço homem até parece criatura bruta meio sem alma sem coração mas homem pra esse serviço não dá conta não sabe da tabela não sabe quantos dias são os sangramentos fica constrangido ele constrangido e a mulher a ser vistoriada também um constrangimento total mas se é mulher que executa o serviço o constrangimento diminui não é que acabe não acaba eu entendo muito bem que a situação e vexatória  uma situação vexatória  entre duas pessoas as duas caladas sem nem se olharem trocar uma conversa sobre a novela por exemplo elas falarem sobre a novela o capítulo de ontem ninguém aceita de bom grado chegar numa sala tirar a roupa e ser examinada nas partes ser tocada ver se está em período de sangramento dizer de quando até quando vai esse sangramento e provar o que diz sangrando não é mole pra mulher nenhuma essa situação ficar nua ser tocada ser perguntada da tabela sangrar ainda mais se for um homem a fazer esse serviço é coisa vexatória mas quando é mulher examinando mulher até funciona pode não agradar mas funciona a mulher perguntou levantando os olhos levantando os olhos e olhando bem na cara do homem olhando bem pra ver se ele piscava pra ver se ele tinha coragem de falar aquilo olhando na cara dela ou se só estava falando porque ela estava com os olhos pro chão escolhendo as palavras sim ou não escolhendo a cor verde ou a cor vermelha ela perguntou os olhos na cara dele a pergunta era se as mulheres se recusarem a essa vistoria ele respondeu já acostumado com os olhas na sua cara os olhos fuzilando os olhos desparafusando sua cara a resposta foi aqui na firma é lei e lei é lei se a mulher não aceitar ser examinada é porque esconde algo esconde uma gravidez não empregamos e nem mantemos no emprego quem tenha gravidez faz parte da nossa excelência grávidas trabalham devagar uma leseira que só mesmo vendo chegam tarde saem cedo mal escurece e saem depois ficam seis meses em casa recebendo seis meses recebendo e a firma pagando outra pessoa no lugar dela a pessoa trabalhando mais rápido que ela a pessoa mais ágil querendo a vaga e a vaga dela esperando seis meses uma eternidade seis meses e quando volta não sabe nem mais trabalhar volta desaprendida volta travada volta grávida ela já volta grávida

sábado, 28 de agosto de 2010

RETIFICANDO

e Deus nos fez à sua imagem e semelhança
ps. o que não quer dizer a mesma coisa



domingo, 22 de agosto de 2010

terça-feira, 17 de agosto de 2010

CAPACETE

tem um pouco do que pensamos na espuma



domingo, 15 de agosto de 2010

MUNDAÚ

2

a Cidade sem edifícios
(risco de gráfico
subido descendo subindo)
Cidade de rama
(se enfiando)
que as de cima
copando
igual enxurrada
a Cidade crescendo

domingo, 8 de agosto de 2010

FEMINISTA

mas tão feminista
que as galinhas nasciam de uma ova 

ASSIM É TUDO

tudo se acende
um fósforo uma vela
uma lâmpada um sol
tudo se apaga

sábado, 7 de agosto de 2010

BRAZIL

“país da América do Sul
lá se puxa pouco a descarga”


domingo, 1 de agosto de 2010

MUNDAÚ

1
a Cidade é vizinha
de cidades-mirins
(de pouca rama)
Cidades
de uma igreja ao centro
(igreja-umbigo)
que é de onde as Cidades
(os bens mirins)
crescem vagarosamente
até enxertar noutra
o viaduto umbilicando-as
siamesando

PRÓLOGO

a cidade
empestada de becos
pés-de-galinha (parabólicas)
fios no céu
(fios-terra)
São Sebastião flechado  
São Sebastião pichado
São Sebastião São Jorge
a cidade
dentro de casa
(assistindo a cidade grande)

JOANA

de pensar eu pensava:
o sol ser um sonrisal crescido no céu
descido no mar faria aquele chiado de cozimento
de pensar a lua era uma moeda
igual o Avô disse ser
— quem a puser no bolso enrica da noite pro dia
que a aranha
eu pensando
comia linha de costura e fazia sua própria casa cagando
a casa saída do fundo
de mulher esperar a cegonha
eu jamais compreendia 
longe do entendimento que era
entendimento eu tinha de ter fome

pensava que Joana
vizinha da casa pegada a nossa
por ter sumido uns tempos
a mãe chorando “minha Joaninha minha Joaninha”
pensava que Joana sumida
tinha virado Joaninha igual a mãe chamando
procurava uma Joaninha no quintal
levava na porta da mãe entalada de choro
(o medo de espragatar a pobre)
batia palmas
corria deixando a Joaninha no entendimento com a mãe
ficava escondido em casa
a respiração funda
— que foi que fez que está desconfiado?
— nenhum fazido não

REVOADA

as mãos que dão tchaus
são pássaros que erguem voos