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Mostrando postagens de 2010

CAMBRAIA

Ela vinha com o corpão de montanha. Sentava, abria a gaveta da máquina, e escolhia uma cor. Tirava o carretel de linha azul, puxava a linha, saia enfiando nas engrenagens da máquina. Checava a correia dos pedais e pedalava. Pedalava para fazer o teste, só para esquentar a dormência da máquina. Depois ela abria o guarda-roupa, pegava o tecido. A cambraia. Encaixava a cambraia na mira da agulha e pedalava. Agora pedalava pra valer, tchac tchac tchac. A máquina de costura puxava o tecido, a mão dela indo junto, a mão puxada, a mão chegando perto da agulha que pinicava tic tic tic, a mão saltava para trás (a mão um caranguejo). Ficava assim: indo para frente, saltando para trás. Ficara treinada com o tempo, nem pensava; a mão saltava mecanicamente (macaca velha, a mão). Ele era bem pequeno, coisa de cinco, seis anos. Pequeninho. Cabelo encaracolado, os cachos pendendo (minhocas que saiam da cabeça dele). Ele tirando remela, o dedo no olho, rodando, a remela se partindo, caindo (uma formig…

MATÉRIA DO BLOG AGENDA GARANHUNS, POR WAGNER MARQUES

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HELDER LANÇA LIVRO E VENDE 350 EXEMPLARES EM UMA SEMANA
O poeta Helder Herik está lançando seu terceiro livro, que vendeu em Garanhuns, impressionantemente, mais de 350 exemplares em uma semana. A obra pode ser adquirida na Livraria Mec, Pérola Joia, Banca de Revistas Avenida e, brevemente, na Livraria Casa Café. Trata-se do livro SOBRE A LÁPIDE: O MUSGO. O poeta, segundo o crítico literário André Cervinskis, vem construindo uma obra que se destaca no cenário atual da literatura e, embora seja pouco conhecido do grande público, é um nome que vem se fazendo conhecer nas rodas literárias.

Já para o consagrado poeta Mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, Helder é um poeta original e um dos nomes para a literatura brasileira marcar. A romancista Luzilá Gonçalves Ferreira revela que o poeta leva a sério sua vocação de trabalhar as palavras e seus livros podem ser lidos sem causar o tédio de alguns livros que vem se publicando com o nome de poesia. Para deixar o leitor a par da densidade poéti…

MELANCOLIA

os bois na fazenda
veem a vida cercada
miram devagar quem passa...
...e ficam tristes devagarzinho

CÓLERA

Bem antes do terremoto a vida já era bem ruim, bem já beirando o inferno. Água encanada é luxo, coisa de barão, de príncipe, coisa de Michael Jackson pra lá. Michael Jackson! Eu gostava dele, aquele jeito doidão, meio soldado, meio mulher, o moonwalk eu gostava, aquele nariz de biscuit eu gostava. Sem Michael o mundo seria uma fila de repartição pública. Na fila, por favor. Quer ser atendido, senhor? Então entre na fila, por gentileza. Trouxe os documentos? Está faltando tal documento senhor, é melhor vir outro dia. Quando eu era mais novo tentava imitar o Michael Jackson. A tarde toda naquilo, a tarde na ponta do pé, até aprender o moonwalk. Não existe criatura no mundo que não tenha imitado: batido o pé no chão, balançado a cabeça e dado embigadinhas. Tinha uma televisão ligada na praça, a gente tirava do jornal e colocava nos vídeo clips. Televisão em casa, geladeira, computador, isso aí já é coisa de outro mundo. Sonho nosso era chegar em casa, tomar um gole de água gelado. Tirar …

FILOSOFIA

2
as coisas
que não se pensaram
escondem-se em poleiros
chocando-se

CARTA

As mãos ferviam em tremuras prevendo desgraça maior. As mãos borbulhando. Abriram a carta. O barulho do papel se abrindo, o papel estalando, tlec tlec. Ela esticando a papel, desamassando os vincos. As duas mãos segurando, as letras sacudindo, embolando uma na outra: estouro de manada. Leu: Juarez Damasceno e Dantas, o nome do esposo, Juarez Damasceno e Dantas, apresentar-se imediatamente ao posto do Exército Brasileiro, Rua Gervásio Pires, 385, Boa Vista... para fins de alistamento... A mão tremendo ainda mais. Aquela respiração assim: já morrendo, já afogando. Se for pra dizer a verdade ela já sabia. Aquele agouro ali ela já sabia. Coisa de mulher saber ela sabe antes de acontecido. Como se ela fosse lá na frente, no tempo, visse o que se tinha de ver, e depois voltasse, já sabendo o que iria acontecer. Sabe pessoa saber uma coisa, ter certeza dela, ficar só esperando? Você cai daí, o pai avisa. Qualquer pai avisa: você vai cair daí. Então o pai fica meio esperando pra dizer: não di…

FILOSOFIA

1
o Avô
passou a vida toda
refletindo...
......................
virou espelho

MANIA

Mania feia que eu tenho é de falar pegando nas pessoas. O povo todo acha feio. A família toda acha muito feio. Coisa de gentinha, eles dizem. Coisa mais obscena, mais erótica. Eu mesmo tenho que ser a meu favor. Primeiramente eu por mim, os outros não me interessam muito. Os outros podem ter carro, casa na praia com piscina, pés de coco, quiosque na porta de casa e tudo mais que inveja eu não tenho. Posso até olhar, posso até admirar, dizer que esse cara deve ter vida boa e tudo, mas inveja mesmo eu não tenho. Riqueza demais me incomoda. Eu sofro de medo de ser rico demais na carteira, no colchão, no banco, na Suiça . Coisa na minha cabeça dizendo que é pecado. Tanto de quem já nasceu rico, quanto de quem saiu da pobreza. Rico não, mas ser muito rico eu tenho medo. A pessoa fica muito rica, mas fica com cara de pobre ainda. Se não for na cara, mas no jeito de andar. Pobre rebola mais. Tanto rebolou pra viver que o rebolado ficou encrustado. Fica rico, mas ainda fica pobre. Um dia dess…

HISTORINHA MODERNOSA E SEM VERGONHA

você vai abrir a janela
clica e arrasta
depois inserir figura
(se a figura for grande demora um pouco)
subir
e
descer
na barra de rolagem
fechar por causa do vírus
e
pronto
tudo salvo

NEGÓCIO

A mulher que foi propondo. Ele ouvindo. Nem balançava a cabeça, que sim, que não. A mulher falando sem ter a resposta, uma aprovação. Uma cara feia sequer. Que homem é esse que ela foi arrumar? Homem de gelo. Desses só podia ser de gelo. Desses que a pessoa fala e ele nem aí pra vida. A pessoa se descabelando. A pessoa morrendo, a pessoa já nos últimos suspiros e ele nada. Ingrato. Também que se desse um desconto. O homem havia trabalhado o dia todo. O dia todo era: levantar as quatro, ela ainda dormindo, levantar as quatro e tomar café de ontem. O café já perdendo o morno. O café menos morno do que urina. Sabe a urina, a primeira urina do dia, aquela que ficou guardada da hora que a pessoa deita até a hora de levantar no outro dia, sabe essa urina que todo mundo têm? Pois essa urina ainda era mais quente que o café que o homem tomava. A mulher não podia acordar, às quatro horas se acordasse ficava o resto do dia sem dormir, pelejava e não conseguia. Ficava meio morta, meio zumbi. Que…

VIRA-VIRA

a barriga
virou abdome
o sovaco
virou axila
o cachorro
vira-lata
a mãe
virou a cara
o pai
virou fera
a filha
virou filho

PULGA

Os bichos já estavam para entrar na Arca de Noé. Já a frente se via o traseiro magro da girafa, a frente deste outro mais opulento e baixo, que era o traseiro do hipopótamo e mais a frente o traseirão do elefante. De modo assim que já existia uma fila indiana. De modo que a pobre da pulga pensou que ali se formava a fila pelo traseiro. Os maiores à frente, os menores atrás. Cabendo a ela o fim da fila, que era bem o lugar que estava. Era bem o lugar que estava, não fosse a chegada de um cachorro e um gato, bichos menos de savana e mais de casa.  Bichos que não se davam já há séculos, e se não fosse a emergência de entrar na Arca de Noé, estaria o cachorro correndo atrás do gato. Estaria o gato a trepar numa árvore.  De outras vezes, como se sabia, o gato em apuros, não encontrando árvores, trepava no que houvesse pela frente: um alce, uma zebra, uma árvore. O cachorro latindo, espumando, e o gato a mangar de sua cara com o miado mais foêm, que era este o som quando queria zoar algum b…

ALMA SENTIDA

a alma
(que lhe Deus tape as ouças)
é nosso último punzinho
que fica por aí
vagando
“eu sinto a alma”
disse um dia
a tia viúva



LAGARTIXA

Dentro da minha impressora vive uma lagartixa. Sabe essas lagartixas brancas. Essas brancas, quase transparentes? Tenho uma amiga assim: branca-já-ficando-transparente. As veias do corpo aparecendo. As veias se espalhando no corpo. Pega varetas. Não têm a brincadeira de pegar as varetas, sabe dessa? Se pega um monte de varetas, fecha na mão e depois solta na mesa. Na mesa, no chão, na cama. A pessoa escolhe. As varetas ficam espalhadas, amontoadas. Um caos. Então a pessoa vai pegar as varetas sem mexer na vareta ao lado. Nem na de cima, nem na de baixo. Só na que se está pegando. A minha amiga têm as veias de varetas. Eu querendo pegar as veias dela. As veias magras, mesminho que as varetas. As veias dela espalhadas, amontoadas. Um caos. Tudo aparecendo: aquele verde claro, dando até gastura de olhar. A pessoa olhando diz logo: ui. Ou diz ui ou diz: eca. Se a pessoa disser: eca, minha amiga fica triste. Aquele triste fundo, enterrado. Fica triste ou fica com raiva. Primeiro ela tenta …

ECCE HOMO

o Serumano faz o pão
e
faz cadeado
o Serumano faz espelho
faz sopa
o Serumano faz Seresumanos
que comem galinha
e
palitam os dentes
o Serumano amarra o cadarço
(amarra o bode)
o Serumano mata a fome
e
morre de fome
o Serumano constrói casas
para prender
os Seresumanos que eles fizeram



DEVEDÊ

A cor do nascimento. A pessoa bem que podia escolher a cor de nascimento. Vermelho, azul, lilás, a cor verde do Hulk, a cor amarela dos japoneses, a amarela dos suecos. Cor preta, cor branca. Se eu escolhesse escolheria pra nascer com a cor azul, o azul de Avatar. O filme avatar. Aquele azul todo. O filme ainda no cinema e o DVD nas ruas. O cartaz no cinema: Avatar, seg, ter, qua, qui, sex, sab e dom. Todo dia sendo dia de Avatar. O mundo avatazando, avatariando, avatariolando. O filme ainda no cinema e o DVD já a venda nas caixas de sapatos, o DVD estendido no chão. O DVD não mão. Quanto é? “Dois reais.” Se travar moço, se esse bicho não rodar no player, se travar? “Travando pode trazer que a gente troca.” Vou levar esse. “Leve três que fica por cinco.” O vendedor é malandro ou é amigo? Malandro, sabia que eu só queria um. Só queria o Avatar. O vendedor induzindo ao consumo. O vendedor amigo. Sim, amigo, pois tiraria um real se eu levasse três. Um real já é muita coisa. Um real aqui,…

FESTA

os peixinhos ornamentais
são as bolas de sopro
dos aniversários no fundo do mar
os tubarões são os cães
os golfinhos os foguetes
os peixes-boi os bois
os homens os ETzinhos
e Deus é a água-viva em chamas



METRÓPOLIS

o homem esticou o braço
espreguiçou 
e levou um tiro



AFOITO

ganhou na loteria
sentou num sofá de três lugares
e teve uma inchação pulmonar até explodir



AR

Era falta de ar que ele tinha. Ela estando perto o ar dele faltava. Nem era junto, distancia de um metro. Era junto na mesma sala, mesmo galpão, mesma rua. Ele na ponta de baixo; bem miudinho, e ela na ponta de cima da rua. Assim já lhe bastava pra falta de ar. Ela enfiando uma mangueira na boca dele e chupando o ar. Ela inchando de tanto ar consumido. Ela crescendo, crescendo e vindo ao encontro dele. Ele sem ar, as mãos nos joelhos. Ele cansado e ela vindo... grande, acima de elefante. Grandona, acima de dinossauro. Elefante, dinossauro e ainda baleia em cima. Baleia das grandes. Baleia das jubartes. Das jubartes emitindo aquele som, aquele barulho que é o canto dela.  Um passo daquele podia quebrá-lo. Podia fraturar os ossos dele. Os fêmures estalando, as costelas, a cabeça. A cabeça estalaria e o cérebro nem se teria história. Ela vindo pisá-lo. Sem dúvida ela vinha pisá-lo. Ela vindo, vindo e puf. Ela vindo, nem olhando pra lugar nenhum. Ela maior do que as casas. Ela vindo maior…

IRMANDADE

a sombra é o nosso irmãozinho gêmeo 
que ao invés de nascer
resolvera viver à nossa própria sombra



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Palestra realizada nas festividades de 98 anos do Colégio SANTA SOFIA. Dia 15-09-2010.

SCHOPENHAUER

eu penso
penso muito...
e caio

ELA FICOU COM OS OLHOS PRO CHÃO

quando o homem perguntou se ela aceitaria o emprego ela ficou com os olhos pro chão com os olhos pro chão como se ali estivesse escrito sim ou não e ela tivesse que escolher entre uma das duas palavras como se o sim estivesse na cor verde e o não na cor vermelha e ela tivesse que escolher apertando um botão que fizesse uma das luzes piscar rapidamente  e rapidamente era o que o homem queria ele queria que ela se decidisse por uma resposta uma das duas luzes é pegar ou largar era a voz do homem dizendo ainda não sei porque esse medo de vocês mulheres por este serviço homem eu até entendo que não queira esse serviço homem até parece criatura bruta meio sem alma sem coração mas homem pra esse serviço não dá conta não sabe da tabela não sabe quantos dias são os sangramentos fica constrangido ele constrangido e a mulher a ser vistoriada também um constrangimento total mas se é mulher que executa o serviço o constrangimento diminui não é que acabe não acaba eu entendo muito bem que a situaç…

RETIFICANDO

e Deus nos fez à sua imagem e semelhança
ps. o que não quer dizer a mesma coisa



NA RAIVA

o nariz venta



CAPACETE

tem um pouco do que pensamos na espuma



MUNDAÚ

2

a Cidade sem edifícios (risco de gráfico subido descendo subindo) Cidade de rama (se enfiando) que as de cima copando igual enxurrada a Cidade crescendo

FEMINISTA

mas tão feminista
que as galinhas nasciam de uma ova

ASSIM É TUDO

tudo se acende
um fósforo uma vela
uma lâmpada um sol
tudo se apaga

BRAZIL

“país da América do Sul
lá se puxa pouco a descarga”

MUNDAÚ

1 a Cidade é vizinha de cidades-mirins (de pouca rama) Cidades de uma igreja ao centro (igreja-umbigo) que é de onde as Cidades (os bens mirins) crescem vagarosamente até enxertar noutra o viaduto umbilicando-as siamesando

PRÓLOGO

a cidade
empestada de becos
pés-de-galinha (parabólicas) fios no céu (fios-terra) São Sebastião flechado   São Sebastião pichado São Sebastião São Jorge a cidade dentro de casa (assistindo a cidade grande)

JOANA

de pensar eu pensava:
o sol ser um sonrisal crescido no céu
descido no mar faria aquele chiado de cozimento de pensar a lua era uma moeda igual o Avô disse ser — quem a puser no bolso enrica da noite pro dia que a aranha eu pensando comia linha de costura e fazia sua própria casa cagando a casa saída do fundo de mulher esperar a cegonha eu jamais compreendia  longe do entendimento que era entendimento eu tinha de ter fome

pensava que Joana vizinha da casa pegada a nossa por ter sumido uns tempos a mãe chorando “minha Joaninha minha Joaninha” pensava que Joana sumida tinha virado Joaninha igual a mãe chamando procurava uma Joaninha no quintal levava na porta da mãe entalada de choro (o medo de espragatar a pobre) batia palmas
corria deixando a Joaninha no entendimento com a mãe

REVOADA

as mãos que dão tchaus
são pássaros que erguem voos