METRÓPOLIS

o homem esticou o braço
espreguiçou 
e levou um tiro



AFOITO

ganhou na loteria
sentou num sofá de três lugares
e teve uma inchação pulmonar até explodir



AR

Era falta de ar que ele tinha. Ela estando perto o ar dele faltava. Nem era junto, distancia de um metro. Era junto na mesma sala, mesmo galpão, mesma rua. Ele na ponta de baixo; bem miudinho, e ela na ponta de cima da rua. Assim já lhe bastava pra falta de ar. Ela enfiando uma mangueira na boca dele e chupando o ar. Ela inchando de tanto ar consumido. Ela crescendo, crescendo e vindo ao encontro dele. Ele sem ar, as mãos nos joelhos. Ele cansado e ela vindo... grande, acima de elefante. Grandona, acima de dinossauro. Elefante, dinossauro e ainda baleia em cima. Baleia das grandes. Baleia das jubartes. Das jubartes emitindo aquele som, aquele barulho que é o canto dela.  Um passo daquele podia quebrá-lo. Podia fraturar os ossos dele. Os fêmures estalando, as costelas, a cabeça. A cabeça estalaria e o cérebro nem se teria história. Ela vindo pisá-lo. Sem dúvida ela vinha pisá-lo. Ela vindo, vindo e puf. Ela vindo, nem olhando pra lugar nenhum. Ela maior do que as casas. Ela vindo maior do que os prédios. Vindo e nem viu a hora que um espinho de roseira furou o pé. Furou furando e ela murchou. Na hora, nem dez segundos, nem cinco, ela murchou. Na hora murchou. Uma bexiga de sopro. Sabe uma bexiga de sopro que a pessoa não quer encher mais e solta, abre os dedos e solta? A bexiga solta, se debatendo de um canto a outro canto. Aquela doidice toda e aquela zoada. Ela sequinha de ar nem mais pisaria nele. Já seria um alívio. Ela não pisando ele já seria um alívio dos grandes, na certa. Mas se lembrarmos que ela inchou, inchou e depois secou, se lembrarmos que o que inchou ela foi o ar dele, então ela secando: foi-se-lhe o ar. O ar dele se foi com o puf do espinho da roseira. Foi-se-lhe o ar. Isso tudo num sonho. Acontecido num sonho. Um sonho dormido com dramin. Isso tudo não sendo ele imaginando. Era sonho. Era vindo das profundezas. Vindo do inconsciente. Vindo do subconsciente. Isto, estas coisas assim. Ele acordando. Secando a testa e as exilas. O travesseiro ensopado, o lençol, o colchão ensopado. Ele tirando a fronha, o lençol. Ele virando o colchão. De pequeno ele virava o colchão. Dormia, sentia quentura nas pernas, acordando ia logo virando o colchão. Arrumando outro lençol, disfarçando o crime. Tão grandinho, já quase rapazinho, quase gente e ainda fazia aquela sujeirada na cama. Ele havia sonhado que ela lhe tirava o ar. Porque era tudo sonho, a mangueira, o tamanho de elefante, tamanho de dinossauro, tamanho de baleia ainda. Tudo sonho. Tudo imagens sem edição, sem montagem, efeitos. Acontecia que na vida real ela tirava o ar dele, sem mangueira, sem nada. Só mesmo sendo ela. Bastava estar por perto que o ar faltava. Era: Ela aparecendo e o ar sumindo. A coisa ruim da pessoa ficar buscando ar. O ar existido no mundo todo e a pessoa buscando ar. A pessoa morrendo. Bem dizer a pessoa morrendo. 

IRMANDADE

a sombra é o nosso irmãozinho gêmeo 
que ao invés de nascer
resolvera viver à nossa própria sombra




Palestra realizada nas festividades de 98 anos do Colégio SANTA SOFIA. Dia 15-09-2010.

SCHOPENHAUER

eu penso
penso muito...
e caio

ELA FICOU COM OS OLHOS PRO CHÃO

quando o homem perguntou se ela aceitaria o emprego ela ficou com os olhos pro chão com os olhos pro chão como se ali estivesse escrito sim ou não e ela tivesse que escolher entre uma das duas palavras como se o sim estivesse na cor verde e o não na cor vermelha e ela tivesse que escolher apertando um botão que fizesse uma das luzes piscar rapidamente  e rapidamente era o que o homem queria ele queria que ela se decidisse por uma resposta uma das duas luzes é pegar ou largar era a voz do homem dizendo ainda não sei porque esse medo de vocês mulheres por este serviço homem eu até entendo que não queira esse serviço homem até parece criatura bruta meio sem alma sem coração mas homem pra esse serviço não dá conta não sabe da tabela não sabe quantos dias são os sangramentos fica constrangido ele constrangido e a mulher a ser vistoriada também um constrangimento total mas se é mulher que executa o serviço o constrangimento diminui não é que acabe não acaba eu entendo muito bem que a situação e vexatória  uma situação vexatória  entre duas pessoas as duas caladas sem nem se olharem trocar uma conversa sobre a novela por exemplo elas falarem sobre a novela o capítulo de ontem ninguém aceita de bom grado chegar numa sala tirar a roupa e ser examinada nas partes ser tocada ver se está em período de sangramento dizer de quando até quando vai esse sangramento e provar o que diz sangrando não é mole pra mulher nenhuma essa situação ficar nua ser tocada ser perguntada da tabela sangrar ainda mais se for um homem a fazer esse serviço é coisa vexatória mas quando é mulher examinando mulher até funciona pode não agradar mas funciona a mulher perguntou levantando os olhos levantando os olhos e olhando bem na cara do homem olhando bem pra ver se ele piscava pra ver se ele tinha coragem de falar aquilo olhando na cara dela ou se só estava falando porque ela estava com os olhos pro chão escolhendo as palavras sim ou não escolhendo a cor verde ou a cor vermelha ela perguntou os olhos na cara dele a pergunta era se as mulheres se recusarem a essa vistoria ele respondeu já acostumado com os olhas na sua cara os olhos fuzilando os olhos desparafusando sua cara a resposta foi aqui na firma é lei e lei é lei se a mulher não aceitar ser examinada é porque esconde algo esconde uma gravidez não empregamos e nem mantemos no emprego quem tenha gravidez faz parte da nossa excelência grávidas trabalham devagar uma leseira que só mesmo vendo chegam tarde saem cedo mal escurece e saem depois ficam seis meses em casa recebendo seis meses recebendo e a firma pagando outra pessoa no lugar dela a pessoa trabalhando mais rápido que ela a pessoa mais ágil querendo a vaga e a vaga dela esperando seis meses uma eternidade seis meses e quando volta não sabe nem mais trabalhar volta desaprendida volta travada volta grávida ela já volta grávida
© Helder Herik
Maira Gall