ALMA SENTIDA

a alma
(que lhe Deus tape as ouças)
é nosso último punzinho
que fica por aí
vagando
“eu sinto a alma”
disse um dia
a tia viúva



LAGARTIXA





Dentro da minha impressora vive uma lagartixa. Sabe essas lagartixas brancas. Essas brancas, quase transparentes? Tenho uma amiga assim: branca-já-ficando-transparente. As veias do corpo aparecendo. As veias se espalhando no corpo. Pega varetas. Não têm a brincadeira de pegar as varetas, sabe dessa? Se pega um monte de varetas, fecha na mão e depois solta na mesa. Na mesa, no chão, na cama. A pessoa escolhe. As varetas ficam espalhadas, amontoadas. Um caos. Então a pessoa vai pegar as varetas sem mexer na vareta ao lado. Nem na de cima, nem na de baixo. Só na que se está pegando. A minha amiga têm as veias de varetas. Eu querendo pegar as veias dela. As veias magras, mesminho que as varetas. As veias dela espalhadas, amontoadas. Um caos. Tudo aparecendo: aquele verde claro, dando até gastura de olhar. A pessoa olhando diz logo: ui. Ou diz ui ou diz: eca. Se a pessoa disser: eca, minha amiga fica triste. Aquele triste fundo, enterrado. Fica triste ou fica com raiva. Primeiro ela tenta ficar indiferente. Depois ela fica com raiva. Triste com raiva. As veias do pescoço vão inchando, inchando. A veia da testa então. A veia da testa desce até o nariz, depois se perde, mergulha. A veia da testa fica inchada quando está com raiva ou triste. Inchada que é mesmo que não corresse sangue nas veias, corresse fermento. Dentro da impressora a lagartixa fez a morada. Aquele canto onde os cartuchos param depois de imprimir. Aquele canto ali e o canto dela. A maloca. Claro que eu já tentei pegá-la. Tentei com a mão. Um homem tem que ser homem. Tem que sair na mão. Mão também serve pra isso: pegar lagartixa dentro da impressora. Mão não é só pra fazer letras e cálculos, pra pegar colher, faca, garfo, ligar o fogão. Ligar o fogão ou acender o fogão? Mão não é só pra pintar, engraxar, puxar descarga. Mão não é só pra lavar a outra. Mão é pra tudo. O que a gente não faz com a língua, faz com a mão. O que não faz com o cotovelo, com os pés, com a orelha, com a córnea, com o baço. Sabe o que é o baço? O que a gente não faz com outra coisa só faz mesmo é com a mão. Essa mão nossa de cada dia. Já tentei pegar a lagartixa e quase peguei. Quase peguei ou então eu peguei. Questão de interpretação. No tribunal não é a interpretação? Às vezes não é nem o crime; se foi assim, se foi assado. Se foi acidente ou ruindade. É a interpretação. Pode o réu nem ter feito nada. Pode ser inocente sim senhor, ora essa. Está cheio de casos por aí que o cidadão, olhe bem a palavra, o ci-da-dão não fez nada e foi condenado. Condenado a viver condenado, viver na sarjeta, na lama, na fossa. A televisão vem mostrando isso. A televisão, o jornal, o rádio, o povo do mundo todo sabe disso. No último verão, eu fazendo a limpeza na impressora, vi a lagartixa. Eu não disse que ela era branca, um branco quase transparente, não disse? Pois a lagartixa estava colorida. De ponta a ponta toda colorida. De primeiro eu só vi os olhos. O brilhinho dos olhos, tim, tim, pareciam duas estrelinhas fumegando. A vida toda ela ali e eu só via os olhos. Às vezes o rabo balançava e eu via. A vida toda eu sabendo que ela morava na minha impressora. Minha inquilina. Era capaz de a noite ela sair pela casa. Esticar as pernas, arejar a mente. Tem quem aguente viver socado em impressora não. No último inverno eu quis pegar a lagartixa. E não peguei. Ou então eu peguei. A pessoa interpreta como quer. Eu no computador, eu escrevendo, nem aí com o mundo. Quando a gente escreve o mundo é aquilo saindo da pontinha dos dedos pra tela, saindo do juízo da gente, da alegria e da tristeza, do pensamento. O pensamento vai bombeando as coisas. O mundo é esse quando a pessoa escreve. O mundo de verdade. Eu no computador, nem aí com o mundo, quando virei à cabeça pra pensar melhor, pensar ou descansar, que escrever também é estafante, escrever também é fogo. Nem aí com o mundo, virei à cabeça e vi a Lagartixa andando pela impressora. Ela de costas. Ela toda desprevenida nem viu o meu bote. Fui logo com a mão pra cima dela, uma cobra. Então, quando vou conferir o apurado o que tenho na mão é o rabo da lagartixa. Ela se enfurnando de novo na impressora, se entocando, cobra que é também, e eu com o rabo dela. O rabo fino, se debatendo. O rabo fino se debatendo que parecia um touro. Não tem rodeio? Joguei o rabo e ele ainda ficou se debatendo, todo epilético. Parecia ser a dor. O resto do corpo não, mas o rabo se debate é de dor. Com os calangos é a mesma coisa. A pedrada acerta e cai é o rabo, se debatendo, epilético. Isso foi no último inverno, assim pra junho-julho, porque no último verão, quando a vi, ela estava toda colorida. As tintas da impressora soprando nela. Ela sem sair mais da impressora, ela com medo, sem sair nem nada, vivendo só lá, só ali, somete. Ela se pintando. Tudo que era de cor. A coisa mais linda. Eu digo: ficou a coisa mais linda. Têm bicho como aquele não. Não têm criatura no mundo com a beleza da lagartixa. Aí bateu o arrependimento de ter arrancado o rabo da pobre. O rabo pinotando, o rabo morrido, varrido, jogado fora, no monturo. Arrependimento de já procurar lugar no inferno, pois se não era, quando, olha que coisa, quando avisto o rabo da lagartixa. O rabo já grande, tamanho do outro jogado fora. Um rabo pontudo, amolado. Um canto assim, a pessoa olhando direito, dava pra ver a emenda. Rabo crescido do inverno pro verão num bicho que é uma obra de arte. Um Kandinsky, um Pollock, um Miró. A lagartixa continua lá, se banhando de tinta, se banhando de lindeza. Todo dia eu a alimento. De primeiro eu matava moscas e jogava pra ela.  Mas, a pobre nem tocava na comida. Jogava aranha, jogava pão, jogava queijo e nada de comer. Veio à esperteza. Cabeça foi feita pra pensar. O que não se faz com a mão é bem capaz de se fazer com a cabeça. Entrei no Google, pesquisei, pesquisei, pus a pesquisa pra imprimir. Quando a folha de papel saiu veio à alegria da pesquisa ter dado certo. A esperteza minha. Quando a folha de papel saiu não tinha nada impresso. Nada-nadica. A pesquisa na tela, eu constatando. A pesquisa na tela e nada impresso no papel. A lagartixa havia comido a impressão. O papel esburacado, sem as imagens de insetos. Todo tipo de insetos: que voa, que anda, que rasteja. A lagartixa comeu tudo. Esburacou o papel. Tan-tan, não sobrou nada. Agora, todo dia eu a alimento. Sou humanista. Humanista ou ecologista. As duas coisas. Está gorda agora, Está uma baleia, sabe uma baleia jubarte? De vez em quando ela come uma letra quando imprimo algum arquivo. É o sinal que ela usa pra que desligue a impressora, que já está quente, que pode faltar à tinta do banho e da comida. Que é assim que é.   


ECCE HOMO

o Serumano faz o pão
e
faz cadeado
o Serumano faz espelho
faz sopa
o Serumano faz Seresumanos
que comem galinha
e
palitam os dentes
o Serumano amarra o cadarço
(amarra o bode)
o Serumano mata a fome
e
morre de fome
o Serumano constrói casas
para prender
os Seresumanos que eles fizeram



DEVEDÊ







A cor do nascimento. A pessoa bem que podia escolher a cor de nascimento. Vermelho, azul, lilás, a cor verde do Hulk, a cor amarela dos japoneses, a amarela dos suecos. Cor preta, cor branca. Se eu escolhesse escolheria pra nascer com a cor azul, o azul de Avatar. O filme avatar. Aquele azul todo. O filme ainda no cinema e o DVD nas ruas. O cartaz no cinema: Avatar, seg, ter, qua, qui, sex, sab e dom. Todo dia sendo dia de Avatar. O mundo avatazando, avatariando, avatariolando. O filme ainda no cinema e o DVD já a venda nas caixas de sapatos, o DVD estendido no chão. O DVD não mão. Quanto é? “Dois reais.” Se travar moço, se esse bicho não rodar no player, se travar? “Travando pode trazer que a gente troca.” Vou levar esse. “Leve três que fica por cinco.” O vendedor é malandro ou é amigo? Malandro, sabia que eu só queria um. Só queria o Avatar. O vendedor induzindo ao consumo. O vendedor amigo. Sim, amigo, pois tiraria um real se eu levasse três. Um real já é muita coisa. Um real aqui, outro real ali. Aqui ali, aqui ali e a economia agradece. O que é um real? Nada, olhando direito um real não é nada. Mas um real de todo mundo que está acordado, não é dinheiro não? Até de quem está dormindo, a baba descendo do canto da boca, até de quem está dormindo agora, agorinha nesse momento, um real já é dinheiro. A pessoa escolhendo mais dois DVDs. A pessoa sendo esperta escolhe um DVD com três filmes. A trilogia Bourne num só. A trilogia compilada. A pessoa indo comprar filme por filme, tinha real que aquentasse? Tinha uma cebola que tinha. Agora a qualidade é ruinzinha, mas da pra assistir. Quando era VHS não era ruinzinho também? Não havia DVD, então o VHS era bom, não tinha o chiado da TV. O fora do ar da TV. O VHS era o top de linha. Era ou não era? A imagem está ruim porque o cabeçote está sujo. Maior charme, maior entendimento a pessoa chegar e dizer: o cabeçote está sujo. Veio o DVD e o tão bom do VHS ficou ruim. É a modernidade. Você tem que comprar o mais moderno senão fica pra trás, pro tempo das cavernas. Agora já é o tempo do blu-ray. Já ouviu falar? Cabe tudo dentro do blu-ray. As falas de uma família, as discursões, os sonhos, cabe tudo dentro do blu-ray. Lágrimas é que não cabem. Para as lágrimas não há cabimento. Três filmes num DVD só. A imagem ruinzinha, mas, ainda assim melhorzinha do que o VHS. Avatar, Trilogia Bourne. Falta um DVD pra inteirar os cinco reais. “Tem esse aqui de ação: Busca Implacável. Gosta de ação?” Pode ser. É de ação de tiros ou ação de murro? “Esse têm os dois. Esse bicho aqui é o ator principal. Os terroristas sequestram a filha dele e o homem se vira em cobra...” Pronto, três por cinco. Feriadão pra assistir filmes. Se fosse pra escolher a minha cor de nascimento eu escolheria a cor azul de avatar. Azul com essa listrazinha clara. Escolhia só a cor. A cor já bastava. Queria essa cara de avatar não. Nem a cara e nem o tamanho. Como é que iria entrar dentro casa?  Batendo na laje, estambocando, só se fosse. Dormir com os pés pra fora da cama não dá. Tomar banho acocorado que eu não ia. Falar aquela língua deles. Aquela língua enrolada. Coloco o DVD na bandejinha, aperto e ele vai pra caverna. O DVD não tem nem o menu. Colocando ele começa. Bom assim: já começar começando. Livra a pessoa de esperar a apresentação, os trailers. O filme começa. A filme avança. Frio, depois morno. Depois o filme esquenta e o DVD trava. A pessoa tira o DVD. A pessoa frustrada tira o DVD e xinga o safado que vendeu. Limpa o DVD na blusa, põe de novo e nada.  E nada, e nada. Será que eu ainda lembro a cara dele, a voz dele, do safado? “Travando pode trazer que a gente troca” 

FESTA

os peixinhos ornamentais
são as bolas de sopro
dos aniversários no fundo do mar
os tubarões são os cães
os golfinhos os foguetes
os peixes-boi os bois
os homens os ETzinhos
e Deus é a água-viva em chamas



© Helder Herik
Maira Gall