CARTA

As mãos ferviam em tremuras prevendo desgraça maior. As mãos borbulhando. Abriram a carta. O barulho do papel se abrindo, o papel estalando, tlec tlec. Ela esticando a papel, desamassando os vincos. As duas mãos segurando, as letras sacudindo, embolando uma na outra: estouro de manada. Leu: Juarez Damasceno e Dantas, o nome do esposo, Juarez Damasceno e Dantas, apresentar-se imediatamente ao posto do Exército Brasileiro, Rua Gervásio Pires, 385, Boa Vista... para fins de alistamento... A mão tremendo ainda mais. Aquela respiração assim: já morrendo, já afogando. Se for pra dizer a verdade ela já sabia. Aquele agouro ali ela já sabia. Coisa de mulher saber ela sabe antes de acontecido. Como se ela fosse lá na frente, no tempo, visse o que se tinha de ver, e depois voltasse, já sabendo o que iria acontecer. Sabe pessoa saber uma coisa, ter certeza dela, ficar só esperando? Você cai daí, o pai avisa. Qualquer pai avisa: você vai cair daí. Então o pai fica meio esperando pra dizer: não disse, eu não avisei, foi o que mais eu avisei. Têm mãe que faz a mesma coisa, mas o coração se parte. Têm mãe que prever a queda e segura a criança. Jarro de porcelana. Juarez Damasceno e Dantas estava trabalhando. Chegava já meando a noite, tomava banho, jantava, conversava, ouvia rádio, acompanhava as músicas batendo com o dedo na mesa. Pianista. A mulher dizia que era maluquice. Arenga de criança. Em noites mais afoitas, de menos cansaço, noite mais longa, o homem tirava a mulher pra dançar igual o tempo de namorado. Eles magrinhos, aquela moda boca-de-sino das calças. Igual ao tempo de namorado com aquele jeito curvado de castanha dele, mesmo braço peludo, o braço peludo em desalinho. Os dois desengonçados, meio chipanzés, os dois felizes, rindo na orelha do outro, o vento quente agradando, arrepiando. O filho batia palmas. Poc poc, as palmas abafadas com a mão em concha. O filho já rapaz, barba já grossa, espinhando. O filho batia palma para os dois chipanzés. A mulher rasgou a carta antes que o marido voltasse do trabalho. Rasgou a carta e se trancou no quarto, medo de alguém chegar, acusá-la de crime. Pois então não era crime rasgar uma carta do Exército Brasileiro? Na cama ela foi juntando os papéis. Sabe quebra cabeça? Ela foi juntando os papeis, reparando o crime. Se o marido não se apresentasse, que fariam dele? Na gaveta havia durex. Podia ser dela pegar o durex, emendar a carta. Que fariam de todos os homens que não se apresentassem? Os prenderiam por desacato. Por desacato ao que, ora essa? A mulher foi logo abrindo a tampa e jogando os papéis picados no vaso. Porque na verdade era aquilo que os papéis mereciam, era aquilo que os papéis eram. Puxou a descarga. O barulho da água descendo no cano, a raiva da água encontrando os papéis. Quando a água acalmou-se ela viu um papelzinho: rvasio Pir. Ela esperou a caixa encher, disse: Gervásio Pires é um escambau. Um mês depois chegou outra carta. Jonas Damasceno e Dantas, o filho, Jonas Damasceno e Dantas, tendo já completado a maior idade, e não sendo covarde igual o pai, deverá se apresentar ao Exército Brasileiro para fins de alistamento, Rua Gervásio Pires, 385... Jonas estava no quarto, estudando pra medicina, o pai estava no trabalho, operando máquinas e a mãe abria a tampa do vaso, defecava em cima dos papéis picados e dava descarga naquela merda toda.  

FILOSOFIA

1
o Avô
passou a vida toda
refletindo...
......................
virou espelho

MANIA

Mania feia que eu tenho é de falar pegando nas pessoas. O povo todo acha feio. A família toda acha muito feio. Coisa de gentinha, eles dizem. Coisa mais obscena, mais erótica. Eu mesmo tenho que ser a meu favor. Primeiramente eu por mim, os outros não me interessam muito. Os outros podem ter carro, casa na praia com piscina, pés de coco, quiosque na porta de casa e tudo mais que inveja eu não tenho. Posso até olhar, posso até admirar, dizer que esse cara deve ter vida boa e tudo, mas inveja mesmo eu não tenho. Riqueza demais me incomoda. Eu sofro de medo de ser rico demais na carteira, no colchão, no banco, na Suiça . Coisa na minha cabeça dizendo que é pecado. Tanto de quem já nasceu rico, quanto de quem saiu da pobreza. Rico não, mas ser muito rico eu tenho medo. A pessoa fica muito rica, mas fica com cara de pobre ainda. Se não for na cara, mas no jeito de andar. Pobre rebola mais. Tanto rebolou pra viver que o rebolado ficou encrustado. Fica rico, mas ainda fica pobre. Um dia desses uma pessoa disse: você fala igual italiano. Um segundinho de nada e eu pensei que tinha sotaque italiano, figura-te, babene, caspita, coisa assim. A pessoa disse: você fala igual italiano, pegando na pessoa, segurando com essa distonia toda. Então na hora eu inventei uma estória. Bem assim: eu era pequeno, tomava banho no Rio Mundaú e fui entrando mais na água e fui entrando mais e comecei a afogar. Eu abrindo a boca pra pedir ajuda e a água entrando, engasgando, glut glut. Eu sacudindo os braços pra vê se segurava em alguém e cadê alguém aparecer. Depois alguém apareceu me salvou e fiquei com essa mania. Essa mania de ficar falando a tocando na pessoa, como se eu fosse morrer afogado.

HISTORINHA MODERNOSA E SEM VERGONHA

você vai abrir a janela
clica e arrasta
depois inserir figura
(se a figura for grande demora um pouco)
subir
e
descer
na barra de rolagem
fechar por causa do vírus
e
pronto
tudo salvo

NEGÓCIO

A mulher que foi propondo. Ele ouvindo. Nem balançava a cabeça, que sim, que não. A mulher falando sem ter a resposta, uma aprovação. Uma cara feia sequer. Que homem é esse que ela foi arrumar? Homem de gelo. Desses só podia ser de gelo. Desses que a pessoa fala e ele nem aí pra vida. A pessoa se descabelando. A pessoa morrendo, a pessoa já nos últimos suspiros e ele nada. Ingrato. Também que se desse um desconto. O homem havia trabalhado o dia todo. O dia todo era: levantar as quatro, ela ainda dormindo, levantar as quatro e tomar café de ontem. O café já perdendo o morno. O café menos morno do que urina. Sabe a urina, a primeira urina do dia, aquela que ficou guardada da hora que a pessoa deita até a hora de levantar no outro dia, sabe essa urina que todo mundo têm? Pois essa urina ainda era mais quente que o café que o homem tomava. A mulher não podia acordar, às quatro horas se acordasse ficava o resto do dia sem dormir, pelejava e não conseguia. Ficava meio morta, meio zumbi. Quem a visse diria que era um zumbi. Sabe um zumbi, coisa nem viva, nem morta? Ele que fechava a garrafa de café. Apertava a tampa. Apertava a tampa com tanta força que pela manhã ficava com dificuldade de abrir. Ele tinha mais força pra fechar a tampa do que pra abrir. Ele só não, todo mundo. Fechar e fácil, abrir é que é difícil. Também se diga que de manhã a pessoa é mais fraca. Logo de manhã, logo quando acorda a pessoa é fraca. Vai ganhando força com o tempo, com o tempo vai acordando direito e entrando na vida. Então ele tinha menos força pra abrir a garrafa. Pra abrir a garrafa e também pra lembrar se estava fazendo força pra abrir ou força pra fechar. Porque é assim: Têm hora que a pessoa endoida, nem sabe se está abrindo ou fechando. Das vezes que ele não fechava a garrafa era a mulher que levantava, ia até a cozinha a arroxava a tampa. Porque ficava a zoadinha da garrafa mal fechada. Tchuuaacrootchuu. O chiadozinho da quentura escapando. A noite qualquer chiado vira um carro de som; o barulho crescendo, incomodando-incomodando. Então ela fechava a tampa pelo barulho, nem era pelo marido, pelo café quente de madrugada. Às quatro horas ele se levantava, tomava o café de urina e sai pro trabalho. Pegava dois ônibus: um que chagava até um tanto, outro que chagava até o resto do outro tanto. Trabalhava na construção civil. Pedreiro dos bons. Tinha quem pusesse defeito em acabamento que ele fizesse não. Estava erguendo um shopping já no fim do mundo. Ano passado era um hotel, então ele só pegava um ônibus, tinha tempo pras conversas da mulher quando chegava, as lorotas que ela contava. Agora era o shopping no fim do mundo, dois ônibus e o corpo só o molambo à noite. Tinha semana que eles nem brincavam. A mulher querendo, a mulher se queimando e ele roncando. O que ela falava tanto e ele nem ligava, o que ela queria era montar um negócio. No Brasil é assim: foi-não foi o povo monta um negócio. Começa no improviso: uma barraca, tamboretes e coisas de comer: pastel, coxinha, enroladinho. A mulher queria coisa maior, queria vender petisquinhos não. Queria era coisa com comida de panela. Queria procedência, queria moral. Quem não quer ter moral, não e mesmo? Nos estádios de futebol, ela perguntou, nos estádios de futebol não têm sempre o vendedor de cachorro quente, aquele cachorro quente ruim pra danar não tem? Têm, ele respondeu, têm sim. Quando a Prefeitura arma o parque de diversões não têm pipoca e pipoqueiro, não têm? Têm. Então meu filho, acorde, estamos perdendo dinheiro. A casa vizinha à deles era uma Casa de Velar os Mortos. Muitas rezas, muitas velas, coroas de flores e muita fome. O povo amarelo de fome. O povo, a bem dizer, já morrendo de fome. Vai dar dinheiro meu filho, pode ter certeza que vai dar dinheiro. A Casa de Velar os Mortos era grande, a Casa de Velar os Mortos era enorme, cabiam seis defuntos. Cabia uma chacina. Cada defunto com cinquenta parentes, duzentos amigos e inimigos. Inimigo sim, por que não? O inimigo vai ao velório certificar da morte da pessoa odiada, olhar pro nariz, examinando se respira, joga a primeira pá de terra e tudo. Não tinha dia que não houvesse dois, três defuntos. Teve um dia que a casa lotou com seis defuntos, parentes, amigos e inimigos. Seis defuntos e mais um ficou de fora, esperando vaga.  Em frente as escolas não têm sempre uma barraca vendendo... Topo, o homem disse, meio que ressuscitando, eu topo.

VIRA-VIRA

a barriga
virou abdome
o sovaco
virou axila
o cachorro
vira-lata
a mãe
virou a cara
o pai
virou fera
a filha
virou filho

PULGA

Os bichos já estavam para entrar na Arca de Noé. Já a frente se via o traseiro magro da girafa, a frente deste outro mais opulento e baixo, que era o traseiro do hipopótamo e mais a frente o traseirão do elefante. De modo assim que já existia uma fila indiana. De modo que a pobre da pulga pensou que ali se formava a fila pelo traseiro. Os maiores à frente, os menores atrás. Cabendo a ela o fim da fila, que era bem o lugar que estava. Era bem o lugar que estava, não fosse a chegada de um cachorro e um gato, bichos menos de savana e mais de casa.  Bichos que não se davam já há séculos, e se não fosse a emergência de entrar na Arca de Noé, estaria o cachorro correndo atrás do gato. Estaria o gato a trepar numa árvore.  De outras vezes, como se sabia, o gato em apuros, não encontrando árvores, trepava no que houvesse pela frente: um alce, uma zebra, uma árvore. O cachorro latindo, espumando, e o gato a mangar de sua cara com o miado mais foêm, que era este o som quando queria zoar algum bicho. Na entrada da arca estava Noé, fazendo perguntas aos animais e examinando-os. Perguntava se eles tinham feridas, se haviam se banhado e se conseguiam passar dias sem defecar. Respondiam que sim. Eram limpos e quase não faziam suas necessidades, e entrando na arca não haveriam de fazer essas coisas, nem pensariam nelas, e não sendo pensadas elas nem existiriam. O que era uma grande mentira e Noé soube disso já na primeira hora do dilúvio, já quando a arca estava ganhando altura e dela ninguém mais podia sair ou entrar. A pulga, amolando bem os ouvidos, conseguindo ouvir o que se conversava mais a frente. Sobre sua higiene, que diria ela a Noé? Sobre suas necessidades, ou não teria ela o caminho por onde as necessidades saiam? Não sendo a pulga um bicho de banho, sendo um bicho de imundície, como então faria para entrar na arca? Ficou matutando. Os neurônios se desenleando a formar respostas. Foi-se o elefante, foi-se a girafa e o hipopótamo e agora era a vez da pulga. Noé a pediu que saltasse na palma da mão. “Verdade que terás muito lugar aqui, és pequena, e te arranjaras com muito pouco. Mas, diz lá se és de tomar banho e já o tomasse?” Então as sobrancelhas do velho Noé arquearam-se dando a cara a expressão de quem espera uma resposta. E, talvez se diga, quem já até sabia a resposta. “Não sou muito. Confesso que banho só me cai quando a chuva me pega ou quando um animal se coça, jogando-me para longe, para dentro de uma poça, fora isso, nem água eu tomo”. E Noé não gostou nada do que disse a pulga. A cara séria, os olhos fixados, como a procurar o grude da criaturinha. As vistas de Noé eram muito boas. De pequeno, sua mãe dizia que ele vivia a enxergar coisas do além. Comprovou no dia que ele enxergou um linha descosturada em seu vestido. Não era possível. Não aquele vestido cosido à luz do dia com a maior perícia, não aquele vestido reservado às festas e sempre guardado. De outras vezes Noé parecia enxergar as coisas mais a frente. Mais a frente como se enxergasse o futuro. Como se enxergasse o futuro ou dele desconfiasse. Mas isto só acontecia às vezes, em épocas de calmaria, não em épocas como essas de agora, de prenuncio de muitas chuvas, a bem dizer: dilúvio. “Se é assim, não posso deixar que entres. Se não tomas banho, se nem água tomas, aqui não podes entrar.” E Noé, terminando de dizer isso, meteu uma palma da mão na outra que era mesmo pra matar a pulga como se mata pernilongos. Quando levantou a palma da mão não existia mais pulga. As mãos vermelhas, as mãos latejando e nada mais da pulga. O canto mais limpo. Havia sumido por que havia morrido. Noé até procuraria a pulga, o cadáver, mas acabava de chegar à fila um macaco, uma cobra e uma avestruz. O cachorro e o gato já começavam a se impacientar. Não eram bichos de estando juntos, estarem quietos. Os primeiros trovões e relâmpagos pipocavam no ar e o velho Noé deixou a busca pra lá e seguiu entrevistando os bichos. Se eles haviam tomado banho, se haviam feito suas necessidades... Horas depois, Noé fechou a arca e a arca subiu. De uma janela aquele homem pode vê a chuva forte no convés e o mar se formando em todos os lugares. Noé pensando nos bichos que ainda haviam ficado para trás nem se deu conta que estava com pulga atrás da orelha. 
© Helder Herik
Maira Gall