PULGA

Os bichos já estavam para entrar na Arca de Noé. Já a frente se via o traseiro magro da girafa, a frente deste outro mais opulento e baixo, que era o traseiro do hipopótamo e mais a frente o traseirão do elefante. De modo assim que já existia uma fila indiana. De modo que a pobre da pulga pensou que ali se formava a fila pelo traseiro. Os maiores à frente, os menores atrás. Cabendo a ela o fim da fila, que era bem o lugar que estava. Era bem o lugar que estava, não fosse a chegada de um cachorro e um gato, bichos menos de savana e mais de casa.  Bichos que não se davam já há séculos, e se não fosse a emergência de entrar na Arca de Noé, estaria o cachorro correndo atrás do gato. Estaria o gato a trepar numa árvore.  De outras vezes, como se sabia, o gato em apuros, não encontrando árvores, trepava no que houvesse pela frente: um alce, uma zebra, uma árvore. O cachorro latindo, espumando, e o gato a mangar de sua cara com o miado mais foêm, que era este o som quando queria zoar algum bicho. Na entrada da arca estava Noé, fazendo perguntas aos animais e examinando-os. Perguntava se eles tinham feridas, se haviam se banhado e se conseguiam passar dias sem defecar. Respondiam que sim. Eram limpos e quase não faziam suas necessidades, e entrando na arca não haveriam de fazer essas coisas, nem pensariam nelas, e não sendo pensadas elas nem existiriam. O que era uma grande mentira e Noé soube disso já na primeira hora do dilúvio, já quando a arca estava ganhando altura e dela ninguém mais podia sair ou entrar. A pulga, amolando bem os ouvidos, conseguindo ouvir o que se conversava mais a frente. Sobre sua higiene, que diria ela a Noé? Sobre suas necessidades, ou não teria ela o caminho por onde as necessidades saiam? Não sendo a pulga um bicho de banho, sendo um bicho de imundície, como então faria para entrar na arca? Ficou matutando. Os neurônios se desenleando a formar respostas. Foi-se o elefante, foi-se a girafa e o hipopótamo e agora era a vez da pulga. Noé a pediu que saltasse na palma da mão. “Verdade que terás muito lugar aqui, és pequena, e te arranjaras com muito pouco. Mas, diz lá se és de tomar banho e já o tomasse?” Então as sobrancelhas do velho Noé arquearam-se dando a cara a expressão de quem espera uma resposta. E, talvez se diga, quem já até sabia a resposta. “Não sou muito. Confesso que banho só me cai quando a chuva me pega ou quando um animal se coça, jogando-me para longe, para dentro de uma poça, fora isso, nem água eu tomo”. E Noé não gostou nada do que disse a pulga. A cara séria, os olhos fixados, como a procurar o grude da criaturinha. As vistas de Noé eram muito boas. De pequeno, sua mãe dizia que ele vivia a enxergar coisas do além. Comprovou no dia que ele enxergou um linha descosturada em seu vestido. Não era possível. Não aquele vestido cosido à luz do dia com a maior perícia, não aquele vestido reservado às festas e sempre guardado. De outras vezes Noé parecia enxergar as coisas mais a frente. Mais a frente como se enxergasse o futuro. Como se enxergasse o futuro ou dele desconfiasse. Mas isto só acontecia às vezes, em épocas de calmaria, não em épocas como essas de agora, de prenuncio de muitas chuvas, a bem dizer: dilúvio. “Se é assim, não posso deixar que entres. Se não tomas banho, se nem água tomas, aqui não podes entrar.” E Noé, terminando de dizer isso, meteu uma palma da mão na outra que era mesmo pra matar a pulga como se mata pernilongos. Quando levantou a palma da mão não existia mais pulga. As mãos vermelhas, as mãos latejando e nada mais da pulga. O canto mais limpo. Havia sumido por que havia morrido. Noé até procuraria a pulga, o cadáver, mas acabava de chegar à fila um macaco, uma cobra e uma avestruz. O cachorro e o gato já começavam a se impacientar. Não eram bichos de estando juntos, estarem quietos. Os primeiros trovões e relâmpagos pipocavam no ar e o velho Noé deixou a busca pra lá e seguiu entrevistando os bichos. Se eles haviam tomado banho, se haviam feito suas necessidades... Horas depois, Noé fechou a arca e a arca subiu. De uma janela aquele homem pode vê a chuva forte no convés e o mar se formando em todos os lugares. Noé pensando nos bichos que ainda haviam ficado para trás nem se deu conta que estava com pulga atrás da orelha. 
© Helder Herik
Maira Gall