CAMBRAIA

Ela vinha com o corpão de montanha. Sentava, abria a gaveta da máquina, e escolhia uma cor. Tirava o carretel de linha azul, puxava a linha, saia enfiando nas engrenagens da máquina. Checava a correia dos pedais e pedalava. Pedalava para fazer o teste, só para esquentar a dormência da máquina. Depois ela abria o guarda-roupa, pegava o tecido. A cambraia. Encaixava a cambraia na mira da agulha e pedalava. Agora pedalava pra valer, tchac tchac tchac. A máquina de costura puxava o tecido, a mão dela indo junto, a mão puxada, a mão chegando perto da agulha que pinicava tic tic tic, a mão saltava para trás (a mão um caranguejo). Ficava assim: indo para frente, saltando para trás. Ficara treinada com o tempo, nem pensava; a mão saltava mecanicamente (macaca velha, a mão). Ele era bem pequeno, coisa de cinco, seis anos. Pequeninho. Cabelo encaracolado, os cachos pendendo (minhocas que saiam da cabeça dele). Ele tirando remela, o dedo no olho, rodando, a remela se partindo, caindo (uma formiguinha cataria, levaria o peso nas costas até o formigueiro). Ele observando a costureira, tirando o serviço dela, uma sobrancelha arriada, outra arqueada. Meio cara de zanga, a cara meio de indagação a cara dele. Ele foi se chegando na máquina, se chegando (sabe imã puxando o prego?). Ela esticou o braço, criou cancela contra o bicho afoito. Disse umas coisas, ficou rindo da cara inchada, a cara de sono, a marca da fronha na cara dele, ela rindo. Ela disse umas coisas. Umas coisas, tipo: acordou com o barulho? Essa cara de sono? Deite, vá dormir, é cedo ainda. É sábado, tem colégio não. A sobrancelha arriada arqueou-se, igualando a outra, as sobrancelhas dele. Também a boca arqueara-se. Não têm aula hoje, nem amanhã. Ele agora abrindo o riso, o pescoço afundando, os ombros subindo. Tapou a boca puxando a gola da blusa, esticando até o nariz (assaltantizinho tapando a janelinha, ocultando os dentes fujões. Depois os dentes nasceriam tortos e brancos e calcificados, agora não, depois). Ela voltou a costurar. Mão para frente, mão para trás (o caranguejo treinado). Ele observando a agulha pinicar a cambraia, uma sobrancelha arriada outra arqueada. Ela parou de pedalar, cortou umas linhas descarriladas, levantou a cambraia e ofereceu ao pequeno. Ele vestindo a cambraia, ele rindo, a janelinha escancarada.

MATÉRIA DO BLOG AGENDA GARANHUNS, POR WAGNER MARQUES







HELDER LANÇA LIVRO E VENDE 350 EXEMPLARES EM UMA SEMANA

O poeta Helder Herik está lançando seu terceiro livro, que vendeu em Garanhuns, impressionantemente, mais de 350 exemplares em uma semana. A obra pode ser adquirida na Livraria Mec, Pérola Joia, Banca de Revistas Avenida e, brevemente, na Livraria Casa Café. Trata-se do livro SOBRE A LÁPIDE: O MUSGO. O poeta, segundo o crítico literário André Cervinskis, vem construindo uma obra que se destaca no cenário atual da literatura e, embora seja pouco conhecido do grande público, é um nome que vem se fazendo conhecer nas rodas literárias.

Já para o consagrado poeta Mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, Helder é um poeta original e um dos nomes para a literatura brasileira marcar. A romancista Luzilá Gonçalves Ferreira revela que o poeta leva a sério sua vocação de trabalhar as palavras e seus livros podem ser lidos sem causar o tédio de alguns livros que vem se publicando com o nome de poesia. Para deixar o leitor a par da densidade poética que Herik traz em seus versos, transcrevermos um estudo feito pela Professora Ana Beatriz Camponado (Doutora em Literatura Comparada). Segue:

Quando lemos os livros de Helder Herik logo percebemos a preocupação com a linguagem trabalhada em várias dicções, além, é claro, da elaborada criação de imagens. Cada poema seu remete a um turbilhão delas. Dislexo, o poeta afirma compreender apenas as palavras que saem da leitura do papel e se transformam em coisas. “Há palavras que ficam acorrentadas, essas são as reumáticas. Já outras parecem aves espantadas, saem voando e eu vou junto; avoado que sou, não pouso mais.”

SOBRE A LÁPIDE: O MUSGO é um Livro composto de quatro poemas, cada um com uma dicção diferente, tornando o livro mais polifônico. Plural.

No poema INFÂNCIA DE PLÁSTICO, temos o fabuloso universo infantil. Sempre revisitado pelo poeta. Nesse poema, a criança constata a existência de outra pele por cima da pele humana. Esta sendo formada pelo grude que se acumula na infância. As brincadeiras com a terra, o suor e o banho como perda de tempo. A vida passando e o menino tomando banho. Castigo terrível. Foi com o banho mais atento (esfregando bem o grude) que o menino se deu conta que perdia a inocência e o grude lavado acabava levando sua infância pelo ralo.

O poema COISAS DE CASA é uma bem-sucedida analogia entre os objetos domésticos (faca, fósforo, geladeira, vaso sanitário — este antológico) e o ser humano. Como se os objetos, devido o seu uso por humanos, acabassem por se humanizar. Seria, talvez, uma resposta à pergunta de José Saramago sobre “
o que fazem as coisas quando não estamos a olhar para elas?” Assim, temos a faca nadando no peixe, o fogão que amamenta, o fósforo perdendo a cabeça, entre outros.

O CORPO QUE FICA descreve a dor de uma mulher, já sem brilho nos olhos, cabelos em falripas e boca fechada em túmulo. Vivendo numa casa com cheiro de mato e habitada por percevejos. Em meio a toda essa situação, encontramos um quadro de Charlie Chaplin, um vestido branco e ferrugens se acumulando.

Por fim, o poema SOBRE A LÁPIDE: O MUSGO. Um recorte de cenas trágicas. Cenas em que a autoria pertence ao próprio homem. Uns causadores e outros vítimas. Temos o chumbo entrando na clavícula; espalhando sementes por salas, quartos, cozinhas, sótãos... São geleiras definhando, línguas dormentes, canos estourados, vento uivando, sarnas, falanges, engulhos, veias abertas, cupins migrando, estampidos, viadutos e ossos estalando... São recortes do terrorismo que não podem ficar apenas nos quinze segundos de nossas tevês, seguidos por um comercial de bronzeador. Haveria ainda espaço para o
 humanismo praticável ou já nos basta a nossa vaidade de cada dia? Fica a provocação para a leitura deste POETA que tão bem vem representando o nosso tempo.


MELANCOLIA

os bois na fazenda
veem a vida cercada
miram devagar quem passa...
...e ficam tristes devagarzinho

CÓLERA


Bem antes do terremoto a vida já era bem ruim, bem já beirando o inferno. Água encanada é luxo, coisa de barão, de príncipe, coisa de Michael Jackson pra lá. Michael Jackson! Eu gostava dele, aquele jeito doidão, meio soldado, meio mulher, o moonwalk eu gostava, aquele nariz de biscuit eu gostava. Sem Michael o mundo seria uma fila de repartição pública. Na fila, por favor. Quer ser atendido, senhor? Então entre na fila, por gentileza. Trouxe os documentos? Está faltando tal documento senhor, é melhor vir outro dia. Quando eu era mais novo tentava imitar o Michael Jackson. A tarde toda naquilo, a tarde na ponta do pé, até aprender o moonwalk. Não existe criatura no mundo que não tenha imitado: batido o pé no chão, balançado a cabeça e dado embigadinhas. Tinha uma televisão ligada na praça, a gente tirava do jornal e colocava nos vídeo clips. Televisão em casa, geladeira, computador, isso aí já é coisa de outro mundo. Sonho nosso era chegar em casa, tomar um gole de água gelado. Tirar gelo da caçamba, o gelo adormecendo a ponta dos dedos, engelhando. O gelo no copo, boiando, batendo de leve no vidro, tim tim. Deve ser a maior riqueza de um homem e ele nem sabe. Cego às apalpadelas, trocando água por coca-cola. Deve ser porque o refrigerante faz cócegas, descendo na garganta, já sentiu a cócega, as bolhinhas? Depois, meio que assim, do nada, sobe um arroto: brouc. Porco, barrão, cavalo. O gosto de coca na garganta e nas ventas. Ainda existe essa guerra entre a gente mesmo. Essa guerra separando irmãos: tudo da mesma cor, do mesmo sangue, mesma língua e tudo sem se entender. Tudo falando grego, quando não fala é porque já tem uma bala enterrada na cabeça. É a guerra. É o apocalipse. Aqui é assim: olhou de cara feia, falou diferente, piscou fora de ora, leva é bala. Está vendo aqui na canela? Esse riscão aqui foi bala. Fui coçar o umbigo, levei bala. Pior meu pai que vive com uma bala na cabeça. Vive até hoje. Têm dores terríveis. A noite é que dói mais. Quer abrir a cabeça com chave-de-fenda e tudo. Futucar os miolos, desenterrar a bala, medo dela dá cria dentro da cabeça. Eu que seguro a onda dele. Tinha até uma esperança com esses hospitais de campanha, esperança que viesse uma criatura arrancar a bala da cabeça de meu pai.  Precisava nem ser médico, um enfermeiro, alguém que limpasse a mão no álcool, viesse, tirasse a bala, mostrasse a ele: pronto seu José, pode morrer em paz agora. Mas esses hospitais de campanha fazem mesmo e arrancar pernas e braços, costurar pele rasgada, soro na veia, pano na testa, termômetro em sovaco. Os médicos fazem o que podem com o pouco que têm. Fazem milagre. Um aparecendo eu digo: fazem milagre, embora meu pai tenha uma bala na cabeça, arrodeando de um lado pro outro, vocês fazem milagre. Depois veio o terremoto. Aquilo foi o fim do mundo. Pesadelo fora da cabeça. Olha aqui a tremura nas mãos, olha aqui nas pernas, só em falar o corpo todo terremota. Está vendo tudo isso aqui, isso e mais isso e mais aquilo? Todo esse entulho era casa. Era o castelo nosso. Cada um com o seu. Cada um no seu quadrado. Tinha porta, tinha fechadura, tinha chave, tinha buraco na fechadura. Meu pai ainda guarda a chave da casa. Pendurou no pescoço com um cordão encardido, cordão umbilical dele. Diz que ainda vai ter uma casa, vai abrir com aquela mesma chave. Já pensou no desgosto: você vendo as casas dos amigos no chão, você correndo até a sua casa, você tirando a chave do bolso, você vendo sua casa no chão. A chave. A casa. Pai diz: vou ter outra, vou abrir com essa mesma chave. Acorde pra vida homem, eu digo. Ele começa a chorar, lembrando da pia, da mesa, do armário, dos bocais, da porta. Ainda chorando ele dá um soco na perna, diz que ainda vai abrir uma porta com aquela chave. Digo: vai mesmo, pai! Digo pra ele não dá outro soco na perna. A gente agora vive no fim do mundo. Fim do mundo não é na distância não. O Japão e a China ficam mais longe. Digo fim do mundo de coisa que terminou, acabou, chegou no fim. O apocalipse, entende? Não tem a história do apocalipse? Então, aqui é o apocalipse, o fim do mundo. A noite só se ouve o choro do povo. O choro pesado, o choro grande. A gente se acostumando ao choro, Deus me livre, Deus me defenda. Choro pesado é choro de fome. Choro fundo, choro que parece enterrado na garganta é choro de saudade de quem morreu nos escombros. A mão pra fora dos escombros, a pessoa puxando, deslocando o osso, quebrando o osso e a pessoa lá embaixo, sem dizer nada, um ai a pessoa não dizia, tão morta já, tão já cadáver. O cólera. Como se não bastasse agora veio o cólera. Os soldados aí, pacificando, dando sopa e pão, dando água e cobertor, mas cá pra nós, não é mau agradecimento não, longe disso, cá pra nós foram eles que trouxeram essa desgraça pra gente. A notícia é essa: foram eles que trouxeram o cólera, a diarreia. A pessoa correndo pro mato pra defecar. Banheiro não têm, tudo nos escombros, que resta é o mato. A pessoa indo e voltando várias vezes por dia. Uns vão e ficam pelo caminho. Um dia de cólera e a pessoa já se acaba. O homem inteirinho ontem, andando, subindo ladeira e tudo, hoje amanhece com vinte quilos a menos. Vinte quilos. A água do corpo indo embora. Tome beber água, tome soro e tome gente morrendo. O apocalipse. Veio uma médica hoje cedo, moça bonita, cara rosada, cabelo louro que não dava uma volta. Veio falar com a gente, eu e meu pai. Eu só olhando nos olhos dela, aquele azulão do céu, penso até que ela ficou com medo. Veio falar com a gente, dizer que uma barra de sabão era capaz de salvar nossa vida. O povo aqui, morrendo por falta de banho, por falta de se ensaboar nas axilas, no pescoço, nas partes de baixo. Uma mulher bonita daquela falando aquilo, mandando a gente tomar banho. Lavar os sebos. Os olhos azuis olhando pros pés da gente. A gente com vergonha da razão da mulher. Sabe o preço de uma barra de sabão? Cinquenta centavos. Com esse dinheiro a gente podia salvar nossas vidas. A gente pode. Mas dinheiro se gasta com o pão, a manteiga, a mortadela. A gente com fome vai lá pensar em sabão? A gente com fome vai lá pensar em lamber sabão, minha senhora?

FILOSOFIA

2
as coisas
que não se pensaram
escondem-se em poleiros
chocando-se

© Helder Herik
Maira Gall