sábado, 10 de dezembro de 2011

A POLPA DA FRUTA POÉTICA DE HELDER HERIK

por Luciano José*


Comentar a produção de um determinado autor nos dias atuais é manter viva uma tradição bastante cultuada nos meios artísticos de outrora: o exercício da crítica feita não por pessoas especializadas, mas entre os próprios pares que produzem arte. Na ausência da crítica acadêmica, resta o diálogo recíproco e sincero entre os que se aventuram na criação.

A crítica é imprescindível por vários motivos: de forma especial porque é através dela que tomamos consciência de uma dimensão mais ampla da obra produzida. Sem a crítica não há como ser questionado, pensar em melhorar na produção, admitir certos limites e também constatar méritos. Do mesmo modo, a autocrítica é fundamental. Ela impede a precipitação em querer publicar, promove o aprimoramento do texto, permite o distanciamento necessário para não repetir erros, vícios, evita a ingenuidade ou o caminho da pretensão.

A propósito disso, podemos pensar na produção poética de Helder Herik, pernambucano da cidade de Garanhuns que, além de investidas na área da educação como professor de literatura e filosofia, começou nos últimos anos a conquistar um espaço no campo da criação literária, tendo lançado três livros: Amorte (2008), As plantas crescem latindo (2009), Sobre a lápide, o musgo(2010).

Percebemos que há na sua produção, como na de muitos que concebem a arte como uma forma superior do espírito capaz de encantar e transfigurar os sentidos, um conjunto de elementos que servem para definir um estilo pessoal e ao mesmo tempo a presença da polpa da fruta poética a dialogar constantemente com o que é residual.

Sua escrita é marcada por indagações e conteúdos próprios do pensamento filosófico, sobretudo quando discorre sobre temas como a relação contraditória dos homens com o real, com os avanços tecnológicos e genéticos, com o suprassensível e com a busca incessante de conhecer a si mesmo. É sugestivo pensar a esse respeito no poema capacete, do livro As plantas crescem latindo, quando afirma que “tem um pouco do que pensamos na espuma”, afinal, se o ar é o que nos anima deve haver resquícios de pensamento no que respiramos. Por outro lado, Helder não foge do lugar comum dos poetas contemporâneos quando o assunto é fazer uma releitura do cogito ergo sumcartesiano. Para essa investida utiliza o niilista Schopenhauer e ataca: “eu penso / penso muito... / e caio”.

O ambiente perigoso e hostil das grandes cidades bem como o clima de incerteza que envolve a todos, inclusive os desavisados é revelado de forma sucinta no poema metrópole: “O homem esticou o braço / espreguiçou / e levou um tiro”.
O poeta encarna Nostradamus quando, diante de sua bacia, é capaz de prever o que ocorrerá no futuro: “a mãe nem precisará engravidar / basta abrir a geladeira e descongelar um filho / no micro-ondas”.

Utilizando-se da ambiguidade própria do fazer literário, descreve no poema a ação do prego sob alguma superfície, ao tempo em que o transforma em objeto fálico peculiar: “o prego / esse penetra / com a cabeça para fora / para dentro”. Do mesmo modo, ao dialogar com a língua do internetês cria um clima erótico-irônico no poema Historinha modernosa e sem vergonha (“você vai abrir a janela / clica e arrasta / depois inserir figura / (se a figura for grande demora um pouco) / subir / e / descer / na barra de rolagem / fechar por causa do vírus / e / pronto / tudo salvo”).

Há um ponto de convergência quando o tema está relacionado à identidade nacional marcada pelo processo de colonização, ou seja, o poema Colônia 1 (“naquelas naus / não havia WC / e fizeram por aqui”) parece desaguar no poema Brasil (“país da América do Sul / lá se puxa pouco a descarga”).

Por vezes, o poeta revela certo preciosismo, se considerarmos que toma a si mesmo como referencial, quando tenta explicar o fim do namoro (“ela era geniosa demais para mim / eu era genial demais para nós”) ou quando percebe o que ocorre ao passar diante de um poste (“às vezes eu passo e o poste pisca”). No entanto, entre o desejo de querer ser poeta de verdade e ser um poeta de mentira, a escolha recai decisiva para a segunda: um poeta “sem eiro nem beiro”.

Podemos destacar também na sua poética as recordações da infância, a cultura simbólica em torno dela e as personagens que marcaram seu desenvolvimento como ser humano, isto é, a recorrência ao passado serve como uma chave para abrir o intricado mistério que envolve sua personalidade. A poesia aparece aqui como sendo o recurso primordial para revelar o processo histórico-contraditório do ser. Pensando nisso, o poema Prata expressa um clima poético primoroso ao usar o recurso do inusitado, ou seja, a prata (moeda) perdida pelo menino transformou-se na lua prateada invocada pelo avô.

A esse respeito, o tema da infância é revisitado com admiração poética no seu livro de 2010 intitulado Sobre a lápide: o musgo. Nele o poeta percebe o grude como o musgo que demarca uma outra pele e que ao ser eliminado pelo banho desce pelo ralo junto com a infância. Do mesmo modo, na leitura que faz desse período da vida é capaz de notar a presença da lesma através do rastro gosmento deixado no muro, fazer uso de catacreses e criar imagens bastante sugestivas em expressões como: “o orvalho o suor da planta”; “o porco o focinho de tomada... espantando bichos de bico medo de tomar choque”; “se fosse de dente a galinha o fazia (o gogo) fio-dental”; “a chuva assanhada desenterrava sapos”.

No capítulo as coisas de casa, que trata da relação dos objetos domésticos com os homens, há uma brincadeira confusa e proposital de tornar as coisas cúmplices das artimanhas humanas. Ocorre que a sujeira acumulada no tapete (“sujeira no tapetão”) aparece como uma confissão após batidas sequenciais para torná-lo limpo. Ou o caso do fogão que, ao alimentar o grávido botijão por cordão umbilical (a mangueira), possui bocas abertas e pouco fala, só deixando escapar o gás.

Em suma, mesmo que Helder expresse uma preocupação em construir uma linguagem poética própria, percebe-se pelo caminho já trilhado que trata-se de alguém que se aventura nos domínios da língua com armas bastante eficazes para capturar seu aspecto ambivalente, imagético e lúdico. Cada publicação que se atreveu a lançar imprimiu uma face única, cheia de encantos e contradições, captando o essencial e revelando o residual do caldeirão que compõe a vida, o mundo, as pessoas, as lembranças, os costumes, as ideias. Com uma visão apurada sobre aquilo que ocorre em torno de si é capaz de traduzir em linguagem poética o que poucos conseguiriam dizer, mas muitos gostariam de sentir lendo seus poemas. Portanto, se para alguns arqueiros o alvo da poesia é ensinar deleitando, Helder Herik parece estar no caminho certo.


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*Luciano José é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Alagoas, professor da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL – Campus III) e poeta com livros publicados. 

domingo, 20 de novembro de 2011

GÊMEOS

Pintura: Paul Cezanne


Infanticídio, monstruosidade, anomalia? Nada disso. Pra que esteja a entender é preciso que esteja a pensar como eles. Ouvi do tradutor, ele falando, gesticulando e falando. Uns que estavam mais de lado, mais para o canto, pediram ao tradutor que omitisse as idiossincrasias. Falasse da cultura, dos banhos de rio, as pinturas no corpo e dança da chuva. Daí a diante tudo voltou ao normal. O normal era seguirmos o guia pela mata adentro, suportando o calor esbaforido, escorregando, tropeçando, caindo. Se ficarem a segurar nos cipós verão que não caem, disse o guia. Verão que se sustentam. No entanto, não ficamos a segurar nos cipós, causa de muito parecidos a cobras que eram. Causa de muita cisma nossa para isso. Caminhávamos. Chegaríamos à tribo dos Suruuarrás, veríamos índios selvagens, índios primitivos, índios sem havaianas nos pés ou blusas de deputados. Índios que ainda eram índios: a cabeleira boa, preta, sem dobras, nem engelhos, os seios caídos; das índias. Verdadeiros seios naturais. Seios da mata. Aquele riso fácil, a timidez em si aproximar. Verdadeiro acanhamento, o acanhamento da mata, dos índios-indígenas , os Suruuarrás. Veríamos tudo igual ao passado na televisão, tudo no igualzinho ao que os Villas-Bôas apresentavam. Os documentários dos Villas-Bôas. Os Villas-Bôas eram: o Orlando, o Cláudio e o Leonardo. O Leonardo foi o que morreu cedo, nem chegou a cabelo branco, nem a rugas, osteoporose. O tradutor havia contado... Tradutor ou guia aquela criatura? Pequeno que ele era eu sei, eu lembro. Tamanho dele era tamanho das avós do interior. As avós do sítio, trabalhando de criança, enfadando a ossatura, atrofiando. Pequeno e amorenado que ele era eu lembro, tenho na vista aquela pequenez. Que disse ele também eu lembro. A gente, os mais curiosos, chegando perto dele, pedindo pra que contasse mais. E ele contava. Contava que os índios da tribo dos Suruuarrás não consentia que vivessem índios com doenças de retardos e aleijos. Gêmeos jamais podiam viver. Os gêmeos eram os mais desgraçados, a causa que era na crença do espírito ruim viver nos ossos de um deles, um gêmeo infestado de pus e espírito ruim nos ossos. Quando o guia falou retardos e aleijos a turma olhou pras máquinas, meio que desligando, tirando o flash, o zoom, meio que aceitaram, meio que assim: a vida na floresta é cheia de testes, provações, corrida de onça a pessoa podia levar e tinha que ter o corpo na plena saúde, pra correr e trepa em árvores, que a bem da verdade a vida ali assim exigia. Acho que eles lá entenderam, vá lá que entenderam. Porém, quando a fala foi pros gêmeos o povo lá meio que olhou de lado, meio que tinham pingo de nojo na língua, as ventas franziram, sabe a venta franzir, inquirindo nojo? O pensamento meu devia ser igual ao pensamento dos outros, aos que estavam comigo, a franzir a venta. O pensamento meu era que gêmeos compunham uma benção. Uma benção só de glória-aleluia-amém. A gêmeos não devia se fazer isso, essa coisa de matar. O próprio pai a matar e a enterrar a criatura, o filho, sem um pecado concebido. Só matavam um. Um só é que era morto-enterrado. O guia explicava, a quem estivesse mais próximo o guia explicava. Quem é que aceita, ninguém aceita, mulher ouve isso e não dorme, mulher se perturba, mulher é mais humana, aquele jeito fraco e humano delas. Eu conto, é meu trabalho. Se não contar é o trabalho mal feito, entendem? Mal feito, pela metade é que eu não deixo. Agora, olhando de longe, olhando meio não-humano, é de compreender, de aceitar eu já não digo, mas de compreender, sim, de entender não. Na crença deles, na cultura dos índios Suruuarrás, um filho deve nascer de cada barriga. Um só filho nascendo de uma barriga, esse filho será criatura do bem ou criatura do mal, o pai e a mãe, eles vão criando, mostrando o certo ao filho, o errado, educando, polindo, tudo certo, tudo bem. Tudo preto no branco. Agora é nascendo dois índios que a coisa mais se complica. Dois índios: um a ficar com o espírito só do bem e o outro a ficar, o outro ficando, só com o espírito do mal. Na cabeça dos índios Suruuarrás dois índios não podem nascer de uma mesma barriga e ficarem vivos, e ficarem a crescer. Veja Kawari. Kawari é uma índia apequenada. Kawari pegou barriga; uma barrigona que nem a deixava andar. Os outros índios já vinham olhando ela de lado, o canto do olho apontando. Kawari deu a luz a cinco indiozinhos e dos cinco só um é que se salvou. O pai enterrou os outros quatro, chegou na mata, enterrou. Kawari vive reclusa, enfurnada na oca. Entrevou, contraiu demência. Uns dizem que foi da barriga pegar tanta cria, já outros já dizem que mãe nenhuma se cura de saber dos filhos enterrados. Do pai enterrar os filhos. Contam os mais antigos que numa das gerações passadas a tribo aceitou um apelo dos pais, o apelo que deixassem vivos os gêmeos, que nenhum mal aconteceria. Discutiram lá e deixaram, queriam mesmo vê e deixaram. Uma criança era mais quieta, comia menos e obedecia mais. A outra era o contrário, era avesso. Daí então eles cresceram, eles foram aumentando, crescendo e uma manhã, os índios da tribo dos Suruuarrás deram falta daquela família, correram na oca e na oca eles não estavam. Alarmaram-se, entraram na selva, nas profundas da selva e acharam o filho avesso, aquele filho oblíquo, todo banhado no sangue e desorientado, como desorientado deve ficar quem mata a família, quem tem a família aos pés. O guia ainda contou que a índia Kawari, antes de entrevar, andava farejando na floresta, querendo desenterrar os filhos, querendo os por de novo na barriga, onde podiam viver. Onde viveriam. Porque só assim é que era possível, só assim é que era capaz. Chegamos na tribo dos Suruuarrás, pintaram a gente, dançaram com a gente, ensinaram fazer mingau e beiju e ensinaram palavras na língua deles, a língua enrolada deles e rimos com a mão na boca, a forma que era deles rirem e rimos todos na mesma língua.
De uma ponta o guia estava a me apontar com os olhos uma oca, lá dentro, ao que ficou a parecer, havia uma sombra, apequenada, entrevada.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Inveja da Lagartixa

Pintura: Paul Cezanne

Reparo comigo e vejo que tenho inveja da lagartixa. Dela subir a parede, dela ir além da janela, além do teto, dela sumir no mundo e eu ficar. Os pés no chão, o corpo sobre os pés. Fincados. Subir a parede é a forma que a lagartixa achou de voar. Nem é de querer ser uma lagartixa, a inveja que tenho. Que inveja é querer ser, inveja é querer ter. Inveja é ficar mastigando borracha. A inveja é de querer sair por aí, pelas paredes, os muros, os telhados. Invejo é não ter que subir degraus. A chatice de subir degraus, sabe como é? A chatice toda deles se encurtarem quando fazem uma curva. A gente subindo e eles curvando, eles encurtando. O pé da gente nem cabe, já reparou, já viu? O pé da gente nem cabe e subimos de ponta de pé, de ponta de pé como quem vai assustar alguém, roubar alguém. Uma mola. A gente subindo os degraus, a gente rodando e subindo parece mais uma mola, os degraus se a gente reparar, o clínico do olho reparando, o olho sanitário verá que os degraus, assim: rodando, são uma mola. Lagartixa pega costume de morar dentro de casa, atrás do guarda-roupa, atrás dos quadros: o quadro de Cristo, o quadro de Chaplin. Lagartixa pega costume de morar no medidor de energia. Entra lá de pequena, fica a comer mosquitos, a comer formigas, a comer as moscas e as aranhas. Depois engorda e o corpo balofo não passa mais pela fresta. Então com o tempo ela morre, não é verdade? Não há quem aguente viver só num buraco. Nem gente, nem criatura. Ambos estão sempre a querer sair do buraco. Lembra da cantiga: o buraco é fundo, acabou-se o mundo. Bem antiga, não é? Lembrou? Já vi lagartixas se alimentarem, elas comerem. Comiam farelos e miolos de pão. Miolos de ratos elas também comiam. Os ratos pegos na ratoeira, os miolinhos deles saltados da cabeça. Os miolinhos deles no chão e as lagartixas a comerem e lamberem o chão. Também ficavam a comer as fórmicas. A gente da casa deslocando um móvel a pintar a parede, e as lagartixas correndo, espantadas com a desapropriação. A gente constatando o rombo na fórmica. Comprava-se veneno, quero vê agora se não morrem! Eu derramava tudo. Despejava na pia, vaso sanitário, jardim. Queria as lagartixas por perto, queria-as em casa. Elas pelas paredes. Havia casos das lagartixas comerem formigas. Fórmicas primeiro, depois as formigas. As pobres das formigas ficavam a subir a parede e a lagartixa esticava a língua, puf, pegava. Chupava um pouco, como se estivesse com uma bala  a embolar na língua e depois engolia.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A voz das plantas e a vida da lápide na poesia de Helder Herik




Os temas das telas do pintor Vincent Van Gogh não eram novidade na pintura quando ele surgiu. Sua genialidade ― infelizmente, só postumamente reconhecida ― foi identificada, sobretudo, no olhar dele sobre as coisas e em sua forma singular de representá-las. As séries dedicadas às flores são os exemplos mais contundentes de seu talento artístico, que influenciou fortemente toda a produção das vanguardas do início do século XX. Entre essas séries estão as pinturas de girassóis, com destaque para a tela “doze girassóis num vaso”, a mais famosa. É um detalhe dessa pintura que ilustra a capa da obra poética As plantas crescem latindo (u-Carbureto, 2009, 112 p.), título que me despertou a curiosidade quando vi um exemplar na mão de alguém durante a primeira FreePorto (2009), festa literária ― cheia de boas surpresas ― para a qual o autor do livro tinha sido convidado, o jovem poeta de Garanhuns Helder Herik. A assonância desse nome também me chamou a atenção, não apenas porque me fez suspeitar de um pseudônimo (e não era), mas também porque me lembrei de um personagem da escritora Hilda Hilst, nomeado a partir de uma reprodução irônica da repetição da letra “h” em seu próprio nome. A apresentação do livro, assinada pelo autor, esclarece o título, mas, ao invés de nos entediar com um texto estraga prazeres, mergulha-nos desde logo no lirismo da obra, conduzindo-nos por uma afetuosa lembrança relatada sem as restrições adultas sobre os encantos da imaginação infantil. A epígrafe da obra traz um fragmento de O elogio da loucura, de Erasmo de Rotterdam, e evidencia uma postura de despojamento e abertura que o leitor é convidado a assumir também, pois o fragmento sugere que se procure na pilhéria um fundo de seriedade. Assim, há na poesia de Helder Herik um recorte de vozes cotidianas que busca iluminá-las no intuito de que se perceba melhor a sabedoria que carregam. A citação de Rotterdam na epígrafe e a citação de Van Gogh na capa ― o pintor era acometido de sérios problemas psiquiátricos ― apontam também para aquela “loucura” que recusa um contato com a realidade em que a imaginação criativa esteja ausente: “[...] as nuvens se partindo / as nuvens se juntando / partejuntapartejuntada / formavam dragões (cavalos) monstros / hiatos… [...]”[1].

Todas as alusões feitas no início dessa obra de Helder Herik, sobretudo no texto de apresentação, já capturam a nossa cumplicidade na aventura de suas explorações poéticas e a sensação é a de estarmos adentrando o sonho de alguém. Sua lírica se realiza no lúdico, nas brincadeiras com a polissemia das palavras, com a ressignificação de imagens de expressões cristalizadas e com as grafias. Portanto, a elaboração estética de As plantas crescem latindo ― segunda publicação poética de Helder Herik  dialoga com o que é familiar para transcendê-lo através de uma construção imagética particularizada no tratamento linguístico: “[...] o Serumano mata a fome / e / morre de fome / o Serumano constrói casas / para prender / os Seresumanos que eles fizeram”[2].

Como fez Van Gogh, construindo suas paisagens singulares através de pequenas pinceladas,Helder Herik constrói boa parte do universo poético de As plantas crescem latindo com poemas curtos, chegando ao minimalismo de apenas um verso, dialogando com a urgência discursiva demandada pelas ferramentas da internet, como no poema “Capacete”: “tem um pouco do que pensamos na espuma”[3].

O poeta não busca uma língua idealizada, mas antes evoca sua realização efetiva, singularizando-a através da exploração de suas potencialidades semânticas ou imagéticas. Tal estética se estende por seu livro posterior, o terceiro, intitulado Sobre a lápide: o musgo (u-Carbureto, 2010, 72 p.), em que temos um bom exemplo disso nos seguintes versos:
― lesma pedaço de língua de ave
da ave voar e da lesma lesmar
lesma luze no muro o rastro
o muro babado dela escalar[4]

Como vemos nesse fragmento de Sobre a lápide: o musgo, a poesia de Helder Herik alcança um contato voluptuoso com a linguagem, um aspecto especialmente notável nessa obra. Vejamos as palavras do próprio autor sobre sua construção estética ― a citação é longa, mas proveitosa:

[...] não procuro uma linguagem própria. Procuro a poesia. Acontece como se fosse uma caçada. A caça não virá até nós pelo simples desejo de que venha. É preciso pegá-la. Podemos pegar com a mão, mas ela escorrega. Podemos pegar com uma rede, mas ela é pequena e escapa. Vem o desespero de dar logo um tiro, mas ela é rápida, foge. Acredito que com a poesia é a mesma coisa. Por que haveria de ter eu apenas uma linguagem? Por que caçaria apenas com a mão, rede ou tiro? Caçar também se caça com assobio, estalar de dedos, piscar de olhos…[5]

De fato, esse livro se divide em várias partes em que se verifica uma mudança de dicção em cada uma delas. Essa postura de “caçador” da poesia se traduz em imagens como estas: “[...] a janela estilhaçada da pedrada / ― quem que atirou a pedra? / ― ela foi sem sacudimento ela sozinha foi indo / indo e plect / fez teia de aranha”[6]. Aqui, a evocação de um universo infantil, lúdico, explicitado em As plantas crescem latindo, continua sendo perseguida em Sobre a lápide: o musgo enquanto fonte de inspiração poética. Dentro dessa perspectiva, a poesia então se reveste de elementos da fábula, em que os animais e as coisas ganham voz, sentimentos e gestos humanos: “chovia / a chuva assanhada desenterrava sapos / chovia depois vinha o sol alegre / se abrindo…”[7] e “a hora da faxina / é pego o Tapete / nas extremidades sacudido / até confessar / a sujeira (escondida)”[8].

Em uma carta ao seu querido irmão Theo, Van Gogh expressa sua inquietação e angústia em representar artisticamente a paisagem que vê do asilo de Saint-Rémy-de-Provence, onde estava internado, e conclui:
Porém, é muito difícil, muito difícil. Mas isso me convém e me instiga a trabalhar plenamente no dourado e no prateado. E um dia talvez eu consiga realizar uma impressão pessoal disso, como os girassóis em amarelo. Quem me dera ter alguns deles no outono ― mas esta meia liberdade frequentemente impede que a gente faça o que, entretanto, a gente se sente capaz de fazer.[9]

As paisagens de Helder Herik também parecem florescer a partir de inquietações estéticas, mas também existenciais, expressas através da matéria comum da vida e da linguagem. Como nas telas de Van Gogh, tudo ganha movimento, as plantas chegam a latir e a estagnação da lápide é rompida pela vida do musgo.


[1] Sessão da Tarde (p.110).
[2] Ecce Homo (p.35).
[3] P.23.
[4] A Branda Lesma, A Farpa (p.16).
[5] Apresentação (s/p).
[6] Líquido Embutido, Contido (p.21).
[7] Chuva Baixa Poeira (p.25).
[8] Do Tapete Até a Sujeira (p.29).
[9] Tradução nossa: “Mais fort difficile fort difficile. Mais cela me va et m’attire de travailler en plein dans de l’or ou de l’argent. Et un jour peutêtre en ferai je une impression personelle comme le sont les tournesols pour les jaunes. Si j’en avais eu cet automne.– Mais cette demi liberté empêche souvent de faire ce qu’on sent pouvoir cependant.” Texto disponível em:
http://vangoghletters.org/vg/letters/let806/letter.html#translation


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Johnny Martins* (João B. Martins de Morais) é licenciado em Letras e Mestre em Teoria da Literatura (UFPE).  Tradutor, crítico literário, professor de inglês e de literatura de expressão inglesa, com foco na produção literária da Inglaterra e dos Estados Unidos.
Tem trabalhos de crítica literária publicados. Ensinou língua inglesa na Faculdade de Ciências Humanas de Olinda e foi professor substituto no curso de Letras da UEPB ministrando disciplinas de literatura inglesa e norte-americana do século XX, sociolinguística da língua inglesa e teoria e prática da tradução.
Atualmente é doutorando em Literatura e Cultura pelo Programa de  Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), trabalhando com epistolografia, erotismo na literatura e narratologia.

EVITANDO CHEGAR

Pintura: Van Gogh


Era voltando do colégio que ele vinha. Passo miúdo, vagaroso. Cabeça de vento que ele tinha, que ele nem pegava as matérias. Nem quem havia colonizado o Brasil, nem as contas de mais, nem as contas de menos, nem nenhuma das quatro operações. Dos adjetivos, os verbos, o português todo, ele não pegava. Passarinhos que pousavam na mão, nem bem ele fechava, passarinhos batiam as asas. Voltando do colégio que ele vinha. Nem chegava ainda, só vinha. Só vindo. A mochila pesada dos livros, as tantas tarefas que a professora marcou. O dedo da professora rodando no ar, marcando a tarefa. Todo mundo enraivecido, todo mundo a querer sair, chegar em casa, ligar a TV, assistir  X-men. Volverine. Todo mundo queria ser o Volverine, arranhar, enfiar as garras, destruir. Um menino deixou as unhas crescerem, mas nem foi a mesma coisa, o mesmo efeito nem foi, nem ficou Volverine. Ele nem tinha presa de sair, chegar em casa. Ele vindo, todo vagaroso. Vindo pra casa. Indo pra casa. Havia medo de chegar em casa. Havia? Só mesmo havendo, só mesmo se havia. Os passos miúdos dele, lesminha evitando chegar. Pudesse até esticava o caminho. Sabe elástico, esticar o elástico, esticar a rua. Espilongá-la. Pudesse ele fazia. Ele faria. A casa a se aproximar. Toda ela branca, caiada: paredes, portas, janelas, as telhas brasilites caiadas também, a evitar absorver o sol, a quentura do sol, o forno que ficava, o suor escorrendo no pescoço, a blusa colando no corpo, a mão peguenta. Mais em baixo na parede a cal era suja. Chovia na terra, a terra respingava no pé da parede, sujava. Daí então ele vinha chegando, ele chegava. A vida toda que durou a chegada. A demora da vida toda, do sol que vinha atrás lhe passar a frente. Abria a porta: ninguém não havia, só ele e a casa. Ele e a casa e as tarefas. A professora pedia que fizessem as tarefas, a voz dela ficava na cabeça, a voz dela ficava ribombando, mosca na carniça, zumbindo, muriçoca, cigarra cantando, zizizi. As tarefas doíam na cabeça, doíam na vista, doíam na coluna. As tarefas enunciavam: tal coisa tal coisa tal coisa, foi assim assim e assim. Ele relia, respirava e relia, sublinhava, coçava a cabeça, apertava os olhos, abria no dicionário. Um dia abriu o dicionário e achou de primeiro a palavra. Degredo, ainda lembrava a palavra: degredo. Toda vez que abria o dicionário queria achar de primeiro, duas, três, cinco, oito vezes ele abria, dez vezes e nada de achar a palavra. O jeito era procurar, estaria mais para a frente ou mais para trás. Acabava a tarefa ficando pra depois. Ninguém morreria com isso. Nem a professora. A professora teria mais o que fazer que ficar pensando se ele fazia a tarefa quando chegava em casa. Ele ficou pensando se ela o imaginava fazendo a tarefa, se ela o via, se o enxergava. A voz dela ele ouvia, a voz ribombando. Se então ela entrasse na mente dele. Visse, pelos olhos dele?

domingo, 14 de agosto de 2011

Foto: Paulo Ferreira


O problema aqui é a sujeira. A imundície. A crosta. Sabe aquela crosta que não sai, gruda, cola, emprenha. Emprenhou, criou feto, enraizou. Limpo! Se o senhor me perguntar, eu digo que limpo. Varro, esfrego, pego uma espátula, raspo, raspo, raspo e o grude fica lá. Vivendo. Cada um que chega aqui deixa um pouco de si, o ruim de si, o sujo, asqueroso, de si. Nem tanto os cachorros, os cachorros não. Bicho é coisa limpa! Cachorro, gato, coelho, coisa limpa. Homem que é porco. A infância na lama, na rua, prostíbulos. Homem é coisa para mil banhos, esfregões, bucha, escova nas unhas. Mulher já não é tão suja. Já não faz esse estrago. Não é mesmo, não acha que mulher é mais limpa? Vai da criação. Homem é criado pra ganhar o mundo, rasgar a cara, costurar o couro da cara, mostrar a cicatriz da cara. Cicatriz em homem é charme, força, bravura. Cicatriz em mulher é um aleijo, tragédia, fim de mundo, pode vê se não é. Mulher é criada pra abiscoitar a casa, cuidar, zelar, varrer. O que é que o homem faz, que já é do homem fazer, o que é? Chegar em casa e trazer a sujeirada do mundo todo, não é não, não é mesmo? Limpe os pés, não já ouviu isso, limpe os pés, limpe os pés... Pois não é capricho nosso não, frescura, frescurite. Casa tem que ser um lugar limpo, conforto e limpeza. A imundície que fique de fora. Homem não entende isso, diz que é frescura, frescurite, toma uma e quando sai do bar diz que vai encarar a fera em casa, a megera, cascavel. É dessas que a gente leva na cara. A gente leva nas fusas dessas pra pior. Deixar no gosto do homem a casa vira um chiqueiro, curral, estrebaria. De pequena que eu me acostumei com a limpeza. Minha vó, minha mãe, irmãs, todo mundo fazia uma coisa na casa. Os homens saiam, pra ganhar sujeira, e a gente limpava, lavava, esfregava, passava. A casa ficava um brinco, as panelas, queria que visse, tudo areada, brilhando, refletindo que era só espelho, que era só prataria; as panelas de alumínio. Roupa sempre foi bem passada, não ficava uma dobra, um engelho não tinha, não ficava, nunca ficou. O banheiro era a parte que me cabia, eu de pequena, o banheiro meu. Por isso que eu sei que não tem lugar que mais se limpe, que mais se suje. Que não tem jeito limpar que não se suje, que sujam. Homem é quem mais suja, quem mais não tem cerimônia. Não tem, não faz. O senhor me vendo assim: desse jeito meu, me dá quantos anos? Sessenta não é? Todo mundo só me dá sessenta, cinquenta e cinco, quando querem ser generosos. Quarenta, tenho quarenta. Quarenta e um. Estou acabada, estou me acabando. Vim trabalhar aqui ainda moça, os homens soltavam gracinha, histórias de amor, que teria vida de madame e tudo. Unha feita, cabelo escovado, vestidos, sapatos, viagens. Só fizeram foi se aproveitar, sabia? Tiraram a inocência, os sonhos, um risinho que eu ainda trazia na cara e só, um risinho no canto da boca, era o que eu tinha e foi embora. E tudo que sobrou só fui eu, essa sessentona, essa coisa que o senhor vê e sente pena. Nem precisa negar, sei que sente porque vejo nos olhos, na boca do senhor, assim: torta, assim: de lado, desprezando. De vez em quando um homem daquele aparece por aqui, usa o banheiro e nem olha na minha cara, nem pede desculpas, nem passa vergonha, nem fica vermelho, nem fica sem jeito. Antes ficam mais é com nojo de mim, sabe nojo? Ter se misturado comigo, nojo, nojeira. De vez em quando um aparece aqui e nem dá a descarga, aí então eu vou lá e me vingo, puxo a descarga que é mesmo que puxasse um tapete, mesmo que puxasse um gatilho.    

domingo, 7 de agosto de 2011

GUIDA

Foto: Angel Mumiah

Guida conversava. Os braços a cortar o vento, as mãos a pegar mosquitos. Conversa de Guida só Guida conversava. A fala dela sem medo: boca que não tremia, testa que não suava. Guida era artista da conversa, amarrava a pessoa com o papo. Papeava papeava e amarrava. A Boa vista, a Rua da Esperança, a Thomas Cavalcanti, a Gervásio Pires, os palcos de Guida atuar. Guida sem maquiagem, as ferrugens na cara, as rugas. Guida nem ensaiava, toda de inspiração que era, toda real. Toda ela mesma. Ela mesma toda. Copia de Guida não havia no mundo. Procurasse nas novelas, nos filmes, revistas. Par de Guida não existia. Guida sem parelha. Guida e mais ninguém. A molecada sentava e Guida contava que havia casado com o prefeito. A molecada sentada na beirada, no meio fio, paralelepípedo, meio fio. Havia casado com o prefeito, andava em carro preto, vidro fumê, quatro portas. Opala. Opala ou corcel. Vivia no cabeleireiro a esticar o cabelo, a massagear. Era folheando uma revista, escolhendo um corte de cabelo, um penteado de modelo e a cabeleireira obedecendo, cortando penteando. Ou vocês pensam que meus cabelos sempre foram assim, isso assim: bufento, essa palha? A manicure batia na porta de Guida, a mulher da Avon a bater a porta de Guida. Guida atendia, Guida a atender, Guida a comprar, Guida a pagar. Pagando com uma nota só, dizia e estalava uma nota imaginária nos dedos. Uma só nota! Ficava nada pro mês que viria, coisa pra mês que vêm nunca que eu quis. De outra vez Guida foi casada com o açougueiro. A conversa dela, a história contada, ouvida. Vivia empanturrada de carne, toda gorda, balão, as mãos de Guida ficavam a abraçar o vento, a mostrar a gordura que tinha. Ela passando de lado nas portas causa da gordura, ficando em pé, passando de lado, ficando em casa do medo que tinha de sentar, quebrar o sofá dos outros, ficar entalada, esticando a mão, pedindo socorro. Vexame, agonia, agonia, vexame. Aquela gordura toda não era doença não, gordura é saúde, doença é magreza, não ganhar peso. Guida salgava a carne, punha cuminho, alho, colorau. Como que se faz colorau Guida? Ela nem titubeava, nem franzia a testa. Sabe bola de gude, ximbre, bola de gude? Têm umas vermelhas, a pessoa fica apilando apilado, ela vira poeira, coisa fininha, depois a pessoa vende, depois a pessoa compra, depois a pessoa bota na carne, bota no frango pra pegar uma corzinha. Bronzinho. Frango muito branco da nojo de comer, gosto ruim na boca, a carne embolando na boca, uma gastura. Eu botava colorau no frango, na carne de boi, alcatra, filé. Sabe filé, não é bom, aquele salgadozinho na boca, não é bom? Fritava com cebola e pimentão. Cozinhava com batata e chuchu. Chá de chuchu, já tomou? Serve pra frieira, tosse e pano branco. Serve pra comer com pão frances, bolacha. Mata-fome, já comeu? Servia pra matar a fome mesmo. Canela serve pra curar de catapora, curar de sarna, formigamento. Guida emendava uma coisa na outra.Já casei com um doutor. Um médico, um doutor. Casei e não tive uma doença na vida. Uma febre, dor de cabeça, uma coceira na axila, nada, nada eu não tinha, ele não deixava, eu não tinha. Ele acordava e vinha me examinar, a mão lisa de médico: botava aparelho no ouvido, no nariz, paletinha na língua, termômetro, dava uma cibalena e dizia pra não abrir a janela, pegar uma frieira, morrer, deixar a vida dele desgostosa. Mas eu abri a janela. Passou um palhaço de circo, sorriu e casei com ele. Viajei o Brasil todo: Amazônia, São Paulo, Piauí, Bahia Negra, já ouviu falar em Bahia Negra? Fica no Paraguai, atravessa uma rua chega no Paraguai, atravessa de volta chega no Brasil varonil. Que é varonil, Guida? Ora essa, que é que estão ensinando na escola? E agora Guida franziu a testa. Varonil é o sobrenome do Brasil, Brasil Va-ro-nil! E Guida contava que havia casado com fuzileiro, juiz, promotor, advogado. Um fazendeiro que mandava busca leite quentinho, na hora e queijo. Mandava preparar o cavalo, saia pelas terras, dando ordens. Tanto queijo e leite, leite e queijo e Guida não aguentou mais. Um dia Guida acordou com a pá virada, saiu a correr pela beira da estrada, deu com a mão, pegou carona, pegou amor ao caminhoneiro, casou. Estou esperando ele, esperando que ele volte, que ele chegue.    

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A FORMIGA, O FORMIGUEIRO, A MÁQUINA

Foto: Fábio Jalowski


Saiu do buraco. Os mil túneis que existiam no buraco, pra que ela saísse. Saiu. Os pulmões cheios de ar. Havendo pulmões em formigas, estavam eles cheios de ar fresco, ar novo de bons ventos. Primeiro apareceram às antenas, movimentando-se para lá e para cá, certificando que poderia o resto do corpo sair sem correr perigo. Lá no passado disseram que as antenas captavam estações de rádio, e já para hoje em dia captavam sinal digital, via-satélite ou digital, ou mesmo os dois, que dizem que os dois acabam sendo um só, ou um ou outro são um só. Gostava de sentir o sol esquentar a pele, se é pele, película ou couraça, que a formiga tem; que ela possui. As outras formigas viviam a ralhar com ela, dizendo que ela acabaria por se queimar, tanto a viver no sol, a pisar o chão quente e a beber água muito morna que ela vivia. Como vício era assim que ela vivia. Assim: já impregnada, rebelde até. Vá uma criatura dizer que formiga não bebe água e ela o desmente na hora, se não desmentir pela boca, desmente pelas antenas, interferindo os sinais de rádio, desmentindo digitalmente, via-satelimente, satelitimente, isso, essas coisas as quais se enviam sinais. Ou não desmente porque não a entendemos. A fala dela não entendemos e, não entendendo, não há episódio desmentido. Não é coisa exata o que eu digo, é só coisa dita, falada, escrita. Água existe em formigueiro, sabia? Quem não sabia agora sabe! Ouviu, leu e agora sabe, retendo a pessoa sabe, passa a saber. Um batalhão de formigas fica com o serviço de cavar o poço e bombear a água pra várias galerias. De estarem a cavar o poço é que elas não param de tirar terra do buraco. Tirar terra e bombear a água do poço. Têm formigas que nunca saem do formigueiro, nunca estão a botar a cara pra fora, tão ocupadas que ficam a fazer isso: a bombear água para as várias galerias, os vários dutos. Do meu tempo de menino fiquei a prestar atenção a isso: de haver água no formigueiro. O trator passava aplanando a nossa rua. Ou era aplanando ou era aplainando. Ainda não sei. Todos os anos o mesmo trator, as mesmas letras: GP, 385, New Holland. Nome que ninguém sabia pronunciar direito. De um ano pro outro as letras ficavam mais claras, arranhadas, a se apagarem. Daí que a gente só chamava o trator de máquina, que ninguém sabia chamar New Holland e, porque ninguém sabe, ninguém queria chamar de trator. Era máquina, como se fosse um batismo de bicho, de monstro. Coisa meio dinossaurica, jurássica, pré-histórica. Acho que chamávamos do tempo das cavernas. A garagem da prefeitura, a caverna dela. A pá larga da máquina raspava a terra pelo fundo. Os adultos tinham um cuidado pra gente não sair correndo na frente da máquina, cair e ser cortado ao meio pela pá de aço, revirando a terra e trazendo a tona os brinquedos perdidos: as ximbres, os piões e os soldados de plástico. Havia uma lei: quem achasse um pertence de outro disputaria com ele, numa queda-de-braço, o direito de ser o novo dono. Queda de braço ou quebra de braço? Não sei ainda. Tinha os filmes do Stallone! Uma hora ele era Rambo, matava o povo, derrubava helicóptero, outra hora ele era Rock, apanhava no ringue, mas acabava vencendo, a boca troncha dele chamando a esposa, Adrian, Adrian. Uma vez ele foi Falcão, dirigia uma Scania, usava boné e apostava queda de braço, ou queda de braço ou quebra de braço, ainda não sei. Saíamos na rua apostando quem ganhava, apostando quem era o Falcão da Gervásio Pires. Virávamos o boné pra trás e tudo, igualzinho a ele. Os adultos faziam caretas, riam da gente. Havia o truque de esconder na cueca, o que a gente achasse. Esconder na cueca: ximbres, pião, soldados de plástico, moedas que a carestia havia comido o valor. A carestia! A gente nem sabia o que era. Só se ouvia falar dela, a fome dela a comer as coisas no mercado, na feira. Cid Moreira falava e meu Vô respondia que estavam jogando a pá de cal nos pobres. Havia o truque de esconder na cueca e se fazer desentendido, ficar tonto, sair do sol quente e não voltar mais pra rua. Das raspadas que a máquina dava na terra surgia o formigueiro. Parte dele levado pela pá larga e outra parte descoberta, outra parte a mostra, as mil galerias entrando para a terra. A gente enfiando pedaço de arame, afirmando a fundura, confirmando-a. Tínhamos de entendimento que as galerias acabavam entrando para debaixo das casas, no fundo das casas, dos alicerces. Parecia-nos que se um dia as formigas se rebelassem, podiam muito bem sair levando a nossa casa de lugar, de seu lugar de casa fincada, casa erguida: cimento, tijolos, ferro, brita, reboco... Alguns até achavam absurdo a idéia das formigas saírem a levar nossas casas para outro lugar, outra rua, outro bairro, mas quando se argumentava da força de uma formiga, capaz de carregar uma folha bem maior e pesada que ela, de carregar nas costas um palito de fósforo, perna de gafanhoto, bituca de cigarro, por argumentar assim, argumentar com isso, é que alguns acabavam por nos dar razão. A formiga saiu do buraco, os mil túneis que existiam no buraco, encheu os pulmões de ar, havendo pulmões em formigas, e nem bem deu um passo a língua a puxou para a boca. O tamanduá, mascote nosso, escondido atrás da moita, espreitando. Nem bem chegou perto, esticou a língua e era uma vez uma formiga. Outras tantas tiveram o mesmo fim, para que nossas casas permanecessem onde estavam, erguidas, fincadas.

sábado, 18 de junho de 2011

RODA DE POETAS

Foto: José Lopes

― sabe se com quantos paus uma canoa se faz com pregos!?
― e as crianças vão nascer por bluetooth igual as fezes são feitas no Pentágono. 
― sabe a nossa sombra? pois é o nosso irmãozinho gêmeo que ao invés de nascer resolvera viver à nossa própria sombra.
― que já eu já acho que a nossa mão dando tchau é pássaro erguendo voo.
― já eu já acho que o sapo cururu peida vaga-lumes!


(do livro: A INVENÇÃO DOS AVÓS)

terça-feira, 24 de maio de 2011

MINHA IDEIA DE ABRIR A PORTA

Foto: Nuno Chaves


Fui ouvindo o barulho na porta, toc toc toc. Depois o barulho descia pro chão. O casco, depois de bater na porta, descendo pro chão, o cimento grosso que era o chão. Lá de cima, da janela, eu via, eu enxergava. Pelo vidro eu via. Desembaçando o vidro e vendo. A palma da mão fazendo círculos, desembaçando. Crendo que era mentira, jurando que era mentira. E nem era. O casco na porta, no cimento grosso, nem era mentira, nem era ilusão, nem era nuvem, miragem que ele não era, nem filme. Era um unicórnio! O chifre, as orelhas, o rabo, a brancura do corpo, tudo de unicórnio. Meu irmão dormindo no beliche, na cama de baixo, a boca aberta de quem se afoga, busca fôlego, o nariz meio tapado que ele tinha, buscando fôlego pela boca. O jeito dele dormir de lado, a boca aberta e o fio de baba descendo na fronha, empapando. Meu irmão dormindo, meu pai, minha mãe, a casa dormindo e eu acordado, eu ali, com os olhos vivos, acordado da silva, vendo o unicórnio, grande e branco, gordo, os olhos luzindo, o rabo de espanador balançando, as ventas abrindo, dilatando, fungando o cheiro da casa. A minha ideia de abrir a porta. A ideia que era: eu descendo, abrindo a porta, a chave girando o ferrolho, a porta abrindo, o unicórnio vindo com a boca, os dentes, a língua nos meus dedos, lambendo. A língua áspera, lixa de madeira, lixando. A língua nem seria nojenta, nem podre, asquerosa. Língua de cachorro é que era, de unicórnio não.  Eu pensando isso, pensando e já fazendo, já executando. O unicórnio na minha frente, lambendo minha mão e agora falando. Ele falando, dizendo o nome dele, de onde vinha, porque vinha e não ficou, porque chegou. Disse que havia um fazendeiro mal encarado, bigodão de foca, nariz de tucano, aquele nariz de ponta para baixo, grandão, de ponta para baixo. O homem querendo pegar ele, capturar e cortar o chifre, vender o chifre. Só por maldade, que o chifre não valia nada, a banda de um conto o chifre não valia. Nem fazia mágica, nem pente, nem dominó. Que ninguém iria acreditar em chifre de unicórnio, comprar chifre de unicórnio à toa. O chifre só servindo mesmo para guiá-lo no escuro, brilhando no escuro, guiando. Levei o unicórnio pra dentro de casa, entra, e ele foi entrando, lambendo minha mão com a língua áspera e entrando. Nem fez cerimônia, nem tropeçou nos móveis, na cristaleira, no cinzeiro, na carranca, em nada ele foi tropeçando. Era lambendo minha mão e entrando. Meu pensamento que ele iria me morder, a qualquer momento fechar a boca, me morder. Chagamos na cozinha e ele sentou a mesa. A pessoa nem podia imaginar a coisa assim, uma coisa dessas, dele ir sentando a mesa, sem mais nem menos, sem medo de sentar no rabo, de quebrar a cadeira, sentar em falso. Sentou a mesa e foi virando gente. Virando gente, virando gente. Pisquei bem os olhos pra ver melhor aquilo. Se estando sentando parecia gente ou se era gente, deixando de ser bicho. De ver a minha perturbação ele se antecipou, disse que dentro de casa virava gente mesmo, bicho só ficava do lado de fora, unicórnio era da porta pra fora, dentro era gente, falava, sentava, comia bolo e tomava café, igual a todo mundo, igual a toda gente. Mas o chifre permanecia na testa. O chifre brilhoso naquele escuro da cozinha. O chifre era mesmo que um cascão de sorvete, virado, pregado na testa, virado e brilhante. Posso tocar? Ele balançou a cabeça que sim, comendo bolo e balançando a cabeça que sim, a educação de não falar com a boca cheia, o medo de a mãe ver, de dar uma tapa na mão, reclamar. Nunca fale com a boca cheia, coisa mais abominável. Minha mãe falava, a mãe dele falava também. Decerto que a mãe de todo mundo fala, senão abominável, mas nojenta, coisa mais nojenta, falar com a boca cheia, a pessoa vendo as migalhas na boca... Ele já meu amigo, o unicórnio que era gente já meu amigo. Não é o que ele era, meu amigo, de sentar a mesa, comer bolo, tomar café? Meu amigo que ele já era, deixando eu por a mão no chifre, a mão clareando com o brilho do chifre, o vermelho do sangue, o vulto dos ossos, aparecendo. Puxei o chifre mais para perto e depois só ouvi o barulho. Meu pai correndo, me pegando nos braços. Apontando o revolver pro corpo no chão. O revolver ainda fumaçando, o fio de fumaça subindo, serpenteando.  

sábado, 30 de abril de 2011

VÓ DESENLEANDO OS CARRAPICHOS

Foto: Pessoa N Beat

Só faltava mesmo a gata falar, abrir a boca, falar. O que fosse que falasse, abrindo a boca, mostrando os dentinhos enfileirados, as garras pontudas. O focinho acima da boca, o focinho frio, abaixo dos olhos, das orelhas, os olhos abaixo das orelhas. Minha Vó criava a gata. Pegou de pequena, a gata de novinha, nem os olhos abriram e Vó a pegou. É minha, eu crio! Vó já sabia o sexo, que era fêmea o sexo. O povo se enrolava, olhavam embaixo e não sabiam, só depois de um tempo saberiam se era gata, se era gato, bicho novinho assim não tem como saber, como adivinhar. Vó sabia, o jeito dela ser mais a frente do povo. Vó a recolheu, a mãe dela, a mãe da gata, havia deixado a pobre apartada, rejeitada, pequenininha a pobre, miudinha na palma da mão, uma ratinha apartada. Vó deu leite na colher de chá nos primeiros dias, abria a boca, enfiava acolher e a gata tossia, já morrendo, tossindo. Vó esperta, Vó macaca velha, pegou um paninho, ensopou a ponta com leite e deu a gata. A gata chupando o paninho, lembrando do peito da mãe, chupando que era uma beleza. Vó dizia que era uma beleza a gata mamando no paninho, o orgulho dela, da sabedoria dela fazer a gata mamar e sobreviver. A gata crescendo, crescendo e engordando e crescendo. Já pulava a porta e já ganhava o mundo. O mundo eram os telhados. Os telhados da rua da gente, da Gervásio Pires, das outras ruas, ela batendo perna nas outras ruas, afastando as telhas das casas. Ela vadiando. Depois essa Cachorra aparece com um bucho, aparece prenha. Vó esculhambando a gata, ofendendo os brios. Essa bicha safada, sem vergonha. O povo chegava, contava terem visto a gata lá em cima, lá na outra rua, já perto da feira, de olho nos pintos, nos canários, nos  hamsters, os ratinhos; os hamsters. O povo já de olho nela, já apontando a espingarda, mirando o focinha dela, Deus livrando a pobre de um balaço. A reza de Vó, pedindo a Deus que a livrasse dos balaços, dos carros, dos cachorros, dos moleques com as petecas, as petecas mirando o calango, o rabo do calango, o rabo partido, caído na terra, se debatendo, um tourinho se debatendo. As petecas mirando a cabeça da gata, os miolos caindo, se debatendo, tourinhos. Deus que desse livramento a pobre. As rezas de Vó, as angústias todas, acabavam quando a gata chegava, a gata viva, cheia de carrapichos. Vó desenleando os carrapichos, espremendo as pulgas, alisando a cabeça. A gata com os olhos fechados, o rabo levantado e os olhos fechados. Eram as pazes das duas. Vó e a gata, as pazes. A gata só faltando falar, olhando pra Vó que era mesmo que falar, puxando a vista de Vó pra ela, encantando, enfeitiçando. Vó entendendo, lendo a astúcia, fervendo leite, esfriando, pondo no pires, jogando carne pra gata, a gata comendo, se lambuzando, comendo, bebendo. Vó olhando, Vó admirando.