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Mostrando postagens de 2011

A POLPA DA FRUTA POÉTICA DE HELDER HERIK

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por Luciano José*

Comentar a produção de um determinado autor nos dias atuais é manter viva uma tradição bastante cultuada nos meios artísticos de outrora: o exercício da crítica feita não por pessoas especializadas, mas entre os próprios pares que produzem arte. Na ausência da crítica acadêmica, resta o diálogo recíproco e sincero entre os que se aventuram na criação.
A crítica é imprescindível por vários motivos: de forma especial porque é através dela que tomamos consciência de uma dimensão mais ampla da obra produzida. Sem a crítica não há como ser questionado, pensar em melhorar na produção, admitir certos limites e também constatar méritos. Do mesmo modo, a autocrítica é fundamental. Ela impede a precipitação em querer publicar, promove o aprimoramento do texto, permite o distanciamento necessário para não repetir erros, vícios, evita a ingenuidade ou o caminho da pretensão.
A propósito disso, podemos pensar na produção poética de Helder Herik, pernambucano da cidade de Garanhuns q…

GÊMEOS

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Infanticídio, monstruosidade, anomalia? Nada disso. Pra que esteja a entender é preciso que esteja a pensar como eles. Ouvi do tradutor, ele falando, gesticulando e falando. Uns que estavam mais de lado, mais para o canto, pediram ao tradutor que omitisse as idiossincrasias. Falasse da cultura, dos banhos de rio, as pinturas no corpo e dança da chuva. Daí a diante tudo voltou ao normal. O normal era seguirmos o guia pela mata adentro, suportando o calor esbaforido, escorregando, tropeçando, caindo. Se ficarem a segurar nos cipós verão que não caem, disse o guia. Verão que se sustentam. No entanto, não ficamos a segurar nos cipós, causa de muito parecidos a cobras que eram. Causa de muita cisma nossa para isso. Caminhávamos. Chegaríamos à tribo dos Suruuarrás, veríamos índios selvagens, índios primitivos, índios sem havaianas nos pés ou blusas de deputados. Índios que ainda eram índios: a cabeleira boa, preta, sem dobras, nem engelhos, os seios caídos; das índias. Verdadeiros seios nat…

Inveja da Lagartixa

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Reparo comigo e vejo que tenho inveja da lagartixa. Dela subir a parede, dela ir além da janela, além do teto, dela sumir no mundo e eu ficar. Os pés no chão, o corpo sobre os pés. Fincados. Subir a parede é a forma que a lagartixa achou de voar. Nem é de querer ser uma lagartixa, a inveja que tenho. Que inveja é querer ser, inveja é querer ter. Inveja é ficar mastigando borracha. A inveja é de querer sair por aí, pelas paredes, os muros, os telhados. Invejo é não ter que subir degraus. A chatice de subir degraus, sabe como é? A chatice toda deles se encurtarem quando fazem uma curva. A gente subindo e eles curvando, eles encurtando. O pé da gente nem cabe, já reparou, já viu? O pé da gente nem cabe e subimos de ponta de pé, de ponta de pé como quem vai assustar alguém, roubar alguém. Uma mola. A gente subindo os degraus, a gente rodando e subindo parece mais uma mola, os degraus se a gente reparar, o clínico do olho reparando, o olho sanitário verá que os degraus, assim: rodando, são…

A voz das plantas e a vida da lápide na poesia de Helder Herik

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porJohnny Martins*


Os temas das telas do pintor Vincent Van Gogh não eram novidade na pintura quando ele surgiu. Sua genialidade ― infelizmente, só postumamente reconhecida ― foi identificada, sobretudo, no olhar dele sobre as coisas e em sua forma singular de representá-las. As séries dedicadas às flores são os exemplos mais contundentes de seu talento artístico, que influenciou fortemente toda a produção das vanguardas do início do século XX. Entre essas séries estão as pinturas de girassóis, com destaque para a tela “doze girassóis num vaso”, a mais famosa. É um detalhe dessa pintura que ilustra a capa da obra poética As plantas crescem latindo(u-Carbureto, 2009, 112 p.), título que me despertou a curiosidade quando vi um exemplar na mão de alguém durante a primeira FreePorto (2009), festa literária ― cheia de boas surpresas ― para a qual o autor do livro tinha sido convidado, o jovem poeta de GaranhunsHelder Herik.A assonância desse nome também me chamou a atenção, não apenas porqu…

EVITANDO CHEGAR

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Era voltando do colégio que ele vinha. Passo miúdo, vagaroso. Cabeça de vento que ele tinha, que ele nem pegava as matérias. Nem quem havia colonizado o Brasil, nem as contas de mais, nem as contas de menos, nem nenhuma das quatro operações. Dos adjetivos, os verbos, o português todo, ele não pegava. Passarinhos que pousavam na mão, nem bem ele fechava, passarinhos batiam as asas. Voltando do colégio que ele vinha. Nem chegava ainda, só vinha. Só vindo. A mochila pesada dos livros, as tantas tarefas que a professora marcou. O dedo da professora rodando no ar, marcando a tarefa. Todo mundo enraivecido, todo mundo a querer sair, chegar em casa, ligar a TV, assistir  X-men. Volverine. Todo mundo queria ser o Volverine, arranhar, enfiar as garras, destruir. Um menino deixou as unhas crescerem, mas nem foi a mesma coisa, o mesmo efeito nem foi, nem ficou Volverine. Ele nem tinha presa de sair, chegar em casa. Ele vindo, todo vagaroso. Vindo pra casa. Indo pra casa. Havia medo de chegar em …
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GUIDA

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Guida conversava. Os braços a cortar o vento, as mãos a pegar mosquitos. Conversa de Guida só Guida conversava. A fala dela sem medo: boca que não tremia, testa que não suava. Guida era artista da conversa, amarrava a pessoa com o papo. Papeava papeava e amarrava. A Boa vista, a Rua da Esperança, a Thomas Cavalcanti, a Gervásio Pires, os palcos de Guida atuar. Guida sem maquiagem, as ferrugens na cara, as rugas. Guida nem ensaiava, toda de inspiração que era, toda real. Toda ela mesma. Ela mesma toda. Copia de Guida não havia no mundo. Procurasse nas novelas, nos filmes, revistas. Par de Guida não existia. Guida sem parelha. Guida e mais ninguém. A molecada sentava e Guida contava que havia casado com o prefeito. A molecada sentada na beirada, no meio fio, paralelepípedo, meio fio. Havia casado com o prefeito, andava em carro preto, vidro fumê, quatro portas. Opala. Opala ou corcel. Vivia no cabeleireiro a esticar o cabelo, a massagear. Era folheando uma revista, escolhendo um corte d…

A FORMIGA, O FORMIGUEIRO, A MÁQUINA

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Saiu do buraco. Os mil túneis que existiam no buraco, pra que ela saísse. Saiu. Os pulmões cheios de ar. Havendo pulmões em formigas, estavam eles cheios de ar fresco, ar novo de bons ventos. Primeiro apareceram às antenas, movimentando-se para lá e para cá, certificando que poderia o resto do corpo sair sem correr perigo. Lá no passado disseram que as antenas captavam estações de rádio, e já para hoje em dia captavam sinal digital, via-satélite ou digital, ou mesmo os dois, que dizem que os dois acabam sendo um só, ou um ou outro são um só. Gostava de sentir o sol esquentar a pele, se é pele, película ou couraça, que a formiga tem; que ela possui. As outras formigas viviam a ralhar com ela, dizendo que ela acabaria por se queimar, tanto a viver no sol, a pisar o chão quente e a beber água muito morna que ela vivia. Como vício era assim que ela vivia. Assim: já impregnada, rebelde até. Vá uma criatura dizer que formiga não bebe água e ela o desmente na hora, se não desmentir pela boca…

RODA DE POETAS

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― sabe se com quantos paus uma canoa se faz com pregos!?
― e as crianças vão nascer por bluetooth igual as fezes são feitas no Pentágono.  ― sabe a nossa sombra? pois é o nosso irmãozinho gêmeo que ao invés de nascer resolvera viver à nossa própria sombra. ― que já eu já acho que a nossa mão dando tchau é pássaro erguendo voo. ― já eu já acho que o sapo cururu peida vaga-lumes!

(do livro: A INVENÇÃO DOS AVÓS)

Capa do novo livro

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MINHA IDEIA DE ABRIR A PORTA

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VÓ DESENLEANDO OS CARRAPICHOS

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Só faltava mesmo a gata falar, abrir a boca, falar. O que fosse que falasse, abrindo a boca, mostrando os dentinhos enfileirados, as garras pontudas. O focinho acima da boca, o focinho frio, abaixo dos olhos, das orelhas, os olhos abaixo das orelhas. Minha Vó criava a gata. Pegou de pequena, a gata de novinha, nem os olhos abriram e Vó a pegou. É minha, eu crio! Vó já sabia o sexo, que era fêmea o sexo. O povo se enrolava, olhavam embaixo e não sabiam, só depois de um tempo saberiam se era gata, se era gato, bicho novinho assim não tem como saber, como adivinhar. Vó sabia, o jeito dela ser mais a frente do povo. Vó a recolheu, a mãe dela, a mãe da gata, havia deixado a pobre apartada, rejeitada, pequenininha a pobre, miudinha na palma da mão, uma ratinha apartada. Vó deu leite na colher de chá nos primeiros dias, abria a boca, enfiava acolher e a gata tossia, já morrendo, tossindo. Vó esperta, Vó macaca velha, pegou um paninho, ensopou a ponta com leite e deu a gata. A gata chupando o…