CORINGA

Pai havia me dito pra enrolar a ponteira no pião. Eu lá de baixo, olhando a boca dele abrir. Enrole garoto, enrole. Era mesmo assim que ele mandava, enrole... Tinha momentos que a boca do meu pai abria mais rápido, a voz aumentava e a cara ficava igual quando brigava com a minha mãe, a sua mulher, a minha mãe. Os dois no quarto, o barulho dele, do meu pai, o barulho da mão dele caindo nela, na minha mãe. A mão dele caindo nela, ela caindo no chão. Ele a mandando levantar e ela ficando no chão, ele chutando e ela chorando, minha mãe chorando e eu gritando na porta. Eu batendo na porta, meu sangue manchando a porta, a porta toda rabiscada do meu sangue. Ela chorando, ele gritando, eu gritando... A boca do meu pai abria mais rápido quando eu não respondia as coisas. Ele perguntando e eu calando. Eu lá embaixo olhando meu pai espumar. Eu olhando como se meu pai tivesse dentes bonitos, como se pai tivesse uma casca de feijão nos dentes, como se tivesse um buraco estragado de cárie. Está ouvindo o que eu digo? Enrole a ponteira, eu só olhando a boca, os dentes de meu pai. Minha mãe não tinha os dentes que meu pai tinha na frente, ela falando com a mão na boca, vergonhosa.  Os meus dentes haviam caído e outros nasciam devagar. Meu pai tinha dentes que a gente nem sonhava. Eu lá embaixo, olhando a boca e os dentes de meu pai. A escova de dentes do meu pai ficava longe da nossa, a pasta de dentes dele, a toalha, tudo diferente do que era nosso, tudo mais caro, tudo longe do que era meu e de minha mãe, tudo aquilo apartado. A voz do meu pai era um trovão, voz de boi dele, a voz de minha mãe era uma brisa, miado de fome. A minha voz nem saia da boca, nem pegava impulso, nem escalava o lodo na goela. Eu nem saía de casa, eu e minha mãe na casa a vida toda. Eu lá debaixo olhando os dentes de meu pai, meu pai cismado comigo, meu pai passando a língua nos dentes, a boca fechada, correndo a língua nos dentes. Eu olhando aquele bolo que a língua fazia passando nos dentes dele. Enrole a ponteira senão o pião não roda, enrole garoto... E meu pai espumava dizendo uns nomes que dizia a minha mãe, e meu pai ficava vermelho, aquele vermelho na cara de quando saía do quarto e mãe ficava no chão. Meu pai já vinha levantando suspeitas, de longe ele me olhava, fazia tempo que ele me olhava, ande mais depressa garoto, corra, ele mandava, ele dizendo a minha mãe que eu era criatura pra viver dentro de casa, essa vergonha a gente esconde do povo, ele não cresce, ele não fala, ele não corre, não faz um mandado, só vegeta. Minha mãe gritava umas coisas e ele a trancava no quarto. Ela caía e chorava. Eu batia na porta, sujava a madeira de sangue. Minha mãe um dia conseguiu um bico, umas faxinas, pai demorando a aparecer, as compras findando, a dona sem querer que minha mãe me levasse. Minha mãe havia pedido, eu ficaria na garagem, eu longe e quieto e a dona não mudou, a dona dura. Minha mãe trancou a porta e eu fiquei esperando os biscoitos. Mãe fazendo mil recomendações, me beijando, trancando a porta. Depois de um tempão a porta abriu, era meu pai. Uma garrafa na mão. Perguntou por minha mãe, eu nem respondia, eu nem falava. Ele perguntando e eu calando, olhando a boca dele, os dentes. Ele indo à gaveta, pegando uma faca e vindo pra cima de mim. Ele abrindo minha boca igual à boca do Coringa, igual o pai do coringa fez com ele. 

SAMBA CRIOULA

2

também a disciplina
da árvore
a sustentar a casca
da fruta verde
a dureza e o amargo
também a disciplina
da mãe
que mais que a árvore
o fruto podre
não expele

SAMBA CRIOULA

1



da mão aberta
o sol nascia
o parto
da mão fechada
germinando pra mão aberta
o sol
a mão fechada:
o sol escapando pelos dedos
a lagrima caindo no sol
regando o sol dele
ter na mão


NO FUTURO

a mãe nem precisará engravidar bastará abrir a geladeira e descongelar um filho no micro-ondas

LÁPIDE E MUSGO OU A POESIA ESCATOLÓGICA EM HELDER HERIK

*por ANDRÉ CERVINSKIS
O livro funde o lúdico da infância
com a aspereza da vida adulta
O novo livro do jovem poeta Helder Herik, Sobre a lápide: o musgo (Garanhuns: Ed. Do autor, 2010), consegue dar continuidade ao estilo que o autor vinha seguindo, de poemas com temáticas pós-modernas. O autor é natural de Garanhuns. Professor de filosofia e literatura, já publicou os livros amorte (2008) e as plantas crescem latindo (u-carbureto, 2009). Como havia afirmado em resenha anterior, influenciadas por autores modernistas como Manuel Bandeira, João Cabral e especialmente Augusto dos Anjos, embora ainda permaneçam as características dos versos livres e curtos. Helder Herik toca em temas que são corriqueiros e até banais para todos nós:

Utilizando-se de recursos poéticos que demonstrem a fragilidade humana, o autor chega às raias da escatologia, encontrando motivação lírica no convencionalmente não-poético, como augusto dos anjos, conforme podemos aferir nos seguintes versos: Para que amorte/ dome os ossos-tutanos,/ (que sempre existe um nervo/ de rabo de lagartixa)/ é prudente que cuspa/ a hemorragia, o cancro./ a febre reumática, o pigarro./ Os vermes mais embutidos.
 (CERVINSKIS, 2009)

                Lendo a obra de Herik, é inegável a influência, embora não citada do poeta Augusto dos Anjos, que nasceu no Engenho Pau d’Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. De uma família de proprietários de engenhos, assiste, nos primeiros anos do século XX, à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas. Muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério. Lecionou geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor. Seu único livro, “Eu”, foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor (ANJOS, 2011)

Para aprofundarmos nossa análise, não podemos deixar de citar o famoso poema Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos, se quisermos traçar um paralelo entre a obra desse autor e Helder Herik, como segue abaixo:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

(ANJOS, 2010)

                De fato, essa influência fica muito explícita logo na abertura do livro Sobre a lápide: o musgo, com o poema Recapeada a infância em grude, imundície, que eu gostaria de transcrever aqui logo após citar os mais famosos versos de Augusto dos Anjos, para podermos fazer uma comparação mais coerente:

antes o musgo adubava as fuligens
a poeira tornava Saara
assentando nos móveis
de expulsos que estavam da sala os móveis na despensa
saarando
de saber saberia depois:
[...]
o grude escorrendo no corpo lavado
descer a infância pelo ralo
assim: eu inventava uma lendazinha
de anotar mesmo no vidro no vapor do banho
o dedo escrevendo
cutu cutu a zoadinha do dedo vibrando
inventava que musgo se virava musgo do grude
que descia lavado
(HERIK, 2010, p. 15)

Ora, se a matéria principal de Augusto dos Anjos foi a secreção, substância mais nojenta e repugnante do corpo humano, que esse autor consegue transfigurar em versos fortes, o musgo, o lodo, ou seja a imundície da natureza é que se alia ao homem para apresentar esse verdadeiro espetáculo escatológico-literário que é Sobre a lápide: o musgo. Ao colocar logo no título dois objetos ou seres que representam coisas aversivas a qualquer cidadão de bem – o musgo (sujeira) e a lápide (morte), Helder tira a força negativa dessas palavras para trabalhar nelas senão a beleza, mas pelo menos a aceitação, a naturalidade, a confirmação de que o ser humano, além de limitado, tem também necessidades imediatas, mesmo que pouco confessadas, por razões de pudor ou religiosidade até, conforme a própria declaração do autor em sua apresentação:

Neste terceiro livro, houve a fusão dos dois anteriores. ‘Lápide’ lembrando Amorte e ‘Musgo’ lembrando As Plantas Crescem Latindo. Sob um e outro, as várias dicções. As minhas falas de poesia. Daí dizer que não procuro uma linguagem própria. Procuro a poesia. Acontece como se fosse uma caçada. A caça não virá até nós pelo simples desejo de que venha. É preciso pegá-la. Podemos pegar com a mão, mas ela escorrega. Podemos pegar com uma rede, mas ela é pequena e escapa. Vem o desespero de dar logo um tiro, mas ela é rápida, foge. Acredito que com a poesia é a mesma coisa. Por que haveria eu de ter apenas uma linguagem? Por que caçaria apenas com a mão, a rede ou o tiro? Caçar também se caça com assobio, estalar de dedos, pescar de olhos...
(HERIK, 2010, apresentação)
               
Mas a diferença principal que traço entre esta obra e as anteriores é o aprofundamento da escatologia, isto é, das necessidades mais básicas do ser humano e dos animais, que Herik consegue com maestria transformar em poesia:

o porco chupava a lavagem
farelos cascas
 pão crioulo tomate
arroz feijão farinha...
[...]
o calango aprovava
a cabeça de dinossauro balançando
aprovando a sujimundície
(HERIK, 2010, p. 24)

daí invejadamente vinha o porco
o focinho de tomada abrindo caminho
espantando bichos de bico
medo de tomar choque que tinham
(Idem, p. 22)

lavava os gogos
que então costuravam a terra amolecida
bichos de coser que eram
caçando
a galinha ciscava o rego uma feiúra as pernas de ciscar ciscando
(Idem, p. 2)

Existiria necessidade mais comum ao ser humano do que a de defecar? Mas poderíamos encontrar então nessa atividade banal a poesia? Helder nos mostra que sim, através dos seguintes versos:

banco para depósito
o Vaso Sanitário
o papel higiênico
pra conferir
(o extrato)
tatua-se
de cima para
baixo
a branca louça
tibunga o tolete
na água
(o submarino)
depois de fechada
a escotilha
manda-se de tudo
água abaixo
pelo cano
(yellow submarine)
(Idem, p. 36)

Chamaríamos a atenção, nesses versos, para o tratamento humorístico dado às fezes duras (yellow submarine), inclusive dito em inglês, para ficar mais chique. E também que, de todos os utensílios do banheiro, somente o Vaso Sanitário mereceu ser escrito em letras maiúsculas, como que para afirmar sua condição primordial para a existência desse cômodo das casas. Assim, as coisas para Herik tomam vida; fazem todas as ações de uma pessoa normal, merecendo nosso respeito como qualquer outro ser humano:

cansada a planta suava
curvava e suava
dizia que a seiva era o suor
que então eu olhava direito
o olho bem apertado de mirar
olhava clínico
oftalmológico
[...]
o sangue amarelava tinha hora
 — amarelão
a gente da mesma cor
do corpo ser
e por baixo do couro o sangue amarelando
(Idem, p. 20)



O fogão, a geladeira, o armário e o próprio palito de fósforo, objetos tão simples, chamam a atenção do poeta por provocarem nele estados de pura contemplação da realidade que o cerca, a beleza e outros estados se revelando no cotidiano:

muita fome
as bocas abertas
de pouca fala (as bocas)
só escapando o gás
elas chamam
grávido
o botijão amamenta
por cordão umbilical
(Idem, p.30)

porta mais precisa
adquiriu a Geladeira
a de abrir
e guardar
não da que de fora
se entra
(e tranca)
das portas de fechar
fechadas sem trinco
(Idem, p. 31)

entre as mansas colheres
a faca-peixeira
mais perigoso o facão
formado bandido
investigando
o perito encontrará
provas de crimes:
corte mutilação assassinato
provas de crimes
(já engavetados)
(Idem, p. 32)

o Fósforo igual ao gênio:
a força da cabeça
expelida (iluminada)
sob tensão
(pavio curto que é)
logo esquenta
perdendo a cabeça
explodindo
(Idem, p. 33)


Corajoso, contemporâneo, original, embora não negando influências. Seguindo a esteira do grupo Urros Masculinos, Dremelgas ou mesmo o Nós-pós, Herik se apresenta para nós nesse seu mais recente livro, inserindo-se completamente no novo cenário anárquico, despojado, antiacadêmico e informal da atual literatura pernambucana.


Sobre a lápide: o musgo é obra para ser lida sem frescuras, com abertura de mente; dessas que a gente leva ao banheiro para as necessidades básicas e inadiáveis, como é a poesia.

Olinda, 19 de janeiro de 2011.

*André Cervinskis é descendente de lituanos e nasceu em Recife, dia 13 de maio de 1975. Mestre em Linguística, graduado em Comunicação Social — UFPE. Entre suas principais premiações destacam-se o Cancioneiro infanto-juvenil para a língua portuguesa, categoria 16 — 19 anos (1992) — Lisboa — Portugal, no ano de 1992, além de dois prêmios do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco (1992 e 1995). Recebeu o prêmio Antônio de Brito Alves (ensaios), da Academia Pernambucana de Letras (2003,2007 e 2009). Colabora, desde 2005, com o suplemento literário Correio das Artes, do Diário Oficial da Paraíba (A União) e com o “site” Interpoética (www.interpoetica.com ). Seu primeiro livro, Oficinas de corpo (2002), está na segunda edição (2005). Pelo livro Manuel Bandeira, poeta até o fim, recebeu a menção honrosa do Prêmio Vânia Souto Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, ensaio, em 1994. Lançou também: De Imilce a Medellín: a Poesia de Lucila Nogueira; Saúde, cultura e catástrofe: ensaios de comunicação; e Ensaios de Circunstâncias (Prêmio Antônio de Brito Alves, de ensaio, 2008). Participa da União Brasileira de Escritores — Seção Pernambuco — e da Sociedade de Poetas Vivos de Olinda.

REFERÊNCIAS:
 ANJOS, Augusto dos. Disponível em:  http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp. Acesso em 19 de janeiro de 2011.
CERVINSKIS, André. Disponível em:
HERIK, Helder. Sobre a lápide: o musgo. Garanhuns: Ed. do autor, 2010.

SENTIMENTAL

um dia ela recebeu um buquê de flores (com
abelha e tudo) agradeceu e foi para o quarto
[chorar a dor da florzinha cortada no talo

O GATO MAIS VELHO, O GATO MAIS NOVO

O gato mais velho chegou até à porta, juntou as patas da frente com as patas de trás, empinou o rabo, balançou um pouco a traseira, pegou fricção e pulou. As patas dianteiras chegaram à janela que estava aberta, as traseiras não, era preciso escalar. O gato mais novo fez o mesmo: Juntou as perninhas, empinou o rabo, balançou a traseira, pulou e só as patas dianteiras é que alcançaram o beiral da janela, era preciso escalar. O gato mais velho e o gato mais novo faziam força com as patas traseiras. As patas esperneando, arranhando a tinta da porta. Quando as patas traseiras chegaram ao beiral da janela, os gatos se equilibraram, os dois na corda bamba, meio caindo pra frente, meio caindo pra trás. Pêndulos. Empinaram os narizes, cheirando o ar, estudaram os odores. Hora de pular, ir ao ataque. O gato mais velho queria ser o último, fez gestos com a cabeça, cedendo à vez. O gato mais novo vacilava, tremia, miava. Medo de deixar o pêndulo e pular no abismo. Primeiro os mais velhos, dizia o miado do gato mais novo. O gato mais velho engoliu a saliva, semicerrou os olhos, apertou bem a boca, não morderia a língua dessa vez, pulou. Pof. Foi o barulho seco, pof. O peso todo nas patas dianteiras. Pof, estalaram os ossos. Levantou uma pata, depois a outra. Estavam inteiras. Apesar dos anos, os estalos, estavam inteiras. Olhou pro gato mais novo. Pássaro que daria o primeiro voo, as asinhas servindo de nada. O gato mais velho miou dando ordem pra pular. O gato mais novo cabeceou indignado, escorregou um pouco, miou e pulou destrambelhado. Pof. Levantou uma pata, depois outra, achando que era assim que se fazia. Depois disso correu para a cumbuca de ração. Bandido: sentia fome, corria. Sede, corria. O gato mais velho iria à cumbuca também. Desistiu. Mastigar os grãos de ração doía os dentes. Uns dentes que ainda tinha. Uns que sobraram. Pensou tomar água, mas a língua molenga derramaria tudo. Depois comeria e beberia. Agora queria descansar as pernas, o corpo. Caminhou para baixo da mesa, deitou-se. A vida era até boa. O gato mais novo comia na cumbuca, troc-troc. Bebia, glut-glut. Voltou com a barriga estourando. O andado de vaca prenha, bucho pra um lado e pra outro. Deitou no meio da cozinha, espaçoso, largo. A vida era até boa. O gato mais velho o mandaria sair dali com um miado. Achou melhor não. O pequeno tinha que aprender, não o teria para sempre. O gato mais novo esticou uma dianteira e começou a se lamber. O gato mais velho tentou imitar e fracassou. O gato novo se lambia, lep-lep, mordiscava e lambia, lep-lep, quando levou um pisão no rabo. Foi aquele miado alto. O miado balançando a casa. Foi aquela agonia. O desejo de morder aquele pé, arranhá-lo, e a prudência em não fazê-lo. Ali estava quem o tirara do olho da rua. Quem o livrara de pneu por cima, carroça, caminhão. Mordeu e arranhou. Aquele peso todo não aguentava, nem com rabo de ferro, que perdoasse, mas, era preciso morder, aranhar, o que fosse, o que foi. Como represália levou um chute, parou embaixo da mesa. Chuto mesmo, ora essa. Um gato de rua, um gato sujo, remelento. Dou comida e me tira sangue. Chuto mesmo, crio lá onça pra me comer! O gato mais novo se recompondo, tentando pegar as estrelinhas que rodeavam a cabeça. Trabalho inútil. Melhor pegar a formiga no meio da cozinha. Lá iria ele de novo. Duvidava que o raio caísse no mesmo lugar duas vezes. Marcou o bote, traseira balançando, o rabo igual uma serpente, as orelhas pra trás e corrida. As patas bombardeando a formiga. O gato mais velho olhando, lembrando seus tempos. Lembrando o choque no fio da televisão. Parecia um embuá, uma cobra invadindo a casa, aquilo podia? Não podia! Deteve-a com uma mordida que varou a borracha e chegou ao cobre. O choque. O dente preto, meio torto. O coração acelerado desde aquele dia. O gato mais velho fechou os olhos, dormiu pra esquecer a lembrança ruim. O goto mais novo deixava a formiga. A formiga já aleijada. Brincava agora com a réstia do sol que pingava de uma telha quebrada. Marcava bote, corria. Deitava, pondo vigilância a réstia, os plânctons do ar dentro da réstia, os plânctons se assanhando. Quando uma nuvem cobria o sol a réstia sumia. O gato mais novo desesperava-se. Cabeceava. Para onde foi? Agorinha mesmo aqui, bem aqui. O chão quentinho ainda, para onde? A nuvem saia e a réstia de sol voltava a pingar no chão. Agora mais longe, mais pra frente. Depois a réstia sumia, voltava já subindo a parede, já longe das patas, já sem graça. Agora tinha um escorpião no meio da cozinha, um que veio saído do nada, como eles saem. Uma espécie grande de escorpião, perigosa, assassina. Agora sim, seria uma briga justa. Seria até a reconciliação com aquele pé que o chutara para baixo da mesa, seriam as pazes. A cumbuca mais cheia, quem sabe leite no lugar de água. Já na primeira patada o gato novo fora picado. Ele tão afoito, aquele jeito elétrico, foi picado. A dor latejando na pata, uma dor pior que o choque no cobre. A dor pior da vida... Os olhos do gato novo se apertando, o coração miúdo parando de bater, aquela coisa elétrica parando. O corpinho caído, o rabo caído, os olhos se fechando, a cumbuca sumindo... Os olhos do gato mais velho se abriram, encontraram o gato mais novo brincando com a formiga, ainda.

FANTASMA

um dia ele comeu tanta carne
que se desfantasmizou
se desfantasmilizou
se de-sin-des-fan-tas-mi-li-zou-se


bem
um dia ele comeu tanta carne que a fumaça
pegou ar e virou gente

DEGENERANDO

Um olho meu se degenerando, perdendo viço. Um olho meu de vista cinza. Sabe pé de pato? Que assim: já vem com aquele couro entre os dedos, aquela coisa emendada, aquela membrana. Pois esse couro deu no olho meu. Arranha e cobre o olho, coça. Eu sempre com o dedo, coçando. “É catarata!” Catarata não, tia minha teve e não é assim, essa coisa assim: derramada e lamentável. “É vista morta, vista morrendo, querendo fechar o olho. O olho querendo ir pra cova, pras profundas.” Por dentro a gente é só o osso. Por dentro a gente é cemitério. A gente é que não pensa, mas por dentro a gente é cemitério. “Pois digo: olho seu almeja se fechar pra fora, pras vistas, pras imagens, os capins, as palmeiras, os vales. Vista sua cansou, almeja trancar-se, ficar embutida no osso. Rebelião do olho seu, coisa assim.” “Pois digo ainda: é catarata! Insisto na catarata, coisa fácil de sair. Tempo de meu avô já se raspava. Pessoa pega uma faca própria, abre o olho e vai raspando a carne, cuidando de não cortar o olho. Pessoa mesmo faz isso. Pessoa de mão boa não vai cinco minutos nisso”. Um olho meu se degenerando e eu ouvindo lorotas. Vocês só sabem dizer lorotas. Eu preocupado comigo e ouvindo lorotas. A coisa mais bonita do mundo aparecendo, faiscando na frente e esse olho não vê. O outro vê, esse é que não. A coisa mais bonita aparecendo é o que? São os quês? Beija-flor em palma da mão, manso de a pessoa dar comida, tirar foto e tudo? A coisa mais bonita é isso ou é a mulher dá vida da gente, da existência toda e da morte? Mulher que esquece tudo, os pais, as molezas, os pares de sapatos, cremes de cabelos e fica com você, deitada pro amor, deitada só pra dormir junto, respirando junto quentura dos corpos. A coisa mais bonita é isso ou é um filho? A sua mesma cara, a cara mais bonita que a sua, sem rugas, sem manchas, sem aquele amargo dos dias. O filho rindo, vindo pra cima, abrindo os braços. A coisa mais bonita é isso ou é o que? A coisa mais bonita aparecendo na frente e o olho nem aí, tanto faz o que for que ele só vê o borrão. A coisa apagada, tremida. Sabe a pessoa dirigindo em dia de chuva? A água toda caindo no para-brisa, você olhando o mundo e o mundo todo embaçado, o mundo cinza, o mundo se derretendo. Um olho meu degenerando e eu vendo assim: chovendo em para-brisa. “Pois não têm aqueles rodinhos, aqueles do para-brisa chovendo, não passa pra lá e pra cá? Assim: pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Não limpa a imagem, a pessoa não enxerga melhor? Mesma coisa pra lá e pra cá dos rodinhos é a faca própria de raspar catarata. Pra lá e pra cá até o olho degenerado ficar sarado.”

PÁ-PUM

os pára-quedas
que vão caindo
são puns
que Deus solta
lentamente
e nós
como somos à sua imagem e semelhança
mandamos os nossos
em balões
que vão subindo
subindo
e é por isso
que Deus os sopra
ao deus-dará
© Helder Herik
Maira Gall