A POESIA PARIU A FILOSOFIA

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não seja burro
seja diferente

O POVO NOSSO DE CADA DIA

Foi o que eu havia dito, eu dizendo, a fala saindo clara. A minha voz saindo clara, a minha voz da minha boca, a claridade da minha voz, quem tivesse ouvido que fosse me ouvindo, eu dizendo e o povo me ouvindo, quem bem quisesse me ouvindo que eu não tinha segredos. Os segredos da boca pra fora, se eu tivesse. O programa começando, já entrando no ar. A mulher cheirando bem. O cheiro dela, da limpeza dela. Os cabelos dela cheirando a mato. Um mato bom, de fazer chá. O chá de curar as dores. Minha Avó com as dores da perna dela, as pernas latetejando, ela tomando chá. Ela curando. A minha avó, curando. A repórter deu a boa noite. Nem pra mim, nem pra ninguém, pra todo mundo. Os telespectadores, todo mundo. Boa noite! Esta é mais uma edição do Jornal da Noite e estas são as principais notícias. Então ela disse. Nem olhava pra gente, só dizia olhando pra câmera. A câmera parada, a tela abaixo subindo as notícias, ela dizendo o que subia na tela, os olhos sem piscar, os olhos dela vidrados. A gente olhando, a gente piscando e ela não. Eu com as mãos suadas, secando na calça, eu nervoso da mulher não olhar pra mim. Nem pra mim, nem pra ninguém. As letras subindo no visor da câmera, ela lendo até que lembrou da gente. A gente que era eu e o  político. Ele na dele, o político calmo, na dele. A gravata bem amarrada, o terno preto, sem caspa, sem farelo. O político já se ajeitando, já sabendo que seria ele que iria falar, as coisas que os políticos falam, as mesmas coisas, dando voltas nas perguntas, driblando, Garrincha driblando, na lateral, a lateral no fim e Garrincha driblando. A moça então olhou pra mim, eu vendo o reboco da maquiagem, olhou pra mim e perguntou o que havia acontecido na Boa Vista. O que tinha sido. Eu respondendo assim de pronto, assim, voando nas pernas de Garrinha: o deputado chegou na Boa Vista, fez reunião com o povo todo. O povo todo: o gari, a costureira, o comerciante, o povo em volta, sentado em volta dele, ele falando, a voz mansa, falando as promessas, o que precisasse pedisse que ele agora era do poder, do povo sempre foi e seria sempre. Do povo saiu e ao povo voltaria, agora com poder. A gente tinha feito a campanha dele: batendo em portas, colando fotos, repassando as promessas, ele dizendo que as promessas eram as dívidas, que palavra dele era cheque em branco, palavra de cabra homem, e depois de eleito ele se reuniu com a gente, todo mundo na roda pra ouvir o homem falar, o homem falou, o homem disse, a boca nojenta, dizendo na cara da gente que nunca havia prometido uma dentadura, nunca havia prometido um saco de cimento, um alfinete ele nunca havia prometido a quem quer que fosse, nem amigo, nem parente, nem a nenhum ninguém, o que quer que fosse ele havia prometido. Então o que aconteceu é que a gente, o povo da Boa Vista, a gente se vingou dele. A gente pegou o carro dele, o carro novo, o carro preto que o governo dá pra ele andar pra cima e pra baixo, os vidros fumês escondendo a cara dele, essa cara lisa dele, cheia de vinco, a cara dele. Eu nas pernas de Garrincha, voando. Daí cada um tirou uma peça do carro, a gente da Boa Vista, a gente tirando peças do carro dele: uma porta, uma cadeira, o toca fita, o volante, um cinto, a chave, cada morador com uma peça do carro. Então a gente achou pouco e a gente foi até a casa dele, a casa dele era um casarão, então um de nós arrancou a porta da frente, outro arrancou uma janela, um chuveiro, um levou a televisão, outro a bacia sanitária, os xampus, relógio de parede, tapete, uns levaram as telhas, e outros foram tirando os tijolos, colocando na carroça, levando pra casa. A casa dele está agora na casa da gente, na cozinha, na janela, na sala da gente. Ele dizendo na campanha e eu ouvindo, o povo todo ouvindo e gravando, a gente grava também, ele falando que onde tinha chegado era graças ao povo, tudo que ele tinha na vida era graças ao povo. Nem dava graças a Deus, era graças ao povo, a riqueza maior era o povo. O povo nosso de cada dia.

A GENTE UNHA E CARNE UM DO OUTRO

Tempão que eu vivia com ela. Eu de pequeno nos braços dela. Ela mostrando, dizendo que eu era o menino dela. Desde o dia que ela me achou no lixo que ela dizia que eu era o menino dela. Um presente caro de se mostrar ao povo, eu era. O povo olhando assim, o jeito assim do povo olhar. Assim de lado, a boca subindo de lado, o jeito ruim do povo olhar. Eu já ali, de pequeno, nos braços dela. Nem lembro da minha mãe, nem do meu pai, nem dos irmãos, nem lembro do lixo onde ela havia me achado, fuçando em saco plástico, rasgando o saco e fuçando. Lembro dela. A primeira coisa que vem é ela. Só lembro dela em diante. Ela me colocando no braço, me chamando de menino, de meu menino do céu, de meu anjo. Ela me banhando. Me banhando porque eu vinha do lixo. Eu nem me lembrando do lixo, do grude meu que veio do lixo. Ela me banhando, a bacia de zinco, a água e o sabão caindo nos olhos, o sabão ardendo, eu esperneando, me debatendo, as unhas pra fora e me debatendo. Ela me atolando no tanque, o desespero dela me atolar no tanque, tirando o sabão dos olhos, o sabão do corpo, das orelhas. O sabão nas orelhas que sempre ficava. Ela se desculpando, o destrambelhamento dela, da mão alvoroçada esfregar sabão nos olhos. Se desculpando, me dando comida, eu comendo as desculpas. Ela enchendo o prato, o gosto de mãe de encher o prato que ela tinha. Depois eu fazia digestão, depois ela me punha nos braços, depois eu lambia ela, o rabo meu balançando e a língua lambendo o rosto dela, a boca, o pescoço, a orelha dela. A alegria de lamber e balançar o rabo. As lembranças que eu tenho dela. Ela me ensinando chegar no muro, levantando a perna junto ao muro. O jeito dela me instruir urinar. A vergonha dela que alguém visse. Eu aprendendo logo pra ela não passar vergonha. O vexame dela, a vergonha. Depois de crescido uma bicicleta passou na minha pata e quebrou. A bicicleta descendo a ladeira, a banguela da bicicleta e eu cismado com ela. Eu latindo para ela. Eu correndo, latindo e ela passando por cima da minha perna, o osso estalando, trec, o osso estralando. A bicicleta descendo, a bicicleta indo embora e eu latindo com o osso da perna quebrado. Então ela veio chamando os santos, chamando nome com a bicicleta, chamando santos e chamando nomes. Arrumou umas talas e colocou na minha perna, amarrou forte e mandou que eu ficasse quieto, eu ficasse parado que ela iria rezar, pedir aos santos que me dessem cura. Todos os santos que conhecia e eu curei. As velas acessas na casa pela graça da minha cura. Depois eu fiquei sabendo, ela que disse, fiquei sabendo que ela foi na casa da bicicleta, passou o dedo na cara do menino, na cara da mãe e tudo, ela contando, passando a mão na minha cabeça, contando. Éramos unha e carne. A gente unha e carne um do outro. Lugar que ela fosse eu corria atrás. Lugar que eu fosse que ela não fosse, ela corria atrás, gritando meu nome que era pra eu não me perder dela, pra ela não perder o presente do céu, achado no lixo, o presente do céu. Ela não me enxergando ela gritava meu nome. Igual naquele dia da chuva. Naquele dia ela gritou meu nome, ela gritando, chamando e eu correndo pra junto dela. A chuva crescendo, a chuva medonha, prendendo a gente na casa. A gente sem ter pra onde ir. A gente ficando na casa e a casa indo embora: as paredes, as portas, as telhas. A gente vendo aquilo indo embora, a gente querendo ficar, a gente sem ter pra onde ir, o fim chegando. O mundo se acabando e o fim chegando. Então ela ouviu os vizinhos gritando, os vizinhos do primeiro andar mandando ela pegar a corda, gritando. Ela amarrou a corda na cintura, a casa caindo e ela amarrando a corda na cintura. A casa rachou, o chão foi embora, eu indo embora com o chão quando ela me pegou. Os vizinhos do primeiro andar mandando ela pular que eles puxariam a corda e ela pulou. A gente afundou e veio barro na minha boca e nos olhos, veio barro no nariz. A minha agonia de me livrar do barro, a minha agonia eu nem percebi, eu nem percebi e mordi ela. Ela ficou com o braço doído, um braço de segurar a corda e um braço de me segurar, um braço dela fraco, um braço me soltando, a água me levando.

© Helder Herik
Maira Gall