GÊMEOS

Pintura: Paul Cezanne


Infanticídio, monstruosidade, anomalia? Nada disso. Pra que esteja a entender é preciso que esteja a pensar como eles. Ouvi do tradutor, ele falando, gesticulando e falando. Uns que estavam mais de lado, mais para o canto, pediram ao tradutor que omitisse as idiossincrasias. Falasse da cultura, dos banhos de rio, as pinturas no corpo e dança da chuva. Daí a diante tudo voltou ao normal. O normal era seguirmos o guia pela mata adentro, suportando o calor esbaforido, escorregando, tropeçando, caindo. Se ficarem a segurar nos cipós verão que não caem, disse o guia. Verão que se sustentam. No entanto, não ficamos a segurar nos cipós, causa de muito parecidos a cobras que eram. Causa de muita cisma nossa para isso. Caminhávamos. Chegaríamos à tribo dos Suruuarrás, veríamos índios selvagens, índios primitivos, índios sem havaianas nos pés ou blusas de deputados. Índios que ainda eram índios: a cabeleira boa, preta, sem dobras, nem engelhos, os seios caídos; das índias. Verdadeiros seios naturais. Seios da mata. Aquele riso fácil, a timidez em si aproximar. Verdadeiro acanhamento, o acanhamento da mata, dos índios-indígenas , os Suruuarrás. Veríamos tudo igual ao passado na televisão, tudo no igualzinho ao que os Villas-Bôas apresentavam. Os documentários dos Villas-Bôas. Os Villas-Bôas eram: o Orlando, o Cláudio e o Leonardo. O Leonardo foi o que morreu cedo, nem chegou a cabelo branco, nem a rugas, osteoporose. O tradutor havia contado... Tradutor ou guia aquela criatura? Pequeno que ele era eu sei, eu lembro. Tamanho dele era tamanho das avós do interior. As avós do sítio, trabalhando de criança, enfadando a ossatura, atrofiando. Pequeno e amorenado que ele era eu lembro, tenho na vista aquela pequenez. Que disse ele também eu lembro. A gente, os mais curiosos, chegando perto dele, pedindo pra que contasse mais. E ele contava. Contava que os índios da tribo dos Suruuarrás não consentia que vivessem índios com doenças de retardos e aleijos. Gêmeos jamais podiam viver. Os gêmeos eram os mais desgraçados, a causa que era na crença do espírito ruim viver nos ossos de um deles, um gêmeo infestado de pus e espírito ruim nos ossos. Quando o guia falou retardos e aleijos a turma olhou pras máquinas, meio que desligando, tirando o flash, o zoom, meio que aceitaram, meio que assim: a vida na floresta é cheia de testes, provações, corrida de onça a pessoa podia levar e tinha que ter o corpo na plena saúde, pra correr e trepa em árvores, que a bem da verdade a vida ali assim exigia. Acho que eles lá entenderam, vá lá que entenderam. Porém, quando a fala foi pros gêmeos o povo lá meio que olhou de lado, meio que tinham pingo de nojo na língua, as ventas franziram, sabe a venta franzir, inquirindo nojo? O pensamento meu devia ser igual ao pensamento dos outros, aos que estavam comigo, a franzir a venta. O pensamento meu era que gêmeos compunham uma benção. Uma benção só de glória-aleluia-amém. A gêmeos não devia se fazer isso, essa coisa de matar. O próprio pai a matar e a enterrar a criatura, o filho, sem um pecado concebido. Só matavam um. Um só é que era morto-enterrado. O guia explicava, a quem estivesse mais próximo o guia explicava. Quem é que aceita, ninguém aceita, mulher ouve isso e não dorme, mulher se perturba, mulher é mais humana, aquele jeito fraco e humano delas. Eu conto, é meu trabalho. Se não contar é o trabalho mal feito, entendem? Mal feito, pela metade é que eu não deixo. Agora, olhando de longe, olhando meio não-humano, é de compreender, de aceitar eu já não digo, mas de compreender, sim, de entender não. Na crença deles, na cultura dos índios Suruuarrás, um filho deve nascer de cada barriga. Um só filho nascendo de uma barriga, esse filho será criatura do bem ou criatura do mal, o pai e a mãe, eles vão criando, mostrando o certo ao filho, o errado, educando, polindo, tudo certo, tudo bem. Tudo preto no branco. Agora é nascendo dois índios que a coisa mais se complica. Dois índios: um a ficar com o espírito só do bem e o outro a ficar, o outro ficando, só com o espírito do mal. Na cabeça dos índios Suruuarrás dois índios não podem nascer de uma mesma barriga e ficarem vivos, e ficarem a crescer. Veja Kawari. Kawari é uma índia apequenada. Kawari pegou barriga; uma barrigona que nem a deixava andar. Os outros índios já vinham olhando ela de lado, o canto do olho apontando. Kawari deu a luz a cinco indiozinhos e dos cinco só um é que se salvou. O pai enterrou os outros quatro, chegou na mata, enterrou. Kawari vive reclusa, enfurnada na oca. Entrevou, contraiu demência. Uns dizem que foi da barriga pegar tanta cria, já outros já dizem que mãe nenhuma se cura de saber dos filhos enterrados. Do pai enterrar os filhos. Contam os mais antigos que numa das gerações passadas a tribo aceitou um apelo dos pais, o apelo que deixassem vivos os gêmeos, que nenhum mal aconteceria. Discutiram lá e deixaram, queriam mesmo vê e deixaram. Uma criança era mais quieta, comia menos e obedecia mais. A outra era o contrário, era avesso. Daí então eles cresceram, eles foram aumentando, crescendo e uma manhã, os índios da tribo dos Suruuarrás deram falta daquela família, correram na oca e na oca eles não estavam. Alarmaram-se, entraram na selva, nas profundas da selva e acharam o filho avesso, aquele filho oblíquo, todo banhado no sangue e desorientado, como desorientado deve ficar quem mata a família, quem tem a família aos pés. O guia ainda contou que a índia Kawari, antes de entrevar, andava farejando na floresta, querendo desenterrar os filhos, querendo os por de novo na barriga, onde podiam viver. Onde viveriam. Porque só assim é que era possível, só assim é que era capaz. Chegamos na tribo dos Suruuarrás, pintaram a gente, dançaram com a gente, ensinaram fazer mingau e beiju e ensinaram palavras na língua deles, a língua enrolada deles e rimos com a mão na boca, a forma que era deles rirem e rimos todos na mesma língua.
De uma ponta o guia estava a me apontar com os olhos uma oca, lá dentro, ao que ficou a parecer, havia uma sombra, apequenada, entrevada.

Inveja da Lagartixa

Pintura: Paul Cezanne

Reparo comigo e vejo que tenho inveja da lagartixa. Dela subir a parede, dela ir além da janela, além do teto, dela sumir no mundo e eu ficar. Os pés no chão, o corpo sobre os pés. Fincados. Subir a parede é a forma que a lagartixa achou de voar. Nem é de querer ser uma lagartixa, a inveja que tenho. Que inveja é querer ser, inveja é querer ter. Inveja é ficar mastigando borracha. A inveja é de querer sair por aí, pelas paredes, os muros, os telhados. Invejo é não ter que subir degraus. A chatice de subir degraus, sabe como é? A chatice toda deles se encurtarem quando fazem uma curva. A gente subindo e eles curvando, eles encurtando. O pé da gente nem cabe, já reparou, já viu? O pé da gente nem cabe e subimos de ponta de pé, de ponta de pé como quem vai assustar alguém, roubar alguém. Uma mola. A gente subindo os degraus, a gente rodando e subindo parece mais uma mola, os degraus se a gente reparar, o clínico do olho reparando, o olho sanitário verá que os degraus, assim: rodando, são uma mola. Lagartixa pega costume de morar dentro de casa, atrás do guarda-roupa, atrás dos quadros: o quadro de Cristo, o quadro de Chaplin. Lagartixa pega costume de morar no medidor de energia. Entra lá de pequena, fica a comer mosquitos, a comer formigas, a comer as moscas e as aranhas. Depois engorda e o corpo balofo não passa mais pela fresta. Então com o tempo ela morre, não é verdade? Não há quem aguente viver só num buraco. Nem gente, nem criatura. Ambos estão sempre a querer sair do buraco. Lembra da cantiga: o buraco é fundo, acabou-se o mundo. Bem antiga, não é? Lembrou? Já vi lagartixas se alimentarem, elas comerem. Comiam farelos e miolos de pão. Miolos de ratos elas também comiam. Os ratos pegos na ratoeira, os miolinhos deles saltados da cabeça. Os miolinhos deles no chão e as lagartixas a comerem e lamberem o chão. Também ficavam a comer as fórmicas. A gente da casa deslocando um móvel a pintar a parede, e as lagartixas correndo, espantadas com a desapropriação. A gente constatando o rombo na fórmica. Comprava-se veneno, quero vê agora se não morrem! Eu derramava tudo. Despejava na pia, vaso sanitário, jardim. Queria as lagartixas por perto, queria-as em casa. Elas pelas paredes. Havia casos das lagartixas comerem formigas. Fórmicas primeiro, depois as formigas. As pobres das formigas ficavam a subir a parede e a lagartixa esticava a língua, puf, pegava. Chupava um pouco, como se estivesse com uma bala  a embolar na língua e depois engolia.

© Helder Herik
Maira Gall