quinta-feira, 15 de novembro de 2012

semente 2


Homem nenhum jamais saberá as dores do parto. O doloroso parir, jamais saberá. O mexido das entranhas a fabricar menino. As forças internas, trabalhando, moldando. Forjando. Disso tudo homem nenhum saberá. Jamais soube. A gestante originando pernas e braços  para o progresso do Brasil. Entre outras mil... Agora o Brasil vai. De pequena que eu ouço. Vai que vai. O Brasil agora engrena. Agora é que a gente vai ser o país do futuro. O fruturo. És tu Brasil ô Pátria amada, idolatrada, salve, salve. Agora não tem pros gringos dos EUA, pros gringos da China; os olhos puxados, tudo igualzinho igualzinho, pros gringos da Índia, do México. A Rússia nem tá mais lá aquela coisa, os espiões, a KGB, uísque e tudo mais. Pois bem pois bem, não tem mais pra ninguém ninguém. Sabe uma represa? Ela cheia, ela já estourando, já esborrotando? Pois a represa é igual à barriga gestante. Mesma coisa. A gente guardando os pouquinhos da criança. Os pouquinhos da criança se juntando: barriga junta com pernas, pernas com dedos, dedos com unhas. Barriga junta com braços, braços com falanges. As falanges enraizando no corpo. As falanges: a fiação do corpo. Os ossos o concreto, os ossos a ferração, os ossos o radier. Ai a criança se forma. A criança se forma e fica na porta da represa.

domingo, 11 de novembro de 2012

semente 1


Elefantíase. Quem visse diria isso. Dilatando as pupilas diria crise de reumatismo ou elefantíase. Era aquele pernão de tora que ela tinha. Pernão lá de elefante. A pessoa que era ela bem mais se arrastava que andava. Se arrastava de quem vinha da guerra, quem retirava da seca, a pessoa só o resto, só os noves fora, retirando. O peso da perna e o peso da barriga. Tomando a frente do corpo a barriga lá estava. A barriga toda avante. A pessoa sente a falta da barriga. Já ouvi dizer. A voz de mulher dizendo: a gente quer perder a barriga, os pneus, as massas adiposas, mas a barriga de filho nosso nem quer. Nunca quererar. Lá em nossa barriga é que ele está mais protegido né? Aqui dentro é que ele está mais guardado ne? A massinha de modela que é o filho nosso na barriga nossa a gente não quer perder. Ele guardadinho na barriga nossa, abrigado de vento e chuva e queda e arranhão... Ele aqui, dentro da pera. Já viu que a barriga da gente é a forma mesma de uma pera!? Não é, já viu? A pera com uma sementinha dentro. Pera, uva, maçã, salada mista... Se eu falo em pera eu lembro da música. Qualquer fruta da música eu lembro da própria música. Dessa vez a cara dela foi ficando manchada. Dia a dia, manchando. Ferrugem alastrando. Dessa vez dessa gravidez foi assim. Da outra vez, que tudo era novo, era como se não acontecesse nada, dessa vez é que ia acontecendo tudo: as pernas inchando, a cara manchando e os cabelos esfalriralipando, que é o cabelo ficando só em falripas, que é puindo-se, esgarçando-se. Pode ser porque da outra vez que ela teve menino ela era bem mais nova, bem mocinha que a gente tinha até pena dela ter menino, dela parir. Aquela dor toda, aquela rasgação toda. Só quem já deu a luz, quem já pariu sabe do que eu estou falando. 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

eu tomara ver


12.
Acha que é adulta, a mãe estava dizendo. Nem me ouve, nem ver. Acho que ela nem me ver. Vem cegando. De pequenina que ela cegava a mãe. A mãe às apalpadelas. Saía de casa, o cuidado que a porta não rangesse, a porta nem batesse. Entrava no elevador e descia pro parquinho. Aquele colorido todo, o sol gostoso, a liberdade. Liberdade ou independência, ela nem sabia, só sentia aquela vontade de rir de nada e de brincar depressa, antes que alguma coisa... antes que... e a vontade, e a força do corpo só queriam  brincar. A mãe lá em cima, chamando, gritando, fuçando os cantos. Até a tampa do vaso sanitário ela fuçou, coisa de mãe. Desespero. Sequestro, ela pensou, a desgraça de um sequestro, minha filhinha... Foi do escorrego que a menina gostou mais. Lá de cima ela abria os braços, sentia o vento, descia. Sua filha estava sozinha, a mãe ouvia o síndico esbravejar, um perigo, uma imprudência sem tamanho, sem pé nem cabeça, ela sozinha, só ela e seu ninguém... A mãe sentou a filha no sofá, falava e gesticulava e suava. A menina balançava as pernas, uma para cima, outra para baixo, a mãe falando e ela cegando.

domingo, 22 de julho de 2012

eu tomara ver


11.
A menina não dormira direita aquela noite. A Vó tossira, cuspira um sangue pastoso. Um aperreio. A menina que limpou o chão: jogou água, esfregou o sangue coalhado. Uns pedacinhos que se prendiam ao chão lhe exigiram mais força. Limpou. A Vó espanava com a mão, deixasse aquilo para depois, ela mesma limparia mais tarde. Cuspiria e limparia. Dava um tempo e a Vó adoecia. Tempinho de nada, ela adoecia. A menina já vivia com uma gastura no pensamento, uma desconfiança. Era ela quem lavava a roupa.  Chegava no rio, acocorava e lavava. A Vó não pegava mais em água, adoecia. Nem carregava lenha, nem espantava os urubus com carreiras e pedras no lombo. A menina passava e os urubus olhavam, lambiam os bicos e olhavam. Aí agora era a Vó que tinha uma gastura, desconfiança de um bicho daqueles voar na menina, cravar no pescoço. A Vó e a menina dormiam na mesma cama. Uma para cima, outra para baixo. A menina para baixo, no canto da parede para não cair, se estourar de uma queda. Dormia no canto da parede. Às vezes batia a testa quando sonhava agitado. Nessas noites era a Vó que não dormia, medo de a testa da menina abrir e o sangue escapar da cabeça.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

eu tomara ver


10.
De agora em diante o que eu serei? Ela perguntava a mãe. As sobrancelhas arqueadas e um amargo nos lábios. Que serei? Agora ela disse desafiante. Não era a mãe que tinha todas as respostas? Estude, a mãe disse, estude e você saberá. A mãe sempre dizia, sempre mandava, até pelas costas a mãe dizia: estude, estude. Ela entrava no google, buscava, buscava... Às vezes ela imprimia, aumentava a letra e imprimia. Às vezes lia na tela mesmo, aumentava a letra e lia. Preenchia o questionário, o site somava respostas, o site concluía: aptidão para as artes, filosofia, sociologia, lidar com humanos, comunicar, atender... Eram os testes vocacionais. Humanos, ora essa, humanos. Argh. Dava-se melhor com máquinas, tecnologias, spans. A mãe chegava, ouvia as lamurias, dizia que ainda havia tempo pra pensar, decidir o que seria da vida, era jovem. Jovens são assim, essa coisa toda assim: sem jeito, faminta por nada. Até gostava da filha buscando o que seria da vida, que faria. Queria mesmo era que a filha fosse alguma coisa agora. Sendo agora na certa seria depois. Ela, a filha, vivia buscando o depois. O agora ficava para depois.

terça-feira, 3 de julho de 2012

eu tomara ver


9
Ficou olhando o formigueiro. O caminho de formiga e o formigueiro. Tempão olhando. A vista já doendo e ela teimando, gasturando os olhos. Acontecia de uma formiga se desgarrar, perder o fio do caminho. Então ela parava, esperava. A menina achou que a pobre estivesse farejando. Virando pra um lado e outro, farejando. Parece um cachorrinho, ela pensou. Só o que falta mesmo é um rabo. Pegou um gravetinho e botou na frente da formiga. Ela farejou, balançou com as antenas e deu um tempo, pensando, escolhendo o que fazer. Uma patinha encostou no graveto, examinou a firmeza, ainda farejou um pouco, restinho de cisma, e subiu. A menina levantou o graveto, trouxe para junto dos olhos. A formiga cresceu demais, embaçou a vista. Foi preciso afastar um pouco até a imagem tomar nitidez. Coisa assim a Vó deveria ver. Com certeza ela queria ver, enxergar de perto, fechando mais um olho que outro, pra ver melhor. Vou criar, a senhora deixa, a senhora permite Voinha? Se quisesse muito era Voinha o nome da Vó. Come pouquinho, farelos, grãos, coisinhas de nada. A menina pegava um cubinho de açúcar, deitava no chão. A formiga farejava o doce, mordiscava.

terça-feira, 26 de junho de 2012

eu tomara ver


8
Que tédio, ela disse. Nada acontece, ninguém chega e ninguém morre. Ficou um tempo sem pensar nada. Um tempo suspenso, só dela. Daí a pouco a ficha caiu. Plim. Caiu. Quem é que não morreria, nem chegaria, nem morreria? E agora ela teve um pouco de vergonha, lasquinha de nada, porque lastimar que ninguém morria era certo indignar qualquer criatura. Ela se reprovou um pouco. Quem é que morreria era uma bobagem. Por certo que era. Juízo menina, tapinhas na boca, juízo. Olhou pro iphone, o net, o televisor. Tudo descarregado, sem área, sem energia. Que tédio. Ficar só a luz do sol era um tédio. Ninguém não chega nunca. Os dedos inquietos, vibrando para tuitar. #ninguémNãoChegaNunca, seria a frase descolada, o tweet. E se tivesse chegado algum e-mail importante? Havia essa preocupação. Nem lhe passava pela cabeça que ninguém lhe mandava e-mail. Ninguém que fosse humano. Homo Sapiens-sapiens. Só havia os e-mails de lojas: Submarino, Americanas, Ponto Frio, Magazine Luiza, Wal-Mart... E se perdesse alguma promoção? Agora nem era mais o tédio que lhe tomava, era uma estaca de aflição entrando no corpo. #voltaEnergia.  

terça-feira, 19 de junho de 2012

eu tomara ver


7
Estava para começar as aulas. Caderno, borracha e lápis. A menina colocaria aquilo num bizaco plástico. A logomarca do supermercado estampada, as alças novinhas de bolsa que ainda não levara peso. Você me arranjaria mais uma dessas, por favor. Ela ouviu a Vó pedindo. Ela ainda nem saberia para que era a bolsa plástica. Se a Vó não lhe entregasse ela nem saberia. A Vó tinha uns mistérios que só de quando em quando é que se revelavam. Então a menina ganhou uma bolsa e ainda outra coisa. Tem outra coisa! Era a Vó fazendo arrodeios. Outra coisa pra minha filha ficar bonita, adivinha! A menina olhava pra Vó, soletrava os olhos d’água, a boca fina, esticada, e nada de conseguir adivinhar. Ou não adivinhava ou não queria adivinhar coisa errada, esperar uma coisa e ser outra, magoar-se ou magoar a Vó. Sei o que é não Vó, sei não, o que é? Daí a Vó chegou ao guarda-roupa, fuçou no escuro, tirou uma caixa, abriu. Uma alpercata igual minha filha queria, lembra que minha filha queria? A menina lembrava. Ficou boa no tamanho, ela disse, o tamanho certinho! E o tamanho certinho era com um dedo de sobra, um dedo para frente, que era o tanto que a menina cresceria aquele ano.

terça-feira, 12 de junho de 2012

eu tomara ver


6
Fazia as unhas: o esmalte vermelho no pincel, o algodão no palito limpando os excessos, um dedo distante do outro; secando. O cheiro a entontecia. O mundo girava e ela deitava na cama, no sofá, tapete, o que aparecesse. Disse a mãe: fico entontecida, em tempo de cair, abrir a cabeça, espalhar os miolos. No outro dia a mãe chegava, deixava em cima da cama o presente, os esmaltes. Tinha da Magali, da Rosinha e da Mônica. De quem são? Ela perguntou. São de quem? Então a mãe ouviu. A mãe nunca ouvia direito quando ela falava na língua dela. Seus meu bem, a mãe respondeu. Ela quase ficou alegre. Aquele momento, antes de perguntar de quem era, ela quase ficou alegre, mas então ela já era mocinha, já era moça, pois sim, todo mundo era. Da Mônica mãe? Passei da fase. Aquela menininha lá, game over, tempão já. Então a mãe disse da maquiagem que ela usava: não é da Mônica? pera lá, ela disse, fala baixo, não espalha, olha o mico, olha só o Kong. Correu pro quarto, trancou-se, emburrou-se. Só a noite é que desemburrou: uma unha que tinha de azul, outra de verde. E azul e verde até acabarem as unhas. Ela na cama, entontecida. Desemburrada.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

eu tomara ver


5

Trazia lenha nos braços. Lascas de paus, restos de cercas, galhos secos, gravetos. Os braços esticados, as veias dilatando-se, o suor escorria no canto do olho. Dava uma vontade de coçar. Seria uma mão de obra derrubar a lenha, coçar o olho, depois juntar tudo nos braços finos, os braços: uns gravetos. Então ela piscava o olho. Piscava, piscava e a vontade passava. Passava ou amenizava, ela nem sabia mais. A lenha entraria no fogão de cimento. Ela mesma que faria o fogo. A Vó já havia ensinado. É uma menina inteligente, a Vó dizia, minha filha é muito inteligente. Perguntava-se como é que uma criatura parecia tanto com a mãe. Cara de uma, focinho da outra. Não é assim que o povo diz? O povo fala muito. Tem coisa que o povo nem vê e fala. Diz que viu, diz que vê. A menina rasgava jornais, tacava fogo, soprava na lenha e ouvia a Vó. Já era pratica em fazer fogo. Inteligente. A Vó era só admiração. Até quando pensava na morte, pensava na menina. Que se morresse a menina já tomaria conta da casa. No dia que eu bater as pernas você não esmoreça, bata no peito, viva. A menina jamais gostava da conversa da Vó. Pedia que falasse dela, no tempo dela menina, deixasse o tempo de morte, esquecesse. E enquanto a Vó lembrava o fogo pegava na lenha, a lenha chiava. Estalava. 

domingo, 20 de maio de 2012

eu tomara ver


4
As definições de vírus foram atualizadas. Ouviu e ignorou. Aquilo já havia se tornado mecânico. Era tipo: bença mãe, só por dizer, nem ouvia o Deus te abençoe. Deus te bendiga. Ela era assim: coisa que se desligava. Uma coisa entrava em foco, o resto do mundo se desfocava. A mãe que dizia. O resto vira resto, o resto vira borrão. Mas nem era assim. Isso tudo assim que a mãe falava. Mãe é um exagero. Todas as mães são. Uma só mãe não existe sem que não exista exagero, nos olhos, na língua, no coração. @nathy amanhã tem prova é? Argh. Pode consultar o livro? Deu fome e ela abriu uma lata de brigadeiro. Cavoucou com a unha e enrolou umas bolinhas com a palma da mão. Uma trabalheira. Uma sujemundície. Pra quê é que você tem cabeça menina. Pegou uma colher de chá e acabou a lata. Ainda na geladeira pode haver alguma coisa, disse, sempre dizia pra si alguma coisa confortante. Talvez isso, isso talvez, isso sim. Você não dorme direito porque está sempre comendo, a boca sempre mastigando, as mãos sempre levando algo a boca, a boca sempre engolindo, uma dia esse corpo vai estourar. A mãe que disse. O tratamento de choque que a mãe impunha. Lembra o que o médico falou? Ela nem respondia. Sabe muito bem que não é fome, sabe que é an.si. e. da. de, lembra? Ela nem lembrava, nem havia focado o médico. 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

eu tomara ver


3
A menina juntava os pedacinhos de sabão: amarelos, laranjados, verdes e azuis. A menina acocorada na beira do riacho, esfregando sabão nas roupas, esfregando a roupa contra os dedos, enxaguando, batendo a roupa contra o lajeiro, torcendo. Acontecia de passar o sabão na roupa e um dedo escapar, relar no lajeiro, sangrar. A menina mergulhava o dedo na água e a correnteza levava o sangue. A filepinha de sangue, cobrinha de sangue, de nada. A Vó ficava dentro de casa, entrevada. Ela e o escuro dentro da casa, serenando. A Vó abria a janela. A luz doía na vista. Os olhos fechados abriam-se devagar, acostumando se ao clarão. Lá em baixo, a vista da velha mirando, estava à menina, a neta. Coisinha de nada que ela era de longe. De perto sentia-se pena da coisa de nada que ela era. Piqueninha, magrinha que é só o osso. Dia desses a gente chega num doutor, pergunta, pega receita e minha filha cresce, minha filha encorpa, fica maior que eu, maior que a Vó. A menina chegava-se para a cerca de arame, estendia a roupa. Recuava um passo, outro. Vote 25321 Joca Laurindo dep. Federal. A boca da menina soletrando. O riso de quem sabia soletrar, de quem não sabia o soletrado.

sábado, 31 de março de 2012

eu tomara ver

2
O corpo na beirada. Desse um vento o corpo cairia. O corpo caindo, agora. Décimo andar: pernas e braços, esperneando. Os pés subindo, as mãos escalando. Tivesse uma corda ela escaparia. Nono, oitavo, sétimo andar: grito. Já um grito afogado, mas ainda grito. O que foi que eu fiz, ela pensava. Um instante de nada, ela pensou: fiz besteira, fiz besteira poxa. Sexto, quinto, quarto andar: encostou o queixo contra o peito. Teria aprendido numa aula de primeiros socorros. ...É importante, em caso de queda, procurar encostar... Os alunos no pátio, o bombeiro falando. Ela ouvia e passava mensagens no iphone: @nathy se o bombeiro fosse bombado eu pegava fogo #ficadica. Dez minutos depois ela colocava o fone no ouvido. O cara falou umas coisas lá, tipo que a pessoa... nem lembro mãe, um saco. Disse no carro. Terceiro, segundo andar: fecha os olhos, faz careta, prende a respiração. Primeiro andar: espera o impacto. O corpo subirá dois centímetros, mas quem assistir não perceberá. Ossos se quebrarão, ninguém os ouvirá. Só aquele barulho de corpo se estatelando no chão, forrando-o de carne, sangue e vísceras, é que ouvirão. Andar térreo: o impacto... Dressa abre os olhos. Vai à cozinha, abre a geladeira, bebe água. Porcaria de sonho. De novo. 

terça-feira, 27 de março de 2012

eu tomara ver

1
Urubu ficou olhando a Menina. A beira do olho dele: córnea, secreção e a menina. Ela dentro da pupila, a menina e o cristalino. Urubu se tivesse imã puxaria a menina pra ele. Ela já magrinha. A menina já no osso. Um gravetinho. A Vó dizia dela. Ela ria da Vó, tomava um copo de leite, limpava o bigodinho com a língua. Vermelhinha, a língua dela, bem vermelhinha. As bochechas bem vermelhinhas, a ponta do nariz, a palma da mão, a sola, a orelha... Contra o sol a orelha ficava um vermelhão. Se falam da gente a orelha avermelha, a orelha queima. Aprendeu com a Vó, quando a Vó falava. A Vó só perguntava, só ordenava, nunca a velha falava. Às vezes acontecia. Urubu ficou olhando a menina. Ele na estaca, pescoço fundo, bico longo, pescoço fundo, penas pretas, pescoço fundo, curvado. Ventava. Urubu fechava os olhos, livrando ciscos. Ventava. Urubu batia as asas, equilibrava. Ficava olhando a menina. Namorando. Se ela tombasse ele ainda esperaria uma semana. Respeito dele de que as carnes dela se acabassem. Era ele velando o corpo, se ela tombasse. Ela magrinha. Urubu voaria alto. O costume: voaria alto, rodaria lá em cima, desceria, o circulo que era ele descendo. As asas de avião. Limparia os ossos da menina, se ela tombasse.

domingo, 25 de março de 2012

crônica 4

Primeiro o vendedor alertou que o gato era especial, depois que sendo especial seria muito caro. Especial porque não precisará comer, mastigar ou engolir nada. Nem água ele não precisa, nada, disse o vendedor. Comprei o bichano, que sendo caro e não comendo, com o tempo acabaria me saindo barato. Depois de um mês o pelo do gato caiu. Ficou somente o couro muito grosso e, de quando em quando, uma filepinha de buço. Um mês à frente e já não tinha ele mais o nariz de gato, neste lugar havia agora uma tromba. Em certas horas a tromba soava. Primeiro só os pratos é que tremiam, depois a mesa, depois a cozinha, a casa. Tempo mais a frente e já não tinha o gato as patas, as garras e o rabo ficara muito pequeno para o corpo muito grande. O corpo enorme, as patas muito grosas. Passou a morar no quintal. Lá aconteceu de um rato lhe aparecer no meio do caminho e o que fizera ele foi afastasse para um canto do muro e lá ficando a tremer, o que fazia, conforme o seu peso, que as árvores do quintal ficassem também a tremer. Ainda acionou a tromba, como estratégia de defesa, mas esta não surtia efeito em rato. O rato lhe chegava mais perto porque mais perto do cocho ele estava. Nesse dia só o podemos chamar do que ele era, que já não era gato de nenhuma espécie, senão que era ele todo elefante.  De já ter ele o tamanho, as orelhas, as patas e a tromba.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Crônica 3

O pé de seriguela crescera em bifurcação. Parecia os braços de Cristo, abertos daquele jeito, estendidos para o quintal, dizia minha Avó, em seu lamento. O lamento que era o pé de seriguela ser cortado por meu Avô. O pé de seriguela invadia o quintal vizinho, derrubava folhas e frutos. Meu Avô juntou os galhos cortados num canto do muro. Ele muito velho, suava na camisa e na testa. Minha Avó só lamentava, dizia que eram os pedaços de Cristo. Uma judiaria. Daí a semanas os galhos começaram a florir. Eles no canto do muro, florindo. O verde claro de novas folhas formavam pequenos buquês. Era a ressurreição, mesma coisa de Cristo, disse minha Avó. A figura de meu Avô olhava, abria um sorriso, explicava que os galhos da seriguela continham muita água, mesmo cortando a água se represava e os galhos custavam morrer. Mas em nada disso a minha Avó acreditou. Minha Avó muito cética e muito crente de si. Em dedo que se corte unha não torna a crescer. Galho cortado, seca e morre, vira cerca e fogueira. Este que vemos ressuscitou.   

sábado, 10 de março de 2012

Crônica 2



Havia o pé de seriguela. O Avô que o tinha plantado. Fez a cova, jogou o caroço, encharcou d’água, limpou o mato que nascia ao redor e a árvore cresceu em bifurcação. De um lado os galhos invadiam o outro quintal. Ficava o vizinho a saborear as frutas e a esposa a varrer o empesto de folhas. Um dia a esposa pegou ar. Viera reclamar das folhas caindo. As que ali caiam e as que o vento levava. Os olhos pequenos, a boca pequena, os dentes retos. Apontava para a árvore: varrer folhas, apanhar folhas, jogar folhas. Estou com a coluna que não me aguento... O certo é certo, disse meu Avô, cortando a bifurcação do pé de seriguela. Pela hora do almoço o esposo esculachara com a mulher. Abria os braços no vazio, pousava os braços na cintura. E agora mulher, e as frutinhas? O homem chegou-se para meu Avô, fez cerimônia e pediu umas seriguelas. Cavou uma carreira de buracos e as plantara.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Crônica 1

O quintal sempre foi o lugar dos pés de frutas, galinhas, cachorros e quinquilharias. Uma delas era o vaso sanitário que rachara e pegara cor de ferrugem. Não lhe demos fim por vergonha de colocá-lo na frente da casa, na espera do caminhão da limpeza o levar. Medo de que levassem as bolsas de lixo e o deixassem, como a dizer: do lixo mais íntimo cuidem vocês, não vamos até aí. Também havia, é bem verdade, a ligação de carinho. Quantas foram às vezes que ali nos aliviávamos e ficávamos a pensar na vida: uma dívida que tínhamos de pagar, o compromisso para a noite ou um do dia seguinte. Ali também adquiria-se muita cultura, pois sempre nos serviu de espaço a leitura. Quem, entre nós, vai negar que nunca utilizou o trono de poltrona? Quem nunca o utilizou para isto na certa queimou uma etapa de nossa evolução. Pobre primata. Guardamos aquele vaso numa sombra do quintal e lhe plantamos uma roseira. Uma galinha que ali criávamos, como que tivesse instinto humano, subia no vaso, rodava em seus extremos (como que fazendo cerimônia) e defecava generosamente. Não limpávamos aquilo. Ficava a servir a roseira de adubo. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Foi-se-embora

Foto: Lina Marano

“Ele subiu aos céus, está em casa com os seus da família.” Assim é que me passaram do final do filme: do ET ir-se-embora. Fiquei em dias de emburrado com isso. Que muito bem um daqueles ETs podia me visitar e vir morar comigo. Muito eu queria que um viesse. Havia beliche no quarto, havia frios na geladeira e os quentes fumaçavam nas panelas. Havia cobertores, banheiro — se fosse ele fazer uso — quintal e árvores em tempo de frutas.

Mas o ET foi-se-embora. O muito pouco que precisou, que foi apenas subir na bicicleta e partir. Nem houve nave, nem raio, nem estrondo. De precisar precisou somente uma bicicleta e uma lua cheia. E foi-se-embora.

Como não queria eu que se-me-viesse morar o ET logo fosse-embora, furaria os pneus de sua bicicleta, partiria a corrente das coroas e o aço dos freios. E se isto parecesse um mal a mim é que pareceria um bem. Pois não me caía à idéia do ET ficar a voltar para casa. Que sabia eu era que casa nenhuma existia no céu, de todas as casas plantadas no chão que eram as que existiam. Quando é que volta o ET? Eu que perguntava. “Não mais ele pode, foi para o céu. Lá é que ele fica a morar, já te falei.” E assim me diziam, a tranqüilidade de assim me dizerem “foi para o céu...” E nem lhes passava pela cabeça que o ir para o céu era o morrer, como todos que estavam lá no céu, estavam por aqui todos eles mortos.  

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Mal e Bem

Foto: Laura Corrêa


Ocorre de a cultura suruuarrás logo resolver as artimanhas do mal. Isto se dando num exercício de que o vendo depressa o corta pela raiz. Acontece aos suruuarrás que se lhes nascem duas crianças de uma mesma barriga, e em mesma hora, uma delas haverá de ser dada em sacrifício.

Toma o pai a criança aos braços e entra, as profundas da floresta (de onde som humano não o chegue e nem de lá, se emitido, chegue donde saíra) e desfere o fim da criança, que pode ser enterrada, ainda que viva (a chorar), ainda que a mãozinha fique a segurar num dos dedos dos pai ou todo o corpo seu fique a espernear com o bolo de terra que lhe vem cair todo em cima ou pode ser de que o pai lhe venha a quebrar a espinha no osso de sua coxa ou simplesmente, e esta sendo a forma, não digamos ‘aceita’, mas a que mais tenha entrado em pratica, que é a do pai ir-se-embora, ficando o filho a própria sorte que é a um deus-dará. E a sorte  a lhe chegar, bem nos afigure, é a da morte: de uma onça em dias sem comer e do couro a entrar nas costelas ou de outro bicho com mais ou menos fome ou é ainda a morte pela chuva que chega a tapar os buracos da venta ou é a morte da sua própria fome ou do frio próprio das crianças sentirem. Estas últimas no que ficam a ser as mais demoradas ficam a ser também as mais sofridas. E ainda havemos de saber da morte por formigas ou cobras ou escorpião, bichos assim: que o piquem ou o ferroe.

E não fiquemos a pensar, como parece que já vinha nos ocorrendo, que o pai nem tenha sofrimento nesta prática. Tem-no. E muito. Mas o que este pobre esteve a fazer fora tudo ao seu contragosto, fazendo não o desejo de si, mas a vontade da sua tribo e sua cultura milenar. Não sendo o caso de seu filho o primeiro, nem o último na entrega de sacrifício.

Muito teria a se falar sobre as dores da mãe, que aqui sabemos serem as dores dela maiores que a do parto. Mãe esta que pela mesma cultura nada pode fazer, senão obedecer, lavando a criança em seu derradeiro banho que fora de água e lágrimas. Fiquemos só em dois casos, não nos judiemos muito. Que um é que a mãe, em saber que lhe está a sair uma criança e depois outra criança vindo atrás, trancar o útero e outras partes gestantes que lhe ponham pra fora a criança. Esta sendo um caso e o outro sendo da mãe correr a mata, apurando bem as ventas para farejar e desenterrar o filho, no lamento do pequeno já estar morto.

Tudo isto porque a cultura suruuarrás crê na alma do bem e na alma do mal e nascidas duas crianças de uma mesma barriga, numa mesma hora, uma delas haverá de ser dada em sacrifício. Que o que acontece é que uma criança é do partido do mal e a outra do partido do bem, não ficando nenhuma delas a escolher o querer ser do mal ou do bem, ficando a ser uma só coisa de uma coisa só. Ruim sendo a criança do mal, que se não for dada em sacrifício, crescerá a semear desamor, matando depois o irmão, que todos o amam, e a ele, o filho do mal, todos o desprezam, matando depois os pais, que lhe poriam a culpa de assassino do irmão, e matando depois toda a tribo pela mesma acusação que lhe poriam de assassino dos pais, o que de fato o era, no que acabaria sendo se morto não fosse ele.    

domingo, 19 de fevereiro de 2012

DA LOUCURA COMO ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA

Que digo é que já fiquei a dar nó em lombrigas (as lombrigas a crescerem no estômago, a gente a lhes comer e nem sabermos. Assim era a minha conclusão: que não me passava que as lombrigas nascessem de um nada plantado na gente, senão que pela boca é que nos entrava) e até já fiquei a amarrá-las, as lombrigas, na cintura, a forma estável de um cinturão e só a essa forma é que ficavam, não adiantando querelas a forma de rodar na cintura, igual se fazia quando de um pedaço de mangueira untado e batizado em bambolê, como se era moda na meninice. Não servindo, assim então, em nada em presente pra namoro. E não estando as lombrigas mortas ficavam elas em querer se desatarem dos nós. Coisa que ficava a lembrar-me os dedos de minha avó no se desenleando do tricô. Que em tudo isso, se bem se olhasse as lombrigas, se perceberia o engenho dos nós a ficarem cegos. Nem bastava óleo, o tanto que fosse que se pusesse, que elas nem desgrudavam e em muitas horas mais pareciam elas a estarem em luta de cabo de guerra. Ainda alguém de perto, que a tudo assistia, lembrava que elas até pareciam cães engatados de coito, o que a mim pareceu que isto não parecia.

sábado, 21 de janeiro de 2012

OS GORILAS DE VIRUNGA

Gorila das montanhas de Virunga


dentro de alguma sala
            a luz acesa
            e repelente
há um Chimpanzé
a esticar o dedo
            e a apertar um botão

em Virunga
            em alguma árvore
a sombra e ao vento
                        há um Gorila
            a catar piolhos
no Gorila ao lado
            e a trepar em árvores
            e a dormir
            e a sonhar uma vida
sem mosquitos

em alguma sala
            branca e refrigerada
um Chimpanzé estica o braço
            toma injeções  
(eletrodos)
come hambúrguer
ver as horas
e coça a cabeça
(jamais coçará o sovaco)

em Virunga
a sombra e ao vento
            um Gorila está a receber
                                   um tiro
                        no peito
                        ou nas costas
                        na boca
                        ou no ouvido
(será bem tratado e comido
na fome africana)

em algum prédio
            muito ferro na parede
            escadas e maçanetas
            vidros e monitores
um homem descasca
uma banana prum Chimpanzé
            desce-o da cadeira
                        leva-o ao banheiro
e some com suas fezes

em Virunga
            entre a República Democrática do Congo
                                   entre Ruanda e Uganda
um filhote Gorila
fica a descer de uma árvore
            a cheirar o couro tostado da mãe
            a juntar os ossos num canto
            e a procurar a cabeça
que estará em alguma Vila
(alguma sopa)

em alguma fronteira de Virunga
um homem que dormirá
                        a noite
            e acordará todos
                        os dias
colocará o filho no braço
            e o levará a escola
            ou posto médico
este homem
            desempregado
            morador de aluguel
receberá quarenta mil dólares
                        por um filhote Gorila.

                                                           2008

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

PAI E FILHO

Pintura: Paul Cezanne

O olhar sério, o braço erguido, apontando a oficina. “Quero te mostrar uma coisa, poderia ter mostrado antes, mas você não entenderia.” A certeza de que o filho não entenderia o fez sorrir num canto da boca. Estava certo que a idade chegava, estava a lhe fazer sábio. Pôs a mão no ombro do filho, ave ainda sem penugem, e caminharam até oficina. A mão no ombro, a guiar e a dosar a caminhada, a mão no ombro a dizer que eram amigos, estavam próximos (...) Foi preciso usar lubrificante no cadeado. “Está quase abrindo, quase pronto.” Calculou mal a força e a porta abrira num estampido. Receou que o filho o achasse imprudente, inábil. E não era isso, um homem que só vivia entre petições e ofícios, um homem enfurnado em cartórios e, quando fora deles, vivia sempre a pedir favores ou a pagar por tarefas banais, trocar a resistência, o botijão, o papel de parede. Um inábil, o que era. “Entre,” ele disse. E aquele “entre” serviria também para mostrar quem é que estava no comando, que o estampido da porta e o que viesse estava dentro da normalidade (...) Olhou demorado pro filho. O olhar demorado a lembrar que o seu pai fazia o mesmo, um olhar que fuzilava, repreendia. Olhava o filho e frustrava-se. Que possuía o seu pai com o olhar que ele não possuía? O menino é que era desligado. A calça rasgada não era um desleixo, o cabelo despenteado, o tênis sujo, que era aquele tudo? Um desleixo, pois sim que era. “Guarde isso e entre”, ele disse, agora mais veemente. O filho quis dizer alguma coisa. Sempre querem dizer alguma coisa, estão sempre se segurando. A boca aberta, como que iria dizer. Não disse nada, entrou. “Tudo aqui é muito velho.” O garoto concordou, a cabeça balançando. “Está bancada é mais velha que você e eu, juntos. Esse martelo aqui, deve ter a minha idade, o serrote...” O menino agora mal ouvia. A mão vacilando no bolso. “Guarde isso, já falei”. Ele quis falar, a boca aberta, falou: “mas”. O que disse foi, “mas”, e então o pai dissera “mas nada, mas coisa nenhuma”. “É importante”. “Importante nada”. “Criaram um fake, é caso de vida ou morte”. “Besteira”. “#Hackearamminhaconta”.  “Agora escute”. “Mudaram a senha”. “Agora veja aqui”. “Vão me deletar”. “Uma beleza, não é? Seu Avô que o fez, entalhou todo em madeira de imburana, trabalhou seis dias, no sétimo ele descansou.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Literatura como combustível

Os escritores Helder Herik, Nivaldo Tenório e Mário Rodrigues, três amigos de Garanhuns, criaram a editora u-Carbureto, que publica livros, blog e fanzine
Álvaro Filho
seualvaro@gmail.com
Capa do Caderno C do Jornal do Commercio (11/08/2011)
O carbureto é um composto químico bastante eclético, utilizado tanto na metalurgia pesada para soldar placas de aço, quanto no cotidiano das pessoas, seja para amadurecer mais rapidamente um cacho de bananas ou acender o lampião. Uma nova aplicação para ele foi desenvolvida no Agreste pernambucano, mais precisamente em Garanhuns. E por três professores que curiosamente não ensinam química, e sim literatura. Há cerca de um ano, o trio Mário Rodrigues, Helder Herik e Nivaldo Tenório criaram o selo editorial u-Carbureto, uma iniciativa ousada, considerando a equação literatura + interior de Pernambuco, que já resultou em um livro e hoje dá a luz a outro. Luz à base de carbureto.
O lançamento em questão é A curva secreta da linha reta, de Mário Rodrigues. Ele sucede a As plantas crescem latindo, de Helder Herik e, mostrando que o carbureto é um bom combustível, até dezembro deve ser impresso Dias de febre na cabeça, de Nivaldo Tenório. Um segundo livro de Helder já está na fila, assim como outro de Mário. Uma demanda reprimida que esconde igualmente a ânsia em ser lido e o amor pela palavra impressa. Um sentimento reconhecido por eles como anacrônico, ao ponto de ser representado pelo “u” adicionado ao nome do selo com função ambígua de um artigo. “Mas que funciona também como um símbolo que rivaliza ao tecnológico @”, explica Mário.
O selo editorial u-Carbureto é na verdade uma evolução do fanzine de mesmo nome editado pelos três desde 2005, no qual os primeiros escritos em formas de poemas e contos ganharam as ruas de Garanhuns. A publicação bimestral, porém, perdeu a validade. “Percebemos que havíamos amadurecido e que estava na hora do livro. Mas em vez de fazermos isso isoladamente, decidimos trabalhar coletivamente. Daí transformamos o jornal numa espécie de editora”, conta o autor de A curva secreta da linha reta, que encara hoje à noite a emoção, inesquecível para um escritor, da primeira noite de autógrafos.
Porém, quem é do ramo sabe que publicar um livro, salvo para alguns escritores, é um trabalho de parto a fórceps. A logística editorial do u-Carbureto não é diferente e envolve a impressão dos originais em São Paulo, numa gráfica que fica responsável pela obtenção do ISBN (do inglês International Standard Book Number), código de barras estampado na contracapa que serve para identificar a publicação em qualquer lugar do mundo e, mais importante, permite que a mesma seja comercializada em livrarias.