OS GORILAS DE VIRUNGA

Gorila das montanhas de Virunga


dentro de alguma sala
            a luz acesa
            e repelente
há um Chimpanzé
a esticar o dedo
            e a apertar um botão

em Virunga
            em alguma árvore
a sombra e ao vento
                        há um Gorila
            a catar piolhos
no Gorila ao lado
            e a trepar em árvores
            e a dormir
            e a sonhar uma vida
sem mosquitos

em alguma sala
            branca e refrigerada
um Chimpanzé estica o braço
            toma injeções  
(eletrodos)
come hambúrguer
ver as horas
e coça a cabeça
(jamais coçará o sovaco)

em Virunga
a sombra e ao vento
            um Gorila está a receber
                                   um tiro
                        no peito
                        ou nas costas
                        na boca
                        ou no ouvido
(será bem tratado e comido
na fome africana)

em algum prédio
            muito ferro na parede
            escadas e maçanetas
            vidros e monitores
um homem descasca
uma banana prum Chimpanzé
            desce-o da cadeira
                        leva-o ao banheiro
e some com suas fezes

em Virunga
            entre a República Democrática do Congo
                                   entre Ruanda e Uganda
um filhote Gorila
fica a descer de uma árvore
            a cheirar o couro tostado da mãe
            a juntar os ossos num canto
            e a procurar a cabeça
que estará em alguma Vila
(alguma sopa)

em alguma fronteira de Virunga
um homem que dormirá
                        a noite
            e acordará todos
                        os dias
colocará o filho no braço
            e o levará a escola
            ou posto médico
este homem
            desempregado
            morador de aluguel
receberá quarenta mil dólares
                        por um filhote Gorila.

                                                           2008

PAI E FILHO

Pintura: Paul Cezanne

O olhar sério, o braço erguido, apontando a oficina. “Quero te mostrar uma coisa, poderia ter mostrado antes, mas você não entenderia.” A certeza de que o filho não entenderia o fez sorrir num canto da boca. Estava certo que a idade chegava, estava a lhe fazer sábio. Pôs a mão no ombro do filho, ave ainda sem penugem, e caminharam até oficina. A mão no ombro, a guiar e a dosar a caminhada, a mão no ombro a dizer que eram amigos, estavam próximos (...) Foi preciso usar lubrificante no cadeado. “Está quase abrindo, quase pronto.” Calculou mal a força e a porta abrira num estampido. Receou que o filho o achasse imprudente, inábil. E não era isso, um homem que só vivia entre petições e ofícios, um homem enfurnado em cartórios e, quando fora deles, vivia sempre a pedir favores ou a pagar por tarefas banais, trocar a resistência, o botijão, o papel de parede. Um inábil, o que era. “Entre,” ele disse. E aquele “entre” serviria também para mostrar quem é que estava no comando, que o estampido da porta e o que viesse estava dentro da normalidade (...) Olhou demorado pro filho. O olhar demorado a lembrar que o seu pai fazia o mesmo, um olhar que fuzilava, repreendia. Olhava o filho e frustrava-se. Que possuía o seu pai com o olhar que ele não possuía? O menino é que era desligado. A calça rasgada não era um desleixo, o cabelo despenteado, o tênis sujo, que era aquele tudo? Um desleixo, pois sim que era. “Guarde isso e entre”, ele disse, agora mais veemente. O filho quis dizer alguma coisa. Sempre querem dizer alguma coisa, estão sempre se segurando. A boca aberta, como que iria dizer. Não disse nada, entrou. “Tudo aqui é muito velho.” O garoto concordou, a cabeça balançando. “Está bancada é mais velha que você e eu, juntos. Esse martelo aqui, deve ter a minha idade, o serrote...” O menino agora mal ouvia. A mão vacilando no bolso. “Guarde isso, já falei”. Ele quis falar, a boca aberta, falou: “mas”. O que disse foi, “mas”, e então o pai dissera “mas nada, mas coisa nenhuma”. “É importante”. “Importante nada”. “Criaram um fake, é caso de vida ou morte”. “Besteira”. “#Hackearamminhaconta”.  “Agora escute”. “Mudaram a senha”. “Agora veja aqui”. “Vão me deletar”. “Uma beleza, não é? Seu Avô que o fez, entalhou todo em madeira de imburana, trabalhou seis dias, no sétimo ele descansou.

Literatura como combustível

Os escritores Helder Herik, Nivaldo Tenório e Mário Rodrigues, três amigos de Garanhuns, criaram a editora u-Carbureto, que publica livros, blog e fanzine
Álvaro Filho
seualvaro@gmail.com
Capa do Caderno C do Jornal do Commercio (11/08/2011)
O carbureto é um composto químico bastante eclético, utilizado tanto na metalurgia pesada para soldar placas de aço, quanto no cotidiano das pessoas, seja para amadurecer mais rapidamente um cacho de bananas ou acender o lampião. Uma nova aplicação para ele foi desenvolvida no Agreste pernambucano, mais precisamente em Garanhuns. E por três professores que curiosamente não ensinam química, e sim literatura. Há cerca de um ano, o trio Mário Rodrigues, Helder Herik e Nivaldo Tenório criaram o selo editorial u-Carbureto, uma iniciativa ousada, considerando a equação literatura + interior de Pernambuco, que já resultou em um livro e hoje dá a luz a outro. Luz à base de carbureto.
O lançamento em questão é A curva secreta da linha reta, de Mário Rodrigues. Ele sucede a As plantas crescem latindo, de Helder Herik e, mostrando que o carbureto é um bom combustível, até dezembro deve ser impresso Dias de febre na cabeça, de Nivaldo Tenório. Um segundo livro de Helder já está na fila, assim como outro de Mário. Uma demanda reprimida que esconde igualmente a ânsia em ser lido e o amor pela palavra impressa. Um sentimento reconhecido por eles como anacrônico, ao ponto de ser representado pelo “u” adicionado ao nome do selo com função ambígua de um artigo. “Mas que funciona também como um símbolo que rivaliza ao tecnológico @”, explica Mário.
O selo editorial u-Carbureto é na verdade uma evolução do fanzine de mesmo nome editado pelos três desde 2005, no qual os primeiros escritos em formas de poemas e contos ganharam as ruas de Garanhuns. A publicação bimestral, porém, perdeu a validade. “Percebemos que havíamos amadurecido e que estava na hora do livro. Mas em vez de fazermos isso isoladamente, decidimos trabalhar coletivamente. Daí transformamos o jornal numa espécie de editora”, conta o autor de A curva secreta da linha reta, que encara hoje à noite a emoção, inesquecível para um escritor, da primeira noite de autógrafos.
Porém, quem é do ramo sabe que publicar um livro, salvo para alguns escritores, é um trabalho de parto a fórceps. A logística editorial do u-Carbureto não é diferente e envolve a impressão dos originais em São Paulo, numa gráfica que fica responsável pela obtenção do ISBN (do inglês International Standard Book Number), código de barras estampado na contracapa que serve para identificar a publicação em qualquer lugar do mundo e, mais importante, permite que a mesma seja comercializada em livrarias.

© Helder Herik
Maira Gall