eu tomara ver


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As definições de vírus foram atualizadas. Ouviu e ignorou. Aquilo já havia se tornado mecânico. Era tipo: bença mãe, só por dizer, nem ouvia o Deus te abençoe. Deus te bendiga. Ela era assim: coisa que se desligava. Uma coisa entrava em foco, o resto do mundo se desfocava. A mãe que dizia. O resto vira resto, o resto vira borrão. Mas nem era assim. Isso tudo assim que a mãe falava. Mãe é um exagero. Todas as mães são. Uma só mãe não existe sem que não exista exagero, nos olhos, na língua, no coração. @nathy amanhã tem prova é? Argh. Pode consultar o livro? Deu fome e ela abriu uma lata de brigadeiro. Cavoucou com a unha e enrolou umas bolinhas com a palma da mão. Uma trabalheira. Uma sujemundície. Pra quê é que você tem cabeça menina. Pegou uma colher de chá e acabou a lata. Ainda na geladeira pode haver alguma coisa, disse, sempre dizia pra si alguma coisa confortante. Talvez isso, isso talvez, isso sim. Você não dorme direito porque está sempre comendo, a boca sempre mastigando, as mãos sempre levando algo a boca, a boca sempre engolindo, uma dia esse corpo vai estourar. A mãe que disse. O tratamento de choque que a mãe impunha. Lembra o que o médico falou? Ela nem respondia. Sabe muito bem que não é fome, sabe que é an.si. e. da. de, lembra? Ela nem lembrava, nem havia focado o médico. 

eu tomara ver


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A menina juntava os pedacinhos de sabão: amarelos, laranjados, verdes e azuis. A menina acocorada na beira do riacho, esfregando sabão nas roupas, esfregando a roupa contra os dedos, enxaguando, batendo a roupa contra o lajeiro, torcendo. Acontecia de passar o sabão na roupa e um dedo escapar, relar no lajeiro, sangrar. A menina mergulhava o dedo na água e a correnteza levava o sangue. A filepinha de sangue, cobrinha de sangue, de nada. A Vó ficava dentro de casa, entrevada. Ela e o escuro dentro da casa, serenando. A Vó abria a janela. A luz doía na vista. Os olhos fechados abriam-se devagar, acostumando se ao clarão. Lá em baixo, a vista da velha mirando, estava à menina, a neta. Coisinha de nada que ela era de longe. De perto sentia-se pena da coisa de nada que ela era. Piqueninha, magrinha que é só o osso. Dia desses a gente chega num doutor, pergunta, pega receita e minha filha cresce, minha filha encorpa, fica maior que eu, maior que a Vó. A menina chegava-se para a cerca de arame, estendia a roupa. Recuava um passo, outro. Vote 25321 Joca Laurindo dep. Federal. A boca da menina soletrando. O riso de quem sabia soletrar, de quem não sabia o soletrado.

© Helder Herik
Maira Gall