quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Busia, no Quênia, fronteira com Uganda



Liz voltava para casa
quando homens a cercaram
entre árvores arbustos capins

no Quênia Distrito de Busia fronteira com Uganda Liz 16 anos voltava para casa após velar o avô

a deitaram
a esmurraram a ficar demente
e penetraram a seco
no que uns queriam pela frente
e outros por trás
e ao mesmo tempo um lá e outro cá
sangue da cara de Liz e do sexo
é que os incomodavam

no Quênia Distrito de Busia fronteira com Uganda Liz 16 anos voltava para casa após velar o avô quando seis homens a cercaram

o terceiro homem
impacientava por antes dele haver os dois
e o quarto e o quinto assim estavam
o sexto achou que aquilo já demorava a eternidade

anoiteceu
amanheceu

Liz

as sobras de Liz
numa vala

costelas quebradas
entulhando o corpo


(e a vida? e a vida o que é, diga lá, meu irmão)

em Busia
entre o vento e as grades
assovios e urros
homens despetalavam a flor de Liz

no Quênia Distrito de Busia fronteira com Uganda Liz 16 anos voltava para casa após velar o avô quando seis homens a cercaram e estupraram no dia seguinte três dos seis homens foram condenados a cortar a grama do posto policial de Tingolo e retornaram a suas casas aos outros três homens até agora nada se pode fazer por estarem escondidos

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Robô



Ela pedia
ele atendia

virava batedeira
vitrola sanduicheira
máquina de lavar passar costurar
virava rádio
televisão pra novela
telefone geladeira

Robô só uma coisa é que pedia
que ela trocasse o óleo
ao fim do dia

domingo, 17 de novembro de 2013

Bolha de sabão



o canudo
soprava a bolha de sabão

o sopro devagar para a bolha não estourar

no alto o vento soprando a bolha que nem um balão
a bolha indo (a bolha fondo)

a bolha caindo no mar
afundando
afundando

quando bem olhou
já era água-viva

domingo, 20 de outubro de 2013

Vila Najwal, Índia, fronteira com o Paquistão

















Quisera
o tiro pela culatra
tiro a marcha à ré
acionada

quisera
a bala analfabeta
bala que atirada
errasse a sua estrada  

quisera
o tiro em Paintball 
que sai a ferida
quando lavada

tiros que pegaram a parede
chega e ver
os poucos tiros errados no alvo-corpo
(o filho morto)

pudessem linha e agulha
costurar o furado-corpo
pudessem mercúrio e gaze
fechar o minado-corpo

e nem assim não é
se o que é findo
é acabado

conte na parede
o sangue respingado
sangue ou terço
no cimento incrustado

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A Casca








Havia uma ladeira no bairro
bem ladeirada e curvalada

veio o menino sem freio
putuf

putuf era além do estouro
putuf era o sangue expelindo

... a água lavava o sangue ...

ficou o feio da ferida

ficou a casca durinha
ruim de tirar
bom de coçar

ninguém viu ninguém veria
o menino a comer o taco da casca 

no amanhecendo daquele dia
a casca saiu andando 
igual um besouro

(o bicho de que já era)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Letrado


Letra na vida real
é mesmo é formiga

palavra na vida real
são formigas caminhando uma atrás da outra

frase na vida real
é uma multidão de formigas caminhando uma atrás da outra

vírgulas na vida real
são pedaços de formigas que ficaram pelo caminho

travessão é formiga em si virando ponte
em si virando cobra pra rastejo

livro se a gente acriançar o que enxerga
é o mesmo que formigueiro.   

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Seu Sapato


Seu Sapato cansou de andar...

ora essa se não cansaria
pra cima pra baixa
lama cimento buraco escadaria

um dia a vida doeu
e Seu Sapato cansou de andar...

abriu no dedão
na sola
no calcanhar

Aí aconteceu de Seu Sapato ser jogado no lixo
e Seu Sapato gostou de muito que já queria
que o lixo era o mesmo que as férias
mais que as férias
a aposentadoria...

aí Seu Sapato sapateou sapateou
inchou todo e ficou sapo cururu
bicho que ele já tinha cara igualzinha

e Seu Sapato
pulou na lama
cimento
buraco
escadaria

domingo, 18 de agosto de 2013

Coragem


O Soldado saiu debaixo daquela chuva de fim de mundo
todos até que viram, até que enxergaram
só ele teve a coragem de se meter naquela chuva

— Onde vai seu maluco?
— Salvar uma vida, Coronel!
— Qual vida, aquela?
— Sim, Coronel, aquela vidinha.

Lá foi o Soldado na chuva caindo e levantando escorregando e firmando

— Isso tudo pra salvar uma lesma, soldado?

— Podia ser uma filha minha, Coronel!

sábado, 17 de agosto de 2013

SOFRENDO BAIXAS


É de Akira Kurosawa uma das imagens mais impactantes que o cinema produziria em mim. Em seu filme ‘Sonhos’, temos um Oficial do exército japonês no caminho de volta para casa. Seria ele o único sobrevivente do 3º Pelotão de Fuzileiros. Pelotão este comandado por ele.

Não nos enganemos com o termo “sobrevivente”. Não como sinônimo de vitória, uma vez que o Oficial estaria vivo, voltando para casa, voltando para os seus...

Ser o único “Sobrevivente”, neste caso, é o mesmo que ser a única testemunha do fracasso. É carregar o peso e a vergonha de não ser um bom comandante, de não ser o bom estrategista, de dar a notícia aos que ficaram do falecimento do filho amado, do marido esperado, do pai que traria presentes, do herói da cidade pequena, tão desejosa por um festejo.

Na cena existe um túnel por onde o Oficial acabou de passar. Ele se detém um pouco por ouvir passos que também vem do túnel. Tudo escuro e só os passos se ouvem, até que surge um Soldado do 3º Pelotão de Fuzileiros. Estaria alegre o nosso Oficial, se não fosse pelo fato do Soldado está morto.

Morto sim, mas sem si dar contar da condição de defunto, de homem já findo.

O Soldado, então, presta continência ao Oficial-comandante, que, se já não bastasse sua condição de derrota, tem agora que convencer o Soldado que ele, na verdade, está morto e que deve voltar pelo túnel. Ele e todo o 3º Pelotão de Fuzileiros, que viria em seguida. Convencer que só ele, o Comandante, estaria vivo. Um vivo mortificado, bem é verdade.

Coisa parecida acontece com o escritor argentino Ricardo Piglia, ao dizer que sempre que um amigo morre “o pelotão sofre uma baixa”. O que também me faz lembrar do nosso poeta Thiago de Mello, já octogenário, no seu lamentar de estar enterrando os amigos, de ser um dos últimos “sobreviventes” de sua geração.

Ninguém que avance na idade passa imune a essas perdas, não é mesmo? Sou o mais novo de três irmãos. E seria o irmão do meio, se os gêmeos não tivessem morrido antes de completarem seis meses.


Entre os irmãos me inquieta a ideia de ser o primeiro a falecer e, sobretudo, a ideia de ser o único sobrevivente. Se eu serei o que volta do túnel ou o que manda voltar ao túnel.

domingo, 17 de março de 2013

Rezamento


4

A Menina juntava pedacinhos de sabão: amarelos, alaranjados, verdes, azuis.
Acocorada a beira do riacho, esfregava sabão nas roupas. Esfregava a roupa contra os dedos. Enxaguava.
Batia a roupa contra o lajeiro, torcia.
Acontecia de passar o sabão na roupa e um dedo escapar, relar no lajeiro, sangrar.
A Menina mergulhava o dedo na água e a correnteza levava o sangue. A filepinha de sangue, cobrinha de sangue, de nada.
A Vó ficava dentro de casa, entrevada. Ela e o escuro da casa. Acendia velas grossas e encomendava as almas doentes.
Com um tempo a Vó abria a janela. A luz doía na vista. Os olhos fechados abriam-se devagar, acostumando se ao clarão.
Lá em baixo, a vista da velha mirando, estava à Menina, a neta.
Pequenina, magrinha magrinha. Pele e osso, a Vó dizia. Dia desses a gente chega num doutor, pergunta, pega receita e minha filha cresce, minha filha encorpa, fica maior que eu, maior que a Vó e as almas.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Rezamento


3
Estava o corpo na beirada.
Desse um vento o corpo cairia. Desse uma brisa.
O corpo caindo, agora.
Décimo andar: pernas e braços, esperneando.
Tivesse uma corda ela escaparia. Uma corda que não estivesse no pescoço. Já tivera uma.
Nono, oitavo, sétimo andar: grito. Já um grito afogado, mas ainda grito.
Que foi que eu fiz, ela pensava. Um instante de nada, ela pensou: besteira, fiz besteira poxa.
Sexto, quinto, quarto andar: encostou o queixo contra o peito. Aprendeu numa aula de primeiros socorros. ...É importante, em caso de queda, procurar encostar...
Os alunos no pátio, o bombeiro falando. Ela ouvia e passava mensagens no iphone: @nathy se o bombeiro fosse bombado eu pegava fogo #ficadica.
Dez minutos depois ela colocava o fone no ouvido. O cara falou umas coisas lá, tipo que a pessoa... nem lembro mãe, um saco. Disse no carro.
Terceiro, segundo andar: fecha os olhos, faz careta, prende a respiração.
Primeiro andar: espera o impacto.
O corpo subirá dois centímetros, mas quem estiver assistindo não perceberá.
Ossos se quebrarão. Ninguém os ouvirá. Só aquele barulho de corpo se estatelando no chão, forrando-o de carne, sangue e vísceras, é que ouvirão.
Andar térreo: o impacto...
Ela abre os olhos. Vai à cozinha, abre a geladeira, bebe água, leite e refrigerante.
 Porcaria de sonho. De novo.  

sábado, 12 de janeiro de 2013

Rezamento


2
A Vó ficava a encomendar as almas moribundas. Num canto da casa havia um oratório que a velha espanava, acendia velas e encomendava.
A Vó era mais de silêncio. Não estivesse a encomendar era mais de silêncio.
Acontecia de às vezes perguntar coisas a Menina. Coisas sobre os cabelos, as unhas e as partes baixas.
Às vezes aconteciam conversas infindas. A Menina que puxava conversas. As tantas dúvidas, as tantas respostas da Vó.
Urubu na estaca olhava a Menina. Pescoço entrado, bico longo; curvado, pescoço fundo, penas pretas, pescoço fundo, curvado. Olhando.
Ventava. Urubu fechava os olhos livrando ciscos.
Ventava. Urubu batia as asas. Equilibrava-se.
Urubu mirava a Menina. Fosse de canto agourava-a.
Tão magrinha a menina. Se ela tombasse Urubu esperaria uma semana.
A carne apodrecendo, temperando.
Urubu velaria o corpo se ela tombasse.
Urubu voaria alto. O costume: voaria alto, rodaria lá em cima, nem bateria as assas; planando. Desceria. O círculo que era ele descendo. O espiral.
Urubu limparia os ossos da Menina, se ela tombasse. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Rezamento


1

Urubu ficou olhando a Menina.


Ela já magrinha. Gravetinho. A Vó dizia dela ser um gravetinho. Ela ria da Vó, tomava um copo de leite, limpava o bigodinho com a língua e ria da Vó.

O leite ela tomava devagar. Nem haveria mais, nem era sempre da Vó ganhar leite, ferver leite, acrescentar o caneco de água e ferver o leite.

Mágica. A menina achava mágica da Vó. Água virava leite, leite subia, fervia. Leite esfriava, ela tomava. Bebericos. Bigode de leite.

Afastava a nata. Soprava, igual a Vó ensinou, afastando. A nata era coisinha nojenta. O couro do leite, a Vó dizia. Ela queria não.

Vermelhinha. A língua dela, bem vermelhinha. As bochechas bem vermelhinhas, a ponta do nariz, a palma da mão, a sola, as orelhas...

A Vó pegava na orelha, dizia, se falam da gente a orelha avermelha. Orelha queima, capaz que inche. A Vó pegava a orelha da menina.