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Mostrando postagens de 2013

Busia, no Quênia, fronteira com Uganda

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Liz voltava para casa quando homens a cercaram entre árvores arbustos capins
no Quênia Distrito de Busia fronteira com Uganda Liz 16 anos voltava para casa após velar o avô
a deitaram a esmurraram a ficar demente e penetraram a seco no que uns queriam pela frente e outros por trás e ao mesmo tempo um lá e outro cá sangue da cara de Liz e do sexo é que os incomodavam
no Quênia Distrito de Busia fronteira com Uganda Liz 16 anos voltava para casa após velar o avô quando seis homens a cercaram
o terceiro homem impacientava por antes dele haver os dois e o quarto e o quinto assim estavam o sexto achou que aquilo já demorava a eternidade
anoiteceu amanheceu
Liz
as sobras de Liz numa vala
costelas quebradas entulhando o corpo

(e a vida? e a vida o que é, diga lá, meu irmão)
em Busia entre o vento e as grades assovios e urros homens despetalavam a flor de Liz

Robô

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Ela pedia ele atendia
virava batedeira vitrola sanduicheira máquina de lavar passar costurar virava rádio televisão pra novela telefone geladeira
Robô só uma coisa é que pedia que ela trocasse o óleo ao fim do dia

Bolha de sabão

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o canudo soprava a bolha de sabão
o sopro devagar para a bolha não estourar
no alto o vento soprando a bolha que nem um balão a bolha indo (a bolha fondo)
a bolha caindo no mar afundando afundando
quando bem olhou já era água-viva

Vila Najwal, Índia, fronteira com o Paquistão

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Quisera o tiro pela culatra tiro a marcha à ré acionada
quisera a bala analfabeta bala que atirada errasse a sua estrada  
quisera o tiro em Paintball que sai a ferida quando lavada
tiros que pegaram a parede chega e ver os poucos tiros errados no alvo-corpo
(o filho morto)
pudessem linha e agulha costurar o furado-corpo pudessem mercúrio e gaze fechar o minado-corpo
e nem assim não é se o que é findo

A Casca

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Havia uma ladeira no bairro bem ladeirada e curvalada

veio o menino sem freio putuf
putuf era além do estouro
putuf era o sangue expelindo

... a água lavava o sangue ...

ficou o feio da ferida
ficou a casca durinha
ruim de tirar bom de coçar

ninguém viu ninguém veria o menino a comer o taco da casca

no amanhecendo daquele dia
a casca saiu andando
igual um besouro
(o bicho de que já era)

Letrado

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Letra na vida real é mesmo é formiga
palavra na vida real são formigas caminhando uma atrás da outra
frase na vida real é uma multidão de formigas caminhando uma atrás da outra
vírgulas na vida real são pedaços de formigas que ficaram pelo caminho
travessão é formiga em si virando ponte em si virando cobra pra rastejo
livro se a gente acriançar o que enxerga é o mesmo que formigueiro.

Seu Sapato

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Seu Sapato cansou de andar...
ora essa se não cansaria
pra cima pra baixa
lama cimento buraco escadaria

um dia a vida doeu e Seu Sapato cansou de andar...

abriu no dedão
na sola
no calcanhar

Aí aconteceu de Seu Sapato ser jogado no lixo
e Seu Sapato gostou de muito que já queria
que o lixo era o mesmo que as férias
mais que as férias
a aposentadoria...

aí Seu Sapato sapateou sapateou
inchou todo e ficou sapo cururu
bicho que ele já tinha cara igualzinha

e Seu Sapato pulou na lama cimento buraco escadaria

Coragem

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O Soldado saiu debaixo daquela chuva de fim de mundo todos até que viram, até que enxergaram só ele teve a coragem de se meter naquela chuva
— Onde vai seu maluco? — Salvar uma vida, Coronel! — Qual vida, aquela? — Sim, Coronel, aquela vidinha.
Lá foi o Soldado na chuva caindo e levantando escorregando e firmando
— Isso tudo pra salvar uma lesma, soldado?
— Podia ser uma filha minha, Coronel!

SOFRENDO BAIXAS

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É de Akira Kurosawa uma das imagens mais impactantes que o cinema produziria em mim. Em seu filme ‘Sonhos’, temos um Oficial do exército japonês no caminho de volta para casa. Seria ele o único sobrevivente do 3º Pelotão de Fuzileiros. Pelotão este comandado por ele.
Não nos enganemos com o termo “sobrevivente”. Não como sinônimo de vitória, uma vez que o Oficial estaria vivo, voltando para casa, voltando para os seus...
Ser o único “Sobrevivente”, neste caso, é o mesmo que ser a única testemunha do fracasso. É carregar o peso e a vergonha de não ser um bom comandante, de não ser o bom estrategista, de dar a notícia aos que ficaram do falecimento do filho amado, do marido esperado, do pai que traria presentes, do herói da cidade pequena, tão desejosa por um festejo.
Na cena existe um túnel por onde o Oficial acabou de passar. Ele se detém um pouco por ouvir passos que também vem do túnel. Tudo escuro e só os passos se ouvem, até que surge um Soldado do 3º Pelotão de Fuzileiros. Estaria …

Rezamento

4
A Menina juntava pedacinhos de sabão: amarelos, alaranjados, verdes, azuis. Acocorada a beira do riacho, esfregava sabão nas roupas. Esfregava a roupa contra os dedos. Enxaguava. Batia a roupa contra o lajeiro, torcia. Acontecia de passar o sabão na roupa e um dedo escapar, relar no lajeiro, sangrar. A Menina mergulhava o dedo na água e a correnteza levava o sangue. A filepinha de sangue, cobrinha de sangue, de nada. A Vó ficava dentro de casa, entrevada. Ela e o escuro da casa. Acendia velas grossas e encomendava as almas doentes. Com um tempo a Vó abria a janela. A luz doía na vista. Os olhos fechados abriam-se devagar, acostumando se ao clarão. Lá em baixo, a vista da velha mirando, estava à Menina, a neta. Pequenina, magrinha magrinha. Pele e osso, a Vó dizia. Dia desses a gente chega num doutor, pergunta, pega receita e minha filha cresce, minha filha encorpa, fica maior que eu, maior que a Vó e as almas.

Rezamento

3 Estava o corpo na beirada. Desse um vento o corpo cairia. Desse uma brisa. O corpo caindo, agora. Décimo andar: pernas e braços, esperneando. Tivesse uma corda ela escaparia. Uma corda que não estivesse no pescoço. Já tivera uma. Nono, oitavo, sétimo andar: grito. Já um grito afogado, mas ainda grito. Que foi que eu fiz, ela pensava. Um instante de nada, ela pensou: besteira, fiz besteira poxa. Sexto, quinto, quarto andar: encostou o queixo contra o peito. Aprendeu numa aula de primeiros socorros. ...É importante, em caso de queda, procurar encostar... Os alunos no pátio, o bombeiro falando. Ela ouvia e passava mensagens no iphone: @nathy se o bombeiro fosse bombado eu pegava fogo #ficadica. Dez minutos depois ela colocava o fone no ouvido. O cara falou umas coisas lá, tipo que a pessoa... nem lembro mãe, um saco. Disse no carro. Terceiro, segundo andar: fecha os olhos, faz careta, prende a respiração. Primeiro andar: espera o impacto. O corpo subirá dois centímetros, mas quem estiver…

Rezamento

2 A Vó ficava a encomendar as almas moribundas. Num canto da casa havia um oratório que a velha espanava, acendia velas e encomendava. A Vó era mais de silêncio. Não estivesse a encomendar era mais de silêncio. Acontecia de às vezes perguntar coisas a Menina. Coisas sobre os cabelos, as unhas e as partes baixas. Às vezes aconteciam conversas infindas. A Menina que puxava conversas. As tantas dúvidas, as tantas respostas da Vó. Urubu na estaca olhava a Menina. Pescoço entrado, bico longo; curvado, pescoço fundo, penas pretas, pescoço fundo, curvado. Olhando. Ventava. Urubu fechava os olhos livrando ciscos. Ventava. Urubu batia as asas. Equilibrava-se. Urubu mirava a Menina. Fosse de canto agourava-a. Tão magrinha a menina. Se ela tombasse Urubu esperaria uma semana. A carne apodrecendo, temperando. Urubu velaria o corpo se ela tombasse. Urubu voaria alto. O costume: voaria alto, rodaria lá em cima, nem bateria as assas; planando. Desceria. O círculo que era ele descendo. O espiral. Urubu limpa…

Rezamento

1
Urubu ficou olhando a Menina.

Ela já magrinha. Gravetinho. A Vó dizia dela ser um gravetinho. Ela ria da Vó, tomava um copo de leite, limpava o bigodinho com a língua e ria da Vó.
O leite ela tomava devagar. Nem haveria mais, nem era sempre da Vó ganhar leite, ferver leite, acrescentar o caneco de água e ferver o leite.
Mágica. A menina achava mágica da Vó. Água virava leite, leite subia, fervia. Leite esfriava, ela tomava. Bebericos. Bigode de leite.
Afastava a nata. Soprava, igual a Vó ensinou, afastando. A nata era coisinha nojenta. O couro do leite, a Vó dizia. Ela queria não.
Vermelhinha. A língua dela, bem vermelhinha. As bochechas bem vermelhinhas, a ponta do nariz, a palma da mão, a sola, as orelhas...
A Vó pegava na orelha, dizia, se falam da gente a orelha avermelha. Orelha queima, capaz que inche. A Vó pegava a orelha da menina.