Rezamento


2
A Vó ficava a encomendar as almas moribundas. Num canto da casa havia um oratório que a velha espanava, acendia velas e encomendava.
A Vó era mais de silêncio. Não estivesse a encomendar era mais de silêncio.
Acontecia de às vezes perguntar coisas a Menina. Coisas sobre os cabelos, as unhas e as partes baixas.
Às vezes aconteciam conversas infindas. A Menina que puxava conversas. As tantas dúvidas, as tantas respostas da Vó.
Urubu na estaca olhava a Menina. Pescoço entrado, bico longo; curvado, pescoço fundo, penas pretas, pescoço fundo, curvado. Olhando.
Ventava. Urubu fechava os olhos livrando ciscos.
Ventava. Urubu batia as asas. Equilibrava-se.
Urubu mirava a Menina. Fosse de canto agourava-a.
Tão magrinha a menina. Se ela tombasse Urubu esperaria uma semana.
A carne apodrecendo, temperando.
Urubu velaria o corpo se ela tombasse.
Urubu voaria alto. O costume: voaria alto, rodaria lá em cima, nem bateria as assas; planando. Desceria. O círculo que era ele descendo. O espiral.
Urubu limparia os ossos da Menina, se ela tombasse. 

Rezamento


1

Urubu ficou olhando a Menina.


Ela já magrinha. Gravetinho. A Vó dizia dela ser um gravetinho. Ela ria da Vó, tomava um copo de leite, limpava o bigodinho com a língua e ria da Vó.

O leite ela tomava devagar. Nem haveria mais, nem era sempre da Vó ganhar leite, ferver leite, acrescentar o caneco de água e ferver o leite.

Mágica. A menina achava mágica da Vó. Água virava leite, leite subia, fervia. Leite esfriava, ela tomava. Bebericos. Bigode de leite.

Afastava a nata. Soprava, igual a Vó ensinou, afastando. A nata era coisinha nojenta. O couro do leite, a Vó dizia. Ela queria não.

Vermelhinha. A língua dela, bem vermelhinha. As bochechas bem vermelhinhas, a ponta do nariz, a palma da mão, a sola, as orelhas...

A Vó pegava na orelha, dizia, se falam da gente a orelha avermelha. Orelha queima, capaz que inche. A Vó pegava a orelha da menina.
© Helder Herik
Maira Gall