Rezamento


4

A Menina juntava pedacinhos de sabão: amarelos, alaranjados, verdes, azuis.
Acocorada a beira do riacho, esfregava sabão nas roupas. Esfregava a roupa contra os dedos. Enxaguava.
Batia a roupa contra o lajeiro, torcia.
Acontecia de passar o sabão na roupa e um dedo escapar, relar no lajeiro, sangrar.
A Menina mergulhava o dedo na água e a correnteza levava o sangue. A filepinha de sangue, cobrinha de sangue, de nada.
A Vó ficava dentro de casa, entrevada. Ela e o escuro da casa. Acendia velas grossas e encomendava as almas doentes.
Com um tempo a Vó abria a janela. A luz doía na vista. Os olhos fechados abriam-se devagar, acostumando se ao clarão.
Lá em baixo, a vista da velha mirando, estava à Menina, a neta.
Pequenina, magrinha magrinha. Pele e osso, a Vó dizia. Dia desses a gente chega num doutor, pergunta, pega receita e minha filha cresce, minha filha encorpa, fica maior que eu, maior que a Vó e as almas.

Rezamento


3
Estava o corpo na beirada.
Desse um vento o corpo cairia. Desse uma brisa.
O corpo caindo, agora.
Décimo andar: pernas e braços, esperneando.
Tivesse uma corda ela escaparia. Uma corda que não estivesse no pescoço. Já tivera uma.
Nono, oitavo, sétimo andar: grito. Já um grito afogado, mas ainda grito.
Que foi que eu fiz, ela pensava. Um instante de nada, ela pensou: besteira, fiz besteira poxa.
Sexto, quinto, quarto andar: encostou o queixo contra o peito. Aprendeu numa aula de primeiros socorros. ...É importante, em caso de queda, procurar encostar...
Os alunos no pátio, o bombeiro falando. Ela ouvia e passava mensagens no iphone: @nathy se o bombeiro fosse bombado eu pegava fogo #ficadica.
Dez minutos depois ela colocava o fone no ouvido. O cara falou umas coisas lá, tipo que a pessoa... nem lembro mãe, um saco. Disse no carro.
Terceiro, segundo andar: fecha os olhos, faz careta, prende a respiração.
Primeiro andar: espera o impacto.
O corpo subirá dois centímetros, mas quem estiver assistindo não perceberá.
Ossos se quebrarão. Ninguém os ouvirá. Só aquele barulho de corpo se estatelando no chão, forrando-o de carne, sangue e vísceras, é que ouvirão.
Andar térreo: o impacto...
Ela abre os olhos. Vai à cozinha, abre a geladeira, bebe água, leite e refrigerante.
 Porcaria de sonho. De novo.  
© Helder Herik
Maira Gall