Letrado


Letra na vida real
é mesmo é formiga

palavra na vida real
são formigas caminhando uma atrás da outra

frase na vida real
é uma multidão de formigas caminhando uma atrás da outra

vírgulas na vida real
são pedaços de formigas que ficaram pelo caminho

travessão é formiga em si virando ponte
em si virando cobra pra rastejo

livro se a gente acriançar o que enxerga
é o mesmo que formigueiro.   

Seu Sapato


Seu Sapato cansou de andar...

ora essa se não cansaria
pra cima pra baixa
lama cimento buraco escadaria

um dia a vida doeu
e Seu Sapato cansou de andar...

abriu no dedão
na sola
no calcanhar

Aí aconteceu de Seu Sapato ser jogado no lixo
e Seu Sapato gostou de muito que já queria
que o lixo era o mesmo que as férias
mais que as férias
a aposentadoria...

aí Seu Sapato sapateou sapateou
inchou todo e ficou sapo cururu
bicho que ele já tinha cara igualzinha

e Seu Sapato
pulou na lama
cimento
buraco
escadaria

Coragem


O Soldado saiu debaixo daquela chuva de fim de mundo
todos até que viram, até que enxergaram
só ele teve a coragem de se meter naquela chuva

— Onde vai seu maluco?
— Salvar uma vida, Coronel!
— Qual vida, aquela?
— Sim, Coronel, aquela vidinha.

Lá foi o Soldado na chuva caindo e levantando escorregando e firmando

— Isso tudo pra salvar uma lesma, soldado?

— Podia ser uma filha minha, Coronel!

SOFRENDO BAIXAS


É de Akira Kurosawa uma das imagens mais impactantes que o cinema produziria em mim. Em seu filme ‘Sonhos’, temos um Oficial do exército japonês no caminho de volta para casa. Seria ele o único sobrevivente do 3º Pelotão de Fuzileiros. Pelotão este comandado por ele.

Não nos enganemos com o termo “sobrevivente”. Não como sinônimo de vitória, uma vez que o Oficial estaria vivo, voltando para casa, voltando para os seus...

Ser o único “Sobrevivente”, neste caso, é o mesmo que ser a única testemunha do fracasso. É carregar o peso e a vergonha de não ser um bom comandante, de não ser o bom estrategista, de dar a notícia aos que ficaram do falecimento do filho amado, do marido esperado, do pai que traria presentes, do herói da cidade pequena, tão desejosa por um festejo.

Na cena existe um túnel por onde o Oficial acabou de passar. Ele se detém um pouco por ouvir passos que também vem do túnel. Tudo escuro e só os passos se ouvem, até que surge um Soldado do 3º Pelotão de Fuzileiros. Estaria alegre o nosso Oficial, se não fosse pelo fato do Soldado está morto.

Morto sim, mas sem si dar contar da condição de defunto, de homem já findo.

O Soldado, então, presta continência ao Oficial-comandante, que, se já não bastasse sua condição de derrota, tem agora que convencer o Soldado que ele, na verdade, está morto e que deve voltar pelo túnel. Ele e todo o 3º Pelotão de Fuzileiros, que viria em seguida. Convencer que só ele, o Comandante, estaria vivo. Um vivo mortificado, bem é verdade.

Coisa parecida acontece com o escritor argentino Ricardo Piglia, ao dizer que sempre que um amigo morre “o pelotão sofre uma baixa”. O que também me faz lembrar do nosso poeta Thiago de Mello, já octogenário, no seu lamentar de estar enterrando os amigos, de ser um dos últimos “sobreviventes” de sua geração.

Ninguém que avance na idade passa imune a essas perdas, não é mesmo? Sou o mais novo de três irmãos. E seria o irmão do meio, se os gêmeos não tivessem morrido antes de completarem seis meses.


Entre os irmãos me inquieta a ideia de ser o primeiro a falecer e, sobretudo, a ideia de ser o único sobrevivente. Se eu serei o que volta do túnel ou o que manda voltar ao túnel.
© Helder Herik
Maira Gall