quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Lesma


Lesma vem de varar o mundo
trocentas eras
assim: ela no vindo rastoso
afogado

é ver que folga
do ser bicho
e vira casca de pau

ademias
o vindo rastoso dela vir:
muco no cimento
(muco é glitter dela
gozinho dela tanto esfregar)

Lesma bastar a si mesma
por hermafrodita
que é saber se gozar a hora de bem quiser
que é assim dela ser: minhoca e buraco
os ambos

admira faltar pulmões
dela inalar os ares
ao que remedia
inalando no ânus
que é o conforme ela viver



(Imagem: Pinterest)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Alheio


Um dia
caiu-me da cara um olho
que quase pisei

comoção de todos por querer socorrer:
um que arrancasse a terra
um que pusesse o lado bem correto
um que afastasse o povo
e um pombo vindo

(Imagem: Pinterest)

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Credo


anciã pegou toco de vela
rezou alto
a ver se batia no ouvido do santo

― uns que sendo surdos, só apelando

a chama tremelicava de rajadas
cuspidinhas e bafejos
era a ladainha
as incelenças
novenas

quando a ver
já ia bem amanhecendo
até que a reza fez destino

aí a pouco foi nascendo um dente
atrás do outro

quem visse diria que tinha botado chapa

anciã ficou a ser besta
só rindo ao tudo

dentando o vento

(Imagem: Pinterest)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017


Tive pena daquele homem! Pudesse lhe devolveria a juventude. Esticaria as rugas fundas e ensaboaria as manchas na pele. O tempo nos desgasta na cara, esteja a ver! É na cara que sentimos a ferrugem se alojando, levantando fervura, borbulhando. É na cara que o tempo deixa a sua pisada mais funda.

Tive pena daquele homem! Havia envelhecido vinte anos em cinco, disse, em tom lamentoso e arrastado.

“Feliz daquele que chegar a velhice, muitos irão ficar pelo caminho.” Cresci ouvindo minha avó Leuza dizer esta frase. Sempre achei uma frase superior. Um troféu a velhice.

O que apunhalava o coração era a tristeza daquele homem do Brasil. Trabalhador, pouco letrado e muito endividado. Um brasileiro que não assistia telejornais e nem lia romances. Teria envelhecido tanto as custas das dívidas? Amanhecer e adormecer pensando em dívidas. O leitor já não teria perdido um fio de cabelo ou criado uma ruga por uma conta atrasada? Acaso nunca inventasse uma história para se livrar de um cobrador?

"O que me acaba", dizia o homem, "é que meu pai está mais novo do que eu. Parece um irmão mais moço, parece pai dos meus filhos".

Aí maquinei: será que aquele homem pareceria avó dos seus filhos? Mais um ou dois anos, estaria ele sexagenário? O que alentava era o homem ter a força dos 30 anos. Robusto, carnes firmes e passos serelepes. 


“Envelheci vinte anos em cinco. O sol e a canseira me acabaram. Minha mulher está pior: sol, canseira e filhos.”

Qual o seu sonho? Perguntei ao homem que ficou olhando o reboco da parede, antes de responder. Parecia buscar uma resposta, entre uma falha de cimento e outra.

Meu sonho? Meu sonho é ir durando os tempos, igual essa parede: descascada, rachada, mas durada! 

(Imagem: Pinterest)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Urubus e Formigas


O urubu, estando na atmosfera, estica as asas, displicentemente como a se espreguiçar de um sono enfadonhoso, e fica planando a fazer círculos e economizando seu combustível. É uma asa delta perfeita se se ver de baixo pra cima. Só desce da atmosfera quando a farejar alguma carniça supurada.

O amigo leitor já viu um urubu bicando carniça? Se o leitor já viu, sabe então o que é a visão dos infernos todos. Repara cá: os olhos do urubu acendem duas chamas, o bico do urubu vira uma britadeira perfurando ossos e tutanos, as asas do urubu batem com toda força, levantando poeira nos olhos de alguma criatura que queira dividir o apurado e espalhando o cheiro de podre de alto a baixo do mundo.

O urubu é vivente engenhoso, astuto e esbelto. Sabendo-se inferior a força de um cão, a força de tigre ou a força de urso, e, assim se sabendo, bate as asas a criar um campo de forças. X-men não teria tamanhos poderes.

Agora vejamos as formigas. O espetáculo que é as ver carregar palitos de fósforos e picolés. Já vistes? Acaso fizeste o que fiz: sopraste a ver se elas voavam com o tornado? Formiga são as criaturas mais fortes deste mundo. Uma ou duas dúzias delas, estando dispostas, podem até carregar uma casa. Esteja a ver! Formigas são criaturas de banditismo, ladroagem. Caladas, elas todas fazem bandos nas madrugadas de nosso sono, invadem a casa, assaltam a cozinha. Todas organizadas, enfileiradas em longas cobras.

Ora essa, de farelo em farelo, vão-se as compras do mês. Esteja a ver! Digo mais: uma formiga, se der na telha dela de atravessar uma cidade, um estado ou um país, não tenha dúvidas que ela atravessa. Uma câimbra, uma torção, estiramento... Nada tem ela, toda inteira ela fica. E tu e eu, leitor, se formos a padaria voltamos com um osso fora do lugar ou as costas deslocadas e a doer.

Formiga carrega a si própria como se fosse ela uma folha varrida pelo vento. Carrega a si e as demais coisas que lhe puserem a carregar. 

(Imagem: Pinterest)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Elefante


Sempre gostei de elefantes. Aquele tamanhão e peso em preencher os olhos. O peso de montanha e a bondade de freira. Bondade ou mansidão. O olhar de boi, miúdo, brilhoso e triste. De tristeza ou mansidão.

Alguém disse que os elefantes eram criaturas sorumbáticas, cometendo até suicídio. Vejam isso: suicídio! Que tanta tristeza carrega um elefante? Como que um elefante comete suicídio? Quase perguntei. Preferi imaginar e ficar com a poesia suicida. Venho criando essa arte: a de não perguntar e preencher o não respondido.

Eu, se fosse um elefante, me mataria!
Por que isso?
Por todo peso que teria de carregar infinitamente.

Refleti: o tanto de peso que deve ser carregar a si próprio.

Mas vejamos o tanto de tristeza de um elefante. Vejamos a baleia, por exemplo. A baleia não tem o problema de carregar o seu peso, uma vez que desliza, escorrega nos oceanos, seu tobogã. No princípio a baleia era um peixe igual aos outros: pequeno, escamoso e cheio daquele tic de ficar abrindo e fechando a boca sem nada mastigar. Passou o tempo e Deus quis que a baleia virasse o balão do mar. A jubarte e o zepelim das vastezas das águas. 


(Imagem: Pinterest)

domingo, 22 de outubro de 2017

(A)deus Marcus Accioly



Morreu o Poeta épico, Marcus Accioly. Em 2002 tomei contato com a sua obra, quando li 'Nordestinados, livro que havia me impressionado muito. Li e reli umas tantas vezes. Na contracapa havia alguns elogios de Drummond e João Cabral. Quem era esse Marcus Accioly? Alguns anos depois tive a chance de conhecê-lo e, atrevidamente, mostrar os poemas do meu primeiro livro, 'A morte' (que só seria publicado em 2008).

Tive medo do que viria. Eu estava diante de um dos maiores poetas vivos do Brasil, e ele estava lendo meus poemas, escritos ainda nos tempos de faculdade, aos vinte e poucos anos. Eu ia criando desculpas, caso o Poeta não gostasse dos poemas do jovem petulante: “são só rascunhos, são só ideias, são nada com nadas.”

Estava diante de um ídolo. Eu era Davi e ele o Golias. Mas, era ele quem poderia me atirar a pedra, derrubar-me. Que ideia teria sido aquela minha de mostrar meus poemas de puberdade e espinhas? O Poeta tirou os óculos, franziu a testa, me fez umas três perguntas que devo ter balbuciado as respostas. Parecia que estava com raiva. Não piscava os olhos. O Golias observava o Davizinho magricela a sua frente.

Pôs os óculos e voltou a ler. Fazia umas leves caretas como se mentalmente fizesse perguntas a si mesmo. Passaram-se alguns instantes que procurei preencher com formulações de desculpas. Por fim o Poeta pediu a atenção de todos que estavam próximo, empurrou os óculos na cara e disse, "vejam isto, escutem que beleza de construção", e Golias continuou em voz alta e cadenciada, retendo a atenção de todos e lendo alguns dos meus poemas.

Foi a maior vergonha que tive. Foi o maior orgulho que tive! O Golias não me apedrejara. Pelo contrário, me estendia a mão e apontava o caminho a seguir. Caminho que sigo e seguirei nas tantas vidas que tiver.

Adeus Poeta. Obrigado irmão!

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Héroi



Herói só morre mesmo com a última pedrada. O último tiro!

Fiquei com este pensamento na cabeça, indo e vindo: ser um herói. Ser imorrível. Nas conversas em família citariam meu nome. “Um orgulho... De pequeno já sabíamos de sua grandeza... Um iluminado...”

Tive vontade de servir ao exército. Ser um soldado brasileiro condecorado com medalhas por bravura. Usaria a farda do Schwarzenegger, faca de sabre ― para abrir alguma lata de sopa de Andy Warhol ―, coturno com sola de pneu, metralhadora e cinturão de cartucheira.  

Tive disposição para ir a guerra e só temia a chuva.

Supus que a maior tristeza de uma guerra era a chuva. O Chão ensopado, lamacento, o coturno criando frieiras e bolhas nos pés. Na certa os coturnos afundariam e um inimigo atiraria pelas costas. 

Alguém perguntou o que iria fazer no meio de uma guerra?
―Mataria alguém?
―Como assim?
―Você puxaria o gatilho, mataria um cristão?

Numa situação de perigo eu não poderia titubear: ou puxava o gatilho ou seria morto com um tiro nas fuças. Nenhuma das hipóteses havia passado pela minha cabeça. Mataria alguém? Puxaria o gatilho?  Fui dormir pensando se teria coragem de puxar o gatilho.

No dia seguinte eu queria ir a lua. Usar capacete de aquário, uniforme balofo e dar pulos altos em câmera lenta.

Hollywood criava heróis, glamourizava a guerra em filmes épicos e a Sessão da Tarde me fazia puxar gatilhos imaginários. Eu acreditava, na minha infância, que uma guerra teria o poder de acabar com todas as guerras, as do presente e as do futuro. Mas seria uma guerra em que eu não puxaria o gatilho.

―Astronautas veem a Terra do tamanho de uma chimbre, eu disse.
―Você teria coragem de cuspir na terra?
―Como assim?
Da lua, você jogaria uma pedra na terra?

(Imagem: Pinterest)

terça-feira, 3 de outubro de 2017


Há quem viva a dissecar sapos para saber o que estas criaturas carregam dentro. O dentro ingerido e o dentro com ele nascido. Não basta ver por fora, em camada de fino couro e verniz. É preciso ver profundo, mergulhar no recôndito cu do Judas. Somente dois seres se prestam a essa tarefa engenhosa. Não pense, leitor amigo, que seja uma atividade de quem não tem o que fazer. Pelo contrário, esteja a ver! Quem indaga o que dentro carrega um sapo alarga a humanidade. Engrandece a raça. Opulenta o viver. Pode haver, confesso, um pouco de exagero ao que digo. Escrevo sem régua e sem receios estatísticos. O conselho é que não me leves a sério. Aqui eu zombo e rio. Rir é a minha vingança contra a morte! 

Somente dois seres se prestam a essa tarefa engenhosa: dissecar sapos. O primeiro ser é Cientista, que no uso de um estilete, extirpa o sapo, corta-lhe os alvéolos, a traqueia e faz pequenas incisões nos pulmões, se calhar uma mudança de sexo, uma lipo. Tudo a saber se a criatura mudara de comportamento, se a recuperação se dará em dias ou meses e se tal pratica e viável em larga escala. Ao fim, escreverá um artigo e publicará em alguma revista acadêmica. 

O segundo ser é a Criança, que fará o mesmo serviço de abrir, mas sem a mesma perícia. Pegará uma faca de pão, desta mais dentada, e esfolará o pobre diabo, estranhando as vísceras estrebuchando e o debater-se do monstrengo. Ao fim o que queria mesmo era serrar a cobaia ao meio e a ver andando com as partes separadas. Se uma parte andaria para frente e a outra para trás. Se, como em mágica, as pastes emendariam. Se costurada com linha de sabre, não voltaria a vida este pequeno Frankenstein. Ao fim, fará uma selfie e postara numa rede social. 

(Imagem: Pinterest)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017


Poetas fumaçam na cabeça
pensando as coisas que imaginam alumbrar

assim:
de um varal virar uma cobra e comer a roupa estendida

assim-assim:
um varal virar uma cobra e comer a roupa e virar aranha

e fazer uma teia do restinho da roupa que sair defecada de seu fundilho

o despoeta nem pensa
já diz:
mas a teia não sai do fundilho da aranha
sai das f
úsulas fiandeiras do 
abdômen

o despoeta nem fede nem cheira

(Imagem: Pinterest)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Nelson Rodrigues 

Nelson Rodrigues sobe do túmulo e me traz uma verdade: "Ninguém faz nada. O mundo é apenas plateia". Agora pensemos nós, eu e você. Eu, você e o padeiro. Eu, você, o padeiro, o advogado e o rapaz do estacionamento, pensemos: há maior plateia do que o Brasil? 

Louvo aqui um desses políticos da sujeirada -mas tem que ser da sujeirada mesmo, um político jurássico -, que fosse capaz de uma grandeza e metesse uma bala na cachola como ato de renúncia. 

Isso. Um suicídio! Um estrondoso suicídio para a maior plateia do planeta. Suponho que hoje estou sendo vorazmente radical. 

Ou seria vorazmente ingênuo? 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Fome


Educou toda a fome para o almoço. Criou a fome entre as entranhas, gerou, pariu. Não deu de beber e nem deu de comer. Nem o pãozinho do café, a tapioca com queixo, o próprio café adoçado, fumaçando. A fumaça era aquela serpentinha rebolando. Ela soprava e a fumaça dissipava. Depois vinha a serpentinha rebolando. Nem ao meio da manhã, uma bolacha Maria, uma fruta. Uma bananinha amassada com aveia. Quis comer tudo. Quis e teve raiva de querer. A raiva sobrepondo a fome. No almoço Ela se vingaria. Daria a carga. Só verdura. No almoço Ela só comeria verdura e água. Queria emagrecer. Palito. Palitinho. Alface e vinagre e água. Havia comido terra quando era pequena. Comido terra e chupado bandinhas de tijolos. Pois era isso: alface, vinagre e água. Viveria? Chegaria até o fim do ano nesse confinamento? Estou transbordando. Aqui de lado eu transbordo. Esses pneuzinhos. Ela dizia. Ela dizia e segurava os pneus. Palito. Palitinho. O garçom chegou e foi pondo o almoço. Ela olhando as unhas dele a ver se tinha alguma crosta, algum resto. A ver se era cortada, podada. A travessa era colorida. Um jardim. Um manjar. Alface, pepino, tomate, cenoura, beterraba, cebola, pimentão e vinagre e azeite. A barriga fez um barulho, as vísceras contorceram e Ela enfiou o garfo naquela vereda. Ela enfiou o garfo e pulou uma rã. Pulou de uma folha de alface pra uma rodela de pepino aí parou. Parecia desconfiada. Temia alguma desgraça. Melhor era fica parada a ver se o mundo girava e punha tudo em ordem. Só a papadinha é que se mexia. Que nojo, alguém disse, que nojo. Chama o gerente, alguém disse, chama o gerente. Ela só fez estender a mão. A rã ficou uns segundo ponderando e saltou. Venha, filhinha, venha amorzinho. Ela disse.

(Imagem: Pinterest)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Macacos


"Nossos avós eram macacos! Viemos todos de uma floresta de macacos. Depois viramos Australopithecus, em seguida, viramos Homo Sapiens. No futuro seremos robôs de carne e osso". 

A professora parou de falar e olhou a turma. Ar superior. Silêncio na sala. Em seguida bateu as mãos limpando a crosta de giz. Subiu uma nuvem. "Sou uma macaca. Somos todos macacos." Teria ela percebido a nuvem? Havia respirado o pó de giz? “Professores recebem pó de giz no salário”. Aos sessenta iriam todos para o balão de oxigênio. O bom Deus que me defendesse dessa profissão! Queimei a língua. Conforta saber que minha geração começou a ensinar com o lápis pilot. Adeus pó de giz!

“Somos todos macacos.” A ideia de vir do macaco alegrava-me mais do que vir do borro e de uma costela. Deus era um Mestre Vitalino de mão cheia, mas eu queria ser fruto da mutação do macaco. Hoje caiu por terra a teoria de que teríamos avós macacos. Caiu por terra, mas paciência, apeguei-me a ela. Tomei-a de estimação. É minha! 

Havia assistido um documentário da National Geographic que endeusava os macacos. Dez vezes mais fortes que um homem adulto. De início não acreditei. Dez vezes? Um absurdo! Um macaco valeria por dez Schwarzeneggers? Conversa fiada. Os canais vivem fazendo piada com a nossa cara. O amigo leitor acredita em tudo? Dez? Vá lá que cinco! Onde caberia tanta força em braços e pernas de cambitos? Nos ossos, decerto.

Daí fui vendo a facilidade dos macacos subirem nas árvores. Um foguete não subiria com tanta rapidez. Dez Schwarzeneggers não subiriam. Nos ossos, só se fosse.

Além da força descomunal, macacos podem muito bem trocar os pés pelas mãos. Eis uma limitação humana terrível: só saber descascar bananas com as mãos. Macacos descascam bananas com os pés nas costas, os pés na cabeça. Contorcionistas de circo!

Possuem solidariedade ausente em muitos humanos. Exemplo: se um macaco ficar doente ou aleijado, se cair de um galho podre, os outros macacos lhe tomam de conta. Cuidam e alimentam. Mais eficientes que muitos médicos milionários, mal formados e arrogantes. O próprio macaco doente, é que, depois de um tempo, acaba se escondendo e deixando o bando ir adiante seguindo algum Tarzan. Último ato de heroísmo que é morrer sozinho sem virar fardo pra ninguém.

Minha avó Bertoleza tinha essa bravura. Debilitada, quis ficar em casa, no seu galho, sem que lhe pusessem nas costas. Tia Bazinha disse que ela não tinha querer. Levou-a consigo e tomou de conta até ela dormir profundamente.

Catar piolhos! Sempre achei um ato de extrema solidariedade a catação de piolho entre a macacada. A mãe cata no filho. O filho cata no pai. O pai cata no avô. Uma vez catado, uma vez comido. Isso mesmo, comem sem nenhuma cerimônia. Quantos piolhos para matar uma fome? Alguns cospem fora. Os mais higiênicos.

“Depois viramos Australopithecus, em seguida, viramos Homo Sapiens.” Os Australopithecus ainda não eram humanos. Eram uma coisa no meio do caminho. Um rascunho, um jorro. Os Homo Sapiens já eram os humanos de hoje: faziam fogo, plantavam milho e matavam por inveja ou para conquistar novas terras.

E chegamos a nós: o Homo Modernus: criaturas capazes de colocar um capuz ridículo, acender tochas e atear fogo nas casas dos negrões. Cultivar bombas atômicas nos quintais, jogar aviões em prédios, tomar refrigerantes e mudar de canal.  

Bendito seja o macaco e a gostosa catação de piolhos!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Modus Operandi


pica-pau fica nesse trabalho
de martelar o tronco
em busca de insetos
que possa comer
demônio fica nesse trabalho
de martelar o crânio
em busca de miolos
que possa comer

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Ouvir


Sou das criaturas que gostam de ouvir as conversas dos outros! Fico nisso um bom tempo. Em filas de banco, de preferência, com sombra e ar condicionado, portas de vidros e seguranças. Para muitos, as filas de banco são as salas de suas casas. Conversam com total desenvoltura, como se recebessem visitas distantes. Sem as conversas alheias, as filas de banco seriam um calvário. 

Gosto de ouvir as conversas: direciono a orelha como quem procura sintonizar uma emissora de rádio, inclino o pescoço discretamente e ouço as fagulhas e zumbidos.

Nunca julguei que isto fosse um defeito de caráter, uma mácula de personalidade, um borrão a tirar-me a nitidez.

Acontece que sou discreto e a discrição é quase inocência. Aliás, se levada muito a sério, a discrição é a prova da inocência.

Lembra do sofá riscado, o jarro quebrado e a vidraça estraçalhada? "Quem fez tamanha patifaria?" Se ninguém viu, para que haveríamos de nos entregar, produzir provas contra si, sofrer desmoralização e levar umas boas chineladas?

Risquei, quebrei, estraçalhei. Fiz um pouco de tudo isso. Fizemos, leitor amigo. Eu e você! Não somos santos. Nunca seremos!

Agora responda, acaso você também teria quebrado ou riscado algo, e se vendo sozinho, sem alguém que te apanhasse com a boca na botija, acaso você não teria escapulido de fininho e depois, quando o crime fosse visto, não terias encarnado o papel de inocente. E, embora ruborizando, terias dito que aquilo era um grande absurdo e o autor deveria ate ser castigado? Setenta chibatadas. Setenta vezes sete.

Ninguém é santo, leitor amigo. Nem eu, nem você!

Seja sincero, se você fosse santo, teria ou não teria uns bons motivos para ter vergonha de si? Vergonha das coisas feitas, vergonha dos desejozinhos que te passam pela cabeça. Quem é que não traz umas boas safadezazinhas escondidas na manga? És um devasso, leitor amigo. Eu também sou!

Onde foram parar as chineladas da infância. Edificavam, moralizavam ou deixavam marcas apenas? Assunto para outra crônica. O leitor amigo, se se cansar destas linhas, saberá que a próxima crônica terá ainda mais a ver com a sua própria história. Nunca levaste uns bons cocorotes?

Mas, voltemos ao tema desta crônica: ouvir as conversas alheias!

Há conversas que escuto pela metade. Espécie de filme que você não pega o começo e a história já vai longe. Nestes casos é preciso completar a história. Trabalho de restauração.

O Santo Antônio havia se espatifado. Ninguém viu, ninguém se acusou. Santo Antônio estilhaçado no oratório do Colégio. Mandaram o Santo para os trabalhos de restauro. Estava sem uma das mãos, sem um dos pés e sem a cabeça, que alguém teria descoberto ser de giz, saiu riscado o muro. Conversas que eu pego pela metade, restauro. Crio começo e fim.

Quando simpatizo com as pessoas que estão conversando, crio um começo ruim e um final feliz. Um final de honra ao mérito. Verdadeiro troféu de pendurar na sala. Se simpatizo com as pessoas crio um super-herói só pra elas.

Se não simpatizo com as pessoas que estão conversando, ponho azedume em tudo, desando o angu. Faço um começo bonito. Uma novela com fortuna e brilhantina. Um luxo. Tudo o que for bom e de engordar a vaidade. No fim, pimba. Derrubo o santo do altar e toda solidez se esfarela.

Em casa, me pego com as histórias que ouvi nas filas de bancos. Aproprio-me. Digo a mim mesmo, "e se fosse assim, e se não fosse assado?", "e se a senhora lá, tivesse dado entrada na aposentadoria mesmo sem o tempo de idade, só com os calos rombudos da mão?"

Tenho a impressão de que as pessoas conversam sobre minha vida.

Que saberiam elas sobre mim? Estariam inventando histórias. "Tem cara de assaltante", "aposto que vai sacar uma arma", "parece com o Kojak".

Suponho que falam de mim aonde chego. Alto, careca, barbudo, andar desengonçado. Sou um prato cheio pro tédio alheio.

(Imagem: Pinterest)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Andar


Fui das crianças que mais levaram quedas na vida. Uma queda para cada dia. Uma queda para cada hora. 


Não lembro ao certo a idade em que comecei a andar. Se teria acontecido antes de um ano ou depois. Suponho que depois. Bem depois. Ninguém nunca tratou deste assunto comigo. O que só aumenta as minhas suspeitas de um andar tardio e demente. 

Fui um menino de joelhos dilacerados. A conta disso, vivi acuado, aos cantos, a sombras dos outros meninos. Impossível um jogo de futebol em que não fosse o último na escalação. Por piedade e misericórdia. 

O bicho não sabe nem andar. 
Não sabe nem respirar. 

Tinha habilidades em fazer de conta que não ouvia. No jogo, deus iria me iluminar e todos veriam minhas proezas. 

Deus era bem distraído comigo. Haveria mais coisas a fazer no mundo que ajustar-me as pernas. 

Sempre me vi de calção acima dos joelhos para as feridas secarem. 

Em datas festivas eu usava calças que logo manchavam de sangue e pus dos joelhos carcomidos. Uma imundície. Um constrangimento aos adultos. Uma dor que eu disfarçava num riso amargo. Mais doía a vergonha. 

Eu queria caminhar pelas ruas. Bater pernas. Subir e descer calcadas de cimento. Equilibrar-me no paralelepípedo. Sair de casa dava-me a sensação de civilizado, de ser gente! 

Andei de mãos dadas por um bom tempo. Precaviam dos meus tropeços e topadas. A preferência era sempre que eu ficasse em casa: sol quente, chuva forte e lonjuras. 

Não solte de minha mão. 

Eu queria ir para as lonjuras. Prometia não tropeçar. Levantaria bem os pés, igual os soldados nas marchas de 7 de setembro. Algumas vezes eu conseguia convencer os adultos. Convencia ou se apiedavam? O que sei é que me punha a andar e não demorava a tropeçar. Estambocava a calça de brim. Magoava as feridas. Um constrangimento que eu disfarçava num riso amargo

Mais doía a vergonha. 

Sucede que nunca chorei de uma queda. Fingi, algumas vezes, que olhava formigas ou tinha achado algo no chão, quando na verdade havia caído. Doía. O cimento ficava vermelho. O joelho ficava branco do rasgão para em seguida banhar-se em sangue. Uma imundície. Um constrangimento. 

Olhe pra frente. Você vive caindo porque só olha pro chão. 

Como alguém conseguia andar olhando apenas para frente? As outras crianças conseguiam. As outras crianças corriam. Flutuavam! 

Na certa comiam verduras. Muitas verduras. Bebiam tonéis de leite. Tinham pernas fortes. Lisinhas. Sem uma feridinha de nada. 

Nas festas de fim de ano os primos não me chamavam para as brincadeiras de pique-esconde. 

Ele nem anda.


(Imagem: Pinterest)

segunda-feira, 31 de julho de 2017


Perdida
a bala
atravessa a rua o semáforo a janela a cortina a cabeça o sonho
o recém-nascido



(Imagem: creative commons)

O amor bombardeado. O amor entre escombros. O amor enxotado de seu país. Ele refugiado e roído. O amor aqui na esquina, ele amargo e turvo. Amor sem pieguice. Amor com seus frutos e entressafras. Este é o tema de “Ruinosas rumimancias”, livro de poemas de Philippe Wollney

: nas ruínas de uruk não há nenhuma menção sobre nós :
não há nossas iniciais gravadas em cunha nas paredes do templo à irana

***

não se engane

eu quero é minha boca
em sua boca o contato direto
do afeto do verso que repara
o toque que inflama
eu quero encurtar distâncias

***

meu coração é como um jambo maduro que acabou de cair 

De viver

vida
sem avidez
é osso poroso
farelado
puído



(Imagem: Pinterest)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Paulo Gervais, Poeta.


Paulo Gervais havia publicado “Guerra Florida” no ano 2001. Um livro excepcional, já em sua estreia. Dezesseis anos depois ele nos brinda com Paulatim, uma joia de esmero e apuro de linguagem!

a árvore não é, senão
um desvio do grão:
que explica e ramifica
e complica a vida (...) 


Paulatim é uma leitura de busca. Uma busca, que se bem cuidada, nos revelará um Poeta exato. Enxuto de palavras e derramado de imagens. O que, ao meu ver, traz força a sua poesia.

a coisa se veste
de palavras:
dela se despe,
sem ela nada

amiúde tece
para si
uma malha, tibí;

a gente sabe
a coisa, de ouvir
ecoar a palavra,

ver a imagem
esculpida na página:
capaz de fala,

enganar pigmaleão
sua obra magma:
que não fez a mão

sua, e valha
outro grão, a palha. 


Paula Gervais nos traz versos de labuta, apuro, esmero. Tudo isso para resgatar o seu passado mítico: seus avós e as demais gentes que povoaram o lúdico de sua meninice. Paulatim é um livro de suas origens, seu germinar e florir.

ter esses sinais
cortados nos dedos
de mim faz
outro, em baixo relevo,

de fino nariz
e média estatura,
tensionando o osso (...) 


Graças aos deuses Paulo Gervais não sofre de malabarismos e pirotecnias. Artifícios que aleijam a poesia contemporânea. É um poeta que se faz na franqueza: na honestidade de se comunicar ―para quem o procura
, e sapiência de ter o que dizer, embora sem nos revelar. Revelando.  
 

terça-feira, 25 de julho de 2017

Viva


Viva-se
não morra-se
tão fácil


(Imagem: Pinterest)

sábado, 22 de julho de 2017

O bigode de Dali


Todo gênio que se preze, é louco! Se não for assim, estará ainda no rascunho. Existem os gênios e existem os intelectuais. São duas criaturas distintas. O Gênio cria luz! O intelectual acende a luz. Um faz! O outro explica o que foi feito. Um sopra! O outro cata-vento.

Salvador Dalí, um gênio total, teve seu corpo exumado, recentemente. Abriram sua múmia e tiraram dentes, unhas e cabelos para exames de paternidade. E, olha só, o excêntrico bigode continua vivo, ereto e em horário de 10 pras 10. Surreal! Não há Salvador Dalí sem o bigode. O bigode era as suas antenas de captar o outro lado do mundo.

Por que haveríamos de esperar normalidade, daquele que em vida só nos deu loucura? Por que em morte não poderia fazer o mesmo? Untou o bigode em banha de porco e morreu.

Antes de morrer teria dito para não o acordar. Imitemos!

Dalí, quando criança, queria ser cozinheira. Não era cozinheiro. Era cozinheira, igual sua mãe e sua avó. Suas irmãs e primas. Já era surreal ou não fazia juízo de gênero? Já era Dalí. Brotando.

Na adolescência, se saísse as ruas e não fosse notado, balançava um sino e gargalhava dos patrícios assustados. Andava com um espelhinho para refletir os raios do sol nos olhos dos patrícios. Dizia que os iluminava.

Foi, talvez, o único surrealista de sangue. Os demais pintores foram imaginativos, devaneadores, grandes até. Mas surreal a valer, só Dalí, que, embora morto, deixou o bigode vivo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Ruindade

Não falta neste mundo é gente ruim. Das de ter dejetos no sangue e chumbo na alma. As de juntar lodo e ferrugem na saliva.
Gente de sangue límpido e alma leve de fumaça, estão rareando. Estão elas a morrer de última espécie.
E era tão boa alma minha Avó. Falava com animais, com estranhos, com as paredes e com Deus. Com Deus a conversa era maior.
Eu tinha ciúmes de Deus que tiravam minha Avó pras conversas mais intermináveis. Pei pei pei, pei pei pei. Era minha Avó papeando com Deus. Uma intimidade de pareceiros.
Minha Avó virou uma santa! A primeira santa gorda, brasileira e octogenária. Pregava bondade e mansidão! Acolhia todos os animais que lhe colocassem na porta. Famintos, remelentos, desamparados. A boa velha os cuidava igual a filhos.
Mas você procure. Você fuce o que for de monturo e verá as demais gentes ruins existindo. Saudavelmente ruins. Rosadas. Pançudas. Todas iguais a você e a mim. Todas iguais e normais na aparência, mas com dejetos no sangue e chumbo na alma.
Aí a criatura se revela. Demônio que dormia nos ossos se levanta. Demônio é uma pulga que vive dentro do coração. Toda vez que tem fome, morde um pedaço e injeta mal querer nos leprosos.

Você tire uma pessoa chutar um animal. Uma cachorrinha que esteja prenha, os filhotes pesando na barriga. A cachorrinha a deitar no meio da rua, cansada, combalindo. O momento mesmo de parir. Você tire uma pessoa botar o carro na direção e acelerar.


(Imagem: Pinterest)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Revoada


As mãos que dão tchaus
são pássaros que erguem voos


(Imagem: Pinterest)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Diremos


Até o fim da vida
diremos ainda
um bilhão de palavras
que dirão nada
do que queremos dizer


(Foto: José C. Alves)

domingo, 16 de julho de 2017

Suspiros


Vi os três últimos suspiros de meu Avô. Um longo, movendo todo o corpo para frente e contorcendo os dedos engravetados. Depois veio um suspiro calmo e curto. Uma brisa. O terceiro suspiro suponho que só eu tenha visto. O terceiro suspiro foi de Avô para Neto. Nossa íntima despedida.
Passa-me a ideia de levar adiante um livro sobre a morte de meu Avô José. Nunca me recuperei desta morte. Nem irei. Nem quero. É a minha morte de estimação. Plantada. Enraizada.
O livro tem a ver com o momento que desceram o caixão de meu Avô ao fundo da cova. Homens que nunca vi, puseram cordas carcomidas por baixo do caixão, suspenderam-no para ir arriando aos poucos.
Puseram meu Avô num buraco fundo, escuro e frio. 
Tive raiva da terra que lhes jogavam em cima.
Em poucos segundos a terra formava uma montanha. Soterraram-no.
Um dia antes ele respirava, existia sobre a cama, articula gestos, arrastava a língua na boca pesada, pedia café e bolachas.
Coma, Vô. Fique forte!
Estou indo. Fique forte!
Só me dei conta da morte de meu Avô quando todos saiam do cemitério. Que estavam a fazer todos? Como podiam deixar meu Avô José ali? As horas todas da vida, ali, soterradas? Os homens recolhiam as pás, enxadas e cordas. Saiam para o mundo, para suas vidas.
Fiquei a ver a cova de meu Avô. Eu e ele, numa despedida lenta, serena. Ele ficaria sob a terra. Eu seguiria sobre a terra. Um vazio. Uma covardia deixar meu Avô. Como se dariam os dias sem ele? As chinelas arrastando na casa, a bênção na hora de ir pra escola, o cochilo no sofá...
Avô plantado. Eis o título do livro: o Avô plantando!

(Foto: Meira)

sábado, 15 de julho de 2017

Mania

Foto: José Barbosa

Fora a mania de adoecer
e achar fins de mundo em fins de esquinas
eu vou indo e vindo


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Foto: José Antoine Costa
Até onde as balas vão? 

Aí você martela e já pensa: até a lua. Até a esquina. Até as carnes de um filho de Deus que amorteça. 

Balas vão mais longe que os chumbos. Chumbos só abatem passarinhos. Chumbos salpicam, espalham-se nos ares e aninham nas aves. Pior malvadeza matar aves a pleno voo. A pleno voo ou a pleno pouso. Pernilongo a gente pondera. Mata. 

Até onde as balas vão? 

Do meu quintal eu jogava pedras nos telhados vizinhos. Pedras, caroços e embalagens. As pedras sumiam nos ares. Depois era o estalo seco nas brasilites. Era bom ser ruim e ninguém ver. Depois parei. Julguei que pudesse furar uma cabeça, um olho. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Impulso


Acredito por impulso!
Não tenho o menor problema em acreditar nas coisas. Eu gosto é da possibilidade. Gosto de esticar uma formiga a grandura de um pinscher. Gosto de ver um boi ao tamanhozinho de uma formiga!
Um dia eu vi um boi copulando!
Achei a maior briga para uns segundinhos de nada. Daí o boi desmontou e fez ar de riso. Alguém disse que aquele boi valia ouro. Milhões. A vaca tinha sido premiada. “Essa já está com um jesuizinho nas trompas”.
Aí eu fiquei crendo no jesuizinho nas trompas. Dormi latejando se o jesuizinho era mais pra boi ou mais pra gente humana. Mais de focinho ou mais de nariz.
Tia Maria disse que aquilo era da maior heresia. “Creêndeuspai”. Puxou-me pra parede branca. Ordenou que a olhasse a tarde toda. Queria que eu tivesse cura das coisas mundanas. Tia Maria me purificava com rezas e matos. Tocos de velas e água perfumada de alfazema.

Tia Maria dizia que eu tinha um vazamento na cabeça. Precisava tapá-lo ou eu cresceria charlatão. Aí eu já tinha a crença de ter a cabeça rachada. Eu já acreditava de Tia Maria buscar durepoxi e tapar-me as tontices.