Urubus e Formigas


O urubu, estando na atmosfera, estica as asas, displicentemente como a se espreguiçar de um sono enfadonhoso, e fica planando a fazer círculos e economizando seu combustível. É uma asa delta perfeita se se ver de baixo pra cima. Só desce da atmosfera quando a farejar alguma carniça supurada.

O amigo leitor já viu um urubu bicando carniça? Se o leitor já viu, sabe então o que é a visão dos infernos todos. Repara cá: os olhos do urubu acendem duas chamas, o bico do urubu vira uma britadeira perfurando ossos e tutanos, as asas do urubu batem com toda força, levantando poeira nos olhos de alguma criatura que queira dividir o apurado e espalhando o cheiro de podre de alto a baixo do mundo.

O urubu é vivente engenhoso, astuto e esbelto. Sabendo-se inferior a força de um cão, a força de tigre ou a força de urso, e, assim se sabendo, bate as asas a criar um campo de forças. X-men não teria tamanhos poderes.

Agora vejamos as formigas. O espetáculo que é as ver carregar palitos de fósforos e picolés. Já vistes? Acaso fizeste o que fiz: sopraste a ver se elas voavam com o tornado? Formiga são as criaturas mais fortes deste mundo. Uma ou duas dúzias delas, estando dispostas, podem até carregar uma casa. Esteja a ver! Formigas são criaturas de banditismo, ladroagem. Caladas, elas todas fazem bandos nas madrugadas de nosso sono, invadem a casa, assaltam a cozinha. Todas organizadas, enfileiradas em longas cobras.

Ora essa, de farelo em farelo, vão-se as compras do mês. Esteja a ver! Digo mais: uma formiga, se der na telha dela de atravessar uma cidade, um estado ou um país, não tenha dúvidas que ela atravessa. Uma câimbra, uma torção, estiramento... Nada tem ela, toda inteira ela fica. E tu e eu, leitor, se formos a padaria voltamos com um osso fora do lugar ou as costas deslocadas e a doer.

Formiga carrega a si própria como se fosse ela uma folha varrida pelo vento. Carrega a si e as demais coisas que lhe puserem a carregar. 

(Imagem: Pinterest)

Elefante


Sempre gostei de elefantes. Aquele tamanhão e peso em preencher os olhos. O peso de montanha e a bondade de freira. Bondade ou mansidão. O olhar de boi, miúdo, brilhoso e triste. De tristeza ou mansidão.

Alguém disse que os elefantes eram criaturas sorumbáticas, cometendo até suicídio. Vejam isso: suicídio! Que tanta tristeza carrega um elefante? Como que um elefante comete suicídio? Quase perguntei. Preferi imaginar e ficar com a poesia suicida. Venho criando essa arte: a de não perguntar e preencher o não respondido.

Eu, se fosse um elefante, me mataria!
Por que isso?
Por todo peso que teria de carregar infinitamente.

Refleti: o tanto de peso que deve ser carregar a si próprio.

Mas vejamos o tanto de tristeza de um elefante. Vejamos a baleia, por exemplo. A baleia não tem o problema de carregar o seu peso, uma vez que desliza, escorrega nos oceanos, seu tobogã. No princípio a baleia era um peixe igual aos outros: pequeno, escamoso e cheio daquele tic de ficar abrindo e fechando a boca sem nada mastigar. Passou o tempo e Deus quis que a baleia virasse o balão do mar. A jubarte e o zepelim das vastezas das águas. 


(Imagem: Pinterest)
© Helder Herik
Maira Gall