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Mostrando postagens de 2018

A bruxa das injeções

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Uma moça entrou sorrindo na sala, “essa garota linda vai tomar vacina hoje?”. Era a enfermeira. Jovem, bonita e alegre. Alguma coisa estava errada. Onde estaria a bruxa velha com os cabelos desgrenhados e verruga na ponta do nariz? Onde estaria a cara de enfado e a roupa respingada de sangue? Poderia ser uma estagiária e aquela beleza toda estaria disfarçando um ser demoníaco. Lobo em pele de cordeiro. Seria inexperiente e estaria na sua primeira semana de enfiar agulhas pontudas em criancinhas inocentes. Teria acordado naquele dia com um único pensamento: furar todas as criancinhas do mundo. Uma, duas, três vezes. E a minha filhinha de dois meses seria a sua bonequinha de espetar agulhas. Um vodu de carne e osso.
A enfermeira ficou de costas para mim e trocou umas duas palavras com a minha esposa. Que teria dito? Depois alisou os cabelos de minha filha, “que amorzinho que ela é”. Minha filha parece ter um geniozinho difícil, já se percebe a rebeldia em esticar o corpo, estapear a mama…

Injeções

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O calor havia dado uma trégua e a esposa e eu resolvemos levar nossa bebê para as terríveis vacinas de dois meses. A esposa havia alertado que seriam quatro vacinas: uma bisnaga na boca, uma injeção na perna esquerda e duas injeções na perna direita. Por qual motivo a perna direita levaria duas furadas e não uma só? Estaria o Governo eliminando as pessoas canhotas, queria ele um mundo com cadeiras escolares só para as pessoas destras? Três injeções! Três furadas! Uma infinidade de buracos para qualquer ser humano, até para os mais valentões. Todos eles mentirosos.
Iriam furar a minha filha e ela só tinha dois meses. Iriam trucidar as carnes de minha menininha. Agulhas pontudas iriam mergulhar com brutalidade a pessoa mais importante de minha vida. Isso é lá coisa que um pai possa permitir? O homem sapiens chegou até a lua e até já se fala em experiências com teletransporte e transplante de cérebro, mas a minha filhinha de dois meses seria escalpelada sem piedade.
Esperamos na sala até …

Um bilhão de formigas

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Para cada ser humano existe cerca de um bilhão de formigas. Descobri isso por esses dias, mas estou descrente. Geralmente eu creio nas coisas e evito conflitos. Se me dissessem que a terra ficou quadrada eu acreditaria, “pois que sim, as coisas redondas são uma chatice total e sendo a terra quadrada deve ficar mais divertida”. E alguém iria contestas, “mas você não acha estranho, a terra sempre foi redonda e, do nada, passou a ficar quadrada?” Coisas da vida, diria eu, sigamos em frente. Mas essa de existir um bilhão de formigas para cada ser humano é de lascar. Como é que um sujeito calcula isso? Que cientista teria essa paciência de monge? Na certa deve existir um aparelho de contar formigas, tudo bem, a tecnologia tá aí pra isso e o Miguel Nicolelis tá fazendo paralíticos andarem e tudo — aqui para nós, o Nicolelis já fez por merecer um Nobel e se ainda não o entregaram e por achar que o nosso negócio e chutar bolas e bater pandeiro —. Mas a pergunta fica martelando: como os cienti…

Gostar de canários

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Não tenho forças para gostar de canários e tudo porque gostar me faria sofrer. Sim, a gente sofre um bocado com as coisas que gosta. Sofremos também com as coisas que odiamos, mas o ódio, por estar muito próximo de desprezo, acaba se diluindo com uma coisa e outra e se tolera. Mas quando gostamos de algo sofremos um bocado. O meu gostar seria revolucionário e constrangedor. Por exemplo: se eu gostasse de canários e visse o bichinho preso, não daria outra, respiraria fundo e o libertaria da gaiola. Vá, meu bichinho, vá e ganhe os céus, eu diria dramatizando o gesto libertador. Em seguida eu quebraria a gaiola em trocentos pedaços, aniquilando aquela prisão.
O problema é que não conseguiria soltar todos os canários do mundo. E, sejamos sinceros, o que eu conseguiria seria encrencar-me com meio mundo de gente. A encrenca número 1 seria com os donos de canários. Senhores bigodudos, barrigudos e com uma lasca de capim seco entre os dentes. Não tenho dúvidas que socos, facas e tiros encontra…

Futebol nosso de cada dia

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Vai ser o melhor do mundo, o pai do guri jogador dando entrevista, orgulhoso e papudo, os olhos liquefeitos, é um menino com a cabeça no lugar, fez um gesto no ar como se fosse a cabeça do guri jogador, celular da moda e chuteiras da moda, só tem vaidade com isso, no mais, não mais, caso raro para a idade do jogador, o repórter comenta, caso raro, nessa idade outros jovens querem carros e baladas, alguém do lado diz, duvida que ele não pegue uma maria-chuteira, bote no carrão e bola pra dentro, ra ra ra.
A reportagem corta pro guri jogador vestido com a camisa do melhor clube do mundo, a nova promessa do futebol brasileiro, ágil, corta pelo meio, pela lateral, cisca pedala dribla e não cai, não cai é maneira de dizer, aqui no Brasil tudo cai, todos caem, enfim o guri jogador não cai tanto como se vem caindo ultimamente, é a nova jóia do futebol brasileiro, o novo Pelé, alguns dizem, o novo Pelé, aí surge o risinho de alguém do lado, alguém que rir em ra ra ra, no fundo da cabeça desse …

Opinião sim, opressão não

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Impressões sobre o FIG. Se analisado pelo viés conservador (que existiu) ou viés religioso (que existiu) ou viés dos eleitores do mito (que existiu) ou viés dos saudosos de uma ditadura (sim, existiu), este foi sim, o pior FIG. Agora, se analisado pelo viés da luta por inclusão (que existiu) ou viés da ruptura que a arte propõe (que existiu) ou viés de que o grito entalado na garganta foi solto (sim, existiu), este foi sim, o melhor FIG.
Curioso que mocinhos viraram vilões e vilões viraram mocinhos. Artistas admirados (que nos fazem sair de casa), de uma hora para outra, viraram vilões blasfemadores e mataram o FIG com requintes de crueldade (goste ou não, eles possuem o direito de falar o que falaram, afinal, vivemos em uma democracia, não é mesmo?). Curioso que políticos sempre criticados, (que nos fazem ficar em casa), de uma hora pra outra viraram salvadores da pátria, heróis angelicais voando sobre nossas ruas esburacadas, sobre nossa falta de emprego e violência crescente. Um bat…

Prova de amor maior não há

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Jesus está voltando, glória glória aleluia, hoje na cidade do sapo barbudo, a cidade do nove dedos, Luladrão, hoje à noite na cidade: o dia do juízo, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, o maior pandemônio do século, quebra pau, barraco, apocalipse, é melhor jair se acostumando, dizem e repetem os soldados romanos, é melhor jair se acostumando, quem já viu um Jesus traveco, com o filho de Deus não se brinca, e se meu filho perguntar se Jesus é homem, eu vou dizer o quê, é dinheiro público, é meu dinheiro, temos que botar ordem na casa, esses viados querem respeito e não querem respeitar, só quem quer essa bagaça aqui são os comunistas, esse traveco é do PT, quem é esse desembargador que permitiu essa safadeza, isso é aquela gente dos direitos dos manos com aqueles professores de faculdade, aqueles grevistam que não querem trabalhar, aposto que vão tirar a roupa e fazerem amor entre si, essa gente aí é assim...  nem todo mundo verá Jesus Cristinho, os soldados romanos querem quebr…

Kuki

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Kuki apareceu pela última vez num fim de tarde. Vestia uma camisa da seleção e empurrava um carrinho de supermercado. Parava de porta em porta, pedindo alimentos e roupas usadas. Zico, Sócrates, Júlio César... O Brasil inteiro havia perdido pênaltis naquela Copa de 86. Kuki ganharia aquelas camisas. Mantos de mais uma derrota em diversos números e tamanhos.  

Kuki trazia uma cachorrinha raceada com pastor alemão. Filha, comigo Filha, chega neguinha! E lá vinha a filhote, pulando e cabeceando suas pernas.
— Ela morde? — Morde, mas não morde. Safada só tem faro. Uma égua!
A avó Virgulina trazia água num cantil de barro e uma caneca de alumínio. Kuki bebia. Largas goladas, sons de engulhos e o pomo de adão galopando. Filha pulava e latia em desespero. Kuki fez uma concha com a mão e despejou água. A cachorrinha bebeu apressada, os olhos no dono, agradecida.
Filha fora achada nos matos de Heliópolis. Três garotos acuaram-na, sacudindo as bombas que sobraram da Copa de 86. Filha socando-se nas…

Sacrossanto

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O padre Gabriel fez uma pausa. Olhou para a testa de todos, onde fizera uma cruz com borras de cinzas, depois subiu o pomo de adão e trouxe o microfone até a boca:
— São Pedro foi um mártir e o crucificaram de cabeça para baixo para que morresse afogado com o próprio sangue.
Na manhã seguinte a avó Virgulina acordou com um gosto de sangue na boca, cuspiu na pia e fez gargarejo com leite de magnésia. A noite, acendeu uma fogueira para a alma do santo crucificado de ponta cabeça.
Por três vezes o padre Gabriel havia se benzido e por três vezes disse que São Pedro havia negado Jesus. Peguei raiva do santo acovardado. Cristo sofrendo humilhações, molhado em suor e sangue, carregando uma cruz de timborana, agonizando os últimos instantes e São Pedro virando-lhe as costas.
— Frouxo cagalhão, isso sim!
Pensei alto e a avó Virgulina puxou-me na orelha. Passei o dia sem tevê e merenda. Galego, o irmão do meio, comia e bebia a minha parte. Que morresse engasgado, ele e o santo cagalhão. Moreno, o …

Mágica de irmão

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O irmão soprava as nuvens e elas formavam bichos medonhos tapando o sol. Imensos algodões que se partiam e juntavam com outros pedaços. Um quebra cabeças que ele montava soltando o ar dos pulmões. — Não estou conseguindo moldar as nuvens com a força da mente. Quando é assim, só vai soprando mesmo. — Reclamava num tom que mostrava mais superioridade que chateação. O irmão ficava vermelho, precisando sentar um pouco e tomar fôlego. Dizia ter nascido com super poderes. O único irmão abençoado por Deus! Loiro, olhos verdes, e uma mania de viver asseado, cheirando a alfazema. Nossa avó o repreendia. Tivesse humildade, Jesus havia sido bem maior, mesmo sendo bem menor.
— Duvida você transformar aquela nuvem num rinoceronte! — Desafiei o irmão. — Agora não quero, cansei. — Conversa fiada! — Não é fácil soprar isso tudo, guri. Nuvens pesam toneladas. 
O irmão ia me ganhando na conversa. Teorizava sobre a matemática do sopro, técnicas e aerodinâmicas. Uma pedante chateação, até que, de uma hora pra …

Um dia de rei

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Para algumas pessoas a vida é uma colher de papinha que vem em aviãozinho direto na boca, nhac. Mas, para a maioria, a vida é um osso duro de roer. A minha e a sua deve ser esta segunda, um osso miúdo, sem nacos de carne e entalado na garganta. A colher de papinha passa por nós sem fazer escalas, ainda assim abrimos a boca, vá que seja o nosso dia. 
Fico olhando as pessoas simples, as criaturas mais doloridas, que realmente levam uma vida difícil. Pessoas que vivem no prego e na ferrugem. O frentista, por exemplo. Contava ele que tinha vergonha de chegar em casa e não puder abraçar a filhinha que lhe vinha correndo, papai, papai. Ele driblando a pequena, correndo ao banheiro. Só depois do banho é que punha a filha no braço, mas aí a menina fazia birra, virando a cara e pedindo os braços da mãe. Se eu abraçasse minha filha ela ficaria fedendo a gasolina. E o frentista metia-se a tomar banho esfregando bem as unhas pra tirar o cheiro de uma vida inflamável. Já na hora de dormir, ele sonh…

Caminhoneiros e o Presidente

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Três homens sentados à mesa, todos do mesmo lado e mesma cara bovina. Se voltássemos no tempo, diríamos que são alunos rebeldes e que entupiram o cadeado com um palito de dente, impedindo a passagem dos colegas na hora do recreio. Agora estão diante de um coordenador, odioso e colérico. Mas, voltemos ao presente. Os três homens esperam alguém dá o play na filmagem do celular, que treme um pouco, mas estabiliza. É a deixa pra começarem a falar. Um deles, o da ponta direita, é advogado, tem tique nos olhos e começa a ficar nervoso, desfazendo a fuça bovina. Agora o homem é um Rottweiler e logo espumará nos cantos da boca.
O advogado toma a palavra e vocifera contra o presidente do Brasil ― também conhecido como mordomo do Conde Drácula ―,você não pode ser Deus, você é corrupto presidente, você está acabando com o país, você é o nosso câncer, diz, ainda mais exaltado e dando tapas na mesa.Copos descartáveis balançam na tábua, mais um pouco de força e tombariam. O país são estes copos, bal…

Passarinho em dia de chuva

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Passarinho pousa no galho. Olha desconfiado, faz cerimônia e questiona se pode avançar até junto de outro passarinho. Está frio e o momento é de urgência. As penas estão encharcadas, pesando muito manter o voo. Logo tombaria em alguma poça ou lamaçal. Bateria as asas esperneando, numa inutilidade de voo. Um gato que enfrentasse a chuva o pegaria. Morderia a garganta asfixiando e perfurando veias.
Assim são todos os passarinhos que pousam numa árvore, num dia escuro, de frio e chuva: olham desconfiados, fazem cerimônia e questionam se podem avançar até junto de outro passarinho...
Vencida a repulsa ou timidez, vão as criaturinhas se aninhando lado a lado, um esquentando o outro. Coraçãozinhos batendo o mesmo compasso e penar. Nesta hora um já começa catar pulgas no outro, um coçar e fazer cafunés mútuos vai se formando. Está consolidada a amizade.
Cai à noite com mais chuva e frio. Folhas das árvores balançam, galhos pendem e esta será a toada da madrugada para as pobres criaturas. Quan…

Esperando chuva

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Esperamos as chuvas, o frio, o inverno que tarda. Avança o ano e nada das trombas d’águas. De consolo parece o calorão ter amenizado. Já não era sem tempo. Tão necessários, os ventiladores pareciam perder eficiência. Sopros derrubavam papéis, viravam páginas de livros, barulhavam e outras aporrinhações.
São tempos confusos e alterados. Na adolescência, ao voltar das aulas noturnas, tomava-se chuva e ventos cortantes. Doíam os ossos, mãos e pés entrevavam e a muito custo e lama chegava-se em casa. Na infância vivia-se trancado. Olhava-se pelo basculante. E tudo era chuva, garoa ou cerração. Cada amigo em sua casa, cada casa parecia um país distante. E praguejava-se contra Deus e o rigor dos invernos. Chove, o povo reclama, faz sol, o povo reclama, diziam. E Deus era absolvido com os mais velhos ralhando os mais novos.
Ano passado, por essa época, o mundo se acabava em água. Paredes molhadas, mofos e camas frientas. Deitava-se e só com o tempo as cobertas esquentavam.
(Imagem: Pinterest)

Tiro

A mulher sacou a arma e meteu bala no bandido. Um vídeo sem áudio, um filme mudo. Uma pena queria ouvir o estampido, disse um revolucionário de zapzap. Era pra descarregar o revólver na cabeça, estourar tudo, disse outro revolucionário. E ninguém vibrou com os que ficaram vivos, os que retornariam as suas casas, sãos e salvos. A vida, os sonhos... O que valeu a pena foi o tiro rasgando e carne, quebrando os ossos. Bandido bom é bandido morto, pois sim! O leitor não repare a minha fraqueza e raiva desmanchada, mas sou um sujeito que pensa nos depois, nos amanhãs e nos avessos das coisas (um poeta jamais poderia ser um juiz). Morreu quem mereceu, tivesse no seu canto nem chuva tomaria, pois sim. Mas, eu penso no velório. Na mãe do infeliz. Combalida e também baleada, tiro que o matou, vai matando-a também, tremula, morta de vergonha, morta de fraqueza, morta de tantos conselhos em vão e aos ventos. A cabeça baixa, a vergonha e a dor. E era dia das mães.

Médico

Faça caminhadas com as primeiras horas do sol. O médico sugeriu olhando-me com descrença. Passaria o dia sentenciando tumores e extração de fígados. Aborreceria com um paciente sedentário estragando a vida em poltrona macia, lendo romances e poesia. O senhor tem um sarcoma, seus ossos esfarelam e o sangue coagula. Teria dizeres na ponta da língua. Tocaria no ombro, mandaria sentar... Faça caminhadas com as primeiras horas do sol e só me volte com um câncer. Teria dito e eu não ouvi. A secretaria pediu que o próximo paciente entrasse. A cara baixa, o passo lento, os cabelos amorfinhados. Este sim iria ao abate.

Fogo no Prédio

Segundos a mais e aquele homem seria resgatado pelos bombeiros. Chamas lambiam as paredes e vidros estalavam, crepitando. Quem seria aquele homem, qual a sua idade, teria esposa, filhos, aquele homem teria um cão? Cinco andares caíram por cima daquele homem, a corda rompeu e todo o prédio veio abaixo. Moradores apareceram e perguntaram por Ricardo. Onde estará o Ricardo? Alguém mostra o vídeo pelo celular. É o Ricardo, meu Deus do céu, é o Ricardo. Ele que saiu acordando todo mundo. Fogo, está pegando fogo, acorda, corre. O câmera aponta para uma senhora com as mãos na cabeça, dá um close. A senhora morava no prédio? Pergunta uma repórter. Não, minha filha, quem morava era o Ricardo. Os bombeiros gritando pra ele pegar a corda. Aquela agonia, aquela agonia toda. Ricardo gostava de Charlie Brown Jr, gostava de rock. Saia toda madrugada pra descarregar caminhão. Fim da tarde ele voltava, magro, alegre, e uma cara de feriado.

Nhonho e o Seu Barriga

Sempre fiquei na dúvida se o Nhonho era também o seu Barriga, o opulento homem de negócios. De quem o Nhonho era filho? E a pulga andava pela orelha. Se o Nhonho colocasse um bigode de faroeste e óculos de Clark Kent ficaria cagado e cuspido o seu Barriga, temível cobrador de alugueis. Reparei que só a dona Florinda é que pagava o aluguei em dia. Para ela não havia crise, nem marolas. A dona Florinda era os EUA, o seu Madruga era o Brasil, sempre dando um jeitinho e levando na conversa, o seu barriga era o FMI e o Chaves era um refugiado a viver de sonhos e biscates. Depois eu fiquei sabendo que a dona Florinda era a esposa do Chaves na vida real. Roberto Gómes Bolaños e Florinda Meza García. Marido e mulher. E era a vida real que parecia a ficção. Você já viu o Nhonho e o seu Barriga na mesma cena, no mesmo enquadramento? Puxei pela memória, não lembrava. 

Nada a temer

Já disse que no Brasil não se matam famosos, sobretudo os políticos. Falta uma grande tragédia nacional a qual devamos nos unir no choro ou na alegria. O sujeito passa de carro e apontamos, olha quem está ali, o deputado fulano de tal e a sua comitiva de puxa sacos, quantos empregos temos dentro daquele carro, quantos mil reais deve ter do nosso bolso naqueles bolsos ali? E o brasileiro fica nisso de apontar com os dedos os larápios. Um marciano dirá que ainda estamos no invólucro. Em um país de menos carnaval o que se apontaria eram revólveres e escopetas. O Brasileiro é a paz mundial. Deem um Nobel ao povo brasileiro. Brigamos pelos pernas de pau do nosso time e nada mais. Não digo que o brasileiro deva sair dando tiros por aí, mas onde estão os justiceiros? Aqueles que atiram na cabeça dos cheiradores de cola e maconheirozinhos de terreno baldio. Nossos justiceiros só atiram nos infelizes que não se aguentam em pé, empurram bêbados e chutam vira-latas. Capaz de verem políticos corr…

Vão matar o nosso Lula

“Vão matar o nosso Lula, nosso Lulinha.” Não sei exatamente quem foi que disse ou talvez ninguém tenha dito. Posso ter lido em algum jornal, pode ser engano, trolagem. “O nosso Lula será assassinado.” Alguma mão oculta colocará chumbinho na sua comida, estricnina emseu café. Um fio desencapado enrolará no seu pescoço... Salvem o nosso Lula, nosso Lulinha. O Brasil é um país de poucos assassinatos cinematográficos. Repito, assassinatos cinematográficos. Aqui não se mata nenhum figurão, um político, um ator. Neste país quem morre de tiro são os policias, os ladrões de bermuda nas canelas e o homem de bem que saiu do mercado feliz da vida por comprar um quilo de carne de sol. Este levara uma bala perdida. Figurão só morre nos EUA, os Kenedys e tal. Mas a frase fica no ar, vão matar o nosso Lula, nosso Lulinha. Uma comoção nacional e planetária. Dirá alguém, ressentido, que o nosso Lulinha já estaria morto, só faltando apodrecer. Dirá, um apaixonado, que nosso Lulinha ressuscitará ou no c…

Gravar na horizontal

Fiquei olhando a moça gravar o vídeo na horizontal. Uma amiga segurava o smartphone e mordia chiclete. Quando eu disser três... A moça começou usar os quinze segundo. Meu nome é fulana de tal, sou de Garanhuns, Pernambuco, e o Brasil que eu quero... Aí ela esqueceu o Brasil que queria. Os cabelos ventavam na cara, desconcentrando. Ela puxou um tufo até a orelha e se concentrou. Quando eu disser três... Dessa vez ela acertou tudo, falou dos jovens que não tinham oportunidade de emprego e que jamais teriam experiência pois logicamente não tinha emprego, falou dos buracos na rua e terminou pedindo o fim da corrupção. Corrupção não poderia faltar, é nosso mantra. Depois as duas moças assistiram ao vídeo. Fizeram conchas com as mãos para enxergar melhor. Houve uma insegurança se o país que elas queriam era aquele mesmo. E as duas ficaram decidindo que país iria passar no JN.  

Michelzinho

Michelzinho vai pra escola. O carro oficial da Republica Federativa do Brasil para em frente ao portão. Michelzinho deixa um naco de catota no banco de couro e desce com a linda Marcela, sua mãezinha. E acontece àquela cena de Hollywood, Marcela ajoelha e beija a testa de Michelzinho. Os coleguinhas acham a mãe do Michelzinho a cara da Dorothy do mágico de Oz. Um coleguinha, vermelho de indignação nacionalista, dirá que o pai do Michelzinho é o senhor das trevas, outro coleguinha, mais didático e assanhadinho, dirá, é gata e pode até parecer com a Dorothy do mágico de Oz, mas casou com o conde Drácula.

Clone

Fico esperando a bomba estourar. Mais dias, menos dias, alguém virá a público, dirá, senhores e senhoras do mundo, a boa nova é que já temos um clone humano, trata-se de fulano de tal...  Um dia a bomba explode, esperemos. Eu mesmo, se fosse um cientista, um Nicolelis da vida, já teria feito um clone a minha imagem e semelhança. Um orgulho de pai em vê-lo crescer. Primeiros passinhos para um homem, grandes passinhos para a humanidade. Seria o meu Adão domesticado e, já sabemos o script, logo viria a sua Eva e, depois, um Ivo para ver a uva. E a Eva comeria a maçã e Caim mataria Abel e ficaríamos a espera de um Messias.  

Lesma

Observo uma lesma. Paro tudo e contemplo o espetáculo daquele pedacinho de carne se mover. Verdadeiro milagre. A cidade segue a sua pressa diária. É preciso deixar os filhos na escola. É preciso achar uma vaga para estacionar o carro, tomara que o carro caiba, tomara que não se forme uma fila, esperando estacionar, pressão meu coração não aguenta, faço besteira. Alguém pensará, parece uma lesma. A cidade segue sua pressa e eu fico olhando a lesma subir a parede. Pobrezinha tem um corte nas costas de onde sai um filete seivoso. Onde teria se cortado. Vai morrer a bichinha. Vai morrer. Jamais conseguirá subir essa parede. Homens fortes construíram essa parede. Fortes e apressados. Patrão chegasse e eles não tivessem levantado, aí aí. Entre as nuvens o sol aparece, clareia o rastro que a lesma vai deixando. Parece gliter, parece gozinho. Já viu, ela se esfregando nessa parede e o jorrinho de gozo pelo caminho.

Fossas

Lembro uma carta de Isherwood para W. H. Auden, numa correspondências cheia de desculpas, finalizada com “E, veja você, que além de um enxame de doenças, minha fossa veio transbordar hoje pela manhã. Estou, como pode ver, ilhado em doenças e excrementos.” Pois vejam vocês, passei metade da vida sem refletir sobre a importância da fossa. E, nos últimos dias, não faço outra coisa. Uma obsessão. A humanidade se fez com fogo, água encanada, geladeiras e fossas fundas e robustas. Perguntará, um curioso leitor, de onde tirei estas considerações sobre as fossas? Direi: do Chico Sá e seu livro Big Jato, que, além de bem escrito, é divertidíssimo. Livro anedótico e espirituoso. Nele, pai e filho, ganham a vida desentupindo fossas com o auxilio de mangueiras sugadoras e um caminhão, o fenemê.

Poderes de Deus

Amigos, suponhamos que um de nós fosse o Deus poderoso. Cada um com a sua vaidade latente, e não me venham dizer que a excluiriam. Vaidade, soberba, jactância... A minha, por exemplo, seria piscar um olho e derrubar chuvas nos sertões sem fim ou ainda estalar um dedo e madurecer seriguelas. Frutinha que regozija a alma. Pois bem, cada um ostentando a sua divindade e, para dá verossimilhança, cada um com o seu diabo lazarento, acorrentado a um poste, raivoso de carrapatos lhe chuparem o sangue. Ao diabo, veja bem, não faltariam motivos a sua hidrofobia.
Um leitor já havia reparado, “em seus textos o diabo flui, vem à tona como se fosse um bom dia, boa noite. Parece que o demo lhe toma as rédeas". Espetáculo de comentário. Renderá outra crônica. Esperem só para ver o texto infernal que virá. Mas voltemos ao assunto. Um de nós sendo o Deus poderoso. De modo que poderíamos apontar um sujeito na rua e dizer, este é ladrão. Ou mesmo dizer em megafones, fulano de tal é ladrão, saiam de p…

Liberdade

Na janela do meu escritório pousa um passarinho. O mais vagabundo e vira-lata deles: o pardal. Defeca e fica me olhando, virando a cabeça pra um lado e outro. Intrigado, fecha um olho, como se fosse um consertador de relógios antigos. Examina-me. Resolvo fazer o mesmo. Fico a imitá-lo, torcendo pra que a esposa não abra a porta e se depare com a cena.
O pardal é um pássaro vagabundo, pois sim. Mas, é justamente aí a sua vantagem. Nenhum outro pássaro no Brasil consegue vagabundear os céus. A calopsita, o canário, o papagaio, o galo de campina, o sanhaçu... Estas criaturas vivem desassossegadas. Coraçãozinho pulando pela boca. Voos curtos, com várias escalas entre as árvores, escondendo-se entre folhas. Estes fugitivos possuem a tristeza de nunca estufar o peito e pousar para uma fotografia. Qual o crime deles, senão o de serem bonitos e cantarem bem. A beleza põe a mesa e, também, põe na gaiola. O pardal não. O bichinho é feião e desafinado. Um desmantelo. E, por tudo isso, é que ele …

Bonecas

Um amigo telefona da França. Pergunta se a passeata das prostitutas estaria repercutindo no Brasil. Fico calado, pensando do que se trata. O amigo se espanta e começa a falar do atraso do nosso país. Que agora só damos importância a bate-boca entre ministros do Supremo. Mas afinal, e as prostitutas, o que têm elas? Pergunto. E contou-me a história. Tim-tim por tim-tim.
Amigo leitor, vejam só: no país dos perfumes e escargots, só se fala das bonecas de silicone. Loiras, ruivas, negras. A preferência do freguês, que paga certa quantia e leva as bonecas para o quarto. Lá ficando por uma ou duas horas nas mais corrompidas praticas do sexo. Para deixar a coisa ainda mais picante, as bonecas possuem um repertório de mais de duzentas freses com variados níveis de equalizações.
As prostitutas francesas com o medo evidente de perder a freguesia, já começam a fazer barricadas e pressionar os políticos (alguns até fregueses antigos). Qual saída teria achado o governo? Segundo o meu amigo, o argum…