quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A bruxa das injeções



Uma moça entrou sorrindo na sala, “essa garota linda vai tomar vacina hoje?”. Era a enfermeira. Jovem, bonita e alegre. Alguma coisa estava errada. Onde estaria a bruxa velha com os cabelos desgrenhados e verruga na ponta do nariz? Onde estaria a cara de enfado e a roupa respingada de sangue? Poderia ser uma estagiária e aquela beleza toda estaria disfarçando um ser demoníaco. Lobo em pele de cordeiro. Seria inexperiente e estaria na sua primeira semana de enfiar agulhas pontudas em criancinhas inocentes. Teria acordado naquele dia com um único pensamento: furar todas as criancinhas do mundo. Uma, duas, três vezes. E a minha filhinha de dois meses seria a sua bonequinha de espetar agulhas. Um vodu de carne e osso.

A enfermeira ficou de costas para mim e trocou umas duas palavras com a minha esposa. Que teria dito? Depois alisou os cabelos de minha filha, “que amorzinho que ela é”. Minha filha parece ter um geniozinho difícil, já se percebe a rebeldia em esticar o corpo, estapear a mamadeira e nos meter beliscões, mas das palavras da enfermeira em diante, ela ficou um “amorzinho”. Que diabo estava acontecendo?

A enfermeira virou-se pra mim. Seria agora que ela me transformaria em sapo ou lesma. “O senhor pode entregar o cartão de vacina?” — Antigamente o cartão de vacina era um pedacinho de papel cheio de carimbos e datas. Trazia ainda uma foto grampeada que logo era salpicada pela ferrugem. Exibir o maior número de carimbos fazia-nos levantas o queixo e estofar o peito. Valentões, sim senhor! — A enfermeira ficou rabiscando a cartão, virando páginas e fui ao encontro da esposa que me chamava com um gesto de cabeça. “Pode deixar que eu seguro ela, precisa você segurar não”. O que era isso agora, teria a enfermeira enfeitiçado minha esposa? Fazia poucos segundos que ela estava apavorada e agora arrumara a coragem de enfrentar o fogo cruzado. “Não, eu seguro, pode deixar”, disse eu, abraçando minha condição de pai. “Pode deixar que eu seguro”, decretou a esposa. Estava sob feitiço, pobre criatura. Nossa filha a beira do abate e ela entregando-a de bandeja.

“Vamos então a primeira dose, essa é molezinha”, disse a bruxa trazendo a bisnaga para a boca de minha filhinha. “Acorda, neném, acorda”, continuou a bruxa, docemente. “Hoje ela tá muito preguiçosa”, disse a esposa. “Eita, que olhão bonito”, disse a bruxa. “Acordou mamãe!?” disse a esposa. A bruxa pegou a segunda dose, seria a primeira das três injeções. Levantou a seringa, deu petelecos e esguichou um pouco do líquido para tirar o ar. Dizem que se o ar entrar na seringa a pessoa pode aleijar e tudo. Se isso acontecesse eu a queimaria viva ali mesmo com ou sem apoio da Santa Inquisição.

 Minha esposa já havia baixado a roupinha da nossa bebê. “Deus do céu, que coxa mais gostosa”, disse a bruxa. “Dá última vez que a pesei ela tava com cinco quilos e quinhentos”, disse a esposa. Ela é bem crescida pra ter apenas dois meses”, disse a bruxa. Estavam amigas, era isso? Agora o mundo poderia acabar, mas o papo deveria ficar em dias. “Segure a perninha pra ela não se mexer”, disse a bruxa. “Tá certo!”, disse a esposa, mas agora o “Tá certo!” saiu baixo, arrastado, tremulo. Por fim a esposa estava se livrando do feitiço, tornando em si, mas já era tarde demais.

(Continua)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Injeções


O calor havia dado uma trégua e a esposa e eu resolvemos levar nossa bebê para as terríveis vacinas de dois meses. A esposa havia alertado que seriam quatro vacinas: uma bisnaga na boca, uma injeção na perna esquerda e duas injeções na perna direita. Por qual motivo a perna direita levaria duas furadas e não uma só? Estaria o Governo eliminando as pessoas canhotas, queria ele um mundo com cadeiras escolares só para as pessoas destras? Três injeções! Três furadas! Uma infinidade de buracos para qualquer ser humano, até para os mais valentões. Todos eles mentirosos.

Iriam furar a minha filha e ela só tinha dois meses. Iriam trucidar as carnes de minha menininha. Agulhas pontudas iriam mergulhar com brutalidade a pessoa mais importante de minha vida. Isso é lá coisa que um pai possa permitir? O homem sapiens chegou até a lua e até já se fala em experiências com teletransporte e transplante de cérebro, mas a minha filhinha de dois meses seria escalpelada sem piedade.   

Esperamos na sala até que a enfermeira chegasse. Minha esposa sentada com a pequena no braço, dormindo a paz de um sono inocente. “Pode segurar ela durante as injeções?”, pediu com uma voz tremula. Óbvio, se o troço era angustiante para mim, o quanto não seria para ela, que gerou e trouxe ao mundo?  “Seguro sim!”, disse eu, tentando passar segurança. Uma rocha inabalável.

Desejei que a enfermeira não chegasse nunca. Elas sempre faltam em postos de saúde. Poderia ser até que não houvesse vacinas. Elas sempre faltam em postos de saúde. E se a enfermeira fosse uma estagiaria? O governo vive nos usando de cobaias para médicos e enfermeiros carniceiros.

Uma moça entrou sorrindo na sala, “essa menina bonita vai tomar vacina hoje?”

(continua)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Um bilhão de formigas


Para cada ser humano existe cerca de um bilhão de formigas. Descobri isso por esses dias, mas estou descrente. Geralmente eu creio nas coisas e evito conflitos. Se me dissessem que a terra ficou quadrada eu acreditaria, “pois que sim, as coisas redondas são uma chatice total e sendo a terra quadrada deve ficar mais divertida”. E alguém iria contestas, “mas você não acha estranho, a terra sempre foi redonda e, do nada, passou a ficar quadrada?” Coisas da vida, diria eu, sigamos em frente. Mas essa de existir um bilhão de formigas para cada ser humano é de lascar. Como é que um sujeito calcula isso? Que cientista teria essa paciência de monge? Na certa deve existir um aparelho de contar formigas, tudo bem, a tecnologia tá aí pra isso e o Miguel Nicolelis tá fazendo paralíticos andarem e tudo — aqui para nós, o Nicolelis já fez por merecer um Nobel e se ainda não o entregaram e por achar que o nosso negócio e chutar bolas e bater pandeiro —. Mas a pergunta fica martelando: como os cientistas conseguem achar um bilhão de formigas enfileiradas, pacientes, esperando sua vez de passar pela máquina de contar bichinhos? “E essa fila que não anda, hein?” “Nem me fale, deixei de sair com umas amigas pra catar os farelos daquele festona de formatura, se brincar os gafanhotos já devem ter comido tudo.”   


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Gostar de canários



Não tenho forças para gostar de canários e tudo porque gostar me faria sofrer. Sim, a gente sofre um bocado com as coisas que gosta. Sofremos também com as coisas que odiamos, mas o ódio, por estar muito próximo de desprezo, acaba se diluindo com uma coisa e outra e se tolera. Mas quando gostamos de algo sofremos um bocado. O meu gostar seria revolucionário e constrangedor. Por exemplo: se eu gostasse de canários e visse o bichinho preso, não daria outra, respiraria fundo e o libertaria da gaiola. Vá, meu bichinho, vá e ganhe os céus, eu diria dramatizando o gesto libertador. Em seguida eu quebraria a gaiola em trocentos pedaços, aniquilando aquela prisão.

O problema é que não conseguiria soltar todos os canários do mundo. E, sejamos sinceros, o que eu conseguiria seria encrencar-me com meio mundo de gente. A encrenca número 1 seria com os donos de canários. Senhores bigodudos, barrigudos e com uma lasca de capim seco entre os dentes. Não tenho dúvidas que socos, facas e tiros encontrariam o meu corpo justiceiro. A encrenca número 2 seria com a justiça. Algum juiz opulento, — se eu sobrevivesse aos socos, facas e tiros — me poria na cadeia. Iria ao xilindró, veria o sol nascer quadrado por umas duas décadas. E pergunto, que advogado conseguiria tese que sustentasse minha absolvição? Senhores jurados, — diria o advogado — acreditam vocês em reencarnação? Pois digo que este homem é a reencarnação de são Francisco de Assis, o santo protetor dos animais. Se este homem praticou os crimes de soltura e destruição de gaiolas, foi por obedecer ao espírito do santo. Se existe crime cometido, não é culpa deste homem — e me apontaria o dedo e todos me olhariam —, este crime foi cometido pelo espírito que o habita. Condenem o espírito, poupem o corpo ventríloquo, o corpo marionete, o corpo voodoo.

Gostar de canários me traria enormes problemas como se pode ver. Se bem que... Se bem que eu poderia fazer um troço atribuído a meu pai. Contam que na juventude meu pai teria trabalhado em feiras pelo interior de Pernambuco. Vendia chapéus e botas. Terminando o expediente ele comprava um passarinho e o soltava na mesma hora e na frente de quem o vendeu. O homem ficava uma fera, sentia-se enganado, ao que meu pai rebatia que, tendo comprado a ave, faria dela o que bem entendesse, inclusive um ser livre. Filhinho de peixe, peixinho é.

Agora veja mesmo o tamanho dessa judiaria. Uma senhora de uns oitenta anos chegou as presas com seu canário em uma clínica veterinária. A mais cara para que mostrasse o maior amor pelo bichinho. Era o melhor cantor do mundo — ela dizia ao veterinário —, nunca tinha visto uma coisa dessas, uma afinação que só mesmo vendo, quer dizer, ouvindo, mas de uns tempos pra cá ele se calou. Dei o melhor alpiste e água só se fosse mineral, mudei o Julinho de lugar, pus ele perto do rádio e da televisão. Nada do meu menino cantar. Estava realmente triste aquela senhorinha. Queria mesmo a melhora de seu bichinho e sofria com isso. Há um detalhe que não posso deixar de mencionar. O canário se chamava Julio Iglesias! Porque a ave teria vindo da Espanha e teria um canto com sotaque madrilenho, segunda a velhinha.        

Pois o canário estava sem cantar fazia dias e a senhorinha sempre muito triste. Até lhe bater na cabeça a ideia de levar o pobre até a clinica. Pediu pelo amor de Deus que o veterinário devolvesse o canto ao Julinho. O veterinário percebeu algo estranho com a ave. Estava manquejando. Que seria aquilo? Ao pegar o bichinho viu que o pobre tinha um anel de metal na pata direita, colocado logo nos primeiros dias de nascido. Era um anel de identificação para um caso de fuga ou roubo e que foi colocado por amor. Tinha um chip embutido e enviava sinais para um GPS, tudo ideia de um neto metido a hi-tech. Com o passar do tempo Julinho foi crescendo e o anel começou apertar. Agora a pata de Julinho estava numa gangrena só e não havendo reparo, nem emenda, o jeito foi amputar com um alicate. Nessa hora o bichinho esperneou e a senhorinha vendo o toco da pata pendido de lado, caiu no choro. Meu Julinho, meu menino, meu menininho.

E o certo é que o nosso Julio Iglesias não tinha canto madrilenho, nem nada. Era tudo gemido, dor e agonia até calar de vez. E fico aqui pensando se o canto dos canários não são um acorde de choros e lamentações? Mesmo esses canários selvagens, nascidos e crescidos soltos no mundo, cruzando os céus e se embrenhados nas matas, não estariam eles chorando os irmãozinhos presos? Mesmo os irmãozinhos bem tratados com alpiste, água mineral e anel de identificação. A senhorinha voltou pra casa com um Julinho que batia as asas para se equilibrar numa perna só. Levava a perninha decepada no bolso.

domingo, 5 de agosto de 2018

Futebol nosso de cada dia



Vai ser o melhor do mundo, o pai do guri jogador dando entrevista, orgulhoso e papudo, os olhos liquefeitos, é um menino com a cabeça no lugar, fez um gesto no ar como se fosse a cabeça do guri jogador, celular da moda e chuteiras da moda, só tem vaidade com isso, no mais, não mais, caso raro para a idade do jogador, o repórter comenta, caso raro, nessa idade outros jovens querem carros e baladas, alguém do lado diz, duvida que ele não pegue uma maria-chuteira, bote no carrão e bola pra dentro, ra ra ra.

A reportagem corta pro guri jogador vestido com a camisa do melhor clube do mundo, a nova promessa do futebol brasileiro, ágil, corta pelo meio, pela lateral, cisca pedala dribla e não cai, não cai é maneira de dizer, aqui no Brasil tudo cai, todos caem, enfim o guri jogador não cai tanto como se vem caindo ultimamente, é a nova jóia do futebol brasileiro, o novo Pelé, alguns dizem, o novo Pelé, aí surge o risinho de alguém do lado, alguém que rir em ra ra ra, no fundo da cabeça desse alguém o macabro demo soprando dizeres, só se for o Pelé pela cor, porque Pelé só tem um, o macabro demo massageando o cérebro daquela proeza, aquela assertiva, só na cor, guri, só na cor, ra ra ra.

Se fosse no Brasil, veríamos o guri jogador vestindo a camisa do clube por cima de uma camisa pólo, aquela breguice, aquele emarfanhado de gola por cima de gola, manga por cima de manga, dobra na logo da Petrobras quando a Petrobras era altaneira, em lá Espanha, em lá Madrid é diferente, o jogador já chega vestidinho, blusa colada, músculos saltados, 4% de percentual de gordura, gomos e gomos, cliques e cliques, aperto de mão com o presidente Florentino, o velhinho galáctico, sorrisos e cliques e cliques.

A reportagem corta pro guri menino subindo o túnel do Santiago Bernabéu. Último degrau, mais alguns passos e o guri menino pisa com o pé direito e toca a grama e se benze e a torcida grita e tira fotos e o guri jogador faz embaixadas, as mesmas embaixadas de sempre, bola no pé, bola na coxa, bala no peito, meio peito meio queixo, bola na cabeça, bola atrás do pescoço, o ápice da mesmice, alguém diz que isso não é jogar futebol, quero ver na hora do jogo, onze contra onze, Pelé sim, Pelé sim, esse aí só na cor, o risinho esticado na boca, o macabro demo massageando o cérebro proeminente.

O guri jogador terá a missão de substituir Cristiano Ronaldo, o robozão, o maior artilheiro da Champions League, o autor do gol mais bonito da Champions League, o pica das galáxias que mais deu passes pra gols na Champions League, terá vaga no time, pergunta o ancora aos especialistas que nunca jogaram futebol e aos especialistas que sempre jogaram futebol, acho que o guri jogador será emprestado pra algum time de segundo escalão, diz um especialista que nunca jogou futebol, ganhar experiência por uns dois anos, adaptar-se ao clima europeu, os especialistas que nunca jogaram futebol concordam entre si, os especialistas que sempre jogaram futebol ficam reticentes, nutrem a torcida no menino estourar de cara, realizar o sonho de menino de periferia, eles se veem nele, no guri jogador, aquela vontade de jogar com os pernas-de-pau de hoje, só brucutus, só brucutus, os especialistas que sempre jogaram futebol dão arrudeios na resposta, driblando, pedalando a resposta, os especialistas que nunca jogaram futebol falam bem, colocam as concordâncias e os plurais, estufam os peitos flácidos, se impõem, os especialistas que sempre jogaram futebol ficam ali, naquela coisa de driblar os plurais, firulando pedalando ciscando, substituir CR7, diz alguém do lado, nem na cor, guri, nem na cor, ra ra ra, o macabro demo massageando a fineza argúcia.

domingo, 29 de julho de 2018

Opinião sim, opressão não



Impressões sobre o FIG. Se analisado pelo viés conservador (que existiu) ou viés religioso (que existiu) ou viés dos eleitores do mito (que existiu) ou viés dos saudosos de uma ditadura (sim, existiu), este foi sim, o pior FIG. Agora, se analisado pelo viés da luta por inclusão (que existiu) ou viés da ruptura que a arte propõe (que existiu) ou viés de que o grito entalado na garganta foi solto (sim, existiu), este foi sim, o melhor FIG.

Curioso que mocinhos viraram vilões e vilões viraram mocinhos. Artistas admirados (que nos fazem sair de casa), de uma hora para outra, viraram vilões blasfemadores e mataram o FIG com requintes de crueldade (goste ou não, eles possuem o direito de falar o que falaram, afinal, vivemos em uma democracia, não é mesmo?). Curioso que políticos sempre criticados, (que nos fazem ficar em casa), de uma hora pra outra viraram salvadores da pátria, heróis angelicais voando sobre nossas ruas esburacadas, sobre nossa falta de emprego e violência crescente. Um bater de asas que enxota professores e opositores (goste ou não, os políticos possuem o direito de serem amados, afinal, vivemos em uma democracia, não é mesmo?).

Abaixo as divisões, abaixo os julgamentos. Abaixo quem é de Deus e quem é do Diabo. Vamos juntos, de mãos dadas.

No mais, Lula livre e um beijo pras travesti!

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Prova de amor maior não há



Jesus está voltando, glória glória aleluia, hoje na cidade do sapo barbudo, a cidade do nove dedos, Luladrão, hoje à noite na cidade: o dia do juízo, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céuo maior pandemônio do século, quebra pau, barraco, apocalipse, é melhor jair se acostumando, dizem e repetem os soldados romanos, é melhor jair se acostumando, quem já viu um Jesus traveco, com o filho de Deus não se brinca, e se meu filho perguntar se Jesus é homem, eu vou dizer o quê, é dinheiro público, é meu dinheiro, temos que botar ordem na casa, esses viados querem respeito e não querem respeitar, só quem quer essa bagaça aqui são os comunistas, esse traveco é do PT, quem é esse desembargador que permitiu essa safadeza, isso é aquela gente dos direitos dos manos com aqueles professores de faculdade, aqueles grevistam que não querem trabalhar, aposto que vão tirar a roupa e fazerem amor entre si, essa gente aí é assim...  nem todo mundo verá Jesus Cristinho, os soldados romanos querem quebrar Jesus Cristinho ao meio, enforcar, crucificar, já pensou, Jesus assim nesse morre-morre entre os séculos, Jesus Cristinho morrendo e vivendo, vivendo e morrendo e voltando e sendo morto pelos soldados romanos, os assassinos que são filhos de Deus e irmãos de Cristo, já viu, já reparou, esses irmãos se matando, tipo Caim pegando um osso e matando Abel, os miolinhos de Abel no chão, os miolinhos se mexendo, lesminhas lesminhas, Caim lá, morto de inveja e ainda metendo o osso no goela de Abel, estourando os miolos e metendo o osso goela abaixo, o demo pregando justiça, o demo sendo ouvido: bandido bom é bandido morto, e Caim dizendo a Abel: é melhor jair se acostumando, e o assassino de Abel, Caim, o invejoso, possesso, sem saber os demais dilemas da vida, só sabendo mesmo que bandido bom é bandido morto, e hoje, olha isso, hoje, Caim quer porte de armas, essa coisa de matar com pedaço de osso é o maior atraso, Caim agora quer porte de armas igualzinho aos Americanos, os Americanos de verdade, que formam uma civilização avançada e estão no céu, além das nuvens, estão no céu e com armas na cintura, os Americanos da América de verdade, que é a América do norte, vivem lá no céu porque matam os seus Abels, porque bandido bom é bandido morto e lá eles apontam armas de verdade, aqueles canos de ferro e aço, aqueles canos cromados de titânio e adamantium, tudo cromado, tudo grafite fosco, e os soldados romanos da América de mentirinha, os soldados romanos da América de merda, os soldados romanos aqui, macaqueando macaqueando, os soldados romanos aqui, apontando com os dedos, fazendo mira com os dedos, assim: pegando os dedos e fazendo de conta que são armas poderosas, tipo 38, tipo pistolas e bazucas, os soldados romanos aqui, estagnados, os soldados romanos da América de merda, essa América fake de facebook, sem filmes e séries de ação, só essas chanchadinhas em preto e branco, os soldados romanos babando os Americanos da América de verdade, os trampizinhos que usam armas e matam seus Abels, e os soldados romanos aqui com esses dedinhos magros, subnutridos, engravetados, os soldados romanos ensinando nossas criancinhas a fazerem aquele gesto da arma, aquele gesto de tiro, colocando as criancinhas no colo e fazendo aquele geste de tiro com o dedo, os soldados romanos com os dedos melados de merda, os soldados romanos da América fake querendo ser uma espécie de trampizinho, querendo trampizar, querendo mitar mitar, querendo parar de brincar com o dedo, essa coisa de país subnutrido, subalimentado, suburbano da América falsa, América fake de facebook, os soldados romanos querendo porte de armas porque só Deus no coração não basta e é preciso uma arma na cintura pra proteger os seus lares e as suas famílias, uma arma na cintura e Deus no coração pra se sentirem seguros e matarem os Abels e o Jesus Cristinho, hoje à noite na cidade, o dia do juízo, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, hoje na cidade do sapo barbudo, a cidade do nove dedos.

domingo, 15 de julho de 2018

Kuki



Kuki apareceu pela última vez num fim de tarde. Vestia uma camisa da seleção e empurrava um carrinho de supermercado. Parava de porta em porta, pedindo alimentos e roupas usadas. Zico, Sócrates, Júlio César... O Brasil inteiro havia perdido pênaltis naquela Copa de 86. Kuki ganharia aquelas camisas. Mantos de mais uma derrota em diversos números e tamanhos.  

Kuki trazia uma cachorrinha raceada com pastor alemão. Filha, comigo Filha, chega neguinha! E lá vinha a filhote, pulando e cabeceando suas pernas.

— Ela morde?
— Morde, mas não morde. Safada só tem faro. Uma égua!

A avó Virgulina trazia água num cantil de barro e uma caneca de alumínio. Kuki bebia. Largas goladas, sons de engulhos e o pomo de adão galopando. Filha pulava e latia em desespero. Kuki fez uma concha com a mão e despejou água. A cachorrinha bebeu apressada, os olhos no dono, agradecida.

Filha fora achada nos matos de Heliópolis. Três garotos acuaram-na, sacudindo as bombas que sobraram da Copa de 86. Filha socando-se nas moitas a buscar refúgio, o coraçãozinho espocando nas costelas. Kuki enxotou os meninos. Riquinhos filhas da puta, bando de merdas sem pai, nem mãe. A senhora desculpe os palavrões. Aqueles demônios iriam matar a bichinha.

Ali estava o São Francisco das ruas de Garanhuns. Um sem teto a socorrer a cadelinha assustada e empestada de carrapichos na pelugem.

— Foi amor a primeira vista, num foi, nega?!

Kuki aparecia de tempos em tempos e daquela vez a magreza havia acentuado. O avô Zevito espantou-se. Um espigão! Comparou Kuki com Sócrates. Diabo que ache um pelo outro, — resmungou a avó Virgulina, ainda com raiva do pênalti perdido pelo jogador.

O avô Zevito estava certo na comparação. Kuki emagrecera em demasia, desleixava com a barba e cabelo. Quem lhe pusesse uma camisa do Corinthians teria o seu Sócrates. Mas o nosso Kuki era mais envelhecido, desgastado pelo tempo nas ruas. Sol e garoa teriam lhe pesado muito nas costas. O avô Zevito pediu a Kuki que subisse a camisa até o peito e constatamos o corpo encaveirado, pipocado de comichões.

Os avós socorreram o desgraçado. Deram comida, ordenaram que tomasse banho e ofereceram um quarto no quintal, onde se guardava ferramentas e tralhas. Viveria independente da casa, sem dever satisfação. Teria água, luz e comida. Um endereço. Kuki meteu-se em choro, coçou a cabeça, disse que era um bicho do mundo, parido e criado no mato. No começo achei que tudo aquilo fosse orgulho e tive raiva de Kuki. Dispensar a boa vontade dos avós para viver no oco do mundo, emagrecendo e fedendo, fedendo e emagrecendo todos os dias da vida. Depois é que percebi a grandeza de Kuki. Não queria incomodar os avós, ocupar um espaço com seus cacarecos, seu cheiro e seu espírito.

Lá se foi Kuki subindo a rua. Vestia uma camisa da seleção, empurrava um carrinho de supermercado e parava de porta em porta. Filha rodopiava em suas pernas, agradecida por ter um amigo. Foi a última vez que o vimos.


domingo, 1 de julho de 2018

Sacrossanto



O padre Gabriel fez uma pausa. Olhou para a testa de todos, onde fizera uma cruz com borras de cinzas, depois subiu o pomo de adão e trouxe o microfone até a boca:

— São Pedro foi um mártir e o crucificaram de cabeça para baixo para que morresse afogado com o próprio sangue.

Na manhã seguinte a avó Virgulina acordou com um gosto de sangue na boca, cuspiu na pia e fez gargarejo com leite de magnésia. A noite, acendeu uma fogueira para a alma do santo crucificado de ponta cabeça.

Por três vezes o padre Gabriel havia se benzido e por três vezes disse que São Pedro havia negado Jesus. Peguei raiva do santo acovardado. Cristo sofrendo humilhações, molhado em suor e sangue, carregando uma cruz de timborana, agonizando os últimos instantes e São Pedro virando-lhe as costas.

— Frouxo cagalhão, isso sim!

Pensei alto e a avó Virgulina puxou-me na orelha. Passei o dia sem tevê e merenda. Galego, o irmão do meio, comia e bebia a minha parte. Que morresse engasgado, ele e o santo cagalhão. Moreno, o irmão mais velho, trazia pedaços de bolo escondidos na blusa. Migalhas para o irmão que se revoltava contra o mártir da avó.

— Se fosse santo, teria derrubado os soldados, libertado Cristo. Amigo da onça. — Resmunguei.

Moreno olhou em volta, receoso dos olhos da avó Virgulina. Cochichou que os santos não eram tão poderosos e só tinham poder depois que morriam, não podendo entrar em guerra de ninguém. Só ajudavam as pessoas para se casarem, passarem de ano e conseguirem empregos. Em troca exigiriam que as pessoas rasgassem os joelhos no chão, rezassem e levassem ramos de alecrim acompanhando procissões. As demais questões ficavam com os homens e Deus.

A fogueira da avó Virgulina estalava a madeira seca. Bolinhas de fogo subiam e apagavam. Sacudi umas pedras e as bolinhas saltaram aos milhares. Um empesto subindo aos seus e depois apagando.

— Sou o Deus criador de vaga-lumes, centenas, milhares, milhões!

A avó Virgulina puxou-me na orelha. Estava profanando a fogueiro do santo. Heresias, blasfêmias. Um desrespeito! Voltei aos castigos sem tevê e comidas de milho. Galego metia cangicas, pés-de-moleques e pomonhas na boca. Fartava-se comendo a minha parte. Que morresse engasgado, ele e o santo. Moreno estava longe, entretido com a vizinha vestida de matuta. Mais tarde os dois iriam desaparecer e a rua toda falaria que foram perder o cabaço.

Escutei que as tias chegavam, traziam comida e perguntavam por mim. Por um instante virei assunto. Alguma tia se apiedaria de mim e repreenderia a severidade da avó Virgulina. Que nada! Logo o cabaço de Moreno viraria assunto. As tias clamariam a avó que não castigasse a volúpia do neto fujão. Se o pai de Gracinha fosse brabo, Moreno morreria cortado de faca. Uma imprudência sem tamanho. Mas, o bebão não aguentava um sopro de vento e a fama era que ele é quem havia descabaçado a filha.  

Uma tia abriria a porta do quarto, acenderia a luz e chamaria pelo sobrinho que atentava contra os santos da igreja católica. Fingi que estava dormindo. Evitaria vergonhas e explicações. “Não concordo com São Pedro, sua covardia e sua santidade.” As tias colocariam pilhas na avó Virgulina: esse menino é o diferentão, a senhora corte essas maluquices enquanto pode com ele... E a avó aumentaria o castigo confinando-me num quarto escuro para sempre. Melhor fingir que dormia. Pois sim.

A tia havia se apiedado de mim. Trouxe um prato e deixou no pé da cama. Passou a mão em minha testa — a mesma testa que o padre Gabriel havia feito uma cruz de cinza.

— Coma tudo e esqueça esse santo de merda!

sábado, 23 de junho de 2018

Mágica de irmão


O irmão soprava as nuvens e elas formavam bichos medonhos tapando o sol. Imensos algodões que se partiam e juntavam com outros pedaços. Um quebra cabeças que ele montava soltando o ar dos pulmões.
— Não estou conseguindo moldar as nuvens com a força da mente. Quando é assim, só vai soprando mesmo. — Reclamava num tom que mostrava mais superioridade que chateação.
O irmão ficava vermelho, precisando sentar um pouco e tomar fôlego. Dizia ter nascido com super poderes. O único irmão abençoado por Deus! Loiro, olhos verdes, e uma mania de viver asseado, cheirando a alfazema. Nossa avó o repreendia. Tivesse humildade, Jesus havia sido bem maior, mesmo sendo bem menor.

— Duvida você transformar aquela nuvem num rinoceronte! — Desafiei o irmão.
— Agora não quero, cansei.
— Conversa fiada!
— Não é fácil soprar isso tudo, guri. Nuvens pesam toneladas. 

O irmão ia me ganhando na conversa. Teorizava sobre a matemática do sopro, técnicas e aerodinâmicas. Uma pedante chateação, até que, de uma hora pra outra, ele mandou olhar pro céu.

— Vê lá, Gurizinho, teu rinoceronte nas nuvens. Fiz que você nem viu, otário!
— Parece mais é uma girafa.
­— É um rinoceronte, desses mais modernos, mas só vê que é inteligente, guri. — O queixo do irmão saltava pra frente, mania que ele tinha em dar assunto por encerrado. Um dia Mike Tyson acertaria um soco naquela queixada. O irmão dizia que Tyson só derrubava lutadores mexicanos. Tudo bunda mole. O dia que pegasse um pernambucano ele beijaria a lona!
— A senhora vê rinoceronte no céu, vó? — Perguntei.
— Nem vejo no céu e nem vejo na terra.
— A senhora acha que quem ver isso é inteligente?
­— Inteligente é quem olha e ver o Deus Pai! Diabo rinoceronte. Vão arrumar o que fazer.

E o queixo do irmão foi murchando, beijando a lona.
(Arte: Pinterest)

sábado, 16 de junho de 2018

Um dia de rei


Para algumas pessoas a vida é uma colher de papinha que vem em aviãozinho direto na boca, nhac. Mas, para a maioria, a vida é um osso duro de roer. A minha e a sua deve ser esta segunda, um osso miúdo, sem nacos de carne e entalado na garganta. A colher de papinha passa por nós sem fazer escalas, ainda assim abrimos a boca, vá que seja o nosso dia. 

Fico olhando as pessoas simples, as criaturas mais doloridas, que realmente levam uma vida difícil. Pessoas que vivem no prego e na ferrugem. O frentista, por exemplo. Contava ele que tinha vergonha de chegar em casa e não puder abraçar a filhinha que lhe vinha correndo, papai, papai. Ele driblando a pequena, correndo ao banheiro. Só depois do banho é que punha a filha no braço, mas aí a menina fazia birra, virando a cara e pedindo os braços da mãe. Se eu abraçasse minha filha ela ficaria fedendo a gasolina. E o frentista metia-se a tomar banho esfregando bem as unhas pra tirar o cheiro de uma vida inflamável. Já na hora de dormir, ele sonhava com outro trabalho, um que impregnasse menos o lanhoso cheiro do seu dia. Procurava tocar a esposa, ensaiava chegar com um carinho na orelha e da orelha adiante. Reprimia-se. Julgava-se fedorento. 

A esposa importunava. O dinheiro não chegava nem para comprar misturas. Aquilo lá era vida, Deus haveria de ver aquelas marteladas no dedo e penitência. Deus era pai! E os dias passavam, as roupinhas da menina, chinelos, brinquedos... Tudo passado de segunda mão. Não sobrava dinheiro para uma coca-cola no almoço de domingo. A esposa sabia, claramente, que não podia sonhar em bater bolos, pudins, purês ou qualquer merenda que pulasse o feijão com arroz e ovos. E ensinava a menina colocar farinha na comida, inchando o prato e a barriga. Aquilo não era vida, aquilo não era emprego. Jogava na cara do frentista. 

No dia seguinte estava lá o homem com a bomba de gasolina na mão. Completa aí, fera! E ele completava, enchendo tanques de landrover e hiluxs. Onde aquelas pessoas conseguiam dinheiro pra matar a sede daqueles mondrongos? Abraçariam suas filhas, dormiriam com as unhas pretas, comeriam ovos, derramariam farinha no prato, tomariam uma coca-cola num almoço de domingo?

 (Imagem: Pinterest)

terça-feira, 29 de maio de 2018

Caminhoneiros e o Presidente


Três homens sentados à mesa, todos do mesmo lado e mesma cara bovina. Se voltássemos no tempo, diríamos que são alunos rebeldes e que entupiram o cadeado com um palito de dente, impedindo a passagem dos colegas na hora do recreio. Agora estão diante de um coordenador, odioso e colérico.  Mas, voltemos ao presente. Os três homens esperam alguém dá o play na filmagem do celular, que treme um pouco, mas estabiliza. É a deixa pra começarem a falar. Um deles, o da ponta direita, é advogado, tem tique nos olhos e começa a ficar nervoso, desfazendo a fuça bovina. Agora o homem é um Rottweiler e logo espumará nos cantos da boca.

O advogado toma a palavra e vocifera contra o presidente do Brasil também conhecido como mordomo do Conde Drácula ,  você não pode ser Deus, você é corrupto presidente, você está acabando com o país, você é o nosso câncer, diz, ainda mais exaltado e dando tapas na mesa.  Copos descartáveis balançam na tábua, mais um pouco de força e tombariam. O país são estes copos, balançando sempre numa corda bomba. Mais um golpe e o país tombará de vez.

Os outros dois homens ficam sentados, as caras bovinas e uma certa angústia esperando a vez de falar. Se voltássemos no tempo, diríamos que é a angústia de quem apresenta trabalho no colégio. Ficar esperando a deixa do colega, pedir a Deus pra que o amigo nerd demore um pouco mais ou uma bomba exploda ou toque o fim da aula. Mas, voltemos ao presente. Os outros dois homens ouvem o advogado nervosinho, agora espumando nos cantos da boca. Os dois homens piscam os olhos cada vez que a mesa é estapeada.

O homem sentado ao meio é o representante dos Caminhoneiros Autônomos. Começa a falar contra a grande emissora de tevê do país. Primeiramente eu queria dizer que não fui chamado pra nenhuma conversa, meu telefone pega o aparelho e coloca sobre a mesa estapeada não tocou em nenhum momento, então não venham dizer que falaram comigo, isso é mentira. Esta emissora apoiou a ditadura e apoiou o golpe contra a presidenta. Vocês estão com o cu não mão, seus mercenários.

A câmera do celular procura abrir um zoom, mas a resolução granula no ambiente escurecido. Ainda assim, segue a filmagem com apenas um homem enquadrado. Quero dizer que só vamos parar quando as promessas do presidente saírem publicadas no Diário Oficial e ainda é pouco, senhor presidente. Esses 0,46 centavos eu não quero de esmola. A classe não vai ligar os motores. Vamos ver, vamos pedir a Deus, mas a classe seguirá nos acostamentos. O movimento, senhor presidente, não está bloqueando nenhuma via. A única via interrompida deste país e a sua via urinária.

O zoom e desfeito e a câmera do celular volta a enquadrar os três sujeitos. O último deles pigarreou, é sua hora de falar, colocará a republica abaixo. Napoleão pigarreava antes de falar e por muito pouco não conquistou o mundo. Ainda uma vez mais o homem pigarreou e mostrou o punho fechado pra câmera do celular. Senhor presidente, tome isto! E um dedo brotou de um punho.


(arte: Pinterest)

domingo, 27 de maio de 2018

Passarinho em dia de chuva


Passarinho pousa no galho. Olha desconfiado, faz cerimônia e questiona se pode avançar até junto de outro passarinho. Está frio e o momento é de urgência. As penas estão encharcadas, pesando muito manter o voo. Logo tombaria em alguma poça ou lamaçal. Bateria as asas esperneando, numa inutilidade de voo. Um gato que enfrentasse a chuva o pegaria. Morderia a garganta asfixiando e perfurando veias.

Assim são todos os passarinhos que pousam numa árvore, num dia escuro, de frio e chuva: olham desconfiados, fazem cerimônia e questionam se podem avançar até junto de outro passarinho...

Vencida a repulsa ou timidez, vão as criaturinhas se aninhando lado a lado, um esquentando o outro. Coraçãozinhos batendo o mesmo compasso e penar. Nesta hora um já começa catar pulgas no outro, um coçar e fazer cafunés mútuos vai se formando. Está consolidada a amizade.

Cai à noite com mais chuva e frio. Folhas das árvores balançam, galhos pendem e esta será a toada da madrugada para as pobres criaturas. Quantos dias aguentariam, vento, frio e água pingando de buracos na folhagem. Quantos dias?

Acordo cedo. Religiosamente às quatro horas da manhã. Levanto, bocejo e dou por falta dos passarinhos que a essa hora começam a entoar os primeiros pios e trinos limpando a garganta. Suponho dormirem. Molhados e amontoados. Devem equilibrar-se mal em galhos escorregadios e chacoalhados.

Mais tarde decidirão a vida. Ficar no galho ou ir encarar as chuvas de inverno, buscar comida: um farelo de pão encharcado, um mosquito tombado da chuva, um grão de terra lavado.

(imagem: Pinterest)

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Esperando chuva



Esperamos as chuvas, o frio, o inverno que tarda. Avança o ano e nada das trombas d’águas. De consolo parece o calorão ter amenizado. Já não era sem tempo. Tão necessários, os ventiladores pareciam perder eficiência. Sopros derrubavam papéis, viravam páginas de livros, barulhavam e outras aporrinhações.

São tempos confusos e alterados. Na adolescência, ao voltar das aulas noturnas, tomava-se chuva e ventos cortantes. Doíam os ossos, mãos e pés entrevavam e a muito custo e lama chegava-se em casa. Na infância vivia-se trancado. Olhava-se pelo basculante. E tudo era chuva, garoa ou cerração. Cada amigo em sua casa, cada casa parecia um país distante. E praguejava-se contra Deus e o rigor dos invernos. Chove, o povo reclama, faz sol, o povo reclama, diziam. E Deus era absolvido com os mais velhos ralhando os mais novos.

Ano passado, por essa época, o mundo se acabava em água. Paredes molhadas, mofos e camas frientas. Deitava-se e só com o tempo as cobertas esquentavam.

(Imagem: Pinterest)

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Tiro


A mulher sacou a arma e meteu bala no bandido. Um vídeo sem áudio, um filme mudo. Uma pena queria ouvir o estampido, disse um revolucionário de zapzap. Era pra descarregar o revólver na cabeça, estourar tudo, disse outro revolucionário. E ninguém vibrou com os que ficaram vivos, os que retornariam as suas casas, sãos e salvos. A vida, os sonhos... O que valeu a pena foi o tiro rasgando e carne, quebrando os ossos. Bandido bom é bandido morto, pois sim! O leitor não repare a minha fraqueza e raiva desmanchada, mas sou um sujeito que pensa nos depois, nos amanhãs e nos avessos das coisas (um poeta jamais poderia ser um juiz). Morreu quem mereceu, tivesse no seu canto nem chuva tomaria, pois sim. Mas, eu penso no velório. Na mãe do infeliz. Combalida e também baleada, tiro que o matou, vai matando-a também, tremula, morta de vergonha, morta de fraqueza, morta de tantos conselhos em vão e aos ventos. A cabeça baixa, a vergonha e a dor. E era dia das mães.

sábado, 12 de maio de 2018

Médico


Faça caminhadas com as primeiras horas do sol. O médico sugeriu olhando-me com descrença. Passaria o dia sentenciando tumores e extração de fígados. Aborreceria com um paciente sedentário estragando a vida em poltrona macia, lendo romances e poesia. O senhor tem um sarcoma, seus ossos esfarelam e o sangue coagula. Teria dizeres na ponta da língua. Tocaria no ombro, mandaria sentar... Faça caminhadas com as primeiras horas do sol e só me volte com um câncer. Teria dito e eu não ouvi. A secretaria pediu que o próximo paciente entrasse. A cara baixa, o passo lento, os cabelos amorfinhados. Este sim iria ao abate.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Fogo no Prédio


Segundos a mais e aquele homem seria resgatado pelos bombeiros. Chamas lambiam as paredes e vidros estalavam, crepitando. Quem seria aquele homem, qual a sua idade, teria esposa, filhos, aquele homem teria um cão? Cinco andares caíram por cima daquele homem, a corda rompeu e todo o prédio veio abaixo. Moradores apareceram e perguntaram por Ricardo. Onde estará o Ricardo? Alguém mostra o vídeo pelo celular. É o Ricardo, meu Deus do céu, é o Ricardo. Ele que saiu acordando todo mundo. Fogo, está pegando fogo, acorda, corre. O câmera aponta para uma senhora com as mãos na cabeça, dá um close. A senhora morava no prédio? Pergunta uma repórter. Não, minha filha, quem morava era o Ricardo. Os bombeiros gritando pra ele pegar a corda. Aquela agonia, aquela agonia toda. Ricardo gostava de Charlie Brown Jr, gostava de rock. Saia toda madrugada pra descarregar caminhão. Fim da tarde ele voltava, magro, alegre, e uma cara de feriado.

sábado, 28 de abril de 2018

Nhonho e o Seu Barriga

Sempre fiquei na dúvida se o Nhonho era também o seu Barriga, o opulento homem de negócios. De quem o Nhonho era filho? E a pulga andava pela orelha. Se o Nhonho colocasse um bigode de faroeste e óculos de Clark Kent ficaria cagado e cuspido o seu Barriga, temível cobrador de alugueis. Reparei que só a dona Florinda é que pagava o aluguei em dia. Para ela não havia crise, nem marolas. A dona Florinda era os EUA, o seu Madruga era o Brasil, sempre dando um jeitinho e levando na conversa, o seu barriga era o FMI e o Chaves era um refugiado a viver de sonhos e biscates. Depois eu fiquei sabendo que a dona Florinda era a esposa do Chaves na vida real. Roberto Gómes Bolaños e Florinda Meza García. Marido e mulher. E era a vida real que parecia a ficção. Você já viu o Nhonho e o seu Barriga na mesma cena, no mesmo enquadramento? Puxei pela memória, não lembrava. 


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Nada a temer


Já disse que no Brasil não se matam famosos, sobretudo os políticos. Falta uma grande tragédia nacional a qual devamos nos unir no choro ou na alegria. O sujeito passa de carro e apontamos, olha quem está ali, o deputado fulano de tal e a sua comitiva de puxa sacos, quantos empregos temos dentro daquele carro, quantos mil reais deve ter do nosso bolso naqueles bolsos ali? E o brasileiro fica nisso de apontar com os dedos os larápios. Um marciano dirá que ainda estamos no invólucro. Em um país de menos carnaval o que se apontaria eram revólveres e escopetas. O Brasileiro é a paz mundial. Deem um Nobel ao povo brasileiro. Brigamos pelos pernas de pau do nosso time e nada mais. Não digo que o brasileiro deva sair dando tiros por aí, mas onde estão os justiceiros? Aqueles que atiram na cabeça dos cheiradores de cola e maconheirozinhos de terreno baldio. Nossos justiceiros só atiram nos infelizes que não se aguentam em pé, empurram bêbados e chutam vira-latas. Capaz de verem políticos corruptos – só os corruptos, por favor – e apontarem com o dedo, quantos mil reais deve ter do nosso bolso naqueles bolsos ali?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Vão matar o nosso Lula


“Vão matar o nosso Lula, nosso Lulinha.” Não sei exatamente quem foi que disse ou talvez ninguém tenha dito. Posso ter lido em algum jornal, pode ser engano, trolagem. “O nosso Lula será assassinado.” Alguma mão oculta colocará chumbinho na sua comida, estricnina em seu café. Um fio desencapado enrolará no seu pescoço... Salvem o nosso Lula, nosso Lulinha. O Brasil é um país de poucos assassinatos cinematográficos. Repito, assassinatos cinematográficos. Aqui não se mata nenhum figurão, um político, um ator. Neste país quem morre de tiro são os policias, os ladrões de bermuda nas canelas e o homem de bem que saiu do mercado feliz da vida por comprar um quilo de carne de sol. Este levara uma bala perdida. Figurão só morre nos EUA, os Kenedys e tal. Mas a frase fica no ar, vão matar o nosso Lula, nosso Lulinha. Uma comoção nacional e planetária. Dirá alguém, ressentido, que o nosso Lulinha já estaria morto, só faltando apodrecer. Dirá, um apaixonado, que nosso Lulinha ressuscitará ou no corpo ou nas urnas.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Gravar na horizontal


Fiquei olhando a moça gravar o vídeo na horizontal. Uma amiga segurava o smartphone e mordia chiclete. Quando eu disser três... A moça começou usar os quinze segundo. Meu nome é fulana de tal, sou de Garanhuns, Pernambuco, e o Brasil que eu quero... Aí ela esqueceu o Brasil que queria. Os cabelos ventavam na cara, desconcentrando. Ela puxou um tufo até a orelha e se concentrou. Quando eu disser três... Dessa vez ela acertou tudo, falou dos jovens que não tinham oportunidade de emprego e que jamais teriam experiência pois logicamente não tinha emprego, falou dos buracos na rua e terminou pedindo o fim da corrupção. Corrupção não poderia faltar, é nosso mantra. Depois as duas moças assistiram ao vídeo. Fizeram conchas com as mãos para enxergar melhor. Houve uma insegurança se o país que elas queriam era aquele mesmo. E as duas ficaram decidindo que país iria passar no JN.  

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Michelzinho


Michelzinho vai pra escola. O carro oficial da Republica Federativa do Brasil para em frente ao portão. Michelzinho deixa um naco de catota no banco de couro e desce com a linda Marcela, sua mãezinha. E acontece àquela cena de Hollywood, Marcela ajoelha e beija a testa de Michelzinho. Os coleguinhas acham a mãe do Michelzinho a cara da Dorothy do mágico de Oz. Um coleguinha, vermelho de indignação nacionalista, dirá que o pai do Michelzinho é o senhor das trevas, outro coleguinha, mais didático e assanhadinho, dirá, é gata e pode até parecer com a Dorothy do mágico de Oz, mas casou com o conde Drácula.

domingo, 15 de abril de 2018

Clone


Fico esperando a bomba estourar. Mais dias, menos dias, alguém virá a público, dirá, senhores e senhoras do mundo, a boa nova é que já temos um clone humano, trata-se de fulano de tal...  Um dia a bomba explode, esperemos. Eu mesmo, se fosse um cientista, um Nicolelis da vida,  já teria feito um clone a minha imagem e semelhança. Um orgulho de pai em vê-lo crescer. Primeiros passinhos para um homem, grandes passinhos para a humanidade. Seria o meu Adão domesticado e, já sabemos o script, logo viria a sua Eva e, depois, um Ivo para ver a uva. E a Eva comeria a maçã e Caim mataria Abel e ficaríamos a espera de um Messias.  

sábado, 14 de abril de 2018

Lesma


Observo uma lesma. Paro tudo e contemplo o espetáculo daquele pedacinho de carne se mover. Verdadeiro milagre. A cidade segue a sua pressa diária. É preciso deixar os filhos na escola. É preciso achar uma vaga para estacionar o carro, tomara que o carro caiba, tomara que não se forme uma fila, esperando estacionar, pressão meu coração não aguenta, faço besteira. Alguém pensará, parece uma lesma. A cidade segue sua pressa e eu fico olhando a lesma subir a parede. Pobrezinha tem um corte nas costas de onde sai um filete seivoso. Onde teria se cortado. Vai morrer a bichinha. Vai morrer. Jamais conseguirá subir essa parede. Homens fortes construíram essa parede. Fortes e apressados. Patrão chegasse e eles não tivessem levantado, aí aí. Entre as nuvens o sol aparece, clareia o rastro que a lesma vai deixando. Parece gliter, parece gozinho. Já viu, ela se esfregando nessa parede e o jorrinho de gozo pelo caminho.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Fossas


Lembro uma carta de Isherwood para W. H. Auden, numa correspondências cheia de desculpas, finalizada com “E, veja você, que além de um enxame de doenças, minha fossa veio transbordar hoje pela manhã. Estou, como pode ver, ilhado em doenças e excrementos.” Pois vejam vocês, passei metade da vida sem refletir sobre a importância da fossa. E, nos últimos dias, não faço outra coisa. Uma obsessão. A humanidade se fez com fogo, água encanada, geladeiras e fossas fundas e robustas. Perguntará, um curioso leitor, de onde tirei estas considerações sobre as fossas? Direi: do Chico Sá e seu livro Big Jato, que, além de bem escrito, é divertidíssimo. Livro anedótico e espirituoso. Nele, pai e filho, ganham a vida desentupindo fossas com o auxilio de mangueiras sugadoras e um caminhão, o fenemê.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Poderes de Deus

Amigos, suponhamos que um de nós fosse o Deus poderoso. Cada um com a sua vaidade latente, e não me venham dizer que a excluiriam. Vaidade, soberba, jactância... A minha, por exemplo, seria piscar um olho e derrubar chuvas nos sertões sem fim ou ainda estalar um dedo e madurecer seriguelas. Frutinha que regozija a alma. Pois bem, cada um ostentando a sua divindade e, para dá verossimilhança, cada um com o seu diabo lazarento, acorrentado a um poste, raivoso de carrapatos lhe chuparem o sangue. Ao diabo, veja bem, não faltariam motivos a sua hidrofobia.

Um leitor já havia reparado, “em seus textos o diabo flui, vem à tona como se fosse um bom dia, boa noite. Parece que o demo lhe toma as rédeas". Espetáculo de comentário. Renderá outra crônica. Esperem só para ver o texto infernal que virá. Mas voltemos ao assunto. Um de nós sendo o Deus poderoso. De modo que poderíamos apontar um sujeito na rua e dizer, este é ladrão. Ou mesmo dizer em megafones, fulano de tal é ladrão, saiam de perto, chamem a polícia, prendam-no. E todos ficariam sabendo os impostores do mundo. Eu mesmo não conheço ladrão pela cara. Pela cara, seria enganado por todos. Tenho mania de achar que todo sujeito tem bom coração. Confesso ouvir mentiras de pessoas que nunca achei que mentissem, nunca seriam acometidas de tal vilania, e me vejo fazendo esforços para acreditar no loroteiro. Sou capaz de ajudar na mentira. Desembaraço o mentiroso, guio até a saída do labirinto.

Costumo achar um Jesus em cada Judas.

Daí que esses dias cheguei a uma conclusão: os piores mentirosos, os pulhas número 1 do Brasil são os que falam de Deus e conservam a alma do diabo. Não faltam, meus amigos, exploradores da fé. Não faltam cordeiros que deixem o pescoço ao abate. Vejam só o desastre. Em Formosa, interior de Goiás, o Bispo e mais quatro padres, estavam se apropriando das ofertas. Aos olhos de Deus, estes gatunos agiam. Repartiam o apurado como se tivessem trabalhado o dia todo na feira e chegasse a hora dos dividendos. Compravam casas, carros, iphones e pediam pizzas de palmito, - a mais cara do cardápio – com refrigerante light. Ladrões! E pior, bando de ladrões santificados, pois, mesmo desmascarados, ainda existem fieis que lhes queiram defender. “Que é que tem o homem ter um carrinho, todo mundo não tem? Que vira-lata, hoje em dia, não tem um celular?” E o diabo vai agindo no mundo, botando na gente essa mania de achar que todo mundo tem bom coração. Deus me livre e guarde!

domingo, 25 de março de 2018

Liberdade


Na janela do meu escritório pousa um passarinho. O mais vagabundo e vira-lata deles: o pardal. Defeca e fica me olhando, virando a cabeça pra um lado e outro. Intrigado, fecha um olho, como se fosse um consertador de relógios antigos. Examina-me. Resolvo fazer o mesmo. Fico a imitá-lo, torcendo pra que a esposa não abra a porta e se depare com a cena.

O pardal é um pássaro vagabundo, pois sim. Mas, é justamente aí a sua vantagem. Nenhum outro pássaro no Brasil consegue vagabundear os céus. A calopsita, o canário, o papagaio, o galo de campina, o sanhaçu... Estas criaturas vivem desassossegadas. Coraçãozinho pulando pela boca. Voos curtos, com várias escalas entre as árvores, escondendo-se entre folhas. Estes fugitivos possuem a tristeza de nunca estufar o peito e pousar para uma fotografia. Qual o crime deles, senão o de serem bonitos e cantarem bem. A beleza põe a mesa e, também, põe na gaiola. O pardal não. O bichinho é feião e desafinado. Um desmantelo. E, por tudo isso, é que ele é o detentor dos ares, engolindo tanajuras em pleno voo, ciscando em qualquer quintal, pousando e defecando em qualquer janela.

Se mil vidas tivesse, mil vidas quereria ser um pardal. O mais vagabundo deles.  

sexta-feira, 23 de março de 2018

Bonecas

Um amigo telefona da França. Pergunta se a passeata das prostitutas estaria repercutindo no Brasil. Fico calado, pensando do que se trata. O amigo se espanta e começa a falar do atraso do nosso país. Que agora só damos importância a bate-boca entre ministros do Supremo. Mas afinal, e as prostitutas, o que têm elas? Pergunto. E contou-me a história. Tim-tim por tim-tim.

Amigo leitor, vejam só: no país dos perfumes e escargots, só se fala das bonecas de silicone. Loiras, ruivas, negras. A preferência do freguês, que paga certa quantia e leva as bonecas para o quarto. Lá ficando por uma ou duas horas nas mais corrompidas praticas do sexo. Para deixar a coisa ainda mais picante, as bonecas possuem um repertório de mais de duzentas freses com variados níveis de equalizações.

As prostitutas francesas com o medo evidente de perder a freguesia, já começam a fazer barricadas e pressionar os políticos (alguns até fregueses antigos). Qual saída teria achado o governo? Segundo o meu amigo, o argumento que se levanta é o de que as bonecas estariam sofrendo abusos, prostituindo-se contra a vontade. A defesa dos cafetões é a de que entre as mais de duzentas frases, nenhuma deixa claro que as bonecas estejam sofrendo abusos.

E a gente aqui, achando que os ministros do Supremo seriam o fim da picada.