Lagartixa


A lagartixa havia perdido um olho
despregado na ventania
ficou aquele vazio
um menino fez reparo
colando semente de mamão

Benigno



A criatura viria ao mundo para ser escrava? Achavam bonito a pessoa se acabar dentro de uma casa: sala, cozinha, banheiro, quintal... Uns mal agradecidos, isso sim. A foto do casamento ficava em cima do aparador e ela voltava no tempo. O marido magrinho, penteado e ensacadinho na roupa. Parecia um príncipe! Depois vieram os barrigões a entortar a coluna, os meninos a lhe chuparem os peitos, golfadas e mais golfadas, noites de sono, fraldas e aquela agressividade e azedume do pai passando pros meninos. Lá fora o cachorro pegava mau costume, mijava nos panos da porta e lhe jogava olhar de pilheria. Se pusesse veneno na comida morreriam todos. O diabo os carregasse.


(Imagem: Meira)

Remela



Erivania remelava em demasia. Doença nos olhos, ácaros no colchão, poeiras... A crosta amarela pedrificava. Erivania passava o dedo e as bolotas despregavam numa espécie de cócegas. Às vezes a remela supurava, amolecida, aquosa. Era da vez que a mãe sentia o desleixo, vergonhava e, olhando para os cantos, a saber se ninguém estava observando, limpava os olhos da menina com a ponta da camisa. Nas crises, Erivania acordava com os olhos pregados. Esforçava-se para abri-los numa trabalheira custosa o que a fazia levantar, tateando a casa, até encontrar água da qual pudesse lavar os olhos descascando a remela.

(Imagem: Antônio Henrique)

Inverno


Os dias amanheceriam nublados. Um após o outro. Todos. Depois cairiam as chuvas, soprariam as portas, sacolejando-as. A madeira empenaria dificultando o abrir e fechar. As paredes minariam água, mostrando o desenho dos tijolos assentados sob o reboco. Formariam degraus de água. O mofo caminharia até o guarda-roupa, empestaria os panos de rabujo e fedentina. A rua enlamearia, exigiria cuidados, escorregadia e esburacada... "Deus sabe o que faz". O mofo caminharia nas paredes, portas, sapatos, frutas, livros... As águas minariam do teto e bolhas estourariam o gesso. Panelas e tapauéres tomariam o chão. Pingos e mais pingos. Um após o outro.

(Imagem: olhares.com @stephane)

Dona Lourdes


Dona Lourdes era muito pobre e deixada do marido com filhos pequenos. Erivaldo, Erivando e Erivania. Todos famintos e sem estudo. Uma vizinha quis pegar Erivania pra criar, mas a menina tinha vergonha de comer e saber da família passando fome. Todos de D. Lourdes eram assim, só estariam em paz na fome coletiva. Um dia D. Lourdes disse a coisa que mais me partiria o coração. A cabeça baixa, os olhos pro chão, o peito sem ar... Disse comer em prato de plástico, dos de goiabada, e todo dia colocava comida na boca, só pra sentir o gostinho, enganar o juízo, mas logo tirava e dava aos filhos, que nenhum havia pedido pra nascer e nenhum haveria de morrer.

(Imagem: Pinterest)

Viúva da seca

O homem aparecia de tempos em tempos. Trazia tecidos baratos, fazia um filho e ia embora. Principalmente ia embora. Partia pra São Paulo, pro interior. Se fosse sortudo trabalharia na lavoura de café. Colheria grãos subindo em escadas, depois abarrotaria caminhões enormes que cortariam o Brasil. Se fosse desgraçado trabalharia nos canaviais. Vestiria-se de astronauta, empunharia foice, facão e cortaria braças e mais braças de canas.  Fuligens entrariam pelo nariz e olhos. A penugem da cana cortaria o pescoço. Depois o homem apareceria novamente, levaria tecidos baratos, fariam filhos...  

(Imagem: Pinterest)

Meg


Tive uma labrador. Meg! Chegou filhote, vacinada e com olhos pidões. Meg cabia nos braços, pousava pra fotos e tinha medo de bombas. Um amigo sugeriu adestrá-la. “Raça indisciplinada.” Julguei exagero. Meg, indisciplinada? Conversa. Inveja. Aí a história fez a curva. Meg cresceu: linda, musculosa e, se andasse com ela na rua, todos a olhavam, sorriam. “Bicha linda, qual o nome?” Depois não se podia mais andar com ela. Exibicionista, musculosa e saltitante. Enroscava nas minhas pernas, arranhava e puxava em direção oposta. A caminhada não chegava à esquina. Indisciplinada. Pois sim.

(Imagem: Pinterest)
© Helder Herik
Maira Gall