Poderes de Deus

Amigos, suponhamos que um de nós fosse o Deus poderoso. Cada um com a sua vaidade latente, e não me venham dizer que a excluiriam. Vaidade, soberba, jactância... A minha, por exemplo, seria piscar um olho e derrubar chuvas nos sertões sem fim ou ainda estalar um dedo e madurecer seriguelas. Frutinha que regozija a alma. Pois bem, cada um ostentando a sua divindade e, para dá verossimilhança, cada um com o seu diabo lazarento, acorrentado a um poste, raivoso de carrapatos lhe chuparem o sangue. Ao diabo, veja bem, não faltariam motivos a sua hidrofobia.

Um leitor já havia reparado, “em seus textos o diabo flui, vem à tona como se fosse um bom dia, boa noite. Parece que o demo lhe toma as rédeas". Espetáculo de comentário. Renderá outra crônica. Esperem só para ver o texto infernal que virá. Mas voltemos ao assunto. Um de nós sendo o Deus poderoso. De modo que poderíamos apontar um sujeito na rua e dizer, este é ladrão. Ou mesmo dizer em megafones, fulano de tal é ladrão, saiam de perto, chamem a polícia, prendam-no. E todos ficariam sabendo os impostores do mundo. Eu mesmo não conheço ladrão pela cara. Pela cara, seria enganado por todos. Tenho mania de achar que todo sujeito tem bom coração. Confesso ouvir mentiras de pessoas que nunca achei que mentissem, nunca seriam acometidas de tal vilania, e me vejo fazendo esforços para acreditar no loroteiro. Sou capaz de ajudar na mentira. Desembaraço o mentiroso, guio até a saída do labirinto.

Costumo achar um Jesus em cada Judas.

Daí que esses dias cheguei a uma conclusão: os piores mentirosos, os pulhas número 1 do Brasil são os que falam de Deus e conservam a alma do diabo. Não faltam, meus amigos, exploradores da fé. Não faltam cordeiros que deixem o pescoço ao abate. Vejam só o desastre. Em Formosa, interior de Goiás, o Bispo e mais quatro padres, estavam se apropriando das ofertas. Aos olhos de Deus, estes gatunos agiam. Repartiam o apurado como se tivessem trabalhado o dia todo na feira e chegasse a hora dos dividendos. Compravam casas, carros, iphones e pediam pizzas de palmito, - a mais cara do cardápio – com refrigerante light. Ladrões! E pior, bando de ladrões santificados, pois, mesmo desmascarados, ainda existem fieis que lhes queiram defender. “Que é que tem o homem ter um carrinho, todo mundo não tem? Que vira-lata, hoje em dia, não tem um celular?” E o diabo vai agindo no mundo, botando na gente essa mania de achar que todo mundo tem bom coração. Deus me livre e guarde!

Liberdade


Na janela do meu escritório pousa um passarinho. O mais vagabundo e vira-lata deles: o pardal. Defeca e fica me olhando, virando a cabeça pra um lado e outro. Intrigado, fecha um olho, como se fosse um consertador de relógios antigos. Examina-me. Resolvo fazer o mesmo. Fico a imitá-lo, torcendo pra que a esposa não abra a porta e se depare com a cena.

O pardal é um pássaro vagabundo, pois sim. Mas, é justamente aí a sua vantagem. Nenhum outro pássaro no Brasil consegue vagabundear os céus. A calopsita, o canário, o papagaio, o galo de campina, o sanhaçu... Estas criaturas vivem desassossegadas. Coraçãozinho pulando pela boca. Voos curtos, com várias escalas entre as árvores, escondendo-se entre folhas. Estes fugitivos possuem a tristeza de nunca estufar o peito e pousar para uma fotografia. Qual o crime deles, senão o de serem bonitos e cantarem bem. A beleza põe a mesa e, também, põe na gaiola. O pardal não. O bichinho é feião e desafinado. Um desmantelo. E, por tudo isso, é que ele é o detentor dos ares, engolindo tanajuras em pleno voo, ciscando em qualquer quintal, pousando e defecando em qualquer janela.

Se mil vidas tivesse, mil vidas quereria ser um pardal. O mais vagabundo deles.  

Bonecas

Um amigo telefona da França. Pergunta se a passeata das prostitutas estaria repercutindo no Brasil. Fico calado, pensando do que se trata. O amigo se espanta e começa a falar do atraso do nosso país. Que agora só damos importância a bate-boca entre ministros do Supremo. Mas afinal, e as prostitutas, o que têm elas? Pergunto. E contou-me a história. Tim-tim por tim-tim.

Amigo leitor, vejam só: no país dos perfumes e escargots, só se fala das bonecas de silicone. Loiras, ruivas, negras. A preferência do freguês, que paga certa quantia e leva as bonecas para o quarto. Lá ficando por uma ou duas horas nas mais corrompidas praticas do sexo. Para deixar a coisa ainda mais picante, as bonecas possuem um repertório de mais de duzentas freses com variados níveis de equalizações.

As prostitutas francesas com o medo evidente de perder a freguesia, já começam a fazer barricadas e pressionar os políticos (alguns até fregueses antigos). Qual saída teria achado o governo? Segundo o meu amigo, o argumento que se levanta é o de que as bonecas estariam sofrendo abusos, prostituindo-se contra a vontade. A defesa dos cafetões é a de que entre as mais de duzentas frases, nenhuma deixa claro que as bonecas estejam sofrendo abusos.

E a gente aqui, achando que os ministros do Supremo seriam o fim da picada.    

Ximbre

O meninozinho foi chamado pro jogo de ximbre
ele sem nenhuma bolinha
deu doido
e tirou um olho


© Helder Herik
Maira Gall