sábado, 28 de abril de 2018

Nhonho e o Seu Barriga

Sempre fiquei na dúvida se o Nhonho era também o seu Barriga, o opulento homem de negócios. De quem o Nhonho era filho? E a pulga andava pela orelha. Se o Nhonho colocasse um bigode de faroeste e óculos de Clark Kent ficaria cagado e cuspido o seu Barriga, temível cobrador de alugueis. Reparei que só a dona Florinda é que pagava o aluguei em dia. Para ela não havia crise, nem marolas. A dona Florinda era os EUA, o seu Madruga era o Brasil, sempre dando um jeitinho e levando na conversa, o seu barriga era o FMI e o Chaves era um refugiado a viver de sonhos e biscates. Depois eu fiquei sabendo que a dona Florinda era a esposa do Chaves na vida real. Roberto Gómes Bolaños e Florinda Meza García. Marido e mulher. E era a vida real que parecia a ficção. Você já viu o Nhonho e o seu Barriga na mesma cena, no mesmo enquadramento? Puxei pela memória, não lembrava. 


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Nada a temer


Já disse que no Brasil não se matam famosos, sobretudo os políticos. Falta uma grande tragédia nacional a qual devamos nos unir no choro ou na alegria. O sujeito passa de carro e apontamos, olha quem está ali, o deputado fulano de tal e a sua comitiva de puxa sacos, quantos empregos temos dentro daquele carro, quantos mil reais deve ter do nosso bolso naqueles bolsos ali? E o brasileiro fica nisso de apontar com os dedos os larápios. Um marciano dirá que ainda estamos no invólucro. Em um país de menos carnaval o que se apontaria eram revólveres e escopetas. O Brasileiro é a paz mundial. Deem um Nobel ao povo brasileiro. Brigamos pelos pernas de pau do nosso time e nada mais. Não digo que o brasileiro deva sair dando tiros por aí, mas onde estão os justiceiros? Aqueles que atiram na cabeça dos cheiradores de cola e maconheirozinhos de terreno baldio. Nossos justiceiros só atiram nos infelizes que não se aguentam em pé, empurram bêbados e chutam vira-latas. Capaz de verem políticos corruptos – só os corruptos, por favor – e apontarem com o dedo, quantos mil reais deve ter do nosso bolso naqueles bolsos ali?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Vão matar o nosso Lula


“Vão matar o nosso Lula, nosso Lulinha.” Não sei exatamente quem foi que disse ou talvez ninguém tenha dito. Posso ter lido em algum jornal, pode ser engano, trolagem. “O nosso Lula será assassinado.” Alguma mão oculta colocará chumbinho na sua comida, estricnina em seu café. Um fio desencapado enrolará no seu pescoço... Salvem o nosso Lula, nosso Lulinha. O Brasil é um país de poucos assassinatos cinematográficos. Repito, assassinatos cinematográficos. Aqui não se mata nenhum figurão, um político, um ator. Neste país quem morre de tiro são os policias, os ladrões de bermuda nas canelas e o homem de bem que saiu do mercado feliz da vida por comprar um quilo de carne de sol. Este levara uma bala perdida. Figurão só morre nos EUA, os Kenedys e tal. Mas a frase fica no ar, vão matar o nosso Lula, nosso Lulinha. Uma comoção nacional e planetária. Dirá alguém, ressentido, que o nosso Lulinha já estaria morto, só faltando apodrecer. Dirá, um apaixonado, que nosso Lulinha ressuscitará ou no corpo ou nas urnas.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Gravar na horizontal


Fiquei olhando a moça gravar o vídeo na horizontal. Uma amiga segurava o smartphone e mordia chiclete. Quando eu disser três... A moça começou usar os quinze segundo. Meu nome é fulana de tal, sou de Garanhuns, Pernambuco, e o Brasil que eu quero... Aí ela esqueceu o Brasil que queria. Os cabelos ventavam na cara, desconcentrando. Ela puxou um tufo até a orelha e se concentrou. Quando eu disser três... Dessa vez ela acertou tudo, falou dos jovens que não tinham oportunidade de emprego e que jamais teriam experiência pois logicamente não tinha emprego, falou dos buracos na rua e terminou pedindo o fim da corrupção. Corrupção não poderia faltar, é nosso mantra. Depois as duas moças assistiram ao vídeo. Fizeram conchas com as mãos para enxergar melhor. Houve uma insegurança se o país que elas queriam era aquele mesmo. E as duas ficaram decidindo que país iria passar no JN.  

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Michelzinho


Michelzinho vai pra escola. O carro oficial da Republica Federativa do Brasil para em frente ao portão. Michelzinho deixa um naco de catota no banco de couro e desce com a linda Marcela, sua mãezinha. E acontece àquela cena de Hollywood, Marcela ajoelha e beija a testa de Michelzinho. Os coleguinhas acham a mãe do Michelzinho a cara da Dorothy do mágico de Oz. Um coleguinha, vermelho de indignação nacionalista, dirá que o pai do Michelzinho é o senhor das trevas, outro coleguinha, mais didático e assanhadinho, dirá, é gata e pode até parecer com a Dorothy do mágico de Oz, mas casou com o conde Drácula.

domingo, 15 de abril de 2018

Clone


Fico esperando a bomba estourar. Mais dias, menos dias, alguém virá a público, dirá, senhores e senhoras do mundo, a boa nova é que já temos um clone humano, trata-se de fulano de tal...  Um dia a bomba explode, esperemos. Eu mesmo, se fosse um cientista, um Nicolelis da vida,  já teria feito um clone a minha imagem e semelhança. Um orgulho de pai em vê-lo crescer. Primeiros passinhos para um homem, grandes passinhos para a humanidade. Seria o meu Adão domesticado e, já sabemos o script, logo viria a sua Eva e, depois, um Ivo para ver a uva. E a Eva comeria a maçã e Caim mataria Abel e ficaríamos a espera de um Messias.  

sábado, 14 de abril de 2018

Lesma


Observo uma lesma. Paro tudo e contemplo o espetáculo daquele pedacinho de carne se mover. Verdadeiro milagre. A cidade segue a sua pressa diária. É preciso deixar os filhos na escola. É preciso achar uma vaga para estacionar o carro, tomara que o carro caiba, tomara que não se forme uma fila, esperando estacionar, pressão meu coração não aguenta, faço besteira. Alguém pensará, parece uma lesma. A cidade segue sua pressa e eu fico olhando a lesma subir a parede. Pobrezinha tem um corte nas costas de onde sai um filete seivoso. Onde teria se cortado. Vai morrer a bichinha. Vai morrer. Jamais conseguirá subir essa parede. Homens fortes construíram essa parede. Fortes e apressados. Patrão chegasse e eles não tivessem levantado, aí aí. Entre as nuvens o sol aparece, clareia o rastro que a lesma vai deixando. Parece gliter, parece gozinho. Já viu, ela se esfregando nessa parede e o jorrinho de gozo pelo caminho.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Fossas


Lembro uma carta de Isherwood para W. H. Auden, numa correspondências cheia de desculpas, finalizada com “E, veja você, que além de um enxame de doenças, minha fossa veio transbordar hoje pela manhã. Estou, como pode ver, ilhado em doenças e excrementos.” Pois vejam vocês, passei metade da vida sem refletir sobre a importância da fossa. E, nos últimos dias, não faço outra coisa. Uma obsessão. A humanidade se fez com fogo, água encanada, geladeiras e fossas fundas e robustas. Perguntará, um curioso leitor, de onde tirei estas considerações sobre as fossas? Direi: do Chico Sá e seu livro Big Jato, que, além de bem escrito, é divertidíssimo. Livro anedótico e espirituoso. Nele, pai e filho, ganham a vida desentupindo fossas com o auxilio de mangueiras sugadoras e um caminhão, o fenemê.