terça-feira, 29 de maio de 2018

Caminhoneiros e o Presidente


Três homens sentados à mesa, todos do mesmo lado e mesma cara bovina. Se voltássemos no tempo, diríamos que são alunos rebeldes e que entupiram o cadeado com um palito de dente, impedindo a passagem dos colegas na hora do recreio. Agora estão diante de um coordenador, odioso e colérico.  Mas, voltemos ao presente. Os três homens esperam alguém dá o play na filmagem do celular, que treme um pouco, mas estabiliza. É a deixa pra começarem a falar. Um deles, o da ponta direita, é advogado, tem tique nos olhos e começa a ficar nervoso, desfazendo a fuça bovina. Agora o homem é um Rottweiler e logo espumará nos cantos da boca.

O advogado toma a palavra e vocifera contra o presidente do Brasil também conhecido como mordomo do Conde Drácula ,  você não pode ser Deus, você é corrupto presidente, você está acabando com o país, você é o nosso câncer, diz, ainda mais exaltado e dando tapas na mesa.  Copos descartáveis balançam na tábua, mais um pouco de força e tombariam. O país são estes copos, balançando sempre numa corda bomba. Mais um golpe e o país tombará de vez.

Os outros dois homens ficam sentados, as caras bovinas e uma certa angústia esperando a vez de falar. Se voltássemos no tempo, diríamos que é a angústia de quem apresenta trabalho no colégio. Ficar esperando a deixa do colega, pedir a Deus pra que o amigo nerd demore um pouco mais ou uma bomba exploda ou toque o fim da aula. Mas, voltemos ao presente. Os outros dois homens ouvem o advogado nervosinho, agora espumando nos cantos da boca. Os dois homens piscam os olhos cada vez que a mesa é estapeada.

O homem sentado ao meio é o representante dos Caminhoneiros Autônomos. Começa a falar contra a grande emissora de tevê do país. Primeiramente eu queria dizer que não fui chamado pra nenhuma conversa, meu telefone pega o aparelho e coloca sobre a mesa estapeada não tocou em nenhum momento, então não venham dizer que falaram comigo, isso é mentira. Esta emissora apoiou a ditadura e apoiou o golpe contra a presidenta. Vocês estão com o cu não mão, seus mercenários.

A câmera do celular procura abrir um zoom, mas a resolução granula no ambiente escurecido. Ainda assim, segue a filmagem com apenas um homem enquadrado. Quero dizer que só vamos parar quando as promessas do presidente saírem publicadas no Diário Oficial e ainda é pouco, senhor presidente. Esses 0,46 centavos eu não quero de esmola. A classe não vai ligar os motores. Vamos ver, vamos pedir a Deus, mas a classe seguirá nos acostamentos. O movimento, senhor presidente, não está bloqueando nenhuma via. A única via interrompida deste país e a sua via urinária.

O zoom e desfeito e a câmera do celular volta a enquadrar os três sujeitos. O último deles pigarreou, é sua hora de falar, colocará a republica abaixo. Napoleão pigarreava antes de falar e por muito pouco não conquistou o mundo. Ainda uma vez mais o homem pigarreou e mostrou o punho fechado pra câmera do celular. Senhor presidente, tome isto! E um dedo brotou de um punho.


(arte: Pinterest)

domingo, 27 de maio de 2018

Passarinho em dia de chuva


Passarinho pousa no galho. Olha desconfiado, faz cerimônia e questiona se pode avançar até junto de outro passarinho. Está frio e o momento é de urgência. As penas estão encharcadas, pesando muito manter o voo. Logo tombaria em alguma poça ou lamaçal. Bateria as asas esperneando, numa inutilidade de voo. Um gato que enfrentasse a chuva o pegaria. Morderia a garganta asfixiando e perfurando veias.

Assim são todos os passarinhos que pousam numa árvore, num dia escuro, de frio e chuva: olham desconfiados, fazem cerimônia e questionam se podem avançar até junto de outro passarinho...

Vencida a repulsa ou timidez, vão as criaturinhas se aninhando lado a lado, um esquentando o outro. Coraçãozinhos batendo o mesmo compasso e penar. Nesta hora um já começa catar pulgas no outro, um coçar e fazer cafunés mútuos vai se formando. Está consolidada a amizade.

Cai à noite com mais chuva e frio. Folhas das árvores balançam, galhos pendem e esta será a toada da madrugada para as pobres criaturas. Quantos dias aguentariam, vento, frio e água pingando de buracos na folhagem. Quantos dias?

Acordo cedo. Religiosamente às quatro horas da manhã. Levanto, bocejo e dou por falta dos passarinhos que a essa hora começam a entoar os primeiros pios e trinos limpando a garganta. Suponho dormirem. Molhados e amontoados. Devem equilibrar-se mal em galhos escorregadios e chacoalhados.

Mais tarde decidirão a vida. Ficar no galho ou ir encarar as chuvas de inverno, buscar comida: um farelo de pão encharcado, um mosquito tombado da chuva, um grão de terra lavado.

(imagem: Pinterest)

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Esperando chuva



Esperamos as chuvas, o frio, o inverno que tarda. Avança o ano e nada das trombas d’águas. De consolo parece o calorão ter amenizado. Já não era sem tempo. Tão necessários, os ventiladores pareciam perder eficiência. Sopros derrubavam papéis, viravam páginas de livros, barulhavam e outras aporrinhações.

São tempos confusos e alterados. Na adolescência, ao voltar das aulas noturnas, tomava-se chuva e ventos cortantes. Doíam os ossos, mãos e pés entrevavam e a muito custo e lama chegava-se em casa. Na infância vivia-se trancado. Olhava-se pelo basculante. E tudo era chuva, garoa ou cerração. Cada amigo em sua casa, cada casa parecia um país distante. E praguejava-se contra Deus e o rigor dos invernos. Chove, o povo reclama, faz sol, o povo reclama, diziam. E Deus era absolvido com os mais velhos ralhando os mais novos.

Ano passado, por essa época, o mundo se acabava em água. Paredes molhadas, mofos e camas frientas. Deitava-se e só com o tempo as cobertas esquentavam.

(Imagem: Pinterest)

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Tiro


A mulher sacou a arma e meteu bala no bandido. Um vídeo sem áudio, um filme mudo. Uma pena queria ouvir o estampido, disse um revolucionário de zapzap. Era pra descarregar o revólver na cabeça, estourar tudo, disse outro revolucionário. E ninguém vibrou com os que ficaram vivos, os que retornariam as suas casas, sãos e salvos. A vida, os sonhos... O que valeu a pena foi o tiro rasgando e carne, quebrando os ossos. Bandido bom é bandido morto, pois sim! O leitor não repare a minha fraqueza e raiva desmanchada, mas sou um sujeito que pensa nos depois, nos amanhãs e nos avessos das coisas (um poeta jamais poderia ser um juiz). Morreu quem mereceu, tivesse no seu canto nem chuva tomaria, pois sim. Mas, eu penso no velório. Na mãe do infeliz. Combalida e também baleada, tiro que o matou, vai matando-a também, tremula, morta de vergonha, morta de fraqueza, morta de tantos conselhos em vão e aos ventos. A cabeça baixa, a vergonha e a dor. E era dia das mães.

sábado, 12 de maio de 2018

Médico


Faça caminhadas com as primeiras horas do sol. O médico sugeriu olhando-me com descrença. Passaria o dia sentenciando tumores e extração de fígados. Aborreceria com um paciente sedentário estragando a vida em poltrona macia, lendo romances e poesia. O senhor tem um sarcoma, seus ossos esfarelam e o sangue coagula. Teria dizeres na ponta da língua. Tocaria no ombro, mandaria sentar... Faça caminhadas com as primeiras horas do sol e só me volte com um câncer. Teria dito e eu não ouvi. A secretaria pediu que o próximo paciente entrasse. A cara baixa, o passo lento, os cabelos amorfinhados. Este sim iria ao abate.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Fogo no Prédio


Segundos a mais e aquele homem seria resgatado pelos bombeiros. Chamas lambiam as paredes e vidros estalavam, crepitando. Quem seria aquele homem, qual a sua idade, teria esposa, filhos, aquele homem teria um cão? Cinco andares caíram por cima daquele homem, a corda rompeu e todo o prédio veio abaixo. Moradores apareceram e perguntaram por Ricardo. Onde estará o Ricardo? Alguém mostra o vídeo pelo celular. É o Ricardo, meu Deus do céu, é o Ricardo. Ele que saiu acordando todo mundo. Fogo, está pegando fogo, acorda, corre. O câmera aponta para uma senhora com as mãos na cabeça, dá um close. A senhora morava no prédio? Pergunta uma repórter. Não, minha filha, quem morava era o Ricardo. Os bombeiros gritando pra ele pegar a corda. Aquela agonia, aquela agonia toda. Ricardo gostava de Charlie Brown Jr, gostava de rock. Saia toda madrugada pra descarregar caminhão. Fim da tarde ele voltava, magro, alegre, e uma cara de feriado.