Esperando chuva



Esperamos as chuvas, o frio, o inverno que tarda. Avança o ano e nada das trombas d’águas. De consolo parece o calorão ter amenizado. Já não era sem tempo. Tão necessários, os ventiladores pareciam perder eficiência. Sopros derrubavam papéis, viravam páginas de livros, barulhavam e outras aporrinhações.

São tempos confusos e alterados. Na adolescência, ao voltar das aulas noturnas, tomava-se chuva e ventos cortantes. Doíam os ossos, mãos e pés entrevavam e a muito custo e lama chegava-se em casa. Na infância vivia-se trancado. Olhava-se pelo basculante. E tudo era chuva, garoa ou cerração. Cada amigo em sua casa, cada casa parecia um país distante. E praguejava-se contra Deus e o rigor dos invernos. Chove, o povo reclama, faz sol, o povo reclama, diziam. E Deus era absolvido com os mais velhos ralhando os mais novos.

Ano passado, por essa época, o mundo se acabava em água. Paredes molhadas, mofos e camas frientas. Deitava-se e só com o tempo as cobertas esquentavam.

(Imagem: Pinterest)

© Helder Herik
Maira Gall