Passarinho em dia de chuva


Passarinho pousa no galho. Olha desconfiado, faz cerimônia e questiona se pode avançar até junto de outro passarinho. Está frio e o momento é de urgência. As penas estão encharcadas, pesando muito manter o voo. Logo tombaria em alguma poça ou lamaçal. Bateria as asas esperneando, numa inutilidade de voo. Um gato que enfrentasse a chuva o pegaria. Morderia a garganta asfixiando e perfurando veias.

Assim são todos os passarinhos que pousam numa árvore, num dia escuro, de frio e chuva: olham desconfiados, fazem cerimônia e questionam se podem avançar até junto de outro passarinho...

Vencida a repulsa ou timidez, vão as criaturinhas se aninhando lado a lado, um esquentando o outro. Coraçãozinhos batendo o mesmo compasso e penar. Nesta hora um já começa catar pulgas no outro, um coçar e fazer cafunés mútuos vai se formando. Está consolidada a amizade.

Cai à noite com mais chuva e frio. Folhas das árvores balançam, galhos pendem e esta será a toada da madrugada para as pobres criaturas. Quantos dias aguentariam, vento, frio e água pingando de buracos na folhagem. Quantos dias?

Acordo cedo. Religiosamente às quatro horas da manhã. Levanto, bocejo e dou por falta dos passarinhos que a essa hora começam a entoar os primeiros pios e trinos limpando a garganta. Suponho dormirem. Molhados e amontoados. Devem equilibrar-se mal em galhos escorregadios e chacoalhados.

Mais tarde decidirão a vida. Ficar no galho ou ir encarar as chuvas de inverno, buscar comida: um farelo de pão encharcado, um mosquito tombado da chuva, um grão de terra lavado.

(imagem: Pinterest)
© Helder Herik
Maira Gall