Mágica de irmão


O irmão soprava as nuvens e elas formavam bichos medonhos tapando o sol. Imensos algodões que se partiam e juntavam com outros pedaços. Um quebra cabeças que ele montava soltando o ar dos pulmões.
— Não estou conseguindo moldar as nuvens com a força da mente. Quando é assim, só vai soprando mesmo. — Reclamava num tom que mostrava mais superioridade que chateação.
O irmão ficava vermelho, precisando sentar um pouco e tomar fôlego. Dizia ter nascido com super poderes. O único irmão abençoado por Deus! Loiro, olhos verdes, e uma mania de viver asseado, cheirando a alfazema. Nossa avó o repreendia. Tivesse humildade, Jesus havia sido bem maior, mesmo sendo bem menor.

— Duvida você transformar aquela nuvem num rinoceronte! — Desafiei o irmão.
— Agora não quero, cansei.
— Conversa fiada!
— Não é fácil soprar isso tudo, guri. Nuvens pesam toneladas. 

O irmão ia me ganhando na conversa. Teorizava sobre a matemática do sopro, técnicas e aerodinâmicas. Uma pedante chateação, até que, de uma hora pra outra, ele mandou olhar pro céu.

— Vê lá, Gurizinho, teu rinoceronte nas nuvens. Fiz que você nem viu, otário!
— Parece mais é uma girafa.
­— É um rinoceronte, desses mais modernos, mas só vê que é inteligente, guri. — O queixo do irmão saltava pra frente, mania que ele tinha em dar assunto por encerrado. Um dia Mike Tyson acertaria um soco naquela queixada. O irmão dizia que Tyson só derrubava lutadores mexicanos. Tudo bunda mole. O dia que pegasse um pernambucano ele beijaria a lona!
— A senhora vê rinoceronte no céu, vó? — Perguntei.
— Nem vejo no céu e nem vejo na terra.
— A senhora acha que quem ver isso é inteligente?
­— Inteligente é quem olha e ver o Deus Pai! Diabo rinoceronte. Vão arrumar o que fazer.

E o queixo do irmão foi murchando, beijando a lona.
(Arte: Pinterest)
© Helder Herik
Maira Gall