domingo, 29 de julho de 2018

Opinião sim, opressão não



Impressões sobre o FIG. Se analisado pelo viés conservador (que existiu) ou viés religioso (que existiu) ou viés dos eleitores do mito (que existiu) ou viés dos saudosos de uma ditadura (sim, existiu), este foi sim, o pior FIG. Agora, se analisado pelo viés da luta por inclusão (que existiu) ou viés da ruptura que a arte propõe (que existiu) ou viés de que o grito entalado na garganta foi solto (sim, existiu), este foi sim, o melhor FIG.

Curioso que mocinhos viraram vilões e vilões viraram mocinhos. Artistas admirados (que nos fazem sair de casa), de uma hora para outra, viraram vilões blasfemadores e mataram o FIG com requintes de crueldade (goste ou não, eles possuem o direito de falar o que falaram, afinal, vivemos em uma democracia, não é mesmo?). Curioso que políticos sempre criticados, (que nos fazem ficar em casa), de uma hora pra outra viraram salvadores da pátria, heróis angelicais voando sobre nossas ruas esburacadas, sobre nossa falta de emprego e violência crescente. Um bater de asas que enxota professores e opositores (goste ou não, os políticos possuem o direito de serem amados, afinal, vivemos em uma democracia, não é mesmo?).

Abaixo as divisões, abaixo os julgamentos. Abaixo quem é de Deus e quem é do Diabo. Vamos juntos, de mãos dadas.

No mais, Lula livre e um beijo pras travesti!

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Prova de amor maior não há



Jesus está voltando, glória glória aleluia, hoje na cidade do sapo barbudo, a cidade do nove dedos, Luladrão, hoje à noite na cidade: o dia do juízo, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céuo maior pandemônio do século, quebra pau, barraco, apocalipse, é melhor jair se acostumando, dizem e repetem os soldados romanos, é melhor jair se acostumando, quem já viu um Jesus traveco, com o filho de Deus não se brinca, e se meu filho perguntar se Jesus é homem, eu vou dizer o quê, é dinheiro público, é meu dinheiro, temos que botar ordem na casa, esses viados querem respeito e não querem respeitar, só quem quer essa bagaça aqui são os comunistas, esse traveco é do PT, quem é esse desembargador que permitiu essa safadeza, isso é aquela gente dos direitos dos manos com aqueles professores de faculdade, aqueles grevistam que não querem trabalhar, aposto que vão tirar a roupa e fazerem amor entre si, essa gente aí é assim...  nem todo mundo verá Jesus Cristinho, os soldados romanos querem quebrar Jesus Cristinho ao meio, enforcar, crucificar, já pensou, Jesus assim nesse morre-morre entre os séculos, Jesus Cristinho morrendo e vivendo, vivendo e morrendo e voltando e sendo morto pelos soldados romanos, os assassinos que são filhos de Deus e irmãos de Cristo, já viu, já reparou, esses irmãos se matando, tipo Caim pegando um osso e matando Abel, os miolinhos de Abel no chão, os miolinhos se mexendo, lesminhas lesminhas, Caim lá, morto de inveja e ainda metendo o osso no goela de Abel, estourando os miolos e metendo o osso goela abaixo, o demo pregando justiça, o demo sendo ouvido: bandido bom é bandido morto, e Caim dizendo a Abel: é melhor jair se acostumando, e o assassino de Abel, Caim, o invejoso, possesso, sem saber os demais dilemas da vida, só sabendo mesmo que bandido bom é bandido morto, e hoje, olha isso, hoje, Caim quer porte de armas, essa coisa de matar com pedaço de osso é o maior atraso, Caim agora quer porte de armas igualzinho aos Americanos, os Americanos de verdade, que formam uma civilização avançada e estão no céu, além das nuvens, estão no céu e com armas na cintura, os Americanos da América de verdade, que é a América do norte, vivem lá no céu porque matam os seus Abels, porque bandido bom é bandido morto e lá eles apontam armas de verdade, aqueles canos de ferro e aço, aqueles canos cromados de titânio e adamantium, tudo cromado, tudo grafite fosco, e os soldados romanos da América de mentirinha, os soldados romanos da América de merda, os soldados romanos aqui, macaqueando macaqueando, os soldados romanos aqui, apontando com os dedos, fazendo mira com os dedos, assim: pegando os dedos e fazendo de conta que são armas poderosas, tipo 38, tipo pistolas e bazucas, os soldados romanos aqui, estagnados, os soldados romanos da América de merda, essa América fake de facebook, sem filmes e séries de ação, só essas chanchadinhas em preto e branco, os soldados romanos babando os Americanos da América de verdade, os trampizinhos que usam armas e matam seus Abels, e os soldados romanos aqui com esses dedinhos magros, subnutridos, engravetados, os soldados romanos ensinando nossas criancinhas a fazerem aquele gesto da arma, aquele gesto de tiro, colocando as criancinhas no colo e fazendo aquele geste de tiro com o dedo, os soldados romanos com os dedos melados de merda, os soldados romanos da América fake querendo ser uma espécie de trampizinho, querendo trampizar, querendo mitar mitar, querendo parar de brincar com o dedo, essa coisa de país subnutrido, subalimentado, suburbano da América falsa, América fake de facebook, os soldados romanos querendo porte de armas porque só Deus no coração não basta e é preciso uma arma na cintura pra proteger os seus lares e as suas famílias, uma arma na cintura e Deus no coração pra se sentirem seguros e matarem os Abels e o Jesus Cristinho, hoje à noite na cidade, o dia do juízo, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, hoje na cidade do sapo barbudo, a cidade do nove dedos.

domingo, 15 de julho de 2018

Kuki



Kuki apareceu pela última vez num fim de tarde. Vestia uma camisa da seleção e empurrava um carrinho de supermercado. Parava de porta em porta, pedindo alimentos e roupas usadas. Zico, Sócrates, Júlio César... O Brasil inteiro havia perdido pênaltis naquela Copa de 86. Kuki ganharia aquelas camisas. Mantos de mais uma derrota em diversos números e tamanhos.  

Kuki trazia uma cachorrinha raceada com pastor alemão. Filha, comigo Filha, chega neguinha! E lá vinha a filhote, pulando e cabeceando suas pernas.

— Ela morde?
— Morde, mas não morde. Safada só tem faro. Uma égua!

A avó Virgulina trazia água num cantil de barro e uma caneca de alumínio. Kuki bebia. Largas goladas, sons de engulhos e o pomo de adão galopando. Filha pulava e latia em desespero. Kuki fez uma concha com a mão e despejou água. A cachorrinha bebeu apressada, os olhos no dono, agradecida.

Filha fora achada nos matos de Heliópolis. Três garotos acuaram-na, sacudindo as bombas que sobraram da Copa de 86. Filha socando-se nas moitas a buscar refúgio, o coraçãozinho espocando nas costelas. Kuki enxotou os meninos. Riquinhos filhas da puta, bando de merdas sem pai, nem mãe. A senhora desculpe os palavrões. Aqueles demônios iriam matar a bichinha.

Ali estava o São Francisco das ruas de Garanhuns. Um sem teto a socorrer a cadelinha assustada e empestada de carrapichos na pelugem.

— Foi amor a primeira vista, num foi, nega?!

Kuki aparecia de tempos em tempos e daquela vez a magreza havia acentuado. O avô Zevito espantou-se. Um espigão! Comparou Kuki com Sócrates. Diabo que ache um pelo outro, — resmungou a avó Virgulina, ainda com raiva do pênalti perdido pelo jogador.

O avô Zevito estava certo na comparação. Kuki emagrecera em demasia, desleixava com a barba e cabelo. Quem lhe pusesse uma camisa do Corinthians teria o seu Sócrates. Mas o nosso Kuki era mais envelhecido, desgastado pelo tempo nas ruas. Sol e garoa teriam lhe pesado muito nas costas. O avô Zevito pediu a Kuki que subisse a camisa até o peito e constatamos o corpo encaveirado, pipocado de comichões.

Os avós socorreram o desgraçado. Deram comida, ordenaram que tomasse banho e ofereceram um quarto no quintal, onde se guardava ferramentas e tralhas. Viveria independente da casa, sem dever satisfação. Teria água, luz e comida. Um endereço. Kuki meteu-se em choro, coçou a cabeça, disse que era um bicho do mundo, parido e criado no mato. No começo achei que tudo aquilo fosse orgulho e tive raiva de Kuki. Dispensar a boa vontade dos avós para viver no oco do mundo, emagrecendo e fedendo, fedendo e emagrecendo todos os dias da vida. Depois é que percebi a grandeza de Kuki. Não queria incomodar os avós, ocupar um espaço com seus cacarecos, seu cheiro e seu espírito.

Lá se foi Kuki subindo a rua. Vestia uma camisa da seleção, empurrava um carrinho de supermercado e parava de porta em porta. Filha rodopiava em suas pernas, agradecida por ter um amigo. Foi a última vez que o vimos.


domingo, 1 de julho de 2018

Sacrossanto



O padre Gabriel fez uma pausa. Olhou para a testa de todos, onde fizera uma cruz com borras de cinzas, depois subiu o pomo de adão e trouxe o microfone até a boca:

— São Pedro foi um mártir e o crucificaram de cabeça para baixo para que morresse afogado com o próprio sangue.

Na manhã seguinte a avó Virgulina acordou com um gosto de sangue na boca, cuspiu na pia e fez gargarejo com leite de magnésia. A noite, acendeu uma fogueira para a alma do santo crucificado de ponta cabeça.

Por três vezes o padre Gabriel havia se benzido e por três vezes disse que São Pedro havia negado Jesus. Peguei raiva do santo acovardado. Cristo sofrendo humilhações, molhado em suor e sangue, carregando uma cruz de timborana, agonizando os últimos instantes e São Pedro virando-lhe as costas.

— Frouxo cagalhão, isso sim!

Pensei alto e a avó Virgulina puxou-me na orelha. Passei o dia sem tevê e merenda. Galego, o irmão do meio, comia e bebia a minha parte. Que morresse engasgado, ele e o santo cagalhão. Moreno, o irmão mais velho, trazia pedaços de bolo escondidos na blusa. Migalhas para o irmão que se revoltava contra o mártir da avó.

— Se fosse santo, teria derrubado os soldados, libertado Cristo. Amigo da onça. — Resmunguei.

Moreno olhou em volta, receoso dos olhos da avó Virgulina. Cochichou que os santos não eram tão poderosos e só tinham poder depois que morriam, não podendo entrar em guerra de ninguém. Só ajudavam as pessoas para se casarem, passarem de ano e conseguirem empregos. Em troca exigiriam que as pessoas rasgassem os joelhos no chão, rezassem e levassem ramos de alecrim acompanhando procissões. As demais questões ficavam com os homens e Deus.

A fogueira da avó Virgulina estalava a madeira seca. Bolinhas de fogo subiam e apagavam. Sacudi umas pedras e as bolinhas saltaram aos milhares. Um empesto subindo aos seus e depois apagando.

— Sou o Deus criador de vaga-lumes, centenas, milhares, milhões!

A avó Virgulina puxou-me na orelha. Estava profanando a fogueiro do santo. Heresias, blasfêmias. Um desrespeito! Voltei aos castigos sem tevê e comidas de milho. Galego metia cangicas, pés-de-moleques e pomonhas na boca. Fartava-se comendo a minha parte. Que morresse engasgado, ele e o santo. Moreno estava longe, entretido com a vizinha vestida de matuta. Mais tarde os dois iriam desaparecer e a rua toda falaria que foram perder o cabaço.

Escutei que as tias chegavam, traziam comida e perguntavam por mim. Por um instante virei assunto. Alguma tia se apiedaria de mim e repreenderia a severidade da avó Virgulina. Que nada! Logo o cabaço de Moreno viraria assunto. As tias clamariam a avó que não castigasse a volúpia do neto fujão. Se o pai de Gracinha fosse brabo, Moreno morreria cortado de faca. Uma imprudência sem tamanho. Mas, o bebão não aguentava um sopro de vento e a fama era que ele é quem havia descabaçado a filha.  

Uma tia abriria a porta do quarto, acenderia a luz e chamaria pelo sobrinho que atentava contra os santos da igreja católica. Fingi que estava dormindo. Evitaria vergonhas e explicações. “Não concordo com São Pedro, sua covardia e sua santidade.” As tias colocariam pilhas na avó Virgulina: esse menino é o diferentão, a senhora corte essas maluquices enquanto pode com ele... E a avó aumentaria o castigo confinando-me num quarto escuro para sempre. Melhor fingir que dormia. Pois sim.

A tia havia se apiedado de mim. Trouxe um prato e deixou no pé da cama. Passou a mão em minha testa — a mesma testa que o padre Gabriel havia feito uma cruz de cinza.

— Coma tudo e esqueça esse santo de merda!