Futebol nosso de cada dia



Vai ser o melhor do mundo, o pai do guri jogador dando entrevista, orgulhoso e papudo, os olhos liquefeitos, é um menino com a cabeça no lugar, fez um gesto no ar como se fosse a cabeça do guri jogador, celular da moda e chuteiras da moda, só tem vaidade com isso, no mais, não mais, caso raro para a idade do jogador, o repórter comenta, caso raro, nessa idade outros jovens querem carros e baladas, alguém do lado diz, duvida que ele não pegue uma maria-chuteira, bote no carrão e bola pra dentro, ra ra ra.

A reportagem corta pro guri jogador vestido com a camisa do melhor clube do mundo, a nova promessa do futebol brasileiro, ágil, corta pelo meio, pela lateral, cisca pedala dribla e não cai, não cai é maneira de dizer, aqui no Brasil tudo cai, todos caem, enfim o guri jogador não cai tanto como se vem caindo ultimamente, é a nova jóia do futebol brasileiro, o novo Pelé, alguns dizem, o novo Pelé, aí surge o risinho de alguém do lado, alguém que rir em ra ra ra, no fundo da cabeça desse alguém o macabro demo soprando dizeres, só se for o Pelé pela cor, porque Pelé só tem um, o macabro demo massageando o cérebro daquela proeza, aquela assertiva, só na cor, guri, só na cor, ra ra ra.

Se fosse no Brasil, veríamos o guri jogador vestindo a camisa do clube por cima de uma camisa pólo, aquela breguice, aquele emarfanhado de gola por cima de gola, manga por cima de manga, dobra na logo da Petrobras quando a Petrobras era altaneira, em lá Espanha, em lá Madrid é diferente, o jogador já chega vestidinho, blusa colada, músculos saltados, 4% de percentual de gordura, gomos e gomos, cliques e cliques, aperto de mão com o presidente Florentino, o velhinho galáctico, sorrisos e cliques e cliques.

A reportagem corta pro guri menino subindo o túnel do Santiago Bernabéu. Último degrau, mais alguns passos e o guri menino pisa com o pé direito e toca a grama e se benze e a torcida grita e tira fotos e o guri jogador faz embaixadas, as mesmas embaixadas de sempre, bola no pé, bola na coxa, bala no peito, meio peito meio queixo, bola na cabeça, bola atrás do pescoço, o ápice da mesmice, alguém diz que isso não é jogar futebol, quero ver na hora do jogo, onze contra onze, Pelé sim, Pelé sim, esse aí só na cor, o risinho esticado na boca, o macabro demo massageando o cérebro proeminente.

O guri jogador terá a missão de substituir Cristiano Ronaldo, o robozão, o maior artilheiro da Champions League, o autor do gol mais bonito da Champions League, o pica das galáxias que mais deu passes pra gols na Champions League, terá vaga no time, pergunta o ancora aos especialistas que nunca jogaram futebol e aos especialistas que sempre jogaram futebol, acho que o guri jogador será emprestado pra algum time de segundo escalão, diz um especialista que nunca jogou futebol, ganhar experiência por uns dois anos, adaptar-se ao clima europeu, os especialistas que nunca jogaram futebol concordam entre si, os especialistas que sempre jogaram futebol ficam reticentes, nutrem a torcida no menino estourar de cara, realizar o sonho de menino de periferia, eles se veem nele, no guri jogador, aquela vontade de jogar com os pernas-de-pau de hoje, só brucutus, só brucutus, os especialistas que sempre jogaram futebol dão arrudeios na resposta, driblando, pedalando a resposta, os especialistas que nunca jogaram futebol falam bem, colocam as concordâncias e os plurais, estufam os peitos flácidos, se impõem, os especialistas que sempre jogaram futebol ficam ali, naquela coisa de driblar os plurais, firulando pedalando ciscando, substituir CR7, diz alguém do lado, nem na cor, guri, nem na cor, ra ra ra, o macabro demo massageando a fineza argúcia.

© Helder Herik
Maira Gall