Gostar de canários



Não tenho forças para gostar de canários e tudo porque gostar me faria sofrer. Sim, a gente sofre um bocado com as coisas que gosta. Sofremos também com as coisas que odiamos, mas o ódio, por estar muito próximo de desprezo, acaba se diluindo com uma coisa e outra e se tolera. Mas quando gostamos de algo sofremos um bocado. O meu gostar seria revolucionário e constrangedor. Por exemplo: se eu gostasse de canários e visse o bichinho preso, não daria outra, respiraria fundo e o libertaria da gaiola. Vá, meu bichinho, vá e ganhe os céus, eu diria dramatizando o gesto libertador. Em seguida eu quebraria a gaiola em trocentos pedaços, aniquilando aquela prisão.

O problema é que não conseguiria soltar todos os canários do mundo. E, sejamos sinceros, o que eu conseguiria seria encrencar-me com meio mundo de gente. A encrenca número 1 seria com os donos de canários. Senhores bigodudos, barrigudos e com uma lasca de capim seco entre os dentes. Não tenho dúvidas que socos, facas e tiros encontrariam o meu corpo justiceiro. A encrenca número 2 seria com a justiça. Algum juiz opulento, — se eu sobrevivesse aos socos, facas e tiros — me poria na cadeia. Iria ao xilindró, veria o sol nascer quadrado por umas duas décadas. E pergunto, que advogado conseguiria tese que sustentasse minha absolvição? Senhores jurados, — diria o advogado — acreditam vocês em reencarnação? Pois digo que este homem é a reencarnação de são Francisco de Assis, o santo protetor dos animais. Se este homem praticou os crimes de soltura e destruição de gaiolas, foi por obedecer ao espírito do santo. Se existe crime cometido, não é culpa deste homem — e me apontaria o dedo e todos me olhariam —, este crime foi cometido pelo espírito que o habita. Condenem o espírito, poupem o corpo ventríloquo, o corpo marionete, o corpo voodoo.

Gostar de canários me traria enormes problemas como se pode ver. Se bem que... Se bem que eu poderia fazer um troço atribuído a meu pai. Contam que na juventude meu pai teria trabalhado em feiras pelo interior de Pernambuco. Vendia chapéus e botas. Terminando o expediente ele comprava um passarinho e o soltava na mesma hora e na frente de quem o vendeu. O homem ficava uma fera, sentia-se enganado, ao que meu pai rebatia que, tendo comprado a ave, faria dela o que bem entendesse, inclusive um ser livre. Filhinho de peixe, peixinho é.

Agora veja mesmo o tamanho dessa judiaria. Uma senhora de uns oitenta anos chegou as presas com seu canário em uma clínica veterinária. A mais cara para que mostrasse o maior amor pelo bichinho. Era o melhor cantor do mundo — ela dizia ao veterinário —, nunca tinha visto uma coisa dessas, uma afinação que só mesmo vendo, quer dizer, ouvindo, mas de uns tempos pra cá ele se calou. Dei o melhor alpiste e água só se fosse mineral, mudei o Julinho de lugar, pus ele perto do rádio e da televisão. Nada do meu menino cantar. Estava realmente triste aquela senhorinha. Queria mesmo a melhora de seu bichinho e sofria com isso. Há um detalhe que não posso deixar de mencionar. O canário se chamava Julio Iglesias! Porque a ave teria vindo da Espanha e teria um canto com sotaque madrilenho, segunda a velhinha.        

Pois o canário estava sem cantar fazia dias e a senhorinha sempre muito triste. Até lhe bater na cabeça a ideia de levar o pobre até a clinica. Pediu pelo amor de Deus que o veterinário devolvesse o canto ao Julinho. O veterinário percebeu algo estranho com a ave. Estava manquejando. Que seria aquilo? Ao pegar o bichinho viu que o pobre tinha um anel de metal na pata direita, colocado logo nos primeiros dias de nascido. Era um anel de identificação para um caso de fuga ou roubo e que foi colocado por amor. Tinha um chip embutido e enviava sinais para um GPS, tudo ideia de um neto metido a hi-tech. Com o passar do tempo Julinho foi crescendo e o anel começou apertar. Agora a pata de Julinho estava numa gangrena só e não havendo reparo, nem emenda, o jeito foi amputar com um alicate. Nessa hora o bichinho esperneou e a senhorinha vendo o toco da pata pendido de lado, caiu no choro. Meu Julinho, meu menino, meu menininho.

E o certo é que o nosso Julio Iglesias não tinha canto madrilenho, nem nada. Era tudo gemido, dor e agonia até calar de vez. E fico aqui pensando se o canto dos canários não são um acorde de choros e lamentações? Mesmo esses canários selvagens, nascidos e crescidos soltos no mundo, cruzando os céus e se embrenhados nas matas, não estariam eles chorando os irmãozinhos presos? Mesmo os irmãozinhos bem tratados com alpiste, água mineral e anel de identificação. A senhorinha voltou pra casa com um Julinho que batia as asas para se equilibrar numa perna só. Levava a perninha decepada no bolso.

© Helder Herik
Maira Gall