quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A bruxa das injeções



Uma moça entrou sorrindo na sala, “essa garota linda vai tomar vacina hoje?”. Era a enfermeira. Jovem, bonita e alegre. Alguma coisa estava errada. Onde estaria a bruxa velha com os cabelos desgrenhados e verruga na ponta do nariz? Onde estaria a cara de enfado e a roupa respingada de sangue? Poderia ser uma estagiária e aquela beleza toda estaria disfarçando um ser demoníaco. Lobo em pele de cordeiro. Seria inexperiente e estaria na sua primeira semana de enfiar agulhas pontudas em criancinhas inocentes. Teria acordado naquele dia com um único pensamento: furar todas as criancinhas do mundo. Uma, duas, três vezes. E a minha filhinha de dois meses seria a sua bonequinha de espetar agulhas. Um vodu de carne e osso.

A enfermeira ficou de costas para mim e trocou umas duas palavras com a minha esposa. Que teria dito? Depois alisou os cabelos de minha filha, “que amorzinho que ela é”. Minha filha parece ter um geniozinho difícil, já se percebe a rebeldia em esticar o corpo, estapear a mamadeira e nos meter beliscões, mas das palavras da enfermeira em diante, ela ficou um “amorzinho”. Que diabo estava acontecendo?

A enfermeira virou-se pra mim. Seria agora que ela me transformaria em sapo ou lesma. “O senhor pode entregar o cartão de vacina?” — Antigamente o cartão de vacina era um pedacinho de papel cheio de carimbos e datas. Trazia ainda uma foto grampeada que logo era salpicada pela ferrugem. Exibir o maior número de carimbos fazia-nos levantas o queixo e estofar o peito. Valentões, sim senhor! — A enfermeira ficou rabiscando a cartão, virando páginas e fui ao encontro da esposa que me chamava com um gesto de cabeça. “Pode deixar que eu seguro ela, precisa você segurar não”. O que era isso agora, teria a enfermeira enfeitiçado minha esposa? Fazia poucos segundos que ela estava apavorada e agora arrumara a coragem de enfrentar o fogo cruzado. “Não, eu seguro, pode deixar”, disse eu, abraçando minha condição de pai. “Pode deixar que eu seguro”, decretou a esposa. Estava sob feitiço, pobre criatura. Nossa filha a beira do abate e ela entregando-a de bandeja.

“Vamos então a primeira dose, essa é molezinha”, disse a bruxa trazendo a bisnaga para a boca de minha filhinha. “Acorda, neném, acorda”, continuou a bruxa, docemente. “Hoje ela tá muito preguiçosa”, disse a esposa. “Eita, que olhão bonito”, disse a bruxa. “Acordou mamãe!?” disse a esposa. A bruxa pegou a segunda dose, seria a primeira das três injeções. Levantou a seringa, deu petelecos e esguichou um pouco do líquido para tirar o ar. Dizem que se o ar entrar na seringa a pessoa pode aleijar e tudo. Se isso acontecesse eu a queimaria viva ali mesmo com ou sem apoio da Santa Inquisição.

 Minha esposa já havia baixado a roupinha da nossa bebê. “Deus do céu, que coxa mais gostosa”, disse a bruxa. “Dá última vez que a pesei ela tava com cinco quilos e quinhentos”, disse a esposa. Ela é bem crescida pra ter apenas dois meses”, disse a bruxa. Estavam amigas, era isso? Agora o mundo poderia acabar, mas o papo deveria ficar em dias. “Segure a perninha pra ela não se mexer”, disse a bruxa. “Tá certo!”, disse a esposa, mas agora o “Tá certo!” saiu baixo, arrastado, tremulo. Por fim a esposa estava se livrando do feitiço, tornando em si, mas já era tarde demais.

(Continua)