segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Injeções


O calor havia dado uma trégua e a esposa e eu resolvemos levar nossa bebê para as terríveis vacinas de dois meses. A esposa havia alertado que seriam quatro vacinas: uma bisnaga na boca, uma injeção na perna esquerda e duas injeções na perna direita. Por qual motivo a perna direita levaria duas furadas e não uma só? Estaria o Governo eliminando as pessoas canhotas, queria ele um mundo com cadeiras escolares só para as pessoas destras? Três injeções! Três furadas! Uma infinidade de buracos para qualquer ser humano, até para os mais valentões. Todos eles mentirosos.

Iriam furar a minha filha e ela só tinha dois meses. Iriam trucidar as carnes de minha menininha. Agulhas pontudas iriam mergulhar com brutalidade a pessoa mais importante de minha vida. Isso é lá coisa que um pai possa permitir? O homem sapiens chegou até a lua e até já se fala em experiências com teletransporte e transplante de cérebro, mas a minha filhinha de dois meses seria escalpelada sem piedade.   

Esperamos na sala até que a enfermeira chegasse. Minha esposa sentada com a pequena no braço, dormindo a paz de um sono inocente. “Pode segurar ela durante as injeções?”, pediu com uma voz tremula. Óbvio, se o troço era angustiante para mim, o quanto não seria para ela, que gerou e trouxe ao mundo?  “Seguro sim!”, disse eu, tentando passar segurança. Uma rocha inabalável.

Desejei que a enfermeira não chegasse nunca. Elas sempre faltam em postos de saúde. Poderia ser até que não houvesse vacinas. Elas sempre faltam em postos de saúde. E se a enfermeira fosse uma estagiaria? O governo vive nos usando de cobaias para médicos e enfermeiros carniceiros.

Uma moça entrou sorrindo na sala, “essa menina bonita vai tomar vacina hoje?”

(continua)