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Mostrando postagens de 2019

Tênis velhos, tênis novos

Tenho hábitos estranhos. Coisas que impregnaram e ficaram em ferrugem. Coisas que descascam e revelam interiores somente guardados, sedimentados. Hábitos que não são de hoje, nem de ontem, mas de sempre.

Por exemplo, se eu tiver um par de tênis velhos, destes saturados de poeira e que o desgaste se nota na costura solta, então me vem uma vontade de comprar um par de tênis novos. Talvez não seja uma vontade, talvez seja uma imposição. Então tenho a vontade-imposição de comprar um novíssimo par de tênis, ou porque eu vi alguém com tênis limpíssimos, e me senti meio porco, ou porque estou sentado em um consultório e me pego olhando uma sociedade de tênis novos e limpíssimos. E daí em diante a minha torcida é para que a sociedade de tênis limpíssimos ignore a minha existência surrada, a minha existência puída, a minha existência esfalripada. Essa é a primeira vez que uso a palavra esfalripada. Peguei-a de Rachel de Queiroz, de um dos seus molambos humanos, de um dos seus retirantes lá do …

Mosquitos

Os mosquitos são os maiores predadores da terra. Esqueça o tubarão, o jacaré, o leão e os dinossauros. Você não irá topar com nenhum deles no seu dia. Já os mosquitos... Estes furam a sua pele no momento mais vulnerável, o sono. A praga é pequena e entra por uma mínima fresta, chupa seu sangue e voa pesado, um boi gordo. Chupa seu sangue ao mesmo tempo que injeta toxinas diabólicas, um terrorista. Chupam seu sangue e deixam um catombo vermelho na testa, braços, pernas. Um carniceiro... A triste constatação é que para cada um que você elimine, dois deles aparecem para vingar a morte do soldado abatido em combate. (Hh. Crônicas para Frankenstein)

Banda das Bandas

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Era no meio de entendidos, era pra cada um dizer da banda preferida, a banda mais fuderosa de todas. Aí veio um cara e disse, Guns N’ Roses e os caras todos viraram a cara e veio outro cara e disse Aerosmith, e ele encheu bem a boca pra dizer Aerosmith, e a banda tinha show marcado pra Recife e todo mundo já coçava os bolsos afirmando que gostavam, mas um carinha lá fez uma expressão de deboche, meio esticando a boca só de um lado e meio virando os olhos, isso irritou muito os carinhas que achavam o Aerosmith até uma banda dessas de se ir ao show e postar foto nas redes e outros alardes, mas o carinha que esticou a boca disse que o Tyler tinha o maior bocão de jacaré e que o pescoço era flácido e aquilo ia dá em briga se eu não tivesse batido palmas e tomado a fala e dito que a Mundo Bita era a banda das bandas. Os carinhas todos ficaram coçando cabeça cotovelo barbicha e ficou aquele jeitão de ninguém saber nada e eu disse que a Mundo Bita tava cagando pra ter sucesso ganhar dinheiro e usar drogas.…

Crônica de binóculos e bugs

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A ambulância havia chegado. Muita gente em volta. Que é que tinha parar dois minutinhos para ver o acidentado? Ao menos haveria uma história pra contar. Tipo, “Quem soube do acidentado de hoje?”, e ninguém saberia, e você se sentiria importante, sentiria que as pessoas precisariam saber daquele acidentado, aí você, todo dono do mundo, diria, “Coisa mais triste, o corpo lá, ensanguentado, agonizando. Aposto que não escapou.” Blá,blá, blá. Comigo foi diferente. Comigo foi assim: um garotinho olhou minha cara de curiosidade, disse, “Foi um bêbado. Ele caiu, partiu a testa e o cérebro pulou fora. A roupa toda melada de sangue e ele chorando sem saber voltar pra casa.” Olho pro garoto. Deve ter uns quatro, cinco anos, não mais. “Vai morrer, o pobre.” O garoto coloca as mãos nos olhos, fazendo um binóculo. “Talvez, não”, eu digo. “Se colocarem um cérebro novo ele se recupera.” O garoto me olha, franze a testa. Prossigo, “Vi no Discovery! Eles tiram o cérebro de uma caixa térmica, sai fumaça…

Crônica da cachorrinha encantada

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Era uma cachorrinha de qualquer raça. Por exemplo, se dissessem que ela era uma yorkshire, então ela dava uma cambalhota e virava uma cachorrinha peluda com olhar pidão e incontinência urinária das yorkshires. E seria preciso aquela trabalheira pra desembaraçar e pentear e tosar e perfumar. Até que ela se zangasse dos puxarrancos e virasse uma pinscher de pelagem rala. Uma pinscher tamanho zero, das de tamaninho de rato. E era fácil dela ser confundida ou de ir lá dormir com as ratazanas, aninhada e mamando na rata-mãe. Até que alguém sentisse o cheiro de monturo e sempre tapasse as ventas ao chegar perto dela. Então lhe pediam pra virar uma labradora. Ela dava uma cambalhota e virava uma labradora caramelo. Corria pela casa, derrubava porcelanas e roia os pés da mesa e da cama. Um dia virou uma dogue alemã, mas não coube muito bem dentro da caminha e também tinha aquela questão das fezes monstruosas. Ultimamente ela preferiu virar uma husky, só pra que ficassem hipnotizados com a cla…

Crônica de malabarismos e aprumos

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O homem abaixou e pegou uma pedra. Estou no semáforo e o observo. Será um dia agitado e o cérebro lateja as ideias. Crio a fabulação que aquela pedra é um pedaço do planeta. O planeta está se desintegrando. Indiferente a minha fabulação está o homem que abaixou, pegou uma pedra e agora a joga para cima. Antes que ela caia, o homem joga outra pedra e mais outra e aquilo vira um malabarismo. Agora o semáforo poderia demorar toda a manhã! As pessoas passam e desviam do malabarista. As pessoas com horários e problemas. Desviam e torcem a cara. Eu não! Abro o sorriso diante do espetáculo da vida. Eu saúdo a loucura que caiu sobre aquele homem. Impossível não o perceber com aquele colete neon. Faz mototáxi. Faz malabarismo com pedacinhos do planeta. Faz a vida sair do piloto automático. Faz de conta que está num circo. Então uma pedra começa a esfarelar, vai se desintegrando até virar poeira. Agora as pessoas abanam a mão e é possível que até o xinguem. É possível que chamem a polícia e o q…

Crônica de berros, bramidos e brados

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Lady Laura tem fascínio por etiquetas. Desde cedo, desde sempre. Lá está ela em seu carrinho. Assiste algum desenho colorido, barulhento. Inúmeras vezes o mesmo desenho — já cantarolamos as músicas. Assoviamos no banho, na ida ao trabalho, na sala de aula. — De repente cai sobre Lady Laura o tédio com a vida. Quanto ela está pesando hoje? Nove quilos, calculo. Está pesada! Nove quilos e ainda se debaterá, entediada. É preciso força para sustentá-la. Domá-la. Procuro algum brinquedo de morder. É preciso entretê-la. Um brinquedo onde possa fincar os dentinhos, amolá-los, deixando marcas no plástico. É a fase do morder. Morder o mundo. Funcionou por minutos, de novo caiu o tédio. É preciso procurar outra coisa, vasculhar o mundo a procura de algo que possa ser babado e destruído. O que? Talvez uma pedra, uma árvore. E eis que surge uma embalagem colorida e barulhenta. Uma embalagem de salgadinho. Fede, mas o colorido, o barulho... Logo se entedia e chora. O rosto vermelho, a cara franzid…

Crônica do Dia do juízo

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Imagine que um dia você será julgado por um assassinato do qual nunca se deu conta. Um assassinato cruel e a queima roupa e sempre recorrente. Você é um senhor assassino. Eu sou um senhor assassino. E você e eu estávamos impunes, até agora, no dia do juízo. Imagine que hoje, ao acordarmos, o mundo passou a ser governado por formigas e por aranhas e por baratas e pernilongos e ratos e tudo mais. Essas criaturas tramaram, durante séculos, a tomada de poder, a subida ao trono, a queda da Bastilha. Choraram, cada bichinho a sua maneira, a dor dos parentes pisoteados por nós desde o início da humanidade. Pacientemente, numa mansidão calculada, as formigas foram recolhendo os bichinhos esmagados. Uma infinidade delas recolhendo um braço pisoteado, uma perna, uma antena. E nem nos preocupávamos com esses bichinhos a carregarem seus despojos. Até hoje, quando nos chega a notícia que aqueles pedacinhos: braços, pernas, antenas... Tudo isso ao longo dos séculos, tudo sendo amontoado, colado e p…

Diálogo na páscoa

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“Mãe, tem uma aranha no meu ouvido!”. “De novo essa história da aranha?” “Ela fica falando coisas”. “Igual o rinoceronte?” “A senhora ainda lembra do rinoceronte?”, e a menina abriu um sorriso babado. Sempre achou que a mãe não ligava. Era só reclamar das contas, do atraso, dos ombros e de qualquer outra coisa. “Ele era cor de rosa, não era? “...” “Não era mãe, cor de rosa?”
Agora a mãe estava absorta, passando batom e vendo a boca diminuindo. Diminuindo ou engelhando. “Qualquer dia e essa boca desaparece”, pensou alto.
“O rinoceronte desapareceu, não foi mãe?” “...”
Agora a mãe ficou olhando os ombros. Um mais alto que o outro. A vida toda aquilo. O jeito era levantar o ombro mais baixo para compensar o desnível. Mas ela se achava tão artificial. E lhe vinha na cabeça aquela dança do Michael Jackson. Aquela dança daquele clip dos zumbis e tudo mais. Um terror!
Se usasse a bolsa no ombro mais baixo, automaticamente ela faria um movimento para cima e tudo se resolveria. E era uma coisa tão si…

O pequeno Batman

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O Batman estava atrasado em mais de uma hora. A Diretora Berenice conversava com algumas mães. Franzia a testa e gesticulava desordenadamente. Se eu usasse o ‘modo acelerado’, aquilo daria a impressão de um kata — a luta imaginária do senhor Miyagi. Uma algazarra tomava conta do pátio e nada do que a diretora dizia se podia ouvir. Tive que ativar o ‘modo leitura labial’. Aí fiquei tranquilo. A diretora havia telefonado e a Casa Festas e Recreios havia liberado o Batman e o Robin. Já estavam no meio do caminho. Logo chegariam em nossa escola. Compensariam o atraso ou a Casa Festas e Recreios devolveria o dinheiro. O atraso eu compreendia, era coisa do Coringa ou do Pinguim. Talvez fosse coisa dos dois. A moda agora era a união entre vilões. Falava-se até na criação de uma ‘Liga da Injustiça’. Uma afronta total. O Coringa e o Pinguim, juntos, igual o Batman e o Robin. Se bem que o Robin... O Robin era só um estagiário e precisava-se muita paciência com aquela lerdisse e aquele seu, “San…

O caso da multiplicação

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Nossa galinha havia se multiplicado de um dia para o outro. Agora existia ela — a Gertrudes, nossa galinha desde que era uma pintinha de bico curvo — e mais duas dela comendo milho e ciscando monturos no quintal. Ela e mais duas dela. Três galinhas. Três galinhas que eram a mesma galinha de bico curvo. Caso se tratasse de gente humana, diria-se que eram trigêmeas. Três Gertrudes de bicos curvos. Três que eram a mesma. Bem bem bem, até aí tudo caminhava dentro do aceitável. Galinhas são criaturas que pulam para outros quintais, vivem de ciscar e bicar o chão e podia, de uma hora para a outra, existirem três onde só havia uma.
Assim pensávamos.
A teoria era a de que uma galinha havia escutado o cacarejar de outra galinha e saltado pro nosso quintal, onde havia minhocas na terra fofa e outras coisas que só se saberia ciscando. Daí outra galinha fez o mesmíssimo ato e agora tínhamos três galinhas de bicos curvos.
Pensávamos.
Até que no dia seguinte o Braddock havia se multiplicado. Agora e…

A velhinha do Parque

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Há uma senhorinha que anda no Parque toda manhã. Anda meio de lado, meio pendendo, meio caindo. Passo por ela correndo. Sou um jato. Ela uma lesminha, meio de lado, pendendo, caindo.

Sinto o cheiro de sua velhice. Leite de Rosas. Passo por ela e levo aquele cheiro por alguns segundos. Minha avó também usava Leite de Rosas. Arrancava um capucho de algodão, rodava-o na mão até ficar uma bola e derramava o balsamo em cima. Depois esfregava o rosto até os poros abrirem e expelirem os cravos. Ainda hoje aquele balsamo tem a mesma embalagem. O mesmo cheiro. Leite de Rosas e Vick Vaporub, cheiros inconfundível de infância e velhice.

A senhorinha que anda no Parque é muito engelhada, muito magrinha, muito caída pra um lado. Batizei-a de Dona Graveta. Gravetinha. Entre os eucaliptos fortes do Parque, uma Graveta. Gravetinha.
Corro os meus quilômetros. Fone no ouvido, System of a Down, “You, what do you own the world? How do you own disorder, disorder.” Passo por dona Graveta um pouco afastado,…

Notícia no meio da noite

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Minha avó travava os dentes quando sentia algum medo ou quando um perigo estava pra chegar. Se alguém batesse palmas tarde da noite ela ligava as antenas e começava uma oração entre os dentes serrados. A oração parecia dita em outro idioma e às vezes parecia xingamento para um filho de Deus que havia acertado bater palmas tão tarde da noite. Era um misto de oração pra afastar notícia de alguma morte na família e palavrões pra quem ousava tirar o sono da casa. E era possível ouvir o “Santa Maria, mãe de Deus” e em seguida o “Diabo é quem bate na casa de um cristão essa hora, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém”.
O problema todo era voltar a dormir. Por algum motivo ela dizia que, uma vez acordada no meio da noite, a pessoa jamais deveria consultar as horas. Quem acordasse e soubesses das horas ficaria o resto do tempo sem conseguir dormir. Minha avó sempre olhava as horas. Não aguentava de ansiedade ou seja lá o que fosse. Imagino que pensasse ser mesmo hora ac…

O filho perdido

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Dona Aparecida criava nove filhos e havia perdido um no meio do mundo. Tudo por conta de uma mudança que fizera as pressas. Fazia um mês que as chuvas encharcavam o solo e a sua casinha começou a estalar: primeiro as paredes racharam desenhando aqueles mapas, depois o chão começou a levantar, desenterrando sapos e cobras. Foi a conta. Diabo que ficasse mais algum dia naquele barraco. Dona Aparecida pegou os meninos e as tralhas todas, pôs em cima de um caminhão e fincou pé. Morou alguns anos no Magano, na Cohab e por último pousou Boa Vista. Era nossa vizinha, mãe de Abimael e Gracinha, os dois únicos filhos com quem eu tinha contato. Os outros filhos ou eram mais velhos ou eram mais novos. Os mais velhos queriam bater na gente, uma raiva da vida que eles tinham ou coisa assim. Os mais novos viviam remelando e fediam pra valer. De modo que Abimael e Gracinha eram os únicos com quem se podiam viver dentro de uma normalidade. Se bem que Gracinha até fedia um pouco, mas a gente achava el…