domingo, 24 de fevereiro de 2019

A velhinha do Parque


Há uma senhorinha que anda no Parque toda manhã. Anda meio de lado, meio pendendo, meio caindo. Passo por ela correndo. Sou um jato. Ela uma lesminha, meio de lado, pendendo, caindo.

Sinto o cheiro de sua velhice. Leite de Rosas. Passo por ela e levo aquele cheiro por alguns segundos. Minha avó também usava Leite de Rosas. Arrancava um capucho de algodão, rodava-o na mão até ficar uma bola e derramava o balsamo em cima. Depois esfregava o rosto até os poros abrirem e expelirem os cravos. Ainda hoje aquele balsamo tem a mesma embalagem. O mesmo cheiro. Leite de Rosas e Vick Vaporub, cheiros inconfundível de infância e velhice.

A senhorinha que anda no Parque é muito engelhada, muito magrinha, muito caída pra um lado. Batizei-a de Dona Graveta. Gravetinha. Entre os eucaliptos fortes do Parque, uma Graveta. Gravetinha.

Corro os meus quilômetros. Fone no ouvido, System of a Down, “You, what do you own the world? How do you own disorder, disorder.” Passo por dona Graveta um pouco afastado, zump. Imagino que o vento a possa derrubar. Passo por ela de novo e de novo. Zump, zump.

Termino minha corrida extenuado, suado, combalido. Ponho as mãos na cintura e puxo o ar. A sensação de estar vivo, o corpo energizado e o dia só começando. A vida é boa, sim senhor!

Lá vem Dona Graveta, meio de lado, pendendo, caindo. Tiro os fones e a admiro. Toc toc toc. Seu tênis é duro. Meio sapato, meio tênis. Um ortopedista condenaria aquele calçado ao lixo.

— Opa! — tento um contato com ela. — Opa! Dona Grav...

Ela faz um gesto com a mão. Sorri com uma dentadura branquíssima. dentes alinhados e fortes. Dentes que mastigariam uma parede, partiriam adamantium e cream cracker. O contrário do seu corpo, meio de lado, pendente, caído. Toc toc toc ... Lá vai ela para mais um quilometro. Usa uma saia muito balançada e um casaco de abotoar. No bolso do casaco leva uma garrafinha d’água. Reparo que a garrafinha fica justamente do outro lado, o lado que não é pendente, caído. Talvez ela tente equilibrar-se. Talvez seja apenas coisa da minha cabeça. E lá vai Dona Graveta! Um vento forte encheria aquela saia de ar e a levaria pelos ares.

Quantos anos terá Dona Graveta? Doem-lhe os ossos? Tem filho que lhe cuide? Reclama da aposentadoria? É viúva?

No dia seguinte termino minha corrida. Extenuado, suado, combalido. Ponho as mãos na cintura e puxo o ar. Procuro Dona Graveta.

Toc toc toc ...

— Opa Dona!
— Oi, esse menino!

Toc toc toc ...

Um vento forte encheria aquela saia de ar e a levaria pelos ares.