domingo, 3 de fevereiro de 2019

Notícia no meio da noite



Minha avó travava os dentes quando sentia algum medo ou quando um perigo estava pra chegar. Se alguém batesse palmas tarde da noite ela ligava as antenas e começava uma oração entre os dentes serrados. A oração parecia dita em outro idioma e às vezes parecia xingamento para um filho de Deus que havia acertado bater palmas tão tarde da noite. Era um misto de oração pra afastar notícia de alguma morte na família e palavrões pra quem ousava tirar o sono da casa. E era possível ouvir o “Santa Maria, mãe de Deus” e em seguida o “Diabo é quem bate na casa de um cristão essa hora, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém”.

O problema todo era voltar a dormir. Por algum motivo ela dizia que, uma vez acordada no meio da noite, a pessoa jamais deveria consultar as horas. Quem acordasse e soubesses das horas ficaria o resto do tempo sem conseguir dormir. Minha avó sempre olhava as horas. Não aguentava de ansiedade ou seja lá o que fosse. Imagino que pensasse ser mesmo hora acordar e ir varrer o quintal, aguar as plantas, partir as frutas pros cágados e fazer um café vigoroso que logo incensaria a casa.

O problema era voltar a dormir no meio da noite.

Já o meu avô dormia tranquilo. Provavelmente sonhava que vencia no jogo de dominó. Estava aposentado e passava as tarde jogando com outros velhinhos de mãos de gravetos e tosses incontroláveis. Aquelas gargantas um dia iriam de estourar, ainda mais porque todos eles fumavam e meu avô fumava mais que todos. Meu avô poderia facilmente ser o campeão nacional de fumar cigarros. Na estante de nossa casa havia um arsenal de carteiras de cigarros e eu pegava aquelas embalagens, dobrava-as e fazia a cédula de um dinheiro que me dava muito prestigio entre os meninos da rua. Uma nuvem de fumaça encobria meu avô e os outros velhinhos e era preciso abrir as portas e janelas pra fumaça escapar. De fora seria possível alguém pensar que a casa estivesse pegando fogo.

Minha avó embolava na cama, remexia, levantava, tomava água e voltava a deitar e remexer na cama. Buscava recuperar um sono que fora atropelado num bater de palmas que viera de algum purgatório lhe atanazar. Meu avô dormia fundo, indiferente a penúria que minha avó passava, e era bem verdade que a velha lhe dava umas cotoveladas. Um desejo que ele acordasse e compartilhasse da mesma insônia. O que mais a intrigava era um fio de riso na boca de meu avô. Como se ele estivesse acordado e fingisse dormir. O velho era bem esperto nessas horas.

“Corra dormir, menino”, dizia minha avó, “isso é lá hora de acordar, só pra gente besta mesmo, corra dormir”. E eu voltava pra cama, sonolento, remelando e tentando entender o acontecido. Um bater de palmas havia acordado a casa, uma conversa rápida de minha avó com algum fantasma da noite. Pedaços de uma fala indecifrável. Se eu olhasse as horas perderia o sono, viraria um zumbi igual minha avó que, não conseguindo dormir, acendia uma vela no oratório, ajoelhava e fazia uma reza baixinha, soprada, “assim na terra como no céu, o pão nosso de cada dia nos daí hoje...” e a reza fazia a chama tremelicar e a minha avó varava a madrugada conversando com os santos.

De manhãzinha estava ela com os olhos inchados. Falava com o meu avô de alguma coisa que eu não poderia saber. Talvez por eu ser curioso e dar com a língua nos dentes, talvez porque eles tinham segredos de gente adulta e eu jamais entenderia. Mas uma coisa ou outra eu fui pescando. Tinha algo com uma irmã de minha avó que havia entrado no hospital com a boca torta e um pedaço do corpo parado. Mas tarde um parente chegou em nossa casa dizendo que a irmã de minha avó teria descansando daquela luta. Minha avó correu no oratório, acenderia velas, mas havia dado uma tontura e as mãos tremiam muito.