domingo, 31 de março de 2019

O pequeno Batman



O Batman estava atrasado em mais de uma hora.
A Diretora Berenice conversava com algumas mães. Franzia a testa e gesticulava desordenadamente. Se eu usasse o ‘modo acelerado’, aquilo daria a impressão de um kata — a luta imaginária do senhor Miyagi.
Uma algazarra tomava conta do pátio e nada do que a diretora dizia se podia ouvir. Tive que ativar o ‘modo leitura labial’. Aí fiquei tranquilo. A diretora havia telefonado e a Casa Festas e Recreios havia liberado o Batman e o Robin. Já estavam no meio do caminho. Logo chegariam em nossa escola. Compensariam o atraso ou a Casa Festas e Recreios devolveria o dinheiro.
O atraso eu compreendia, era coisa do Coringa ou do Pinguim. Talvez fosse coisa dos dois. A moda agora era a união entre vilões. Falava-se até na criação de uma ‘Liga da Injustiça’. Uma afronta total. O Coringa e o Pinguim, juntos, igual o Batman e o Robin. Se bem que o Robin... O Robin era só um estagiário e precisava-se muita paciência com aquela lerdisse e aquele seu, “Santo Deus Batman, macacos me mordam!” O Robin precisaria comer muito feijão ainda.
“Ele está chegando!” gritei no ouvido de um colega. “A diretora telefonou pra ele.”
“Só vem o Batman?” ele gritou de volta.
“Os dois estão vindo. O Batman e o outro lá.”
“Como você sabe?”
“O modo leitura labial. Ativei!”
Ele iria gritar algo de volta. Desistiu e fez aquela cara franzida de, “de novo essa estória de ter super poderes.” Não me importava. Os mutantes nunca seriam entendidos mesmo.  
No pátio a meninada corria e gritava pra valer, pareciam indiferentes ao atraso. Vestiam uma capa de tnt amarrada no pescoço e um morcego de cartolina pregado no peito com fita crepe. Tudo muito fuleirinho, mas funcionava com a meninada. Tirei minha capa e o morcego do peito. Os super-heróis davam muita importância para as crianças diferentonas e tal. Identificavam suas espécies e mantinham laços. Convidariam para estágios, ensinariam o beabá dos super-heróis. O Robin fazia um estágio eterno. O Robin só atrapalhava, “Santo Deus Batman, macacos me mordam.” Uma lerdisse.
Ativei o modo... ainda não sabia que modo era aquele, mas ele me dizia para correr até o portão. Era o Batman e o outro. Enfim haviam chegado. Um mundarei de crianças correram ao portão e fiquei espremido nas grades. Aliviei passando uma perna fina entre aqueles ferros, mas o meu rosto na certa ficaria com o carimbo deles.
Enfim eu veria um super-herói, mas pera lá... Era o Robin quem estava dirigindo o carro do Batman. Estranho! O Batman não permitiria um estagiário com aquela ousadia. “É um fusca!”, alguém gritou. “Um fusca velho!”
Só se o carro do Batman estivesse no conserto. O Alfred — o mordomo faz tudo — estaria trabalhando um novo dispositivo. Um lança mísseis ou, já não era sem tempo, turbinas para o batmóvel cortar os ares.
“É um fusca!” gritavam. “Um fusca velho. Que Batman de merda!”
O Robin se enrolava para estacionar o fusca. Subia o meio-fio, descia, subia de novo. Aquilo demorava. Era o Robin sendo ‘o Robin’.
“Como é? Como é isso?” era a voz da Diretora, abrindo caminho.
A criançada ficou em silêncio. “Como é isso?” era um sinal de raiva que todos temiam.
“Que lindo!” gritou a Diretora. “Muito bonito!”
O Robin ficou no carro. Teve medo da Diretora. O Batman não. O Batman não tinha medo. Desceu do carro, escorou-se na porta e ficou encarando a Diretora. “Ele tem barriga!” gritou alguém. Poderia ser uma roupa apertada. Poderia sim.
“Ele é bem pequeno.”
“Bem pequeno e bem barrigudo.”
E a gritaria começou. A Diretora trancou o portão por fora, caminhou até o Batman e começou a gesticular. Ativei o modo leitura labial:
“... Sumam daqui seus desgraçados...”
“... a gente nem...”
“... um monte de mães enfurecidas querendo esganar vocês dois...”
“... a gente, a gente...”
“... uma vergonha para as crianças...”
“... a g  te...
Desativei o mudo leitura labial.


domingo, 10 de março de 2019

O caso da multiplicação



Nossa galinha havia se multiplicado de um dia para o outro. Agora existia ela — a Gertrudes, nossa galinha desde que era uma pintinha de bico curvo — e mais duas dela comendo milho e ciscando monturos no quintal. Ela e mais duas dela. Três galinhas. Três galinhas que eram a mesma galinha de bico curvo. Caso se tratasse de gente humana, diria-se que eram trigêmeas. Três Gertrudes de bicos curvos. Três que eram a mesma. Bem bem bem, até aí tudo caminhava dentro do aceitável. Galinhas são criaturas que pulam para outros quintais, vivem de ciscar e bicar o chão e podia, de uma hora para a outra, existirem três onde só havia uma.

Assim pensávamos.

A teoria era a de que uma galinha havia escutado o cacarejar de outra galinha e saltado pro nosso quintal, onde havia minhocas na terra fofa e outras coisas que só se saberia ciscando. Daí outra galinha fez o mesmíssimo ato e agora tínhamos três galinhas de bicos curvos.

Pensávamos.

Até que no dia seguinte o Braddock havia se multiplicado. Agora existia ele e mais dois dele pulando na gente e cagando roletes grossos no quintal. Aquilo juntava moscas, mosquitos e algum outro bicho que beliscava na pele.

Ponderamos que Braddock, nosso perdigueiro caramelo, só existisse umzinho nesse mundo. Braddock era um bichinho nosso desde que chegou apartado de sua mãe, sem leite e sem paciência de aturar aqueles pulos e aquelas unhas de abrir enlatados. Então checamos a coisa mais peculiar em Braddock: o rabo meio curvo, meio quebrado, meio morto. Braddock era o único cachorro do mundo que tendo rabo, não o abanava. Era apenas um pêndulo.

Então fomos checar se também os outros cachorros tinha o rabo pendular. E tinham. E fomos checar se tinham a orelha rasgada no arame farpado e aqueles olhos embranquiçando de catarata e ainda a pelugem encaramelada e rala. E tinham.

Então agora eram três Braddocks iguais. Se fossem gente humana, chamaríamos de trigêmeos. Um dos Braddocks era o nosso desde que fora apartado da mãe e mais dois Broddocks que não eram nossos, mas que eram o mesmo Braddock da gente em cara e focinho. Eles misturados e muito espertos e muito nos amando e atendendo todos eles pelo nome de Braddock. De modo que nessa mistura, a gente já nem sabia distinguir quem era o nosso Braddock. E todos eles passaram a se chamar Braddock e estava tudo resolvido.

Pensavamos.

Até que no outro dia havia outro de mim entre a gente. Outro de mim ou outro eu. E agora, ao sair pro quintal, se podia ver três galinhas Gertrudes e três perdigueiros Braddocks. E agora eu tinha um gêmeo e fui conferir nele a nossa semelhança: olhei os pés cavados de Charcot-Marie-Tooth. O infeliz teria uma existência torcendo os tornozelos, imobilizando-os com faixas por longos períodos. Uma maldição que teríamos herdado. Olhei um risco de cicatriz abaixo do olho esquerdo e, como estávamos ao sol, percebi que ele também fechava muito os olhos e lacrimejava e nem pude me assustar com a semelhança desse outro eu porque havia aparecido outro eu entre nós.

De modo que agora eram três de mim no mesmo espaço e fazendo os mesmos gestos, só que em tempos diferentes e acho que até pensávamos igual, cada um se estranhando, se aceitando e se achando bonito até. E agora se podia dizer com todas as letras que éramos trigêmeos.

Pensávamos.