sábado, 20 de abril de 2019

Diálogo na páscoa


“Mãe, tem uma aranha no meu ouvido!”.
“De novo essa história da aranha?”
“Ela fica falando coisas”.
“Igual o rinoceronte?”
“A senhora ainda lembra do rinoceronte?”, e a menina abriu um sorriso babado. Sempre achou que a mãe não ligava. Era só reclamar das contas, do atraso, dos ombros e de qualquer outra coisa. “Ele era cor de rosa, não era?
“...”
“Não era mãe, cor de rosa?”

Agora a mãe estava absorta, passando batom e vendo a boca diminuindo. Diminuindo ou engelhando. “Qualquer dia e essa boca desaparece”, pensou alto.

“O rinoceronte desapareceu, não foi mãe?”
“...”

Agora a mãe ficou olhando os ombros. Um mais alto que o outro. A vida toda aquilo. O jeito era levantar o ombro mais baixo para compensar o desnível. Mas ela se achava tão artificial. E lhe vinha na cabeça aquela dança do Michael Jackson. Aquela dança daquele clip dos zumbis e tudo mais. Um terror!

Se usasse a bolsa no ombro mais baixo, automaticamente ela faria um movimento para cima e tudo se resolveria. E era uma coisa tão simples que jamais lhe passaria pela cabeça.
A menina apareceu na frente do espelho.

“A aranha fica falando coisas”.
“De que tipo?”
“Que coelhos da páscoa só deixam ovos para quem comprar”.
“Que aranha mais besta!”.
“É, mas no ano passado o coelho não deixou algum ovo de páscoa pra contar história”.
“Filha, como você faz confusão! Nenhum ovo. Se diz, nenhum ovo e não algum ovo”.
“Pois não tinha nenhum ovo e nenhum nada de coelho algum ou de coelho nenhum”.

Toc toc toc. Eram batidinhas na porta e, como as duas pareciam não ter ouvido, as batidinhas continuaram. Toc toc toc...

“Vá ver quem é meu amorzinho”, disse a mãe. As sobrancelhas tensionadas. “Diabo é quem vem uma hora dessas pra atrapalhar”, pensou alto.
“Mãe!”
“Quem é filha?”
“É o rinoceronte!”
“Que rinoceronte?”
 “O rinoceronte rosa, mãe!”
“De novo essa história, filha!”
“Posso montar nele?”
“...”

Agora a mãe não escutava mais nada, absorta, olhando os ombros.

“Posso montar, mãe?”