domingo, 26 de maio de 2019

Crônica de binóculos e bugs



A ambulância havia chegado. Muita gente em volta. Que é que tinha parar dois minutinhos para ver o acidentado? Ao menos haveria uma história pra contar. Tipo, “Quem soube do acidentado de hoje?”, e ninguém saberia, e você se sentiria importante, sentiria que as pessoas precisariam saber daquele acidentado, aí você, todo dono do mundo, diria, “Coisa mais triste, o corpo lá, ensanguentado, agonizando. Aposto que não escapou.” Blá,blá, blá. Comigo foi diferente. Comigo foi assim: um garotinho olhou minha cara de curiosidade, disse, “Foi um bêbado. Ele caiu, partiu a testa e o cérebro pulou fora. A roupa toda melada de sangue e ele chorando sem saber voltar pra casa.” Olho pro garoto. Deve ter uns quatro, cinco anos, não mais. “Vai morrer, o pobre.” O garoto coloca as mãos nos olhos, fazendo um binóculo. “Talvez, não”, eu digo. “Se colocarem um cérebro novo ele se recupera.” O garoto me olha, franze a testa. Prossigo, “Vi no Discovery! Eles tiram o cérebro de uma caixa térmica, sai fumaça e tudo, depois serram o crânio, instalam o cérebro”, o garoto me interrompe, “Mas, e se a pessoa ficar bugada,  tipo: gaguejando ou andando pra trás?” e o garoto aponta o binóculo pra mim. “Eles tomam o maior cuidado com isso, não há perigo.” O garoto tira o binóculo, pergunta com a maior seriedade, “Como que eles colocam as lembranças dentro do novo cérebro?” De novo aponta o binóculo para mim.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Crônica da cachorrinha encantada


Era uma cachorrinha de qualquer raça. Por exemplo, se dissessem que ela era uma yorkshire, então ela dava uma cambalhota e virava uma cachorrinha peluda com olhar pidão e incontinência urinária das yorkshires. E seria preciso aquela trabalheira pra desembaraçar e pentear e tosar e perfumar. Até que ela se zangasse dos puxarrancos e virasse uma pinscher de pelagem rala. Uma pinscher tamanho zero, das de tamaninho de rato. E era fácil dela ser confundida ou de ir lá dormir com as ratazanas, aninhada e mamando na rata-mãe. Até que alguém sentisse o cheiro de monturo e sempre tapasse as ventas ao chegar perto dela. Então lhe pediam pra virar uma labradora. Ela dava uma cambalhota e virava uma labradora caramelo. Corria pela casa, derrubava porcelanas e roia os pés da mesa e da cama. Um dia virou uma dogue alemã, mas não coube muito bem dentro da caminha e também tinha aquela questão das fezes monstruosas. Ultimamente ela preferiu virar uma husky, só pra que ficassem hipnotizados com a claridade dos olhos azuis. E é por isso que nas fotos de família, sempre existe uma cachorrinha de raça diferente. Mas é sempre a mesma. Só muda quem a segura nos braços

domingo, 19 de maio de 2019

Crônica de malabarismos e aprumos


O homem abaixou e pegou uma pedra. Estou no semáforo e o observo. Será um dia agitado e o cérebro lateja as ideias. Crio a fabulação que aquela pedra é um pedaço do planeta. O planeta está se desintegrando. Indiferente a minha fabulação está o homem que abaixou, pegou uma pedra e agora a joga para cima. Antes que ela caia, o homem joga outra pedra e mais outra e aquilo vira um malabarismo. Agora o semáforo poderia demorar toda a manhã! As pessoas passam e desviam do malabarista. As pessoas com horários e problemas. Desviam e torcem a cara. Eu não! Abro o sorriso diante do espetáculo da vida. Eu saúdo a loucura que caiu sobre aquele homem. Impossível não o perceber com aquele colete neon. Faz mototáxi. Faz malabarismo com pedacinhos do planeta. Faz a vida sair do piloto automático. Faz de conta que está num circo. Então uma pedra começa a esfarelar, vai se desintegrando até virar poeira. Agora as pessoas abanam a mão e é possível que até o xinguem. É possível que chamem a polícia e o queiram preso.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Crônica de berros, bramidos e brados


Lady Laura tem fascínio por etiquetas. Desde cedo, desde sempre. Lá está ela em seu carrinho. Assiste algum desenho colorido, barulhento. Inúmeras vezes o mesmo desenho — já cantarolamos as músicas. Assoviamos no banho, na ida ao trabalho, na sala de aula. — De repente cai sobre Lady Laura o tédio com a vida. Quanto ela está pesando hoje? Nove quilos, calculo. Está pesada! Nove quilos e ainda se debaterá, entediada. É preciso força para sustentá-la. Domá-la. Procuro algum brinquedo de morder. É preciso entretê-la. Um brinquedo onde possa fincar os dentinhos, amolá-los, deixando marcas no plástico. É a fase do morder. Morder o mundo. Funcionou por minutos, de novo caiu o tédio. É preciso procurar outra coisa, vasculhar o mundo a procura de algo que possa ser babado e destruído. O que? Talvez uma pedra, uma árvore. E eis que surge uma embalagem colorida e barulhenta. Uma embalagem de salgadinho. Fede, mas o colorido, o barulho... Logo se entedia e chora. O rosto vermelho, a cara franzida. Uma lágrima. Procuro uma lágrima sequer. Não há. Só berros, bramidos e brados retumbantes. O controle remoto! Ela o encontra. Para de chorar e me lança um olhar de luz. O controle remoto! Receio que o parta em dois. Ela chora, pressionando-me. E lá está o controle nas mãozinhas de bolota. Parece que gostou. Mordeu, mudou de canal, aumentou o volume e, entediada, jogou no chão. Talvez ela queira o ursinho com guizos embutido. Olha o barulhinho, mamãe, olha o barulhinho! Não, não gostou. Faz careta — sempre franze a testa e as ventas — está prestes a sacudir o ursinho de guizos e, epa! Percebe a etiqueta. Pedacinho de pano saltando das costas. Letras miudinhas, código de barras. E aí ela se entretém. Belisca a etiqueta, soletra, conversa e ri.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Crônica do Dia do juízo


Imagine que um dia você será julgado por um assassinato do qual nunca se deu conta. Um assassinato cruel e a queima roupa e sempre recorrente. Você é um senhor assassino. Eu sou um senhor assassino. E você e eu estávamos impunes, até agora, no dia do juízo. Imagine que hoje, ao acordarmos, o mundo passou a ser governado por formigas e por aranhas e por baratas e pernilongos e ratos e tudo mais. Essas criaturas tramaram, durante séculos, a tomada de poder, a subida ao trono, a queda da Bastilha. Choraram, cada bichinho a sua maneira, a dor dos parentes pisoteados por nós desde o início da humanidade. Pacientemente, numa mansidão calculada, as formigas foram recolhendo os bichinhos esmagados. Uma infinidade delas recolhendo um braço pisoteado, uma perna, uma antena. E nem nos preocupávamos com esses bichinhos a carregarem seus despojos. Até hoje, quando nos chega a notícia que aqueles pedacinhos: braços, pernas, antenas... Tudo isso ao longo dos séculos, tudo sendo amontoado, colado e por fim, compondo um enorme Frankenstein. Hoje é o dia do juízo final. Você e eu seremos esmagados por esse Frankenstein. E não temos nenhum ato de grandeza, pois você quer que eu seja esmagado primeiro e eu quero que você seja esmagado primeiro. E você e eu somos pequenos. Menores que ratos, baratas e formigas.