segunda-feira, 13 de maio de 2019

Crônica do Dia do juízo


Imagine que um dia você será julgado por um assassinato do qual nunca se deu conta. Um assassinato cruel e a queima roupa e sempre recorrente. Você é um senhor assassino. Eu sou um senhor assassino. E você e eu estávamos impunes, até agora, no dia do juízo. Imagine que hoje, ao acordarmos, o mundo passou a ser governado por formigas e por aranhas e por baratas e pernilongos e ratos e tudo mais. Essas criaturas tramaram, durante séculos, a tomada de poder, a subida ao trono, a queda da Bastilha. Choraram, cada bichinho a sua maneira, a dor dos parentes pisoteados por nós desde o início da humanidade. Pacientemente, numa mansidão calculada, as formigas foram recolhendo os bichinhos esmagados. Uma infinidade delas recolhendo um braço pisoteado, uma perna, uma antena. E nem nos preocupávamos com esses bichinhos a carregarem seus despojos. Até hoje, quando nos chega a notícia que aqueles pedacinhos: braços, pernas, antenas... Tudo isso ao longo dos séculos, tudo sendo amontoado, colado e por fim, compondo um enorme Frankenstein. Hoje é o dia do juízo final. Você e eu seremos esmagados por esse Frankenstein. E não temos nenhum ato de grandeza, pois você quer que eu seja esmagado primeiro e eu quero que você seja esmagado primeiro. E você e eu somos pequenos. Menores que ratos, baratas e formigas.