segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Tênis velhos, tênis novos


Tenho hábitos estranhos. Coisas que impregnaram e ficaram em ferrugem. Coisas que descascam e revelam interiores somente guardados, sedimentados. Hábitos que não são de hoje, nem de ontem, mas de sempre.

Por exemplo, se eu tiver um par de tênis velhos, destes saturados de poeira e que o desgaste se nota na costura solta, então me vem uma vontade de comprar um par de tênis novos. Talvez não seja uma vontade, talvez seja uma imposição. Então tenho a vontade-imposição de comprar um novíssimo par de tênis, ou porque eu vi alguém com tênis limpíssimos, e me senti meio porco, ou porque estou sentado em um consultório e me pego olhando uma sociedade de tênis novos e limpíssimos.
E daí em diante a minha torcida é para que a sociedade de tênis limpíssimos ignore a minha existência surrada, a minha existência puída, a minha existência esfalripada. Essa é a primeira vez que uso a palavra esfalripada. Peguei-a de Rachel de Queiroz, de um dos seus molambos humanos, de um dos seus retirantes lá do Quinze, de um dos filhos de Cordulina e Chico Bento.

E, pode não ser, mas fico com a impressão que a sociedade de tênis limpíssimos fica me observando e julgando-me porquíssimo, sujíssimo e pobríssimo. Mentalmente sinto vontade de xingar a todos. Cuidem vocês lá de suas vidas e me deixem em paz. E a partir daí toda criatura que olhar para o chão, estará olhando meu tênis porquissímo. Já disse, cuidem vocês lá de suas vidas. Explodam.

Então, na primeira oportunidade, entro em alguma sapataria e escolho um par de tênis. Vejo o preço, claro, pergunto ao vendedor se o produto é bom
ele sempre dirá que se trata de um produto da mais altíssima qualidade, é a conversa fiada dele, é o que lhe garante os trocados, é o que o mantém no emprego, se não tiver essa conversa fiada, outro entrará em seu lugar , então ele responderá que o produto é bom e eu jamais o irei contestar.

Tiro os tênis da caixa, cheiro a mistura de borracha e tecido, arrumo os cadarços sim, os cadarços sempre estão em desalinho. Talvez um Fulano, num dia chato, num trabalho chato, com um salário de fome, os deixem sempre em desalinho, e assim o Fulano se vinga ninguém sabe do quê, ninguém sabe de quem , calço os tênis e olho no espelhinho se ficou jeitoso. Piso com um pouco mais de força, dou chutinhos no chão. E compro.

Saio da loja com eles nos pés. Um tênis moderno, durinho e ainda sem o desgaste lateral de minha pisada torta. Agora a impressão é que todos estão observando meus pés. Como não observar, são tênis limpíssimos.

Amigos notam o meu novíssimo acessório e isso me envergonha um pouco. Por algum motivo os tênis velhos, carcomidos, sujíssimos, me deixam mais humano, humilde e mais irmão de todos na terra. Cristo faria o mesmo. Cristo nem compraria um tênis limpíssimo. Cristo doaria o tênis, as vestes e sairia nu. Uma nudez limpíssima e sacrossanta.

Os amigos possuem um ritual estúpido de querer pisar tênis novos. Dizem, "deixa eu inaugurar" ou "inaugurei", depois de pisar-me o novíssimo tênis. Isso tudo é uma espécie de batismo. Uma imbecilidade sem tamanho. E admito que até já possa ter feito isso com alguém. A espécie humana é estupidíssima.

Eu dizia que tenho hábitos estranhos. Coisas que impregnaram e ficaram em ferrugem. Pois bem, vejam lá. Acontece que fico com saudades dos tênis velhos. Como se estivesse sendo ingrato a eles que tanto me serviram. Como se os tivessem traindo com uma cocota moderninha, enfeitadinha e limpinha. E, estando no meio da rua, minha vontade é de chegar em casa e me descalçar, meter os pés de novo no tênis velhíssimo. Quantos quilômetros teríamos andado juntos? Eles tão fieis. Eles suportando um peso que só foi aumentando com o tempo. Quantas pedrinhas teríamos chutado, quantas poças teríamos pisado, quantos chicletes teríamos pisado... Um grande amor não se acaba assim, feito espumas ao vento, diria o cancioneiro popular. Popularíssimo.