terça-feira, 7 de abril de 2020

Entrevista #01

Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Demorei a ler. Li somente aos 12 anos devido minha dislexia. Corria dos livros. Até que aprendi a ler, mas me doía muita a cabeça. Até que peguei o embalo. Embalei. Até que me veio a ideia: será que sei fazer isso? Será que sirvo?  Primeiro eu escrevia para encher o papel. Depois eu escrevia para cortar as palavras. Depois eu vi que escrever era na verdade reescrever. E depois de reescrever, reescrever de novo e ver que tava ruim e começar do zero. Foi então que me deu conta.


Quais são suas manias e obsessões literárias?
A mania é acordar cedo, entre 04h e 04h30. Outra mania é tentar ficar calmo e criar coragem para falhar. Outra mania é ajeitar a coluna. As obsessões são reescrever, cortar e desconfiar de tudo.



Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
A leitura de um grande poeta e de um grande escritor. Principalmente de um grande poeta. Eles dizem tudo em quase nada.

Se pudesse recomendar um livro ao presidente Jair Bolsonaro, qual seria?
Um livro de pintar pra ele ficar ocupado.


Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Uma cadeira boa, costas boas e principalmente uma temperatura boa e o mínimo de barulho.



Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Óculos bons e limpos. Cadeira boa, temperatura boa e um livro bom.

O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando escrevo e reescrevo. Mesmo que seja uma linhazinha só.

O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
ler o que escrevi e ir gostando.

Qual o maior inimigo de um escritor?
O trabalho pra ganhar o pão.

O que mais lhe incomoda no meio literário?
Ainda não sei direito. Suspeito que as vaidades.


Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Tadeu Sarmento. Um pernambucano que mora em Minas e escreve com humor e ironia. Isso tudo é muito inteligente. É desses escritores que a gente vai sublinhando o 
livro todo.

Um livro imprescindível e um descartável.
Cem anos de solidão e Sonhos e realidades – uma vida sem preconceitos.


Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Acho que quando um livro tem mais erudição do que literatura. Retórica não é literatura. Se o escritor que mostrar sua erudição é melhor escrever um ensaio. Literatura é aquilo que Graciliano fez.

Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Ainda não sei.

Quando a inspiração não vem…
Eu trabalho e leio ou leio e trabalho.


Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
José Saramago. Aquela rabugice disfarçada me atraia.   


O que é um bom leitor?
O que ler devagar, mastigando, pegando as coisas.


O que te dá medo?
Tenho medo de minha filha cair e se machucar. Se pudesse eu colocava espumas no chão e nas quinas.


O que te faz feliz?
Ficar com minha filha depois de escrever. Sem isso eu fico meio bugado e acometido de farsa como pai e escritor. Eu preciso escrever para sentir que estou livre para o dia. Se não escrevo me sinto uma farsa. Um falso.


Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Duvida se estou escrevendo algo que preste. Por isso procuro ser muito severo no julgamento. Não tenho certezas. Não tem nada certo. Todo dia a gente constrói um castelinho de areia.


Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Se tá ficando bom e se posso melhorar.


A literatura tem alguma obrigação?
A obrigação de ser boa.


Qual o limite da ficção?
Acho que a ficção não tem limites.


Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Ao Drauzio Varella.


O que você espera da eternidade?
Que ela seja passageira.