Crônica de um super goleiro uruguaio


Rodolfo Rodríguez era um gigante uruguaio com bigode de leão marinho. A esposa havia contado uma vez que os fios do bigode serviram para desentupir a boca do fogão. E não era exagero pois o próprio gabava-se de nunca ter usado pregos em casa. Bastava martelar os fios do bigode. 


Rodolfo Rodríguez poderia ter escolhido o basquete, o voleibol, o salto com vara, mas escolheu o futebol! Queria ser atacante, camisa nove: dribles, gols, fama! Mas aquele tamanhão atrapalhava a explosão na largada. Lá estava a correr desengonçado, tropeçando, desmoronando com o mundão de corpo. Rodolfo Rodríguez era bom nas bolas aéreas, mas careceria sempre dos cruzamentos. Seria um time todo a depender de uma só jogada, de um só jogador. Faltava-lhe, como se pode ver, recursos para jogar no centro e avante. 


Até que nosso atleta foi dando passos para trás e ficou alojado no meio de campo. Ali não seria preciso dar arrancadas, dribles e finalizações. E assim Rodolfo Rodríguez ficou mais recuado, volanteando. O que não levou em conta era que jogar no meio campo exigia perícia, lançamentos de vinte metros, trinta metros, sessenta metros. E, já sabemos, nosso atleta era bom da cabeça e ruim dos pés. Então Rodolfo Rodríguez deu mais uns passos para trás. Agora seria zagueiro! Isso mesmo, jogaria na z.a.g.a. Aquele tamanhão seria bom para cortar cruzamentos e laterais. Havia também a possibilidade trombar com corpos adversários. Mas o que faria nosso atleta contra velozes atacante? Ele que nunca arrancava, ele que nunca chegava?


Uma vez Rodolfo Rodríguez foi cortar uma bola e pulou com os braços estendidos, fazendo a típica defesa com a mão trocada. "Dá próxima vez você joga no gol, otário", gritou um torcedor do time rival, quando nosso atleta descia pelo túnel, expulso de campo. 


E foi assistindo ao videoteipe que Rodolfo Rodríguez decidiu: a partir daquele momento seria goleiro! E foi dos melhores do mundo no seu tempo. Começou defendendo o Nacional do Uruguai, depois Cerro, Santos, Portuguesa, Bahia e a seleção de seu país, a Celeste.


Poucos goleiro fizeram tantas defesas consecutivas quanto Rodolfo Rodríguez. Defesas difíceis, tiros à queima roupa. Milagres! Em 1984, num jogo entre Santos e América de Rio Preto tivemos inúmeras defesas consecutivas (o leitor pode rever tudo pelo youtube). Foram cinco chutes em apenas sete segundos. E não há nada parecido na história do futebol.


O primeiro chute foi dado de fora da área. A bola veio quicando no gramado calvo. Acresce ainda que a terra estava fofa, justo na área de ação do goleiro. Vá lá que o primeiro chute tenha sido na trave ou resvalado em Rodríguez e explodido na trave. Conjecturas, pressupostos, inferências. Mas é graças aquela trave que a bola continuou em jogo, nervosa, saltitante. Pululando.


Veio o segundo chute: o jogador do América entra fulminante na pequena área a fim de pegar o rebote (Ronaldo fez um gol assim na final da copa de 2002. Rivaldo chuta, Oliver Kahn bate roupa e o fenômeno bate rasteiro, lembra?). Rodolfo Rodríguez está se levantando e começa a corrida para ver quem chega primeiro na bola. O jogador do América se joga num carrinho sem freio e Rodolfo Rodríguez desfere um soco na bola, que pega nas chuteiras do adversário e, prensada, ganha efeito, voltando a quicar na pequena área.


O terceiro chute vem a menos de dois metros. Um jogador aparece do nada e manda uma patada. Rodolfo Rodríguez solta para a direita. Não chega a ser um salto plástico, mas é eficiente. Aliás, é menos que um salto, um pulo. Um espasmo de reflexo! Os braços duros garantem mais uma defesa. A bola acabou fazendo um arco e caiu próxima a linha da grande área. Está com efeito e ao bater no chão faz o movimento de voltar para o gol. Agora há tempo para uma troca de passes do América de Rio Preto e, novamente, temos mais um chute forte. É o quarto chute que vai rasteiro para o canto esquerdo. Rodolfo Rodríguez mergulha na terra e, sem tempo para respirar ou dar um salto, engatinha e estica o braço esquerdo, realizando mais uma defesa. 


Agora o quinto e último chute. Mais uma bomba. Um metro e meio de distância apenas. Aquela bola poderia arrancar a cabeça de Rodolfo Rodríguez. Ele, quase vencido. Ele, um só homem contra uma artilharia. Ele, um paredão!  Sim, aquela bola pegaria na cara, arrancaria-lhe os olhos, os dentes, os sonhos. Quis o bom deus do futebol que a bola pegasse na trave. A trave do primeiro chute, também é a trave do último chute. Naquele dia a bola foi vencida. Naquele dia o goleiro foi maior que o gol. Aquele era um dia de sorte para Rodolfo Rodríguez.