Crônica de uma criança com um par de meias


Certa vez calcei minha filha com as minhas meias. As dela eram de cano curto e haviam criado bolotas, verrugas de pano. Cliquei o player e um tutorial dizia para usar o estojo de barbear. Tiro e queda contra as bolotas verruguentas! Não o fiz. Assisto tutoriais, maratono, para um dia, no meio de uma conversas sobre coisas úteis, ter o que dizer. Vocês sabiam que pasta de dente é ideal para tapar aqueles buraquinhos de pregos? Os ovos cozidos devem ficar doze minutos em água fervente, nem mais, nem menos! Não devemos balançar os nenéns, os miolos podem chacoalhar na caixa craniana e desprender a massa cefálica. Esses dias nunca chegam e os tutoriais amontoam na cabeça. 


Como eu ia dizendo, certa vez calcei minha filha com as minhas meias. Lembro dela colocando os pezinhos e franzindo as sobrancelhas. Sempre que se depara com o desconhecido pega as sobrancelhas e as franze. É sua maneira de perguntar o que é isso, se isso morde e se isso pode? Herdou esse gesto de mim e no futuro saberá usá-lo também para situações de aborrecimento ou devaneios introspectivos. Os amigos poderão confundir a expressão como asco, ojeriza, animosidade… Não se aborreça, minha pequena. Diga que está concentrada e as sobrancelhas tensionadas ajudam na compreensão da existência e suas idiossincrasias. Sim, você sentirá raiva também. Neste caso as sobrancelhas somarão com a boca um franzir de quem parece estar chupando parafusos ou nacos de gengibre.


Como disse, certa vez calcei minha filha com as minhas meias. As meias ficaram folgadas no calcanhar e isto dava a impressão de que minha filha tivesse esporões, igual aos galos de briga. O restante da meia subiu até a virilha e como eu havia colocado a calça dentro da meia, aquilo criou volume e deu o resultado de coxas musculosas. Alguma coisa aconteceu ali. Algo de humano foi tocado por algo mutante. Busquei uma toalha de rosto e amarrei em volta de seu pescoço. As sobrancelhas franzidas agora vieram com um sorrisinho de canto de boca. Ela sabia que passava por uma metamorfose. E eu era seu mentor, o Charles Xavier. Ela era Ororo Munroe, a Tempestade! Notei que começou a andar pela casa de um jeito desusado, estreante. Sim, algo nela havia mudado. É possível que lhe tivesse colocado armaduras ou qualquer sistema intergalático tenha acoplado em seu corpo. Marchava pela casa num deslocamento suave, como se pisasse na lua. Parecia levitar. Daí a pouco sairia pela janela, chegaria nas nuvens e choveria, relampejando e trovejando.