Crônica dos dois irmãos

Os dois irmãos

O cachorro deixou as patas no cimento da calçada. Tinha chovido e a água empoçou ali. Mais à frente o cimento ordinário rachava. Esfarelava. Adiante um nome indecifrável e uma data: vinte e cinco de janeiro de dois mil e dezenove. Uma calçada feia, um serviço grosseiro. Neste país os pedreiros não possuem senso de estética, o mínimo de capricho sequer. Tapam buracos e pronto, se dão por arquitetos. Uma calçada estúpida, sem dúvida, mas ao menos as patas do cachorro a salvaram. Como se chamaria? Rex, Totó, He-men, talvez.


Mais à frente vinham dois velhinhos!  A caminhada da dupla era lenta, morosa, arrastada. Paciente! Não sei como se chamam, mas os conheço. Nunca troquei palavras, talvez um bom dia, mas sempre os vi. Suponho que sejam irmãos ou talvez grandes amigos, o que dá no mesmo. Aliás, Voltaire já havia dito que "as grandezas do mundo não valem um bom amigo". Voltaire, ao que se sabe, era iluminista e tinha duas coisas sempre à vista: um nariz fenomenal e uma lucidez vigorosa. Lucidez tão em falta neste país de barbárie onde farsantes são elevados a totens.


"É melhor ter amigos do que ter dinheiro." Quem proferiu esta frase foi André Melo, num dia em que pude comprovar sua veracidade. Sim senhor, tem coisas que só os amigos fazem, coisas que dinheiro nenhum faria. André é meu amigo. Desses amigos que nunca deixam a conversa morrer. Sabe se lá de onde, ele sempre tira uma história que puxa outra história que puxa um sorriso e assim as horas passam.


Lá vinham os dois velhinhos. Um à frente do outro. O da frente chamarei de Machado. O que vem atrás será o Assis. Pois bem, o Machado estava sempre cinco ou seis passos à frente. O olhar se perdia ao longe, decifrando horizontes e, às vezes, parecia buscar buracos na calçada. Que queria ele com os buracos? O Assis vinha atrás equilibrando-se em muletas. Seus movimentos eram pensados. Estudava a largura do passo, a força das mãos, a aderência do tênis ao solo. E isto também requeria força mental. Qualquer sujeito desistiria: a distância, o tempo, a energia, a velhice. Você, leitor, cansaria de ver aquela vaguidão, aquela disciplina. Uma epopeia, sim senhor.


Então era assim: o Machado se punha à frente, examinava o solo esburacado, a vizinhança amistosa e, de quebra, fazia elucubrações. Era o soldado de vanguarda. O Machado parou, detectando algo. Agora a calçada era de cimento queimado e, como havia chovido, aquilo viraria sabão. Fez acenos com a mão sugerindo outro lugar com mais aspereza. O Assis balançou a cabeça afirmando que poderia passar por ali. Seu rosto imprimia caretas e aquilo virou uma incógnita. Aquela momice seria uma repreensão as forças da existência que o tinha posto ali, de muletas, lesmento? Aquele esgar seria uma contração de músculos, o desenterro de uma força subterrânea, uma fagulha ainda guardada? Eu já havia passado por eles, mas ainda assim me detive. Fiquei à espreita, atento. Uma torcida, uma aflição. Medo que caísse, que quebrasse, que partisse.