Crônica da salvação do mundo


A mentira pode salvar a humanidade! Acordei com essa ideia na cabeça: mentir para salvar! Falo daquela mentira mais asséptica. Um tipo de mentira que até os padres contam! Um tipo de mentira que não leva ao inferno, o leitor pode ficar tranquilo. Falo da mentira que se conta e o mundo continua em rotação e translação. Pois veja se não é. Suponha que você, andando pela rua, de repente encontra um amigo que não vê faz tempo. Então você pergunta, “como vai, tudo bem?” E em seguida solta aquela mentira, “você não mudou nada, continua do mesmo jeito!” Pronto, perfeito. A pessoa interpelada diz que não, a pessoa interpelada agradece, a pessoa interpelada diz o mesmo de você, que também não mudou nada, que o tempo foi generoso.


Dois mentirosos. Um aceitando a mentira do outro e o mundo seguindo em frente, feliz! Sim, é possível ver um arzinho de riso, um fiozinho arqueado no canto da boca. Felizes, sim senhor! “Apareça qualquer dia,” você diz. “Apareço sim, pode deixar”. Responde o mentiroso. Mas você não quer que aquela pessoa apareça e nem quer aparecer na casa dela. Como se pode ver a mentira aconteceu e a moralidade continuou intacta. A mentira é uma benção dos céus. 


Agora já pensou se você dissesse a verdade, nada mais que a verdade, somente a verdade? 


O leitor me permita uma pergunta. E só a farei porque já estreitamos laços ou, posso supor, que a faço por pura petulância, sou desses. Sabe aquela criança que soca o dedo no buraco da tomada? Ela sou eu. E sendo ela, pergunto: o estimado leitor já contou as mentiras de hoje. Não uma, nem duas, mas as dez ou as cem lorotinhas e embustes cotidianos? É possível que o amigo leitor responda que não, mentindo em flagrante, obviamente.  


Considero tudo isso por terminar um livro especializado em detectar mentiras. Sim, outros temas, além da literatura de ficção, me interessam. Deixo um Philip Roth e vou para o Manual de pequenos consertos caseiros. Um espécie de auto-ajuda da construção civil. Sim, já me peguei reparando as porqueiras que quatro pedreiros fizeram na construção da minha casa (não se espante, tive que contratar quatro equipes de pedreiros para terminar casa). Cada um pior que o outro. O segundo levou uns saquinhos de cimento sem que eu soubesse. Gatuno. Os demais faziam o feito num dia para desfazer o mal feito no outro. Uma valsa de dois para lá e um para cá.


Pois bem, eu leio o Manual de pequenos consertos caseiros e até já fiz reparos num sifão que retornava o cheiro de esgoto. Um arranjo simples, mas disse a esposa que se tratou de um troço complicado, uma canseira. Menti, como se pode ver. Uma mentirinha limpinha, mais para levantar a moral de "homem da casa". Agora a esposa quer que conserte tudo. Quem mandou ser o espertalhão?


Como eu ia dizendo, terminei um livro especializado em detectar mentiras. A obra sugere que a pessoa bem treinada pode chegar em um nível de acerto de 80%. E eu que havia assistido Lie to me, me achava entendido em detectar mentiras, agora então… 


Pode ser vaidade (suponho que seja), mas termino esse livro com a impressão que só um mentiroso profissional poderá me enganar. Só um sujeito que minta a sangue frio, um psicopata ou coisa assim. 


O agravante da nossa existência é que nem sempre queremos saber a verdade. A bem dizer, a verdade é insuportável! A verdade é uma invenção para os chatos! Repare. Gabriel García  Márquez escreveu que Rebeca Amaranta comia o reboco da parede e que Úrsula Iguarán costurou a vida inteira o vestido com o qual seria enterrada. Há quem diga que é tudo mentira romanesca. Ficção. E quem as diz são os chatos enfastiantes. Os idiotas da objetividade que falava Nelson Rodrigues.


Na minha adolescência havia aparecido um mágico. Um loroteiro que ensinava os truques das mágicas famosas, desmascarando tudo. Era o Mister M. De um dia para outro, tudo virou mentira. Não eram mágicas, era enganação! Nessa hora eu mudava de canal. Saia da Globo e sintonizava no Silvio Santos, na sua ‘Porta da esperança’. Um programa onde pessoas necessitadas pediam máquina de costura, carrinho de pipoca e outras coisas para seguir com a vida. Assistia esse programa com a minha avó, que acreditava que o Silvio Santos comprava aquilo tudo e depois dava de presente. "Que alma boa, meu Jesus, que homem de Deus". Lá vinha eu fazendo arrodeios para dizer que tudo aquilo eram os patrocinadores que davam. Eles presenteavam aquelas pessoas em troca que aparecesse o nome de suas lojas na tevê. "Nada, menino. Tudo isso aí é Silvio Santos que está dando". Parei de querer desmascarar o Silvio Santos. Vi que estava ficando igualzinho ao Mister M. A verdade era a maior chatice. Silvio Santos vem aí, olê, olê, olá!