Crônica de um filho que quer nascer



Meu filho João é impaciente. É provável que roa as unhas, bata o pé em tique nervoso ou puxe fiapos de cabelos. João ainda não nasceu. Falta pouco mais de dois meses, setenta, oitenta dias. Mas, pelo andar da carruagem, posse ser que venha antes. Minha esposa abre um aplicativo e mostra como João está. Aquele não é o nosso João, mas nos deixamos ludibriar pelo aplicativo. Dizemos, "olha como já está grande." O aplicativo informa que João está com o peso de uma goiaba, uma pêra, um abacate. Da última vez João tem o peso de um repolho. 


O aplicativo é uma rede social de mulheres grávidas. Elas trocam informações mesmo depois das crianças nascidas. As melhores pomadas, lenços umedecidos e fraldas. Há queixas de que as crianças estejam nascendo antes do tempo. “O meu veio com trinta e seis semanas.” E seguem assim, meio que numa disputa, “a Gabriela veio com trinta e quatro, se perdia na palma da mão de tão miúda”.


João está no ventre, flutuando num balão de placenta e líquido amniótico. Em alguma aula a professora fizera um desenho, dissera que o líquido amniótico protegia a criança de esbarrões e freadas bruscas. Uma espécie de air bag. Do contrário a criança nasceria amassada numa sova que lembraria Rocky Balboa no último round contra Apollo Creed. Aqueles olhos inchados não passavam de maquiagem, disse um amigo. Duvidei. Que nada, os caras tinham lutado de verdade! O leitor tolere a minha ingenuidade, mas em filmes de luta a minha certeza era que os sujeitinhos quebravam o pau. 


João vira cambalhotas na barriga da mãe. Uma sucessão de duplos twists carpados, cotoveladas e cabeçadas incontáveis. Então é assim: João é o Zinédine Zidane e minha esposa o Marco Materazzi. Se o leitor for um pouco chegado ao futebol saberá o resultado.


A barriga de minha esposa levanta calombos. Os calombos aparecem em cima e embaixo. Às vezes os calombos andam em zigue zague. É o João com o seu faniquito. João quer nascer, está alongando as fibras musculares. Ganhará elasticidade, agilidade. Um dia ele pegará moscas com hashis igual ao senhor Miyagi.  Logo irá começar a maratona da vida. Está nos vestiário recebendo as últimas instruções e táticas. 


Ficarei admirando aquele serzinho indefeso. As mãozinhas mexerão vagarosas igual um réptil, a boca sugará o leite do peito igual bezerros famintos. De primeiro virão os choros, os sonos curtos de passarinho, o olhar buscando foco, os risinhos, as bolhas de cuspes e aquele cheirinho de lavanda pela casa.