Crônica do irmão e do óvulo


Primeiro o bebê é um sapinho batendo o rabo até chegar ao óvulo. Não propriamente um sapinho, mas uma bolinha escurecida e com um fiapo vibrante. E é assim que ele vai se virando. No caminho até o óvulo este bebê nadador encontrará outros bebês nadadores. Entre eles poderia haver um “oi”, um vamos em frente, você consegue”, um “desse lado está melhor de nadar, tem vácuo e tudo”. Os bebês ignoram-se, seguem mudos, calados, afônicos... 


São irmãos deixando irmãos para trás. Se um deles tiver câimbra, se torcer o rabo, se engolir mucos, se errar o caminho… Cada um vai seguindo a sua sorte. Mas eu me pergunto: e se eu tomei o lugar de um irmão nadador que seria melhor do que eu? Digo, se cheguei ao óvulo primeiro do que um irmão nadador que seria um ser humano melhor do que eu? E ainda pergunto: e se aquele irmão que quase entrou no óvulo, faltando só um pouquinho, e se eu esbarrei nele, se lhe passei a perna (no caso o rabo), se fui calhorda e me aproveitei de um caminho quase aberto, e se eu aproveitei uma brechinha escavada por ele, se fiz isso enquanto o pobre tomava fôlego para retomar a luta pela sobrevivência. E se eu nasci tomando-lhe o lugar? E se...