Crônica dos sovacos e das axilas


O óvulo é uma espécie de paraíso! Era mais ou menos sobre isso aquela aula. E aí teve aquele lance do “muitos serão chamados, mas poucos serão escolhidos.” A professora, em algum momento da aula, soltava essa cantilena. E acrescentava, “bem poucos.” E, por uma pirraça diabólica, olhava para Gileno que naquela semana tinha feito uma tatuagem de escorpião. Geralmente a professora olhava para Gileno porque ele raspava a cabeça, usava anéis de caveira e sentava com as pernas muito abertas. Por algum motivo aquilo era intolerável para ela. Talvez porque ela vivesse milimetricamente alinhada nos vestidos e nos cabelos presos num coque imutável. Aquele prender de cabelos esticava-lhe o couro da testa e lhe tirava as rugas. E ninguém nunca a viu com os cabelos soltos. 


Todo mundo queria ser amigo de Gileno porque ele era perigoso e botava medo nos bundões metidos a cavalo do cão. E também porque Gileno arrotava alto e fazia sons divertidos com os sovacos. E foi homérica a discussão que Gileno teve com a professora de coque imutável. Ele nos entretendo com o som dos sovacos e ela profanando nossa alegria, dizendo que Gileno iria para o inferno ou coisa assim. Mais tarde eu leria Graciliano Ramos e igual a um daqueles filhos de Fabiano, atentaria para a beleza da palavra “inferno”. Inferno, inferno, inferno…  Como poderia uma palavra açucarada, nectarina, trazer a aversão, a ojeriza, o asco de tudo?  A professora insistia que o nome certo era “axilas” e que Gileno não usava desodorante. E Gileno dizia que de onde ele vinha desodorante para os “sovacos” era um luxo que ele não tinha. E que ele nunca teve axilas e mais nenhum luxo desses.


Gileno realmente fedia e por algum motivo o fedor desapareceu. E também por algum motivo deixou de fazer sons engraçados com o sovaco. A gente meio que sentiu um baque e até cochichava-mos que o Gileno fedido era mais divertido que o Gileno inodoro.


Um dia Gileno confessou que ao chegar do recreio descobriu um rexona na sua mochila. Ficou constrangido e todo esse lance, mas deixou pra lá porque de onde ele vinha não se olhava os dentes do cavalo ou coisa assim. E agora de tempos em tempos um rexona era encontrado em sua mochila na volta do recreio. E até mesmo ele havia se acostumado aquilo de um Papai Noel ou uma Fada lhe deixar presentes. 


O fato é que Gileno ficou um careta e a gente meio que escanteou ele. Meio pra ver se ele se tocava, meio com raiva e coisa assim. Gileno ficava na dele, numa lonjura e um rosto calmo. Parecia prender o sorriso e até mordiscava os lábios nas aulas daquela professora do coque milimétrico. Aos poucos saiu do meio da sala e foi sentar na frente com os papagaios e as babonas por notas. Os cabelos de Gileno cresceram e ele os compunha com gel ou banha de porco. Os anéis de caveiras sumiram e as roupas perderam os esgarços, os remendos. Gileno ficou um almofadinha. Gileno ficou tudo que ele não era. Talvez Gileno não quisesse ir para o inferno ou coisa assim.


Eu nunca fui da maldade, mas na escola a maldade me rodeava e eu nunca tive a força ou talvez a coragem de deixar a patota que sentava ao meu redor. Aquela patota era divertida e tinha uns lances de apelidos que até pegaram leve comigo. Ali sempre havia um assunto cabeludo prestes a estourar e era meio que bom ficar sabendo daquelas bombas. “Vocês não sabem da maior! Peguei o Gileno de mãos dadas com a…” E um gigante cresceu na nossa frente e fez sombra em todos. “Continue a história que eu lhe quebro no cacete, fuleiro”.